A paródia de Quentin Tarantino

Durante a década de 60, paralelamente à decadência do faroeste norte-americano frente a seu público, releituras cinematográficas passaram a ser realizadas em território europeu, especialmente na Itália, e que se destacaram com o título de “spaghetti-western”, cuja pedra fundamental foi a trilogia dos dólares de Sergio Leone (iniciada com “Por um punhado de dólares”, em 1964). Do ponto de vista estético, o spaghetti-western caracterizou-se por: direção de arte de ênfase realista (cenários velhos, paleta de cores gastas e figurinos esfarrapados); composições visuais que contrastavam close-ups extremos de rostos humanos com tomadas panorâmicas, em grandes planos, de um velho-oeste empoeirado e sujo; uso frequente do zoom para ênfase dramática; música de tom satírico ou grandiloquente, arranjada com instrumentos incomuns para a época (guitarra elétrica, gaita, sinos); efeitos sonoros exagerados, com ruídos naturais amplificados (Fábio Ferreira, “A trilogia dos dólares de Sergio Leone”, 2010; Rodrigo Carreiro, “Do desprezo à glória: o spaghetti-western na cultura midiática, 2009). Com suas inovações estilísticas, os filmes de Leone reinventaram a mitologia do western. Assim como o spaghetti-western é uma paródia do faroeste como gênero clássico, “Django livre” (“Django unchained”), de Quentin Tarantino, é uma paródia do faroeste espaghetti. Na verdade, “Django livre” é uma paródia dos faroestes-espaghetti, do blaxpoitation dos anos 70 (filmes como “Foxy Brown”, “Black Samurai”, “Sweet sweetback´s Badaaass song”) e da mitologia nórdica retratada no ciclo de óperas O anel dos Nibelungos, de Wagner. A paródia é a grande marca de Quentin Tarantino. E o que vem a ser uma paródia?

 

O dicionário Houaiss define-a como “obra (literária, teatral, musical, etc.) que imita outra (ou os procedimentos de uma corrente artística) com objetivo jocoso ou satírico”. A definição sugere uma ideia de oposição (na literatura, um texto paródico é um texto que se opõe ao texto original). No entanto, “para”, em grego, quer dizer “ao lado”, sugerindo uma ideia de intimidade, em lugar de contraste. Para Linda Hutcheon (“A theory of parody: the teachings of twentieth-century art forms”,1985), a paródia é elemento fundamental do pós-modernismo; é imitação criativa. Imitação subversiva: quando uma obra parodia outra, em realidade, ela a repete em outro contexto, com consequente alteração de sentidos; requer distância crítica e histórica em relação à obra original. Trata-se, portanto, de “repetição, mas repetição que inclui diferença”. Por afirmar que uma manifestação artística constrói-se pela interação com outras pré-existentes, ao abdicar de pretensões de originalidade de criação, o exercício da paródia questiona a noção de originalidade e o culto de personalidade que envolve o artista. Não por acaso, em uma cena antológica de “Django livre”, o personagem vivido pelo próprio diretor Quentin Tarantino é, literalmente, explodido pelos ares – quando estamos assistindo a um filme de um grande diretor, consciente de sua arte, nenhum detalhe ocorre ao acaso: tudo parece ter o seu lugar e o seu significado. Autoironia, sim. Mas também autoconsciência.

Contextualizados em outra época, os gêneros cinematográficos e suas gramáticas são embaralhados, desvirtuados, e ganham outro sentido: carrascos são punidos por suas vítimas, o protagonista de um faroeste pode ser um negro (muito embora Tarantino não tenha sido o primeiro o empregá-lo); num período escravocrata, um negro torna-se caçador de recompensas e passa a receber para encher de balas os brancos, e, como o anjo do quadro de Paul Klee, pode trazer a vingança aos negros acorrentados; gladiadores-escravos, que nunca existiram historicamente na época retrada, passam a existir. A ficção torna-se o gênero da paródia por excelência. Se tudo é possível, nenhuma convenção politicamente correta resta em pé para contar a história. O cinema torna-se um instrumento redentor da História.

Angelus Novus, de Paul Klee

Angelus Novus, de Paul Klee

Em “Django livre”, acompanhamos um ex-escravo, Django (Jamie Foxx), tornado caçador de recompensas, nos Estados Unidos às vésperas da Guerra Civil, em 1858, sob a tutela do alemão Dr. Schultz (vivido com maestria por Christopher Waltz), que anseia por resgatar sua mulher da posse do fazendeiro Calvin Candie (um magnífico Leonardo DiCaprio). O nome da mulher, Broomhilde Shaft, remete à valquíria (e também a um filme clássico da blaxpoitation, “Shaft”) da mitologia nórdica do século 13, resgatada por seu amante, Siegfried, de uma montanha guardada por um dragão; no filme, o papel de “dragão” de guarda cabe ao escravo Stephen, vivido por Samuel L. Jackson. A intertextualidade aqui mais uma vez: Schultz decide ajudar Django depois de contar a ele a história da mitologia nórdica que inspirou o nome de sua mulher; é a partir dessa história (re)contada que o destino de ambos se define: no instante em que revivem um mito (mitos tem funções de formação de identidades); os gestos de Schultz, ao contá-la para Django, com as mãos projetadas como sombras nas rochas no acampamento em que estão, formam imagens semelhantes às pinturas rupestres que caracterizaram as primeiras manifestações artísticas conhecidas do homem (o cinema, arte de contar histórias através de imagens, em diálogo com os primórdios do cinema, as pinturas rupestres: as formas mais primitivas de contar histórias), fazendo referências à alegoria da caverna de Platão (na qual homens presos às cavernas conheciam a realidade a partir de sombras projetadas em suas paredes). A paródia não ridiculariza o passado, ele dialoga com ele.

Profundo conhecedor de cinema, Tarantino nos presenteia com seus elementos habituais: uso magistral de trilhas sonoras de outros filmes (principalmente as que Luís Bacalov compôs para Django, de Sergio Corbucci, 1966) e de músicas de estilos variados (não por acaso, o tiroteio final ocorre ao som de hip-hop, considerado gênero por excelência da cultura negra norte-americana); violência artificial e exagerada; diálogos precisos; humor; ausência de apelo sentimental ou lirismos (todas as cenas com potencial apelo emocional são interrompidas pelo humor). “Bastardos inglórios” e “Django livre” são seus melhores filmes até agora.

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