O efeito Lúcifer

“Digo, por conseguinte, que o mal não é algo, embora aquilo a que sucede ser mau seja algo, uma vez que o mal não priva senão de um bem particular; assim como o ser cego não é algo, ao passo que aquele a que sucede o ser cego é algo”. (“Sobre o mal”, Santo Tomás de Aquino, editora Sétimo selo)

Em “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt escreveu:

“Adolf Eichmann foi para o cadafalso com grande dignidade.(…) Estava perfeitamente controlado. Não, mais do que isso: estava completamente ele mesmo. Nada poderia demonstrá-lo mais convincentemente do que a grotesca tolice de suas últimas palavras. Começou dizendo enfaticamente que era um gottgläubiger, expressando assim da maneira comum dos nazistas que não era cristão e não acreditava na vida depois da morte. E continuou: “ dentro de pouco tempo, senhores, iremo-nos encontrar de novo. Esse é o destino de todos os homens. Viva a Alemanha, via a Argentina, viva a Áustria. Não as esquecerei.” Diante da morte, encontrou o clichê usado na oratória fúnebre. No cadafalso, sua memória lhe aplicou um último golpe: ele estava “animado”, esqueceu-se que aquele era seu próprio funeral. Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou – a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos.”

No começo da década de 60, Stanley Milgram, psicólogo da Universidade de Yale, publicou o seguinte anúncio:

“Pagaremos $4.00 por uma hora de seu tempo. Voluntários para um estudo da memória. Recrutamos 500 homens de New Haven para nos auxiliar a completar um estudo científico sobre memória e aprendizado, na Universidade de Yale. Não há pré-requisitos ou exigências especiais, exceto ter entre 20 e 50 anos e não ser estudante universitário. Queremos trabalhadores, balconistas, pedreiros, funcionários públicos, telefonistas, profissionais liberais.”

296 pessoas responderam ao anúncio – o grupo foi subdivido a fim de realizar o mesmo estudo, com variações. Os testes ocorreram em um elegante laboratório da Universidade de Yale. O pesquisador, um sujeito de 30 e poucos anos, trajava um avental comum, de técnico de laboratório. A “cobaia” do teste era um contador de 47 anos, que havia sido treinado para o papel. Papel? Cobaia? Claro, pois se tratava de uma encenação. Isso tudo foi relatado em “Obedience to authority” (editora Harper Perennial, 1974).

O teste: ao voluntário, explicavam-lhe que os psicólogos haviam desenvolvido inúmeras teorias para explicar como se dá o aprendizado. Uma teoria dizia que as pessoas aprendem as coisas corretamente quando são punidas pelos erros que cometem. O estudo em questão investigaria os efeitos relacionados aos papéis de professores e aprendizes e os da punição sobre o aprendizado. Solicitava-se que o voluntário desempenhasse o papel de “professor”. A “lição” consistiria em ler pares de palavras ao aprendiz (“caixa azul, dia lindo, pato selvagem”, etc.) e, depois, mencionar uma das palavras, associadas com quatro outras: “azul: céu, tinta, caixa, lâmpada”, e o aprendiz deveria indicar qual associação havia sido feita previamente (no caso, “caixa azul”). Se o aprendiz cometesse um erro, ele receberia um choque. Detalhe: durante todo o teste, o aprendiz estaria amarrado a uma cadeira elétrica (o voluntário era conduzido à sala na qual via o aprendiz amarrado – sala contígua à sala na qual o voluntário permaneceria); as amarras serviriam para evitar movimentos excessivos durante os choques, e que parecesse impossível ao aprendiz escapar da situação. Um eletrodo era atado ao punho. Para aumentar a credibilidade, ao voluntário era dito que, apesar de extremamente dolorosos, os choques eram incapazes de causar dano permanente; ele recebia uma amostra do choque para sentir por si mesmo.

Na sala de instruções, onde o voluntário permaneceria, havia um painel com designações de voltagens variando entre 15 a 450 volts (incremento de 15-15 volts) – veja figura abaixo – e com especificações tecnicamente detalhadas. O voluntário era instruído a aplicar um choque a cada resposta incorreta do aprendiz, e após cada aplicação, mover o gerador de choque um nível acima. Começaria com 15 volts. Se o nível alcançado fosse 450 volts, o voluntário era instruído a continuar o procedimento usando a máxima voltagem. Caso o voluntário hesitasse, o pesquisador utilizava palavras de encorajamento hierarquizadas (1º: por favor, prossiga; 2º: o experimento precisa continuar; 3º: é absolutamente essencial que você prossiga; 4º: você não tem outra escolha, precisa continuar). Obviamente, tudo seria encenado, entre o pesquisador e a cobaia: o aparelho não daria choques reais, e a cada aplicação do “falso choque”, administrado pelo voluntário – que acreditava aplicar choques reais – o aprendiz deveria: 75 volts: grunhir; 135 volts: gemer de dor; 150 volts: gritar para parar, dizer que não irá mais participar; 180 volts: gritar que a dor era insuportável; 270 volts: emitir gritos agonizantes; 300 volts: emitir gritos de desespero, dizer que não vai mais responder às perguntas.

