Não nos rendemos

Triunfo da morte, Pieter Brueguel, 1562

Triunfo da morte, Pieter Brueguel, 1562

Trechos de “Arquipélago”, romance cômico de Diogo Mainardi publicado em 1992 (editora Companhia das letras):

“A fim de me manter à tona, a cidade de Pedranópolis inteiramente submersa, a torrente salpicada de redemoinhos, aferrei-me a um tronco de carnaúba que flutuava ao meu lado. Quatro desabrigados aferraram-se ao mesmo tronco de carnaúba. Apresentamo-nos. O primeiro desabrigado estava com o braço esquerdo fraturado. O segundo desabrigado, num gesto de solidariedade, tentou fraturar o braço esquerdo dos outros dois desabrigados. Foi contido. Abraçamo-nos. (…) Devido a um total desapego por questões relativas à subsistência, limitei-me a analisar e interpretar os elementos que nos circundavam. Antes de mais nada, constatei que os destroços possuíam um forte caráter iconográfico, apesar da aparente aleatoriedade com que haviam sido reunidos. (…) Ao mesmo tempo em que extinguia todos os traços identificáveis do universo precedente, a enxurrada parecia instituir uma linguagem alternativa feita exclusivamente de analogias, parábolas e símbolos. A sensação é que havíamos penetrado num prodigioso espaço especulativo em que tudo exprimia um preciso e complexo significado alegórico.”

O Brasil sempre me faz pensar nesse romance: vivemos num país em que qualquer tentativa de nos ocuparmos com arte, filosofia, com nossos pequenos afazeres, nossas intimidades, nossas idiossincrasias, de nos ocuparmos, enfim, com as banalidades de nossas rotinas, é ridícula, é cômica; pois nossas vidas são constantemente atabalhoadas por uma gente miserável que insiste em nos aturdir com as suas corrupções, sua miséria moral, sua mediocridade; uma gente que volta e meia insiste em propor leis de controle de imprensa,  insiste em regular tudo aquilo que você deve ou não fazer/ver/ouvir (“é um absurdo existirem propagandas de redes de lanchonetes quando há crianças  assistindo a televisão”),  quer ensinar como cuidar dos filhos (“palmada não pode!”),  patrocina “bolsa-bandido” e outras esmolas paternalistas, deixa de governar para pensar em reeleição antes da hora,  alicia com crédito farto e compra o silêncio com a educação falida que oferece,  mata por descaso e sufoca com impostos, acha que se governa por decretos e carta de intenções,  esmigalha a meritocracia com política de cotas. Acima de tudo:  não distingue o público do privado… Ora, os governos democráticos deveriam existir justamente para que não nos preocupássemos com mais nada além de nossas trivialidades. Até quando será preciso resistir? Isso tudo me faz pensar em outro livro:

A morte de um apicultor”, de Lars Gustafsson (editora Marco zero, 1989): temos a história de um homem, pobre, com câncer de pâncreas e que sabe que vai morrer; lemos suas anotações realizadas em vários cadernos: seus pensamentos, suas memórias, suas dores, sua degeneração física, suas pequenezas diárias: por essa razão – concordo com o Reinaldo Azevedo – jamais poderia ter sido escrito no Brasil.

“ É terrível estar entregue a uma dor idiota, cega, a vômitos, a uma misteriosa decomposição interior tão idiota, tão insolente, seja qual for a explicação.

A heresia comum consiste em negar a existência de um deus que nos teria criado. Uma heresia muito mais interessante consiste em pensar que talvez exista um deus que nos tenha criado mas nem por isso temos alguma razão para ficar impressionados. E muito menos reconhecidos.

Se existe um deus, nossa missão é dizer não.

Se existe um deus, a missão do homem é ser sua negação.

Recomeçamos. Não nos rendemos.

Minha missão nos dias, nas semanas ou, no pior dos casos, nos meses que possam me restar: ser um imenso e explícito NÃO.”

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