Barba ensopada de sangue

Há um poema do russo Joseph Brodsky, publicado em “Quase uma elegia” (Editora Sette letras, 1994; tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher), em que o eu-lírico é descrito em função daquele por quem está enamorado; sua imagem não prescinde de um espelho que a reflita com bons olhos; permanece incompleta até que seja reconhecida ou resgatada de sua solitária insignificância:

“Eu era apenas quanto

a tua mão tocasse

ou sobre o que inclinavas,

no breu da noite, a face.

Eu era, embaixo, quanto

notavas turvo, apenas:

traços, no início, vagos;

feições, mais tarde, plenas.

foste quem logo, ardente,

criou-me a sussurrar,

seja à direita, à esquerda,

a concha auricular.

Foste, a agitar cortinas,

quem, na umidade cava

da boca, introduziu-me

a voz que te chamava.

Eu era cego e, vindo,

sumindo-te de mim,

doaste-me a visão.

fica um vestígio, assim.

E, assim, criam-se mundos

que são postos de lado,

girando, quando prontos,

presente abandonado.

Em meio, pois, de treva

e luz, calor e frio,

prossegue o nosso globo

seu giro no vazio.

Atribuir identidade a um rosto vazio, desprovido de significados, pela associação voluntária de elementos referenciais dispersos, usualmente são tratados como um “capricho desmedido do olhar”, meros apêndices no reconhecimento de alguém, mesmo daqueles que nos são próximos – texturas da pele, gestos, posturas, cheiros, contexto geográfico – e que pode ser facilmente esquecida em questão de minutos: eis a dificuldade enfrentada pelo protagonista sem nome do novo romance de Daniel Galera, “Barba ensopada de sangue” (Editora Companhia das letras, 2012, 422 páginas) – portador de uma síndrome neurológica rara, a prosopagnosia, que consiste em uma deficiência na capacidade de reconhecer faces, com visão normal para todos os outros objetos, decorrente de dano em uma região cerebral específica no lobo temporal inferior – e que recordou-me o poema do ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1987. O que é um rosto, senão o quesito mais imediato na construção ou na percepção da identidade (própria e alheia)? No reconhecimento de nosso próprio pai:

1) “Seus olhos percorrem todos os quadrantes desse rosto no intervalo de uma respiração e ele pode jurar que nunca viu essa pessoa na vida, mas sabe que é seu pai porque ninguém mais mora nessa casa desse sítio em Viamão e porque ao lado direito do homem sentado na poltrona está deitada de cabeça erguida a cadela azulada que o acompanha faz muitos anos.

Que cara é essa?

O pai só esboça sorriso, a piada é velha, dá a resposta usual.

A mesma de sempre.”

 

2) “As vezes se pergunta se as mulheres em geral são tão belas para os outros homens quanto para ele, alimentando a suspeita íntima de que sua incapacidade de memorizar qualquer rosto humano por mais que alguns minutos talvez as revista de um apelo exacerbado que exposto ao resto do mundo não passaria de um capricho desmedido do seu olhar.”

Na primeira cena do livro, ficamos sabendo que o protagonista fora convocado pelo pai para saber que este decidiu se matar; e para fazê-lo, ao filho perplexo, um último pedido: o de sacrificar a cachorra, Beta, que o acompanhava em um sítio em Porto Alegre, no qual vivia isoladamente após a separação da mulher. Nesse trágico último encontro, o pai relata a ele a história de seu avô, Gaudério, um homem calado e de pavio curto (e cujas semelhanças físicas com o protagonista são sublinhadas ao longo do romance) que teria sido assassinado na cidade da Garopaba, no litoral de Santa Catarina, na década de 60, em circunstâncias misteriosas:

“(…)Teve um bailão dominical num salão qualquer lá da comunidade, um daqueles aonde vai a cidade inteira. No auge da festança falta luz. Quando a luz volta, um minuto depois, tem um gaúcho deitado no meio do salão com uma poça de sangue em volta, dezenas e dezenas de facadas. Todo mundo matou ele, ou seja, ninguém matou ele. Foi o que o delegado me disse. Tava todo mundo lá, famílias completas, provavelmente até o padre. Apagaram a luz, ninguém viu nada. As pessoas não tinham medo do teu avô. Tinham ódio.”