Como se comportaram os voluntários, em situação na qual são ordenados a infligir dor a uma vítima, sobretudo a uma vítima em protestos? Em que ponto recusar-se-iam a obedecer ao pesquisador? Qual seria o limiar de voltagem administrada pelos voluntários, antes da recusa em prosseguir com o teste?

Em uma palestra com médicos psiquiatras, estudantes e trabalhadores de classe média, os detalhes do estudo foram mostrados, mas não seus resultados. Eles foram questionados por Milgram: até onde vocês iriam? E por que razões não seguiriam adiante? 110 participantes responderam que desobedeceriam as ordens do pesquisador em algum ponto, alegando empatia, senso de justiça, compaixão, etc. Ou seja, enunciaram conceitos admiráveis e suas ações subsequentes, ignorando outros componentes atuantes em situações sociais; evidenciaram, em suas respostas, que as pessoas gostam de se ver favoravelmente. A esses mesmos entrevistados, perguntou-se como achavam que outras pessoas procederiam, e o resultado foi parecido: responderam que achavam que praticamente todos desobedeceriam ao pesquisador.

Quais os resultados de Milgram? O mesmo teste foi replicado em outro lugar, com centenas de voluntários; foi replicado com 19 variações (colocando o aprendiz em proximidade com o voluntário, com mulheres, permitindo ao voluntário escolher o nível de choque, etc.).

Os resultados estão na figura abaixo:

A maioria (66%) atingiu os 450 volts.

A obediência é uma mudança de perspectiva: ajustes de pensamento permitem que o indivíduo não se sinta responsável por suas ações, mas um “instrumento” para a realização da vontade de outro(s). É a atribuição da responsabilidade à uma autoridade . Quando há um conflito entre a percepção individual (consciência moral) e a norma do grupo social, a resolução passa pela conformidade com o grupo, de modo a reduzir o grau de rejeição. Os trabalhos de Milgram demonstram o poder do contexto, de circunstâncias sociais para influenciar o comportamento individual. Os recursos que facilitariam a resolução da tensão entre consciência moral e uma ação amoral – que prendem os voluntários ao teste em andamento, estabelecem os parâmetros de sua relação com o pesquisador e minimizam o estresse oriundo da experiência resumem-se à dissolução de seu senso de responsabilidade – são os seguintes:

  • Permitir que a ação seja dominada pelo contexto; os voluntários entendem seu comportamento como parte de um contexto benevolente, útil para a sociedade: a busca pela verdade científica; o ambiente do laboratório exerce influência psicológica em seu modo de exalar legitimidade e evocar confiança, de modo que aplicar um choque em uma vítima desprotegida assume um significado “diferente” nesse ambiente;
  • Antropomorfização: atribuir a forças, termos inespecíficos, objetos inanimados e abstrações as qualidades humanas; é como dizer que a culpa é do “SISTEMA”; quando o pesquisador diz que “o experimento exige que você continue”, o voluntário sente-o como um imperativo que vai além de um comando meramente humano; o agente humano (o pesquisador) desaparece do foco, e “O EXPERIMENTO” adquire seu momento próprio;
  • Deslocamento de senso moral: suas preocupações passam a ser quão bem as expectativas que a autoridade tem sobre eles estão sendo cumpridas;
  • Burocratização (“senso de dever”, de um “trabalho a ser cumprido”): é a “banalidade do mal”, mencionado por Hannah Arendt em “Eichaman em Jerusalém”: pessoas comuns alegando que, simplesmente, estão fazendo seus trabalhos, sem quaisquer hostilidades em relação à “outra parte”; é o famoso “se você por mim eu não faria, estava apenas fazendo o que me mandaram fazer”;
  • Absorção dos aspectos “técnicos” da tarefa a ser executada (por isso a preocupação em fazer do laboratório um ambiente asséptico, cheio de aparelhos com inúmeras inscrições bastante detalhadas; a preocupação com as vestes do pesquisador, etc.), estreitando o foco das consequências de suas ações e delegando a avaliação moral e os objetivos à autoridade a qual ele serve;
  • Desvalorização da vítima; após o ato contra as vítimas, os voluntários encaram-nas como indignas, desprezíveis, cuja punição tornaram-se inevitáveis devido suas deficiências intelectuais e de caráter;
  • Incapacidade de transformar crenças e valores em ações (“resistência intelectual”)
  • Inibições culturais na desobediência às autoridades: manutenção, na vida adulta, da mentalidade pré-escolar de obediência às regras de não fazer nada até que o(a) professor(a) permitir e ordenar;
  • Fragmentação da ação humana (difusão de responsabilidade); psicologicamente, ignorar a responsabilidade é mais fácil quando o indivíduo se vê como elo intermediário de uma cadeia de ação, portanto, distante das consequências dessa ação;

