O espectador inerte


 

Imagine-se na plataforma de uma abarrotada estação de metrô em um dia da semana; digamos, segunda-feira, 03 de Dezembro. Você está esperando a chegada do trem para ir ao trabalho. De repente, você vê nos trilhos um homem,  e percebe que ele tenta em vão escapar de lá de volta para a plataforma. Ele não devia estar lá naquele momento. Você percebe que o trem está se aproximando e que está prestes a se chocar contra o sujeito. Quanto tempo até o momento do impacto – 15 segundos, 20 segundos? É difícil ser preciso nessas horas. O que você faria?

O mais provável é que você responda que é difícil responder, uma vez que você não está, de fato, vivendo a situação; tudo pode acontecer e tudo seria possível.

Na página da Internet do jornal New York Times, no dia 04 de Dezembro de 2012, podia-se ler uma matéria cujo título indagava: “After Fatal Subway Shove, Asking: Were There No Heroes?” (“Após empurrão fatal no metrô, a pergunta: não havia heróis por lá?”). No dia 03 de Dezembro de 2012, segunda-feira, na estação de metrô de Manhattan, frequentada diariamente por milhões de pessoas, Ki-Suck Han, de 58 anos, foi intencionalmente empurrado em direção aos trilhos e morreu atropelado. Um fotógrafo “free-lancer”, que estava na estação à espera do trem, tirou várias fotografias momentos antes da colisão; as imagens foram publicadas no jornal New York Post. Ao ser interrogado, o fotógrafo R. Umar Abbasi disse que não estava fotografando o homem nos trilhos, mas tentando sinalizar ao maquinista, com os flashes da câmera, a aproximação do trem. “Ninguém ajudou”, mencionou, “as pessoas começaram a correr”.  Ao ser questionado sobre a conduta do fotógrafo a respeito do episódio, o comissário de polícia respondeu o que imagino que a maioria das pessoas responderia: “não sei, não estava lá”.

Vamos retroceder um pouco.

1964.

Kitty Genovese, uma mulher de 29 anos, voltava para casa depois do trabalho, às três horas da manhã, quando foi esfaqueada 17 vezes por um maníaco em uma rua tranquila no bairro de Queens, Nova York. Seu calvário durou 30 minutos e, por inúmeras vezes, o perpetrador ia embora e voltava a seguir para completar seu serviço – os gritos da moça acordavam os vizinhos, que acendiam suas luzes e abriam as janelas e pediam para “deixar essa mulher em paz”, o que fazia com que o homem recuasse. Nenhum deles desceu à rua. Ninguém chamou a polícia.

38 espectadores.

Todos inertes.

Após o episódio, psicólogos sociais debruçaram-se sobre o tema, tentando entender quais elementos situacionais são capazes de imobilizar pessoas comuns diante de eventos como esse. Bibb Latané e John M. Darley publicaram “The unresponsive bystander: why doesn´t he help?” [(“O espectador inerte: por que não reage?”), editora Prentice-Hall, 1970). Infelizmente, esse livro não foi lançado no Brasil. Não sei se ainda está disponível em catálogo no exterior.

Suas conclusões são bastante contraintuitivas. Não se deve procurar a resposta em disposições constitucionais como traços de personalidade (apatia, indiferença, etc.) ou “histórias de vida”, mas em  variáveis situacionais, nas circunstâncias da situação imediata:

“Alienação em relação às normas sociais ou apatia quanto ao que acontece com as outras pessoas são explicações incorretas e simplificadas para o comportamento inerte. A resposta encontra-se nas várias decisões que o indivíduo deve tomar antes de intervir”.

Em primeiro lugar, situações de emergência são imprevisíveis – portanto as pessoas não podem contar com o beneficio de experiências prévias ou do planejamento prévio (não podem antecipar o curso de sua ação previamente ao momento em que ela efetivamente acontece ou deveria acontecer) nem contar com opiniões de outras pessoas sobre qual a melhor decisão a ser tomada. Em segundo lugar, quando confrontado com uma situação de emergência, o espectador vê-se enredado em diversas questões em um contexto de ameaça, urgência e/ou estresse, e cuja resposta deve culminar em decisões a serem tomadas.

