Afinidades realmente pornográficas

Na edição 183, de Novembro 2012, da revista Bravo!, há uma matéria intitulada “Afinidades pornográficas”, em que é anunciada a publicação, pela editora Iluminuras, das cartas pessoais de James Joyce (1882-1941) – o autor do monumental “Ulisses” – à sua esposa Nora Barnacle (“Cartas a Nora”, de James Joyce, 158 páginas, R$ 38,00). Segue um trecho conforme publicado pela revista:

“Outra pergunta, Nora. Eu sei que eu fui o primeiro homem que te comeu, mas será que nenhum homem jamais te masturbou? Aquele rapaz que você amava não fez isso contigo? (…) Querida, querida, esta noite estou com um desejo tão louco do teu corpo que se você estivesse aqui do meu lado e mesmo se dissesse com os teus próprios lábios que metade dos grosseirões ruivos do condado de Galway treparam contigo antes de mim eu ainda assim iria para cima de ti faminto.” (Carta de 3 de Dezembro de 1909)

É preciso dizer algo mais? Acho que sim.  Aliás, a própria reportagem da revista já disse tudo. Lê-se na página 32:

“As cartas são quase todas em sentido único [de Joyce para Nora], já que a maior parte das dignas de nota é de autoria do próprio Joyce. As poucas da pena de Nora tratam de assuntos práticos e quase banais da vida cotidiana, sem demonstrar afeto de maneira mais literária ou erotizada. As dele tampouco primam por lapidações poéticas e, no conjunto, não chegam a compor uma grande narrativa epistolar, como se poderia supor.” 

Nada mais sintomático dessa nossa Era (chamada ironicamente pelo escritor americano Jonathan Franzen de “orgia de conectividade”) a  publicação dessas cartas, que expressa de modo significativo o modo como entendemos anacronismos como privacidade e distinção entre público x privado. Em “Como ficar sozinho”, Frazen diz que

“Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros.”

Repudiamos a ideia de privacidade: não só porque não queremos mais manter nossa vida privada apartada do cenário público, mas porque ansiamos pelo bombardeio constante, sobre nossa vida privada, da exposição pública alheia. Que modificações sobre a compreensão estética da obra de Joyce serão obtidas com a publicação de suas cartas pessoais? Serão lançadas novas perspectivas sobre o valor literário Ulisses, de Finnicius Revém, de Dublinenses, entre outros, perspectivas que se estendam além das picuinhas? Ou ainda, de modo mais abrangente: que mudanças em nossa cosmovisão surgirão, de que outras apreensões da realidade seremos capazes após a leitura de cartas escritas sem nenhuma ambição estética ou literária? Um dos maiores romances da literatura moderna chama-se Ulisses e foi publicado em 1922. Sua história se passa em um único dia na vida de Leopold Bloom, 16 de Junho de 1904. A cada ano, no dia 16 de junho, fãs de Joyce – Brasil incluído – reúnem-se para comemorar a data, o chamado “Bloomsday”, em que há exibição de músicas irlandesas e leituras de trechos da obra de Joyce. Talvez para essas pessoas possa interessar que seu romance tenha sido situado nessa data porque em 16 de Junho de 1904, com 22 anos, Joyce teve seu primeiro encontro amoroso com Nora.

Milan Kundera nos seus “Os testamentos traídos” (editora Nova Fronteira, 1994), escreveu que

“(…) A maior parte da produção romanesca de hoje é feita de romances fora da história do romance: confissões romanceadas, reportagens romanceadas, acertos de contas romanceados, autobiografias romanceadas, indiscrições romanceadas, denúncias romanceadas, lições políticas romanceadas, angústias do marido romanceadas, angústias do pai romanceadas, angústias da mãe romanceadas, deflorações romanceadas, partos romanceados, romances ad infinitum, até o final dos tempos, que não dizem nada de novo, não tem nenhuma ambição estética, não trazem nenhuma mudança nem à nossa compreensão do homem nem à forma romanesca, parecem-se uns com os outros, são perfeitamente consumíveis de manhã e perfeitamente descartáveis à noite. Na minha opinião, as grandes obras só podem nascer inseridas na história de sua arte e participando desta história. (…) Nada me parece mais horroroso para a arte do que a queda para fora de sua história, pois é a queda num caos em que os valores estéticos não são mais perceptíveis.”

Literatura, música, pintura, cinema: expressões que estão sempre contextualizadas historicamente e artisticamente; inseridas em seu tempo e em constante diálogo com o passado. Possuem uma técnica e um objetivo. Por essas razões, é necessário – para refinarmos nossas reações pessoais a uma obra artística, para estabelecermos comparações e perceber nuances – conhecimento tanto da técnica quanto da história de uma arte. Em “A cortina” (editora Companhia das Letras, 2005), do mesmo Kundera, lemos que

“Se o valor estético não existe, a história da arte não é senão um depósito de obras cuja sequencia cronológica não guarda nenhum sentido: é apenas no contexto da evolução histórica de uma arte que o valor estético é perceptível.”

