A mitologia do Superman

De acordo com o filósofo e historiador de religiões Mircea Eliade, autor de “Mito e realidade” (editora Perspectiva, 1963), a dupla personalidade Clark Kent-Superman

satisfaz as nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se decaído e limitado, sonha revelar-se um dia um personagem excepcional”

explicando assim a popularidade desse herói, um mito moderno. Entre os principais críticos cinematográficos do país não há nenhum comentário, a respeito do filme “Homem de Aço” (Man of steel), em cartaz atualmente, que mencione a reconstrução dessa mitologia, feita pelo Christopher Nolan – autor e diretor da trilogia “Batman – Cavaleiro das trevas”, e responsável pela história deste Superman e um de seus produtores executivos. “Homem de aço” é um filme que quase chegou a ser um grande filme. Parece coisa de um aluno invulgar, acima da média, que teve uma boa ideia, mas que (ainda?) não dispõe dos recursos necessários para expressá-la.

Não me recordo da fonte exata para citá-la, lembro-me, apenas, de uma asserção a respeito da peculiaridade do “Superman” entre os super-heróis de histórias em quadrinhos: todos os outros são personagens com passado próprio e que, por diversas razões contingenciais, no curso de suas vidas estabeleceram-se como vigilantes combatentes do crime, enquanto que o Superman é o Superman – e Clark Kent é um personagem inventado por ele, sem história, sem passado; é o seu disfarce para viver entre os humanos. Pedro Sette Câmara, a respeito de “Batman – Cavaleiro das trevas”, escreveu que o drama da maioria dos super-heróis decorre do “duplo angélico”, um aspecto “girardiano” de suas personalidades (René Girard, filósofo francês, criador da teoria mimética e do mecanismo da vítima expiatória, autor de “Mentira romântica e verdade romanesca”, “A violência e o sagrado”, entre outros): todos tem uma personalidade relativamente banal e indistinta, maximamente afetada pelo ambiente, por tudo e todos ao redor, e uma personalidade “perfeita”, que afeta a todos sem ser por eles afetada.

A história do filme: antevendo a destruição do planeta Krypton, Jor El (Russel Crowe) envia seu filho recém-nascido (Kar-El) para a Terra, em um foguete espacial, espécie de cesto de Moisés futurista. Adotado por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), Kar-El é transformado em Clark Kent, e passa sua infância e adolescência tentando lidar com tudo aquilo que o faz diferente dos outros – tentando entender quem é. Seus pais – alienígenas e terráqueos – são portadores de uma ética cristalina e inabalável e identificam nele o grande homem que virá a ser. Ambos sentem que, por ser tão “diferente”, sofrerá hostilidades e será incompreendido, devendo, portanto, permanecer nas sombras, até que as circunstâncias adequadas se apresentem e ele esteja pronto para responder à altura. Seu pai Jor-El diz, em certo momento, que, “com o tempo, poderá guiá-los (a nós) em direção ao Sol. Exilado de seu planeta natal, instalado involuntariamente em um mundo que lhe é hostil, imerso em tormenta de dúvidas, portador de uma identidade esfacelada, Clark (Henry Cavill) abandona seu lar e tenta fugir em direção ao esquecimento. Quer anular sua existência ao tentar (em vão) não deixar rastros por onde passa. Sem saber, está em busca de autoconhecimento. Esse exílio voluntário ocorre após a morte do pai adotivo – uma cena pungente, na qual o pai tenta mostrar ao filho, atônito, a grandeza e o sofrimento exigidos pelo sacrifício de tudo o que se preza, do que se considera importante, em prol de algo maior. Seria fácil, a partir de agora, descrever o filme nos termos da “saga do herói” proposta por Joseph Campbell: a trajetória “espiritual” e circular de um personagem que parte em uma jornada para tentar descobrir seu lugar no mundo – por sentir-se deslocado na rotina da sociedade, o que o leva a enfrentar situações inusuais e reveladoras –, e volta modificado, maduro, ciente de si. Prefiro retornar ao romeno Mircea Eliade. Para o filósofo, mitos descrevem irrupções do sagrado no mundo, na realidade cotidiana, e não somente se tornam modelos exemplares de comportamento como os revelam, e por isso são capazes de modificar a condição humana. Elegendo uma virtude como modelo ímpar, sacralizando-a, um mito impõe e salvaguarda princípios morais. Quando o general kryptoniano Zod e seus séquitos aportam na Terra, atrás de Kar-El, procurando por algo que ele guarda – o código genético que permitiria o renascimento de seu extinto planeta de origem – e dispostos a destruir tudo o que estiver à sua frente para obtê-lo, Clark Kent/Kar-El/Superman está pronto: sabe quem é e o que deve fazer; revela-se para o mundo, aos 33 anos de idade, disposto a sacrificar-se para salvá-lo; como bode expiatório, entrega-se às autoridades para que estas o entreguem a Zod. E, ao posicionar-se em favor dos habitantes desta Terra (imperfeita), torna-se capaz de escolhas morais e de suportar as consequências de suas atitudes. Por meio de imagens simbólicas – às vezes reiteradamente repetitivas e que, aliadas a diálogos ocasionalmente pouco inspirados, enfraquecem o filme –, Nolan (reconheço que parte do crédito também se deve ao diretor, Zack Snyder, o mesmo daquele épico kitsch “300”) não deixa dúvidas sobre os referenciais bíblicos utilizados: o paralelismo entre a trajetória de Superman e a de Cristo. Ao retornar à origem da história de Superman, Nolan reconstrói o mito e o transforma em um símbolo de esperança (esse é o significado da letra “S”, em linguagem kryptoniana) num planeta sombrio, de tons de cinza. Em um modelo exemplar, a ser seguido.

