Amor e solidão

Filósofo marxista-existencialista da nova esquerda nos anos 60, depois pioneiro do pensamento ecológico na década de 70, André Gorz gerou polêmica com a publicação, em 1980, de “Adeus ao proletariado”, ao questionar dogmas sagrados do marxismo. Em 2006, lançou “Carta a D. – História de um amor”. Mais do que uma declaração de amor à esposa Dorine, trata-se da narrativa da evolução de um amor. Ele conta que conheceu a inglesa Dorine em 1947, na Suíça.

Casaram-se no outono de 1949.

“Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista.”

Mas Gorz escapa da visão romântica tradicional, que mantém o foco exclusivamente nos primórdios do relacionamento. Em “Conditions of love”, John Armstrong diz que o amor tem sempre duas histórias: uma história geral, sujeita às modificações culturais, sobre a qual exercemos pouco controle, e uma história individual, que transcorre na vida de cada um que venha a amar alguém; as dificuldades do “amor para sempre” são produtos da forma como pensamos, individualmente, sobre o amor, e quanto a  isso podemos exercer algum tipo de controle “benevolente”. Podemos entender, portanto, o objetivo de Gorz ao escrever:

“Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”

Tornar-se um pelo outro e um para o outro a partir de uma história em comum revisitada: dado que somos incapazes de retornar aos primórdios de nosso relacionamento e experimentar mais uma vez tudo o que sentíramos, podemos atribuir às nossas histórias individuais o significado que quisermos dar. O amor é, acima de tudo, uma construção.

Enquanto escreve, enquanto revisita sua história em comum, Gorz percebe que a base sobre a qual nossa união se erguia mudou no curso desses anos.” É fácil perceber a evolução. Inicialmente, Gorz, como a metade imperfeita descrita por Platão, vê o amor como o preenchimento de uma insuficiência ontológica: a paixão resulta de nosso anseio por escapar de nós mesmos, como se nossa imperfeição pudesse ser reabilitada por valores ou atributos que julgamos admiráveis do ser enamorado:

“O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. Os valores que dominaram a minha infância não existiam nele. (…) Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo. Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar (…)”. “Com você, eu podia deixar de férias a minha realidade.” “Nós éramos, eu e você, filhos da precariedade e do conflito. Fomos feitos para nos proteger mutuamente contra ambos, e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. Para isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para a vida inteira.”

A construção de uma história em comum permite completar a configuração de uma identidade incompleta, pois o pacto de amor fornecer-lhe-ia sustentação: desse modo é possível ao amor resistir contra o tempo.

“A construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos.”

Mas até então temos uma visão do amor que é parcialmente egocêntrica: ele redime nossas imperfeições, portanto apesar de uma história a dois, sua importância concentra-se no fato de dizer mais a respeito de cada um dos membros do casal isoladamente. Isso muda quando a percepção de Gorz muda; mais adiante lemos:

“A paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia.”

Ressonância um com o outro: reconhecê-la é reconhecer que estamos fincados em uma realidade palpável, pertencemos a uma mesma realidade descritível. Reconhecemos aquilo que podemos compartilhar. Se até então predominava a tônica de “ver o mundo através dos meus olhos”, essa nova percepção indica que o mundo pode ser mais bonito visto a partir de perspectivas distintas:

“Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever (…) Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você. “Então escreva!” “; “Nosso relacionamento se tornou o filtro pelo qual passava minha relação com o real.” “Nós tínhamos um mundo em comum, do qual percebíamos aspectos diferentes. Essas diferenças eram a nossa riqueza.”

Trata-se da síntese da maturidade do amor: o momento em que reconhecemos nossas individualidades em um terreno comum; momento em que, a partir de uma mesma perspectiva, somos capazes de distinguir as dimensões possíveis da realidade. Somente nesse estágio triunfam a criatividade e a compreensão sobre a esperança. A maturidade do amor é olhar benevolente capaz de entender e reconstruir a história do amor.

Mas eis a força do imponderável ao erigir barreiras: Dorine passa a ser acometida por dores misteriosas:

“Você não conseguia mais se deitar, de tanto que a cabeça a fazia sofrer. Passava a noite em pé, na varanda, ou sentada numa poltrona. Eu queria acreditar que nós tínhamos tudo em comum, mas você estava sozinha na sua aflição.”  “Na radiografia de sua coluna, feita pelo doutor Court-Payen, ele constatou a presença de bolinhas de produtos de contraste, disseminadas pelo canal raquidiano, desde a região lombar até a cabeça. Esse produto, o lipiodol, tinha sido injetado em você oito anos antes, quando foi operada de uma hérnia de disco paralisante (…). Foi para mim que Court-Payen comunicou seu diagnóstico: você tinha uma aracnoidite; não havia nenhum tratamento para essa afecção evolutiva (…). A carta de um professor de neurologia do Bayor College of Medicine não era muito encorajadora: “a aracnoidite é uma afecção na qual os filamentos que recobrem o cordão medular propriamente dito, e às vezes o cérebro, formam um tecido cicatricial e comprimem tanto o cordão medular quanto as terminações nervosas que saem dele ou nele entram. Diversas formas de paralisia e/ou dores podem se seguir.” “A aracnoidite a obrigou a abandonar, pouco a pouco, a maioria de suas atividades favoritas.”

E eis a tragédia do amor: não deve haver maior solidão para o amor maduro do que, em terreno comum, mesmo em ressonância com o ser amado, presenciar suas mudanças  em decorrência de uma experiência não partilhada. A solidão ao reconhecer os limites intransponíveis do amor: um grito que não encontra eco. Posteriormente, Dorine é diagnosticada como portadora de câncer de endométrio. E suas dores pioram, a cada dia que passa. O sofrimento causado por experiências – dolorosas – é capaz de distanciar o enamorado daquele terreno comum, outrora conquistado? Uma vez reescrita a história do amor, como terminá-la? Com uma bela e comovente declaração de amor, que fecha o livro:

“Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância. (…) Você me deu toda sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que nos resta.”

“Você acabou de fazer 82 anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. (…) Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos. (21 de março – 06 de junho de 2006).”

No dia 24 de setembro de 2007, lia-se na Folha de São Paulo:

“Filósofo francês André Gorz e sua mulher se suicidam”

“O filósofo André Gorz, 84 anos, um dos fundadores da publicação “Le Nouvel Observateur”, se suicidou em casa com sua mulher Dorine, 83, em Vosnon. Segundo seus parentes, foi uma amiga que descobriu o duplo suicídio na manhã desta segunda-feira. Uma mensagem debaixo da porta avisava que deveriam chamar a polícia. Os corpos do casal repousavam um ao lado do outro.”

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