O valor de um romance encontra-se na sua capacidade de dizer coisas que só um romance poderia dizer (o mesmo vale para todas as outras formas de arte): na sua capacidade de revelar aspectos ocultos da realidade, ou de novas possibilidades da realidade (ver post sobre o filme “A outra terra“, em que cito trecho de discurso de Javier Marias a esse respeito). As cartas íntimas teriam o efeito de levar os leitores de Joyce a procurar, em vez de aspectos desconhecidos da existência, os aspectos desconhecidos da existência do escritor.

Se, nas cartas de Joyce, não encontramos comentários pessoais sobre seus livros, sobre outros livros, sobre seus autores prediletos, se não há discussões estéticas ou artísticas, somente descrições ou comentários tecidos na urgência do desejo, da saudade e das iminências cotidianas ordinárias, qual a importância de sua publicação? E, arriscaria indagar: se Joyce não publicou suas cartas em vidas –  por não vislumbrar nenhum valor estético (provavelmente nem foram escritas com esse fim) ou por nem de perto imaginar que um dia elas atiçariam a curiosidade mórbida ou fetichista de desconhecidos – seria lícito publicá-las à sua revelia? Essa questão é colocada de modo dissimulado pela Bravo!, como se quisesse especular com ambiguidades:

“Senn [Fritz Senn, especialista em Joyce consultado pela revista] acredita que o autor nutria uma estranha ambivalência em relação a esse material: “Eu soube, por meio de Maria Jolas – mecenas de Joyce em Paris – que ele sempre quis resguardar alguns documentos. Jolas suspeitava que se tratasse dessas cartas.”

Retorno a “Os testamentos traídos“:

“O pudor é uma das noções-chave dos tempos modernos, época individualista, que hoje imperceptivelmente se afasta de nós; pudor: reação epidérmica para defender a própria vida particular, para exigir uma cortina na janela; para insistir que uma carta endereçada a A. não seja lida por B. (…) A velha utopia revolucionária, fascista ou comunista: a vida sem segredos, em que vida pública e particular são uma só.”

“(…)[as pessoas] deram-se conta (como num choque) que o particular e o público são dois mundos diferentes por essência e que o respeito a essa diferença é condição sine qua non para que um homem possa viver como um homem livre; que a cortina que separa esses dois mundos é intocável e que os arrancadores de cortina são criminosos (…).”

“(…) Quando, vindo dessa Tchecoslováquia recheada de microfones, cheguei à França, vi na primeira página de uma revista uma grande foto de Jacques Brel, que escondia o rosto, perseguido pelos fotógrafos diante do hospital onde tratava seu câncer já avançado. E, de repente, tive a sensação de encontrar o mesmo mal que me fizera fugir do meu país; a radiodifusão das conversas de Prochazka [personagem do romance “A insustentável leveza do ser”, de Kundera, que tem difundidas suas conversadas privadas gravadas pela polícia, a fim de constrangê-lo e desacreditá-lo] e a fotografia de um cantor moribundo que esconde o próprio rosto me pareciam pertencer ao mesmo mundo. Pensei, então, que a divulgação da intimidade do outro, a partir do momento em que se torna hábito e regra, nos faz entrar numa época em que a disputa maior é entre a sobrevivência ou o desaparecimento do indivíduo.”

Há outro trecho significativo de “A cortina”:

“A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota que chamamos vida é tentar compreendê-la. Eis aí a arte do romance.” 

“Cartas a Nora” não levam à compreensão da vida, sequer mesmo do autor das cartas. Trata-se, afinal de contas, de uma perversão daquilo que o próprio Joyce fez, pela arte do romance, com seu fluxo de consciência em Ulisses: penetrar naquilo que passa na cabeça de um personagem em determinado momento e que no momento seguinte irá se perder para sempre; o romance como descoberta do comportamento inexplicável do homem. A arte do romance como um mosaico, um painel da vida. Voyeurismo e vulgaridade andam de mãos dadas no interesse pelas cartas pessoais de Joyce, evidenciando apenas como são semelhantes, leitores e escritor, nas banalidades cotidianas.

2 comentários

  1. Ao ler o trecho que você colocou, eu imagino logo uma certa paixão pelo ridículo. Não que esta fosse a intenção do James, claro. Porém, que diabos seria colocar sua “amada” em uma situação tão pornográfica? (Se é que dá para blasfemar e classificar isso como amor) Normalmente, os que amam tendem a preservar seus amado, inclusive na sua própria mente, e até gostariam de apagar as experiências anteriores.

    Aliás, as questões que o James coloca nesse trecho. para muitos resultaria numa autotortura sem fim, não em uma espécime de tesão. Nas cartas. apesar de parecer contrariado que ela tenha um passado com alguém, ele descreve de forma tão detalhada, como termos e imagens tão sexualizados, que parece gostar de toda aquela pornografia contada, abalado entre o ciúmes – já que quer ter a posse daquele objeto – e o tesão. Parece que James perde o medo de revelar o seu lado obsceno e bestial, desejando que ela revele o mesmo.

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    1. E além de tudo isso que você colocou, tem a questão de publicar um material que o autor não publicou em vida nem deixou instruções para que fizessem isso por ele. Mal sabia que no futuro próximo haveria um público ávido pela banalidade alheia e que se esqueceu da noção de pudor.

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