O céu dos suicidas

Há um poema da polonesa Wislawa Szymborska, chamado “O quarto do suicida” que ressalta o aspecto inexplicável do suícidio:

“Vocês devem achar que o quarto estava vazio

Pois havia ali três cadeiras de encosto firme

Uma boa lâmpada contra a escuridão

Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, jornais

Um Buda alegre, um Jesus aflito

Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho

Você acha que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?

Pois lá estava o trompete consolador nas mãos negras

Saskia com uma flor cordial

Alegria, centelha divina

Na estante Ulisses num sono reparador

depois dos esforços do Canto Cinco

Os moralistas

seus nomes inscritos em letras douradas

nas lindas lombadas de couro

Ao lado, também os políticos perfilados

Não parecia que o quarto fosse

sem saída, pelo menos pela porta

nem sem vista, pelo menos pela janela

Os óculos para longe largados no parapeito

Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva

Devem achar que ao menos a carta explicasse algo

E se eu lhes disser que não havia carta –

éramos tantos os amigos e coubemos todos

no envelope vazio apoiado no lado do corpo.”

Em 2008, enquanto Ricardo Lísias terminava seu romance “O livro dos mandarins”, um de seus melhores amigos, André Silva, companheiro de república na Unicamp, cometeu suicídio. Pelo que li a respeito, parece que o escritor foi dos últimos a ter contato com André e não percebera o tamanho da angústia do amigo.

Ricardo Lísias lançou em Março de 2012 um belo livro intitulado “O céu dos suicidas” (editora Alfaguara, 186 páginas). A história é narrada por um personagem chamado Ricardo Lísias, especialista em coleções – hábito que já havia abandonado – que tem seu mundo transtornado pelo suicídio de seu melhor amigo, chamado André. É preciso lembrar que não estamos diante de autobiografia, mas de uma obra de ficção que tem como ponto de partida  elementos biográficos do autor – como ocorre em quase todas as obras de ficção.

“De novo, começo a chorar. Não consigo resistir. Estou chorando porque o André se enforcou uma semana depois de ir embora da minha casa. Choro porque falei que na minha casa ele não iria se cortar. (…) A gente ria muito. Choro porque a gente ria muito, porque o coloquei para fora de casa e uma semana depois me ligaram para dizer que ele tinha se enforcado. O meu amigo estava muito sozinho. O meu amigo se enforcou. Não paro de chorar porque o André tinha se enforcado, porque só fico nervoso e porque todo mundo diz que quem se mata não vai para o céu.”

A partir do episódio trágico, presenciamos o início de variadas jornadas, de um deslocamento do narrador em três níveis – distintos, porém intercambiáveis.

O primeiro movimento é a (óbvia) desestabilização do mundo de Ricardo Lísias (personagem), não apenas pela perda traumática de um amigo mas também pela sensação de culpa por não ter reconhecido as circunstâncias peculiares nas quais o amigo orbitava e, portanto, não ter agido de acordo: torna-se insone, agitado, intolerante, irritável e, por vezes, infantilizado; busca sentido nas diversas opções que tem à sua disposição, naquelas em que acredita(mos) que deva(vemos) encontrá-lo: nas religiões, na psiquiatria, em algum ponto do passado (“Até o suicídio do meu grande amigo André, nunca tive vontade de voltar atrás com nada. Agora, comecei a sentir saudades de tudo. Como não consigo deixar de relembrar uma quantidade enorme de episódios da minha vida, é inevitável que comece a pesá-los. Então, arrependo-me de muitos.”) e até mesmo em outros lugares (o personagem viaja para o Líbano para tentar esclarecer uma questão familiar inexplicada) – eis aqui o segundo movimento, o deslocamento geográfico. Mas Ricardo Lísias (o autor) é implacável: nada – das soluções tradicionais às oferecidas pela modernidade –, em sua frieza (em certos casos revestida por tecnicalidade), parece capaz de atenuar o desconcerto. O que poderia aproximar o romance de um infrutífero e desgastado território niilista termina por conduzi-lo ao terreno humanista: se a psiquiatria nada mais tem a oferecer que não medicamentos ou jargões que nada explicam, muito menos consolam; se o passado não pode ser refeito e se as diferentes paisagens assemelham-se na indiferença ao sofrimento, o poder restaurador (da dignidade, do sentido) depende do que está mais próximo; é um gesto, é um contato físico que aproxima, acolhe e redime e é a resposta a essa busca perpetrada pelo Ricardo. Um gesto que reconhece e ao fazê-lo permite recomeçar:

1) “É um casal na faixa dos cinquenta. Os dois usam aquele tipo de roupa que faz questão de mostrar que depois vão passear no parque. A filha deve ter uns vinte anos. Pelos gestos, visitam a mãe dele. Logo que a encontram, a garota corre para acariciar os cabelos bem branquinhos da avó. Não faz com pressa ou obrigação. (…) Sentada em um banco, embaixo de uma árvore enorme, a senhora continua olhando o horizonte. Ela usa um vestido azul-claro bem limpo. Os cabelos estão penteados com cuidado e a pele é lisinha. Ela nunca será abandonada. Sei o que a menina está pensando: nunca vamos te deixar sozinha, vovó.

Mas ela já está sozinha.

Só agora percebo a boneca no colo da avó. Ela continua olhando o horizonte, mas acaricia com o polegar da mão esquerda os cabelos ralos do brinquedo.”

2) “Duas senhoras se sentaram ao meu lado, repetindo o que foi meu filho várias vezes, até uma delas tocar de leve as minhas costas com uma das mãos. Meu corpo se acalmou. Ficamos em silêncio e senti um enorme conforto na companhia delas. Pessoas idosas que se sentam ao lado de um homem de trinta e quatro anos que não consegue parar de chorar irão, independentemente de qualquer coisa, para o céu. Não importa o jeito que morram.”

O próprio ato de narrar como gesto de afeto, expiação de culpa e reintegração da identidade esfacelada:

“Uma coleção é como um amigo: é preciso saber tudo. Quem tem uma grande amizade sabe que, mesmo que estejamos longe dela, uma lembrança sempre retorna. Em uma viagem de trabalho, você deve estar preparado para, sem planejar, encontrar algo que interesse para a sua coleção. É como oferecer um presente a esse grande amigo.

Aqui está, André.”

O terceiro deslocamento é o da linguagem. Não me refiro à sua precisão ou objetividade linguísticas; conquanto o tom da narrativa acompanhe as variações de humor sofridas pelo personagem – que alterna períodos de fragilidade emocional e lembranças melancólicas com um discurso furioso –, por algumas poucas frestas percebemos que não se justifica exclusivamente como meio pelo qual apreendemos o que se passa com o personagem: as flutuações servem, ou como empecilho proposital ao texto para que não resvale em autocomiseração ou indulgência, como caricatura, ou como reforço de que estamos diante de ficção, que não atravessa o território da (auto)biografia do autor; alternam-se modificações de tons que tendem à comicidade e que funcionam na maioria das vezes; entretanto, tem como efeito colateral circunstancial a promoção de certo distanciamento, do leitor, do centro da catarse pretendida pelo narrador.

 

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