Encenação

Respondo aqui publicamente comentário de uma amiga a respeito do texto “Espectador inerte” (leia aqui), pois creio que merece uma pequena reflexão. A questão diz respeito à função de um fotógrafo de guerra e seu suposto comportamento inerte diante do que vê, e de que forma poderia ajudar ou fazer a diferença.

A distância é a marca de um fotógrafo de guerra – seja física (tentar chegar o mais próximo possível da cena, de acordo com o fotógrafo Robert Capa), seja psicológica (o equipamento do fotógrafo pode ser intimidador para os outros e pode servir-lhe de “escudo” ao ambiente em que se encontra); de certa forma isso torna intransponíveis os cenários que fotografa, separando-o do que acontece ao redor. Por outro lado, o documentarista Errol Morris (diretor de “Na linha da morte”, “Sob a névoa da guerra” e “Procedimento operacional padrão”), em entrevista publicada no segundo número da revista de fotografia ZUM, reflete sobre o que acontece na frente de uma câmera:

“A questão é que as pessoas criaram todas essas regras. Porque perceberam, talvez de maneira meio inconsciente, como é fácil ser enganado por uma fotografia. E então criam essas regras para nos proteger, todas essas regras tão conhecidas. Não mexa em nada. (…) E, no final, supostamente, você terá algo verídico. Seguindo essas regras, de alguma maneira espera-se que a verdade esteja ali. Bom, está errado, claro. Porque há aí todos aqueles outros tipos de pressupostos, problemas e confusões. O fato de que existe o recorte e não enxergamos além dele, de nenhum dos lados…”

Em minha opinião, Morris toca numa questão fundamental: a fotografia também é uma escolha moral. Há pressupostos quando se fotografa alguma coisa, pois ao se optar por um determinado quadro, todos os outros foram excluídos; ao se optar por um instante, milhares de outros foram relegados ao esquecimento – mas isso não significa que nunca tenham existido. Até que ponto somos capazes de compreender as intenções de um fotógrafo ao escolher aquela cena em particular – até que ponto suas intenções são, de fato, captadas por suas fotografias? Ao contrário da “realidade,” em que tudo o que enxergamos enxergamos dentro de um contexto – mesmo que em determinadas situações  não tenhamos certeza exatamente sobre aquilo que estamos olhando (olho para a tela do computador enquanto escrevo estas palavras e sei que horas são, sei que faz um calor dos diabos, sei onde estou, sei a quem pertence este computador, sei o que estou a pensar neste exato instante, etc.) –, a fotografia descontextualiza o que vemos. Nas palavras de Morris, elas “arrancam imagens do mundo e nos deixam livres para pensarmos o que quisermos sobre elas”. Esquecemo-nos frequentemente de que, quando vemos uma fotografia, na verdade o que estamos vendo é resultado das escolhas que o fotógrafo fez – vemos aquilo que ele quer. Quanto à intervir ou não naquilo que fotografa, cabe apenas ao fotógrafo – como sujeito capaz de fazer escolhas morais – decidir transpor as barreiras que sua lente projeta para criar ilusões de realidade.

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