Christopher Nolan dirigiu dois filmes excepcionais – “Amnésia” (que trata da elaboração da realidade quando não há memória para prefigurá-la) e “Insônia” (no qual a mancha de um ato imoral atormenta e aprisiona seu protagonista, em meio a uma claridade perpétua) – e dois trambiques pirotécnicos – “A origem” e “O grande truque”. Com a trilogia “Batman – Cavaleiro das trevas”, atribuiu uma grandiosidade filosófica incomum ao gênero de filmes de heróis de quadrinhos que se distancia muito da estupidez reinante em “Os Vingadores”, “Homem de Ferro”, “O espetacular homem-aranha”, “Capitão América”, “Incrível Hulk” e por aí afora. É afeito a personagens em conflitos e dilemas morais. No entanto, nos quarenta e cinco minutos finais de “Homem de aço”, a falta de sutileza, latente até então, aflora torrencialmente, e a história se transforma em um épico de destruição típico de videogame, a fim de contentar plateias ansiosas por frenesi, barulho e efeitos especiais. É aqui que o filme se afasta de suas pretensões de grandeza e se aproxima da grandiosa mediocridade.

 

4 comentários

  1. Sei que os caras que escreveram o herói penaram uma porção de tempo (coisa de herói mesmo) até que alguém topasse (a US 10 a página) publicar o super homem. Os autores foram demitidos depois do sucesso, já que se tornaram caros. Com o primeiro filme (e eles velhitos), finalmente os caras tiveram algum (mas algum) lucro. Como vejo, os super (todos) são um desejo de termos algo de superior, um lado indestrutítvel e (principalmente para os moradores das periferias) à prova de balas.

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  2. Excelente texto!

    Venho convencendo-me faz um tempo que, na arte, a forma é quem segura na munheca a grandeza. Por exemplo, tendo os romances do Dickens alguns problemas de continuidade, como ensinou Carpeaux, e tendo ao mesmo tempo posse das atmosferas* nascidas da poderosa imaginação do inglês, a estrutura da narrativa – como todas aquelas maravilhosas personagens se portam diante de si mesmas e da realidade, e como esta é descrita – sobressai-se de modo formidável e, hey presto!, temos alguns clássicos para ler. De forma semelhante tentei raciocinar o Man of Steel: mesmo a riqueza simbólica do filme** ficando consideravelmente prejudicada pelos saltos pouco suaves da história e por um punhado de diálogos pobres, pirotecnopancadarias deixadas de lado, ela ainda conta pontos suficientes para o filme sair com uma boa nota, em minha irrelevante avaliação – com a ressalva dessa película não ser clássico nenhum.
    Aliás, o Superman como descrito no primeiro parágrafo eu achei num filme do Tarantino (Reservoir Dogs, se não me engano), e está muito mais próximo do Übermensch de Nietzsche, combatido, claramente, no filme: Faora, subordinada de Zod, pergunta ao Superman se ele acha que é superior por ter senso de moralidade, quando exatamente ser “além-do-homem” para o alemão é ultrapassar as barreiras da moral.

    * O primeiro parágrafo de A Tale of Two Cities me causa uma reação quase física
    ** Muito bem descritas no artigo; para mim, é especial a cena em que Jor-El diz ao filho “You can save all of them” e o Superman flutua por um segundo com os braços em cruz antes de voltar à Terra; resume tudo o que o filme, bem ou mal, tentou passar.

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