Comportamentos impensáveis em um indivíduo agindo por conta própria podem ser executados sem titubeios quando realizados em obediência a ordens. O desaparecimento do senso de responsabilidade é a principal consequência da submissão. E poucas pessoas têm os recursos intelectuais necessários para desobedecer a uma autoridade – ser capaz de pensar por conta própria é um dos pré-requisitos. Construir para si valores morais sólidos é outro.

A difusão de responsabilidade foi estudada por Bibb Latané e John M. Darley em The unresponsive bystander: why doesn´t he help?”, editora Prentice-Hall, 1970). Em 1964, Kitty Genovese, uma mulher de 29 anos, voltava para casa depois do trabalho, às três horas da manhã, quando foi esfaqueada 17 vezes, sob o testemunho inerte de 38 espectadores (nenhum chamou a polícia ou se prontificou a ajudar), por um maníaco em uma rua tranquila no bairro de Queens, Nova York, durante 30 minutos; por diversas vezes, o assassino ia e voltava para completar seu serviço – os gritos da moça acordavam os vizinhos, que acendiam suas luzes e abriam as janelas e pediam para “deixar a mulher em paz”, o que fazia com que o homem recuasse.

“Quando apenas um espectador presencia uma situação emergencial, se houver necessidade de ajuda caberá somente a ele ajudar. A situação não é tão clara quando uma multidão está presente. A responsabilidade pela intervenção difunde-se entre os presentes”.

Conforme escrevi em post anterior, um espectador em uma multidão sabe que outros irão vê-lo e julgá-lo e ele também poderá ver e julgar as ações alheias; como situações supostamente emergenciais dependem da interpretação de quem assim as julga, cada espectador irá mirar-se nos outros a fim de obter ajuda quanto ao que fazer ou como se comportar. Obtemos informações valiosas sobre situações novas – especialmente diante de ambiguidades, pois nos proporciona medo e insegurança – olhando o comportamento de nossos semelhantes ao nosso redor. O número de pessoas presentes em uma situação de emergência desempenha efeitos significativos sobre a decisão individual de agir. Constituir parte de um grupo observador passivo implica que, se houver outros disponíveis, haverá menos pressão para iniciar a ação do que haveria se o indivíduo estivesse sozinho; e cada pessoa pode se sentir menos responsável para auxiliar a vítima. Se estiver sozinho, a culpa por não agir (e a vergonha subsequente, se o desfecho tornar-se público) recairá sobre ele e apenas ele. Na companhia de outros,

“Os dedos da culpa não apontarão diretamente para uma única pessoa”. Cada espectador pode assumir que “alguém está se preparando para agir para por termo à emergência e sua própria intervenção soará redundante ou até mesmo prejudicial; racionalizamos nossa inação nos seguintes termos: alguém já deve estar fazendo alguma coisa para resolver o problema”.

Roy Baumeister, em “Evil – inside human violence and cruelty” (editora Holt paperback, 1997), menciona que o mal requer a ação deliberada de um indivíduo, o sofrimento de outro e a percepção ou o julgamento da vítima e/ou de um observador. Poucas pessoas veem suas ações como más, e dificilmente um ato será classificado como mau se não inflige dano, dor ou sofrimento a alguém. Para ele, há quatro raízes para o mal, associadas às falhas de autocontrole ou nos controles de inibições: desejo de ganhos materiais (dinheiro e poder) – sendo maus os meios utilizados para obtê-los, não a finalidade em si; egocentrismo ameaçado (atos violentos decorreriam de tentativa de reparação à injúria ou impugnação à honra ou ao ego excessivamente inflados, formas de silenciar, intimidar ou punir críticas); idealismo; busca pelo prazer sádico. Em minha opinião, é o mais fraco dos livros sobre o assunto. Não se trata de uma novidade, dado que Santo Tomás de Aquino já havia mencionado, há nove séculos, em “Sobre o mal”:

“Donde vermos que não faz um mal senão quem busca algo que lhe parece um bem, assim como ao adúltero lhe parece um bem desfrutar o que procede de um deleite sensível, e por isso comete adultério. Por isso, não resta senão que o mal não tem uma causa per se”.

