Os encontros de Milan Kundera

Um encontro”, livro escrito por Milan Kundera, foi lançado recentemente no Brasil, pela editora Companhia das letras, com um atraso inexplicável de quatro anos, pois é de 2009. Neste livro, como em seus ensaios anteriores, Milan Kundera faz sua profissão-de-fé na arte, ao tratar dos artistas que o marcaram como homem e como romancista:

“Quando um artista fala de outro, fala sempre (por projeção) de si mesmo”

 Os mesmos escritores (Herman Broch, Robert Musil, Kafka, Cervantes, Rabelais) – neste novo livro ele acrescenta à sua lista  Anatole France, Carlos Fuentes,  Malaparte; os mesmos compositores: Stravinski, Janacek; e os mesmos temas: o romance, a história do romance, o papel da arte no mundo: um mundo falastrão, verborrágico, ocupado cada vez mais em falar de artistas e escarafunchar suas vidas privadas do que em ler seus livros, escutar suas músicas, ver suas pinturas. Quem quer saber de arte ou de romances quando há contas a pagar? Portanto, este é um livro recomendado somente para quem gosta de arte. Em uma de suas colunas, João Pereira Coutinho escreveu:

“Não existe arte, grande arte, sem ordem, grande ordem. Não falo apenas de um mínimo de ordem pessoal, embora isso ajude: escreve-se melhor quando não existe a angústia suplementar de não haver dinheiro para pagar o uísque das crianças. Mas também se escreve melhor quando não existe a angústia suplementar de podermos ser perseguidos, presos ou mortos. Exceções? Sempre houve: casos pungentes de criatividade humana no meio do lodaçal. Mas quem deseja ser essa exceção? Como dizia o estimável Saul Bellow, eu não conheço o Tolstói dos zulus. Ou o Proust do Sudão. Ofensivo, dizem as brigadas politicamente corretas. Pena que não apresentem esse Tolstói ou esse Proust. Sem provas, ofensiva é a inteligência das brigadas.”

Para Kundera, o romance – invenção dos tempos modernos – é forma privilegiada de arte. Como uma sonda da existência, teria a função de apreender suas (infinitas) possibilidades e fazer nos ver o que somos e do que somos capazes; em lugar de representar fielmente a realidade – pecado recorrente de escritores contemporâneos, que enchem seus livros de descrições detalhistas que só aborrecem a leitura –, iluminar seus aspectos esquecidos, escondidos.

“Descobrir o que somente um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral.” (A arte do romance, 1986).  

A sabedoria do romance é a sabedoria da incerteza, a capacidade de tolerar a relatividade das coisas humanas.

“O homem deseja um mundo onde o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, pois existe nele a vontade inata e indomável de julgar antes de compreender” (A arte do romance, 1986).

Em um romance, os personagens não devem ser encarados como pessoas de carne e osso, não são cópias transpostas para o papel de pessoas reais; são seres imaginários, “egos pensantes”, e, ao aproximar-se deles, para compreendê-los, denominá-los, retê-los por pelo menos um instante, o autor tenta apreender sua “problemática existencial, seu código existencial” (A arte do romance, 1986).

“A ambição do romancista não é fazer melhor que seus predecessores, mas ver o que eles não viram, dizer o que eles não disseram” (A cortina, 2005).

O julgamento estético de um romance – de qualquer forma de arte, em geral – não admite verdades absolutas, é uma “aposta que não se fecha na subjetividade, que enfrenta outros julgamentos, pretende ser reconhecida, aspira à objetividade” (A cortina, 2005). Arte necessita de diálogo; o romance perde o sentido se enterrado em si mesmo, e, no entanto, fecha-se em si mesmo quando renega sua tradição – a breve história do romance (que remonta a Boccacio, Cervantes, Rabelais, Sterne, Shakespeare, Joyce, Proust, Kafka, Musil). O romance deslocado para fora da história do romance torna outra coisa, torna-se “logorréia teórica barulhenta” (Um encontro, 2009) cujo interesse consiste em transmitir uma mensagem, uma propaganda: ao refutar sua história, transformando-se em monólogo, a arte basta-se a si mesma, isola-se com seus próprios valores autônomos e impermeáveis a comparações.

A recusa ao diálogo não é apenas uma característica da arte pós-moderna; é uma característica de nosso tempo. Pessoas infantilizadas pipocam em redes sociais cheias de opiniões sobre tudo, com frases de efeito retiradas de algum manual escrito por “palestrante motivacional” (??), cada vez mais interessadas em se fazer ouvir e sem a menor consideração por argumentos diferentes, gritando seus valores e exigindo seus direitos e ofendendo-se quando contrariadas.

“É preciso realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas os muito obtusos podem transformar numa certeza ou numa verdade” (Um encontro, 2009).

Não à toa, vivemos em uma época que desvaloriza os romances:

“A criação do campo imaginário em que o julgamento moral fica suspenso foi uma proeza de imenso valor: somente aí podem desabrochar os personagens romanescos, ou seja os indivíduos concebidos não em função de uma verdade preexistente, como exemplos do bem e do mal, ou como representações objetivas que se confrontam, mas como seres autônomos fundamentados em sua própria moral, em suas próprias leis. A sociedade ocidental criou o hábito de se apresentar como a dos direitos do homem; mas antes que um homem possa ter direitos, ele deve constituir-se como indivíduo, considerar-se como tal; isso não poderia ter acontecido sem uma longa prática das artes europeias e especialmente do romance, que ensina o leitor a ter curiosidade pelo outro e a tentar compreender as verdades que diferem das suas” (Os testamentos traídos, 1993).

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