Bom selvagem

Reprodução da fotografia estampada no artigo de Lee Siegel para o Jornal Estado de São Paulo de 23/12/2012

No dia 14 de Dezembro de 2012, Adam Lanza invadiu a escola primária Sandy Hook em Newtown, Connecticut,  matou 26 pessoas (20 crianças) e se suicidou. Pouco depois começaram as indagações de praxe sobre as causas da tragédia. Quais seriam os “verdadeiros” culpados? A cultura hollywoodiana de apologia à violência? Os videogames? A sociedade norte-americana, que se encontraria nos estágios terminais de perdição, como um todo? O excesso de armas e as facilidades em obtê-las? Em artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo de 23 de Dezembro de 2012, um crítico cultural norte-americano  Lee Siegel escreveu sem nem pestanejar ou ruborizar:

“A despeito de toda estabilidade política, mobilidade social e criatividade cultural dos Estados Unidos de hoje, – estou olhando o país com absoluta relatividade, pela ótica da história – o massacre de 20 crianças e 6 adultos em Newtown, Connecticut, em 14 de Dezembro, é o sintoma de uma doença profunda no coração da vida americana.”

“Doença profunda no coração da vida americana”? E qual seria a receita a ser prescrita para tratar tal “doença”? E que doença seria essa? Por alguma razão inexplicável, em vez de elencar argumentos razoáveis acerca evento ocorrido, Siegel parece irritado e ressentido com a cultura e a sociedade na qual vive e opta por disparar tolices sem qualquer embasamento lógico. Pensando com o fígado e não com o cérebro, segue disparando clichês e contradições artigo afora:

“(…) E assim Adam Lanza, que não tinha sentimentos de compaixão e era dado a acessos de raiva, foi encorajado por sua mãe a dominar o uso de armas letais. O indivíduo americano não tolerará a ideia de não conseguir o que desejar.”

É fácil ser profeta quando se lida com o passado e encontrar traços de psicopatia e indícios de comportamento suspeito quando analisamos personagens partícipes de eventos transcorridos: todo mundo encontra aquele vizinho que sempre “pareceu esquisito”, ou aquele amigo que “não sei não mas já havia qualquer coisa estranha em seu comportamento…”  Sua salivação raivosa o leva a ignorar o que apontara em parágrafos anteriores (“a despeito de toda criatividade cultural em voga…”) quando escreve:

“Há muitas razões para a falta de originalidade nas artes, mas uma das principais é, com certeza, o desprezo quase institucional na América por qualquer tipo de fronteira limitadora em quase toda esfera de atividade. A arte, ainda mais que a ciência, requer um raro equilíbrio de liberdade e contenção. É dessa luta contra a proibição e restrição que nasce a originalidade. Agora que tudo é permitido, a imaginação foi privada de sua função.”

Siegel confunde-se quando aplica indistintamente às artes em geral características particulares de entretenimento:  uma sinfonia não equivale a um show do U2. A cultura contemporânea está cheia de exemplares vazios e banais, de frivolidades e superficialidades, mas não se restringe somente a isso. Para Siegel, a incapacidade dos norte-americanos em lidar com restrições às suas liberdades torna-os incapazes de elaborar boa arte – pois estas se valem das tensões existentes no entrechoque entre estética e mensagem, entre aquilo que se quer manifestar e a melhor forma para fazê-lo. Acredito que, nesses tempos de difusão maciça de diferentes manifestações artísticas, o peso dos critérios de julgamento deve ser maior: as preferências estéticas e os rigores intelectuais deveriam ser exigências cada vez maiores atualmente – se você se interessa por artes – porque é preciso separar cada vez mais o joio do trigo, é preciso separar o que realmente importa do ruído de fundo, e não simplesmente situar-se no conforto da desonestidade intelectual que decreta que os tempos são sombrios e que a cultura não tem salvação. Mas divago. Quero retornar ao ponto-chave de seu texto: o artigo resume a sobrevivência do mito do bom selvagem rousseaniano nas mentes liberais modernas.

