Não consigo emagrecer

Fotografias da série “Wait Watchers”, de Haley Morris-Cafiero, chefe do Departamento de Fotografia do Memphis College of Arts, em exposição na galeria Hyde, em Memphis. Ela tem problemas para controlar seu próprio peso. Observe as reações das pessoas ao se depararem com a fotógrafa:

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“For my series, Wait Watchers, I set up a camera in a heavy-traffic, public area and take hundreds of photographs as I perform mundane, everyday tasks as people pass by me. I then examine the images to see if any of the passersby had a critical or questioning element in their face or in their body language. I consider my photographs a social experiment and I travel the world in an attempt to photograph the reactions of a diverse pool of passersby.”

João Pereira Coutinho escreveu um artigo intitulado “Este é meu corpo”, em coluna na Ilustrada da Folha de São Paulo, edição de Junho de 2012, sobre imagem corporal. Em linhas gerais, o autor destacava que, durante muitos anos, para a civilização judaico-cristã, a função do corpo era abrigar a alma, e seria despropositado – relevando-se a perspectiva infinita de tal horizonte – atribuir a ele consideração adicional a seu estatuto de algo perecível e secundário, ao contrário da maneira histérica com que é visto hoje. Atribuir tamanha importância ao corpo decorreria de uma “desdivinização” do mundo: se não há nenhuma continuidade pós-terrena, se a vida se resume no materialismo imediato – porque restrito ao alcance de até onde nossos olhos podem enxergar –, logo, é a matéria que passa a ser endeusada.

Concordo com Coutinho de que erram aqueles que

“acreditam que a insatisfação com o corpo tem origem nas imagens de perfeição irreal que a moda ou o cinema cultivam. O clichê de um clichê. Erro crasso. Essas imagens de perfeição irreal são apenas a consequência, e não a causa, de uma cultura que concedeu ao corpo uma fatídica importância.”

Gostaria de ir um pouco mais além. Somos herdeiros do racionalismo que, desde o Renascimento, colocou o homem no centro do Universo; corroborado pelo desenvolvimento científico progressivamente acelerado desde então, acreditamos que a realidade poderá ser codificada por uma equação matemática que possa explicar tudo (“a teoria unificada”). Entretanto, ao contrário daquela frase de Millôr Fernandes (“Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado”), tornamo-nos, ao longo dos anos, falastrões e confiantes, excessivamente confiantes. A razão tornou-se o “totalitarismo moderno” (Olavo de Carvalho), pois sustenta que podemos tudo, se soubermos tudo, e saber tudo é meramente questão de tempo.

Em “A democracia na América”, de Alexis de Tocquevile, publicada entre 1835 e 1848, lemos:

“Perto ainda, vejo outros (homens) que, em nome do progresso, se esforçam por materializar o homem, que querem encontrar o útil sem se ocupar com o que é justo, a ciência longe das crenças, o bem-estar separado da virtude: estes são os que se dizem campeões da civilização moderna, que se colocam arrogantemente à dianteira, usurpando um lugar que é abandonado a eles e do qual a sua própria indignidade os repele.”

Essa excessiva confiança depositada na razão gerou, em pólos extremos, duas reações distintas: uma de reforço – o ateísmo militante, o fanatismo racionalista e seu comportamento infantilizado, incapaz de reconhecer a insuficiência da razão; outra de negação – o fundamentalismo religioso, incapaz de reconhecer, no exercício da razão, um método de exercitar a dúvida. No meio, homens e mulheres vivendo sob o ideário publicitário de autoafirmação permanente, o “Just do it”; que acreditam, dentre outras coisas, na possibilidade de ter controle de suas vidas e de seus corpos, na obrigatoriedade da felicidade, na razão soberana e, principalmente, que infelicidade e contingências não são fatos da vida, mas sinônimos de fracasso – vergonhas que devem ser eliminadas. Basta olhar os títulos dos livros que constam nas listas dos “mais vendidos”: “Sonho grande”, “Eu não consigo emagrecer”, “Só o amor consegue”, “A arte de se respeitar”, “Em busca de um final feliz”, “Desperte o milionário que há em você”, “Os segredos da mente milionária”. A sociedade da aparência (dieta saudável, corpo perfeito, a felicidade) alimenta seus indivíduos com insatisfação permanente; seu gregarismo intolerante instaura uma barreira erigida com  imperativos morais, enviesados progressivamente ao fanatismo, entre os “vencedores” (aqueles que “correm atrás de seu sucesso”) e os “perdedores” (os “gordos”, os “infelizes”) – vistos como fracassados morais.

Nossos valores e nossos papéis não deveriam basear-se em modismos; a razão falha quando não desenvolve o senso crítico. O materialismo destronou divindades, endeusou o corpo; e a razão, onipotente, cegou homens e mulheres, incapazes de reconhecer que a vida se revaloriza naquilo que se perde.

“O que alimenta a busca da saúde total é a velha e feia ganância como qualidade de caráter” (Luiz Felipe Pondé, “Contra um mundo melhor”).

Tentar controlar a vida é, na realidade, negá-la.

Comecei mencionando Coutinho, encerro citando-o:

“Se a medicina oferece tratamentos radicais para doenças graves e prováveis, justificam-se esses tratamentos? Responder à questão implica saber primeiro que tipo de probabilidades são essas. E, já agora, que tipo de doenças. Uma hipótese de câncer próxima dos 90% não é o mesmo que uma hipótese mais modesta, facilmente quantificada em testes de DNA, para milhares de outras doenças. O problema é que a nossa tradição racionalista (e socrática-platônica) também não se vai contentar com valores mais modestos. No fundo, e para regressar a Sócrates, não se vai contentar que os caprichos da sorte continuem a pairar sobre o nosso direito à felicidade –e à longevidade. Se o paraíso é onde eu estou, também é “direito” e “dever” excluir todas as hipóteses (das mais prováveis às mais remotas) que ameaçam essa felicidade e longevidade. Hoje, os seios. Amanhã, o ovário. Mas por que não eliminar também outros apêndices que, por definição, são vulneráveis à doença, a qualquer doença, em qualquer altura? De órgão em órgão, de doença possível em doença possível, de inquietação crescente em inquietação crescente, a lista é generosa porque o corpo, imperfeito e perecível, não é. Até o dia em que nada mais resta para cortar. Talvez nesse dia os herdeiros de Sócrates descubram com espanto que, afinal, os pré-socráticos tinham alguma razão. E que a única forma de estarmos completamente a salvo do infortúnio é se ficarmos bem mortos e enterrados.”

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