Os autores propuseram um modelo cognitivo do processo de intervenção:

– uma situação de emergência depende da atenção: deve-se perceber que algo está acontecendo; depois, interpretar o evento como uma emergência e decidir se é sua responsabilidade “pessoal” agir

– decidida a ação é necessário decidir qual a melhor forma de implementá-la ou de prestar assistência.

Dentre as variáveis capazes de conduzir o desfecho desse processo, o que prepondera na decisão a respeito de prestar ou não auxílio, é a influência social – principalmente em relação ao modo como diferem nossas percepção e interpretação de uma situação e em relação à responsabilidade que podemos compartilhar com os vários espectadores presentes. E isso é interessante porque na maioria das vezes as pessoas não percebem que estão sendo influenciadas dessa forma. É  o que os psicólogos chamam de difusão de responsabilidade:

“Quando apenas um espectador presencia uma situação emergencial, se houver necessidade de ajuda caberá somente a ele ajudar. A situação não é tão clara quando uma multidão está presente. A responsabilidade pela intervenção difunde-se entre os presentes”.

Um espectador em uma multidão sabe que outros irão vê-lo e julgá-lo e ele também poderá ver e julgar as ações alheias; como situações supostamente emergenciais dependem da interpretação de quem assim as julga  – são ambíguas, portanto – cada espectador irá mirar-se nos outros a fim de obter ajuda quanto ao que fazer ou como se comportar. Obtemos informações valiosas sobre situações novas – especialmente diante de ambiguidades, pois nos proporciona medo e insegurança – olhando o comportamento de nossos semelhantes ao nosso redor. O número de pessoas presentes em uma situação de emergência desempenha efeitos significativos sobre a decisão individual de agir.

Constituir parte de um grupo observador passivo implica que, se houver outros disponíveis, haverá menos pressão para iniciar a ação do que haveria se o indivíduo estivesse sozinho; e cada pessoa pode se sentir menos responsável para auxiliar a vítima. Se estiver sozinho, a culpa por não agir (e a vergonha subsequente, se o desfecho tornar-se público) recairá sobre ele e apenas ele. Na companhia de outros, “os dedos da culpa não apontarão diretamente para uma única pessoa”. Cada espectador pode assumir que “alguém está se preparando para agir para por termo à emergência e sua própria intervenção soará redundante ou até mesmo prejudicial; racionalizamos nossa inação nos seguintes termos: alguém já deve estar fazendo alguma coisa para resolver o problema”.

“Uma vítima tem mais probabilidade de obter ajuda em uma situação de emergência ou de que esta seja adequadamente reportada a quem se deve quanto menor o número de pessoas disponíveis para agir. Falhas na intervenção podem ser melhores compreendidas a partir do conhecimento das relações entre os espectadores mais do que a relação entre espectador e vítima”.

Os autores finalizam o livro com uma citação de um belo poema de Rudyard Kipling (1865-1936) chamado “The children´s song” (tradução de Cunha e Silva Filho, com pequenas modificações feitas por mim):

Teach us to look all our ends,
On Thee for judge, and not our friends;
That we, with Thee, may walk uncowed
By fear or favour of the crowd.

Teach us the Strength that cannot seek,
By deed or thought, to hurt the weak;
That under Thee, we may possess
Man’s strength to comfort man’s distress.

A olhar em todas as direções ensinai-nos
Tendo Vós como juiz e não como nossos amigos,
Para que, junto a Vós, possamos caminhar protegidos
Sem medo ou favor da multidão
.

Mostrai-nos a Força que impeça de,
Por atos e pensamentos, os fracos maltratar
De sorte que, sob Vosso amparo, possamos dispor
da força do homem para confortar as desgraças do homem
.

Interessante notar a síntese do trabalho descrito por Latané e Darley pelo poema de Kipling: para conseguir esta última “esperança” (“possamos dispor da força do homem para confortar as desgraças do homem”) necessitamos “caminhar protegidos sem medo ou favor da multidão”. Necessitamos fortalecer nosso caráter e nossa disposição para o bem.

 

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