Segundo Steven Pinker (em “Tábula Rasa”, editora Companhia das letras, 2002), a influência da doutrina do “bom selvagem” de Rousseau (todos os homens em seu estado natural são pacíficos e altruístas e são corrompidos pela civilização) influencia fortemente a modernidade – no respeito por tudo o que é natural (alimentos naturais, parto natural, remédios naturais) e, por conseguinte, na desconfiança em relação a tudo o que é criado pelo homem; no repúdio aos estilos autoritários de criação de filhos; e, principalmente, na concepção dos problemas sociais como “defeitos irreparáveis em nossas instituições, e não como tragédias inerentes à condição humana.” A violência seria, para a doutrina, comportamento ensinado pela cultura ou doença endêmica em certos contextos socioculturais.

Culpar a sociedade por comportamentos individuais consiste em oferecer respostas fáceis e no mínimo equivocadas para problemas que desafiam nosso entendimento: é como fornecer atributos a um ente indistinto e notabilizá-lo com crenças e valores e ignorar as crenças e valores de cada indivíduo que a compõe.

Vejamos as respostas oferecidas confrontadas com dados objetivos:

1) Controle de armas:

Dados da UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime): em 2010 no Brasil foram mortas por armas de fogo 49.932 pessoas (taxa de 26,2 por 100.000 habitantes); nos Estados Unidos, foram mortos por armas de fogo 8.775 (taxa de 4,3 por 100.000). E andamos nós a dizer que o problema da criminalidade norte-americana passa pela falta de controle sobre as armas de fogo…Na Noruega de Anders Behring Breivik (que matou 77 pessoas em 2011), em 2009 foram registrados 29 assassinatos (são 4,6 milhões de habitantes) e por lei os policiais noruegueses precisam da autorização de seus superiores para obter acesso a uma arma de fogo – apenas os policiais envolvidos em batidas têm acesso imediato às armas, que permanecem nos carros de patrulha.

2) Relação entre filmes, videogames e violência:

Não há evidências científicas fortes o suficiente, até o momento, para associar jogos de videogames e programas de televisão ou filmes ao comportamento violento de crianças e jovens com problemas emocionais (Is aggression in children with behavioural and emotional difficulties associated with television viewing and video game playing? A systematic review. Mitrofan O. et al., Child Care Health Dev. 2009 Jan;35(1):5-15). A violência é multifatorial e atribuir uma única causa a comportamento violento é picaretagem intelectual.

Indivíduos perversos, que fizeram a escolha pelo mal, independentemente de suas razões, incapazes de empatia, não necessitam especificamente de armas de fogo: se Adam Lanza não dispusesse de rifles ou revolveres, ele provavelmente usaria cadeiras, explosivos caseiros, facas, tacos de beisebol ou petecas. Qualquer pretexto serviria. Culpar a sociedade ou os filmes de Hollywood implica absolver indivíduos que deveriam ser plenamente responsabilizados por seus atos.

Em “Criminal profiling – an introduction to behavioural evidence analysis”(Editora Elsevier, 2012) o psicólogo forense Brent Turvey e seus colaboradores descrevem os principais mitos associados aos assassinatos em massa – e que foram inconsequentemente reafirmados pelos “explicadores de plantão” no caso Lanza, os mesmos especialistas de sempre que são sempre  consultados nessas ocasiões:

1) não são exclusividade norte-americana; ocorrem no mundo todo

2) não ocorrem em apenas nas escolas; ocorrem onde há aglomerações

3) seus perpetradores nem sempre se encaixam em estereótipos como o psicopata que nunca teve amigos, sempre foi visto como “esquisito” na infância, descrito como com “olhar malévolo” pelos vizinhos (como quer fazer crer Lee Siegel)

E, principalmente: não há um perfil único; os assassinos são completamente distintos entre si no que se refere a traços de personalidade, métodos e motivações; são originários dos mais diferentes lugares, das culturas e dos contextos socioculturais que impedem que sejam embalados nos mesmos clichês; manuseiam todo tipo de arma com habilidades distintas e não almejam os mesmos objetivos. Assassinatos em massa são expressões comportamentais de motivos pessoais que não podem ser representadas por um perfil único e típico.

Esses crimes ocorrem não porque nossa sociedade está doente ou porque deveríamos ser bem menos permissivos com relação ao porte de armas de fogo. Esses crimes acontecem porque houve indivíduos que os planejaram e o executaram por motivações próprias – e por essa razão são imprevisíveis.

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