A hora mais escura

A última cena de “A hora mais escura” (Zero dark thirty, 2012), de Kathryn Bigelow, evoca uma cena descrita por Samuel Beckett no fim de sua peça “Improviso de Ohio”(1980):

“Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos, não, não-pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar.”

O piloto de um avião militar diz à protagonista, vivida por Jessica Chastain:

“Você deve ser importante para mandarem um avião só pra você! Disseram para levar você para onde você quiser. Onde você quer ir?”

Ela nada responde, seu rosto está imóvel, mergulhado em sabe-se lá que abismos de pensamentos, ou não-pensamentos, “onde nenhuma luz pode chegar”; ela olha para frente e uma lágrima escorre. É um filme corajoso realizado em época covarde, habitada por pessoas covardes. Pessoas que ou não levam a sério ou ignoram completamente um velho princípio moral que diz que cada um é autor de seus atos. Dedução lógica: cada um deve encarar as consequências de seus atos. Porém, antes de tudo é preciso tomar uma posição, fazer escolhas; e, no entanto, o resultado da combinação entre o anseio por vantagens desatreladas a responsabilidades é a tendência a refutar os erros que surgem no caminho: as pessoas preferem fugir de escolhas complicadas e sempre optam por explicações mais simples; é mais cômodo atribuir seus próprios equívocos a terceiros ou apenas apontar dedos com acusações genéricas.

O filme mostra o cotidiano áspero de pessoas que, por dever de ofício, fazem das suas as horas mais escuras; são os agentes responsáveis por elucidar todos os quebra-cabeças relacionados à busca pelo paradeiro de Osama Bin Laden. E essas pessoas precisam fazer escolhas, assumir riscos e conviver com os desdobramentos dessas ações, para que outros – eu, você, todos nós que pertencemos à civilização ocidental, civilização esta que remói suas abominações passadas (guerras, escravidão, imperialismo, fascismo, comunismo) e desdenha de suas maiores virtudes (disciplina, trabalho, artes, ciência, filosofia e metafísica) a ponto de atribuir a si as desgraças do mundo e, por conta disso, absurdo dos absurdos, chegar a pensar que os americanos plantaram o que colheram, após os atentados de 11 de setembro (recomendo um livro de 2006, “A tirania da penitência – Ensaio sobre o masoquismo ocidental”, de Pascal Bruckner) já que se tratava de revide de uma civilização tornada miserável em decorrência de ações ocidentais – possamos seguir adiante com nossas rotinas de liberais roussenianos sustentáveis, para quem a vida é sempre um jardim de infância e o homem tem uma índole boa – estragada pela cultura imperialista norte-americana ou, de modo mais abrangente, pela cultura ocidental. Abraçar árvores, reciclar lixo, manter o corpo em forma com academia e dieta, cultivar a espiritualidade, fazer yoga ou pilates, suportar o tédio do domingo assenta-se sobre o trabalho sujo de indivíduos que vivem nas sombras, à margem de suas próprias vidas.

Há outra cena brilhante: durante a pausa de uma das sessões de tortura, o grupo de agentes a CIA assiste, impassivelmente, à uma entrevista do novo ícone do liberal moderno, Barack Obama, garantir que os Estados Unidos não praticam tortura. Quem enxerga em “A hora mais escura” uma apologia à tortura provavelmente entrou na sessão errada. “A hora mais escura” incomoda porque propõe um dilema moral difícil de ser resolvido, o que é da própria natureza dos dilemas morais, pois são originários de princípios morais conflitantes. Imagine que você é o motorista de um trem desgovernado a 80 km/h. À sua frente, nos trilhos, você vê 5 operários em pé, que não o veem. O freio não funciona e você sabe que, se atropelá-los, irá matá-los. De repente, você enxerga um desvio para direita. Há um operário naqueles trilhos também, somente um. Você percebe que pode desviar o trem, matando esse único operário e poupando os outros cinco. O que você deve fazer? Sacrificar uma vida por cinco? Parece ser a atitude mais correta? Considere agora outro cenário: você não é o maquinista, mas um observador numa ponte acima dos trilhos. Não há desvios. O trem avança em direção aos cinco operários e os freios não funcionam. Você nota que, próximo a você, há um homem alto e gordo, corpulento o suficiente para, se empurrado no caminho sobre os trilhos, parar o trem, ou pelo menos dar tempo para os outros cinco escaparem. Qual a coisa certa a se fazer? Excluindo-se contingências hipotéticas e atitudes covardes (recusar-se a responder), a resposta não é imediata. São cinco vidas em troca de uma, e nenhum dos homens sacrificados escolheu envolver-se. Temos aí dois princípios morais que se entrechocam (salvar o máximo de vidas possível, matar um inocente por uma boa causa). De acordo com Michael Sandel em “Justiça – o que é fazer a coisa certa”, temos nossas opiniões e convicções sobre o que achamos ser a coisa certa a fazer; a partir disso, procuramos um princípio no qual elas se baseiam; porém, quando uma situação coloca em xeque tais princípios, a confusão se instala: não sabemos o que fazer. A reflexão moral consiste em equilibrar julgamentos com princípios, e por isso mesmo é dialética – desloca-se entre os julgamentos das diferentes situações que vivenciamos e os princípios que norteiam tais julgamentos – e requer sempre um interlocutor, necessita de diálogo.

O dilema moral proposto por Kathryn Bigelow e seu roterista Mark Boal é tão difícil de ser resolvido quanto o dilema do trem: para salvar o máximo de vidas possível é lícito utilizar um método que tem resultados consequentes, que funciona?

É fácil criticar os Estados Unidos porque caímos – nós, civilização ocidental – em uma armadilha sem perceber: o terrorismo engendra uma guerra assimétrica, pois é praticado por organismos revolucionários a quem tudo é permitido; estão isentos de todos os compromissos que pesam sobre os Estados constituídos. Por essa razão, alguns poucos abusos cometidos por uns gatos-pingados do exército norte-americano aparecem como atrocidades muito mais odiosas do que todos os assassinatos cometidos pelos jihadistas e por regimes fundamentalistas islâmicos, mesmo em períodos de paz. Em texto para o jornal O Globo, de 2004, Olavo de Carvalho aponta de modo certeiro:

“Há uma diferença substantiva entre o modo americano e o iraquiano de tratar prisioneiros de guerra. Os americanos os despem, os humilham e até lhes dão uns sopapos. Os iraquianos os esfolam, os queimam vivos ou os degolam, como fizeram aliás com centenas de milhares de seus compatriotas.
Há também uma diferença nas reações que despertam em seus governos. Os americanos são presos e submetidos a côrte marcial. Os iraquianos são aplaudidos como heróis e incentivados a caprichar um pouco mais da próxima vez, por exemplo cortando os pênis dos malditos imperialistas como sugerido por um jornal árabe. Há por fim uma diferença no modo como as condutas de uns e outros repercutem na mídia. Os feitos iraquianos, quando não omitidos por completo, são mostrados de maneira discreta, fria e sem comentários, como rotinas de guerra. Os americanos são alardeados como crimes contra a humanidade, despertam campanhas mundiais de protesto e se trasmutam em crise política, enquanto a indignação suscitada pelos poucos casos comprovados é multiplicada ad infinitum por uma estonteante proliferação de episódios forjados.”

Por essa e outras razões, a guerra ao terror é uma guerra impossível de ser vencida (La Guerre asymétrique ou la Défaite du vainqueur, de Jacques Baud – “A guerra assimétrica – a derrota do vencedor”, 2004).

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