Prometheus

Peter Paul Rubens, Prometheus bound, 1611

Baseado na mitologia de Prometeu – na ideia de imortalidade, de que os homens tentam supera sua condição  e igualar-se aos deuses pela racionalidade, pela “luz da sabedoria” roubada dos próprios deuses –, Ridley Scott poderia ter construído mais um filme magnífico. A história do filme: em 2089, casal de arqueólogos descobre ilustrações de 35 mil anos nas cavernas da Escócia semelhantes às encontradas nas ruínas de distintas civilizações antigas (maias, egípcios, sumérios, babilônios): pessoas adorando um ser imenso que aponta para um grupo de estrelas ou formação planetária. Para os arqueólogos, as imagens seriam mapas que apontam para o local de origem dos criadores da humanidade – seríamos nós produtos de alienígenas. Uma expedição, bancada por dono de uma corporação bilionária, à beira da morte, parte a bordo da nave Prometheus em busca desse planeta, na esperança de encontrar nosso(s) criador(res). Quando aportam no planeta de onde supostamente haveriam partido nossos criadores, encontram restos mortais desses seres e as ruínas de suas edificações; aos poucos os personagens começam a perceber que, na verdade, o local servia “apenas” como uma espécie de laboratório remoto, onde os “Engenheiros”, além de terem criado a humanidade, geneticamente falando, desenvolveram uma arma biológica, uma doença projetada para destruir a espécie humana – qual a razão disso o filme não deixa claro. Seria, como no mito grego, porque os homens atingiram seu esplendor em termos de conhecimento que os nivelou aos próprios “deuses” criadores?  O que ocorrera é que os “Engenheiros” perderam o controle de seu experimento: a doença escapou, evoluiu e os matou antes que pudessem ir para a Terra. Ao final do filme sobrevivem apenas três criaturas: a arqueóloga Elizabeth Shaw, restos do andróide David e o Alien, híbrido de um dos ETs criadores e de uma espécie de monstro-polvo, gerado por Shaw e seu amante arqueólogo. Darwinianamente, os aliens preponderaram sobre seus criadores na cadeia evolutiva: seriam o ápice da evolução.

Ridley Scott  é o cineasta das imagens épicas e do exímio apuro técnico na criação de sets imensos ou na concepção de visuais capazes de deixar qualquer um de queixo caído. O filme perde sua força porque não aprofunda nos conceitos científicos e religiosos que surgem tão excessivamente quanto o número de subtramas e personagens. E deixa de fazê-lo em virtude de cenas de ação que, ora acertam no incômodo que geram – como na cesariana autoimposta pela personagem da arqueóloga, referência a um tema – a violação do corpo – comum na obra do cineasta David Cronemberg (Scanners – sua mente pode destruir, Crash – Estranhos prazeres); ora entediam, recaindo nos clichês de gênero tão comuns em Hollywood atualmente. Apesar de construir sua narrativa em torno da metafísica (“de onde viemos”? “por que estamos aqui”), o roteiro não tem forças suficientes para oferecer respostas satisfatórias, enredando o espectador em becos sem saída à guisa de explicações. O grande personagem do filme é o andróide David, vivido por Michael Fassbender; apesar de considerado  “robô sem alma” pelo seu “pai”, mostra-se incomodado quando tratado dessa forma e, como um “criador”, faz ele mesmo experimentos com os outros membros da tripulação, tratados como ratos de laboratório.

Interessante notar que, apesar de ser considerado um gênero que vislumbra o futuro, nos melhores filmes a ficção científica solidifica-se como gênero atrelado ao passado – à tradição romântica. O gênero literário classificado como romantismo caracterizou-se pela

“prevalência da indagação acerca da harmonia universal refletida na configuração dos astros e da natureza, entendida COMO SINÔNIMO DE EQUILÍBRIO ABSOLUTO; “(…)do egocentrismo decorrem outras características do homem romântico: ao culto da razão, apanágio dos clássicos, opõe as razões do coração; em lugar do RACIONALISMO, O SENTIMENTALISMO.” “(…) impelido por uma vaga aspiração, o romântico busca a SOLIDÃO LONGE DAS CIDADES, NO SEIO DA NATUREZA, ONDE O “EU” SE EXPANDE NUM MONÓLOGO LÍRICO (…)” (Massaud Moises).

No ensaio “O fim do futuro”, publicado em Seleção Natural – Ensaios de cultura e política,  2009, Otavio Frias Filho escreveu que

“o conflito entre a natureza e os produtos da cultura técnica está na raiz do ponto de vista romântico, da sua busca de um reencontro do homem com o seu passado pré-industrial – da consciência, com o passado pessoal dos sentimentos. A ficção científica reivindica com pleno direito a incompatibilidade que existe entre o espírito romântico e a sociabilidade moderna.”

No filme, o projeto de busca pelas origens da vida na realidade é um projeto privado corporativo, com intenções outras além do mero conhecimento pelo conhecimento: busca-se a imortalidade, busca-se o poder; de acordo com Weyland, vivido por Guy Pearce, o milionário por trás da empreitada, “se eles nos criaram então podem nos salvar” (da morte); e aqui estaria a fonte da ruína do projeto. Segundo a ficção-científica, a busca pelo poder resulta em fracasso pela falibilidade da razão, cujos limites não são percebidos por homens cegados pela soberba advinda das conquistas tecnológicas. Em oposição ao ideal prometeico, jamais poderemos nos equiparar aos deuses– equivale dizer: somos incapazes, pela razão, de conhecer suas razões. A inovação tecnológica e as transformações geradas pelo conhecimento perturbam a ordem natural das coisas (“natureza como sinônimo de equilíbrio absoluto”), trazendo nada mais que subjugação, ruína e morte (“oposição à razão”). Esse futuro antevisto como ruína – por desacreditar na razão ou por enxergá-la como fonte de todo mal, ou por creditá-la fonte de soberba e orgulho, elevando o homem à condição de desafiante dos deuses e cujo fim inevitavelmente será a morte – celebra, ainda que involuntariamente, o passado romântico. Um passado mítico, inexistente, de convivência harmoniosa com a natureza.

Se considerarmos que o cinema permite criar uma mitologia própria, Ridley Scott, prestes a completar 75 anos agora em Novembro de 2012, certamente é um dos grandes cineastas de nosso tempo: Blade Runner, Alien – O oitavo passageiro, Chuva Negra, Gladiador, Rede de Mentiras e este Prometheus: em todos eles reconhecemos a viagem em direção ao desconhecido, o sacrifício pessoal, a violação do corpo, a fusão homem-máquina levando à ruína, o futuro como mera extensão do presente. No entanto, Prometheus também exemplifica uma mitologia hollywoodiana da qual os grandes cineastas não conseguem escapar: a liberdade criativa tem um preço, se vier embasada em orçamentos gigantescos; nada de dificultar a vida daqueles que pagam ingressos. Semelhante à construção alienígena encontrada no planeta distante pelo grupo de exploradores, Scott criou um espetáculo visual que não responde à todas as perguntas que coloca, o que pode causar confusão entre mistério e vazio.

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