Levando o animal consigo, reconhecendo-se incapaz de sacrificá-lo, o protagonista sem nome – professor de educação física – se muda para a pequena Garopaba e aluga um apartamento com vista ampla para o mar. Está fugindo de duas separações recentes que o abateram e a que assistiu impotente: a morte do pai e o abandono de sua namorada, que o trocara pelo irmão. Essa busca pelo “nada”, quando se quer apenas o “vazio” ou sente-se esse “vazio”, significa muitas vezes fuga de si mesmo e  procura por um recomeço que assegure uma nova chance, aquilo que se chama redenção. A mudança para um lugar que representa, em seu imaginário, a proximidade com a natureza (cujo primitivismo atávico expõe-se na indiferença aos homens, na onipresença do oceano, na inexorabilidade das ondas que fustigam rochas e marcam fugazmente as areias; na preponderância de tudo o que é puramente instintivo e que importa somente à sobrevivência de um dia para o outro) funciona como escape de si mesmo (a imagem que tem de si mesmo, além de constantemente esfacelada pela condição neurológica, agora se defronta com contingências trágicas que lhe parecem sem sentido); e menos como refúgio do que recusa daquilo que não se sabe explicar. De tudo o que o protagonista sente como inexplicável; a falência da razão em detrimento do instinto já fora mencionada pelo pai anteriormente, ao recusar qualquer tentativa do filho em persuadi-lo a não levar seu intento adiante:

“Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra. Trabalhei com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem do que precisam. Sei disso porque sempre fui especialista em persuadir e inventar necessidades (…). (…) Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar.”

Essa tentativa de estabelecer um contato sem intermediários com a natureza é percebida na habilidosa ambientação construída por Daniel Galera na qual o protagonista movimenta-se: passamos a conhecer sua intimidade não por ele mesmo (limitado que é, intelectualmente, no uso das palavras), mas pela talentosa e precisa descrição dos cenários escolhidos pelo autor, ecoando desse modo influências de certa literatura norte-americana “realista minimalista” (Cormac McCarthy, Sam Shepard e Richard Ford). O tempo passa de modo perceptível nessa trama que prende o leitor pelo aspecto que é, ou deveria ser, mais elementar e importante em uma obra de ficção: uma história bem contada. Após encontros e desencontros com diversos outros personagens da cidade e enquanto o inverno transforma a paisagem da cidade,  a investigação a respeito dos fatos do passado mostra-se como um quebra-cabeças cujas peças insistem em não se encaixar à medida em que o protagonista toma conhecimento de eventos cada vez mais obscuros que supostamente ocorreram com o avô. E quanto mais indaga sobre o avô, mais reticentes as pessoas se tornam. Para alguém que é incapaz de relembrar seu próprio rosto, a percepção da semelhança com o avô passa a configurar-se como uma nova âncora, mais um terreno seguro para reconhecer-se:

1) “Levanta-se e vai até o banheiro. Compara o rosto da fotografia com o rosto que vê no espelho e sente um calafrio. Do nariz para cima, o rosto na fotografia é uma cópia mais morena e um pouco mais envelhecida no rosto do espelho.”

 

2)“Pega a carteira na gaveta do armário da cozinha. Entre os documentos e cartões de banco há uma foto recente sua em tamanho passaporte, uma dessas fotos neutras e burocráticas que tem como único objetivo o reconhecimento da pessoa. Costuma levar uma foto dessas consigo para lembrar do próprio rosto (…).”

O protagonista vê-se em busca de explicações implausíveis para eventos que começam a delinear-se como indecifráveis de fato, como se houvessem constituído folclore do local; como parte da mitologia local. E esse é o terceiro aspecto envolvido na reelaboração da sua identidade: o desenvolvimento de sua relação, ao longo da história, com a mitologia do avô, a partir do que vem a descobrir (ou a não descobrir). Mitos são modos de narrar – tentativas de apreender por via indireta uma realidade insondável, alheia à razão, atribuindo-lhe um sentido; portanto, auxiliam na elaboração de uma visão compreensível a partir da sistematização do que seriam os mistérios da existência. É o que aconteceu com a história do avô: tornou-se mito; tornou-se, consequentemente, impossível conhecer a realidade de seu passado. Ao questionar aqueles moradores que conheceram ou souberam da história, e tornando-se progressivamente semelhante, fisicamente, a ele, traz também para si todo o ódio que havia sido direcionado ao avô no passado:

“No mercadinho e da porta de algumas casas os pescadores e as mulheres retribuem seus cumprimentos como se estivessem apenas respeitando um inimigo. Não fez nada contra essas pessoas mas entende que fez da própria presença um espectro desagradável. Está farto disso e sente uma tristeza imensa. Seu avô deve ter conhecido a mesma tristeza, só que mil vezes maior.”

A tensão gerada pela incapacidade de reconhecer as intenções subterrâneas aos rostos dos que se aproximam do protagonista, pelo mistério que ronda o desaparecimento do avô e por uma natureza que muda progressivamente com o tempo conduz a narrativa a um clímax violento e até certo ponto, inevitável (justificando o título do livro): o próprio protagonista torna-se, então, ele mesmo um mito.

Se tivesse editado o final do livro, cortando pelo menos umas 30 páginas, Daniel Galera teria lançado um dos melhores livros de 2012.

 

 

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