Elogio à incerteza

Trechos da reportagem da Folha de São Paulo de 19 de Fevereiro de 2013: “Protesto barra a exibição de filme de dissidente

“Uma barulhenta manifestação de cerca de 50 militantes ligados a movimentos estudantis e sociais, PC do B e PT levou ontem ao cancelamento da exibição de um filme com a presença da blogueira dissidente cubana Yoani Sánchez, em Feira de Santana (BA). Aos gritos de “traidora” e “Cuba sim, ianques não”, os militantes tomaram o salão da Casa do Saber, um planetário cedido pela prefeitura para a apresentação de “Conexão Cuba-Honduras”, do cineasta baiano Dado Galvão. (…) Quando Sánchez chegou, os ânimos se exaltaram e a blogueira chegou a ser recolhida na sala da diretoria (…) Em Recife, onde desembarcou ontem de madrugada, um punhado de manifestantes atirou notas falsas de dólar. No aeroporto de Salvador, um grupo pequeno, mas intimidador, obrigou, aos gritos, a blogueira a deixar o local por uma saída alternativa (…)”

As manifestações grosseiras de grupos de esquerda que impediram a fala da blogueira cubana Yoani Sánchez em determinados eventos públicos demonstram muito mais do que intolerância e repúdio à liberdade de expressão, garantida pela constituição brasileira, e apreço a totalitarismos; evidenciam um fenômeno social chamado por Cass Sunstein, em “A Era do Radicalismo” (Editora Elsevier, 2010) de polarização grupal. Quando pessoas se reúnem e o grupo compartilha as mesmas ideias e concepções e apresentam perspectivas semelhantes, tendem a assumir posições mais extremas do que aquelas que manifestavam antes de se encontrarem. À medida que conversam e discutem, tornam-se confiantes e assumem que estão 100% certas; os outros membros do grupo, partilhando da mesma cosmovisão, tornam-se espelhos deformados da realidade: refletem apenas a certeza que se julgava estar ali desde sempre; estabelece-se um senso de identidade e solidariedade que coíbe todo e qualquer dissenso, como num barril de pólvora cuja fagulha é o aparecimento em cena de um “grupo rival”. E como todos queremos ser percebidos favoravelmente pelos nossos grupos, reafirmamos em alto e bom som as nossas posições ao ouvirmos os outros “iguais”, os “irmãos”. Deixamos de ser capazes de ajustar nossas reações ou perceber as opiniões tendenciosas e parciais dos grupos nos quais estamos inseridos.

A polarização grupal baseia-se em troca de informações: em um grupo de pessoas que pensam da mesma forma cria-se um círculo vicioso em que as informações apenas sustentam as crenças e fortalecem as certezas: o grupo transforma-se na única fonte confiável para validar novas informações, assimilando-as tendenciosamente. As concepções pré-existentes de cada um são amplificadas, atinge-se um patamar em que passa a não existir qualquer razão para ouvir ou sequer relevar opiniões ou informações discordantes. Por essa razão as redes sociais ressoam escandalosamente fenômenos extremistas, fornecendo o esteio necessário para o encontro de pessoas que pensam da mesma forma.

Jornalistas que cobriam os eventos nos quais Yoani falaria foram agredidos, sob o silêncio covarde daqueles que deveriam efetivamente estar comprometidos com os fundamentos de uma democracia de fato (partidos de oposição, Ordem dos Advogados do Brasil, escritores, professores universitários, organizações da sociedade civil, etc.). E esse silêncio é sempre trágico: a moderação só é possível quando há vozes divergentes e os membros do grupo não sabem se estão certos.

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