Philip Zimbardo, em “O efeito Lúcifer” (editora Record, 2007), responsável pelo experimento prisional de Stanford, em 1971, descreve as transformações de caráter possíveis por fatores situacionais (para além das bases disposicionais), por circunstâncias externas, sociais, que refletem o poder de instituições sobre indivíduos. Recrutou doze, de setenta e cinco voluntários, para um estudo sobre a vida na prisão, dividindo-os aleatoriamente em papéis de “guardas” e “prisioneiros”. Aqueles que foram classificados como “prisioneiros” foram presos por policiais reais e conduzidos ao local que serviria como “prisão”, sem aviso prévio.  Após seis dias, o experimento foi interrompido – os “policiais” apresentavam comportamentos de sadismo, humilhando os “prisioneiros”, os obrigando a tarefas degradantes e os punindo severamente por atos de “indisciplina”. Conforme descrito por Zimbardo:

“Numa manhã tranquila de domingo, em Agosto, em Palo Alto, Califórnia, um carro da polícia irrompeu pela cidade levando estudantes universitários pela violação do artigo 211 do Código Penal, assalto à mão armada, e do artigo 459, do mesmo código, furto. O suspeito era levado de sua casa, acusado, informado dos seus direitos legais, colocado defronte do carro da polícia com os braços e pernas afastados, revistado e algemado, muitas vezes sob o olhar surpreendido e curioso dos vizinhos. O carro chegou à esquadra da polícia, o suspeito foi conduzido para o seu interior, dando formalmente entrada na mesma. Leram-lhe novamente os seus direitos legais. Foram-lhe tiradas as impressões digitais e realizada uma identificação completa. O suspeito foi então conduzido para uma cela onde foi deixado vendado a pensar sobre o seu destino e sobre o que teria feito para estar envolvido naquela trapalhada. O nosso estudo da vida prisional começou, assim, com um grupo normal de indivíduos do sexo masculino, saudáveis, inteligentes e provenientes da classe média. Estes jovens foram divididos de forma aleatória em dois grupos com base no lançamento de uma moeda ao ar. Metade dos indivíduos foi integrada no grupo dos guardas e os restantes no grupo de reclusos. É importante recordar que no início da nossa experiência não existiam diferenças entre os jovens destacados para serem reclusos e os destacados para serem guardas. A nossa prisão foi construída fechando ambas as extremidades de um corredor na cave do edifício do Departamento de Psicologia de Stanford. Este corredor era o “Pátio”, sendo o único local exterior onde era permitido aos reclusos andar, comer ou fazer exercício, exceto ir à casa de banho na extremidade do corredor (o que os reclusos faziam com os olhos vendados de forma a não saberem como sair da prisão). Para criar as celas da prisão, as portas de algumas salas de laboratórios foram retiradas e substituídas com portas especialmente concebidas com barras de aço e números das celas. Numa das extremidades do corredor existia uma pequena abertura através da qual podíamos filmar e gravar os acontecimentos que ocorriam. No corredor do lado oposto às celas existia uma pequena divisão que ficou conhecida como “O Buraco”, uma cela solitária. Era pequena e muito confinante, com cerca de 60 centímetros de largura e 60 centímetros de profundidade, mas suficientemente alta para que um “mau recluso” conseguisse estar de pé. Um sistema de comunicações permitia-nos gravar secretamente o que se passava nas celas para monitorizar o que os reclusos discutiam e também para fazer anúncios públicos aos reclusos. Não existiam janelas ou relógios para avaliar a passagem do tempo, o que levou posteriormente a algumas experiências de distorção temporal. Cada recluso era sistematicamente revistado e despido. Utilizavamos um spray para lhe transmitir a nossa convicção de que ele poderia ter germes ou piolhos. Cada recluso recebia então um uniforme. A parte principal deste uniforme consistia num vestido, ou bata, que cada prisioneiro usava sempre sem roupas interiores. No uniforme, na parte da frente e de trás, encontrava-se o seu número de identificação prisional. Atou-se uma corrente pesada no tornozelo direito de cada recluso, que tinham de usar em todas as circunstâncias. O calçado consistia em sandálias de borracha e cada recluso cobria o cabelo com um gorro feito de uma meia de nylon de senhora. A utilização de números de identificação foi uma forma de fazer com que cada recluso se sentisse anônimo. Cada recluso tinha que ser chamado apenas pelo seu número de identificação e só podia referir-se a si próprio e aos outros reclusos pelo número. O gorro feito de meia de nylon enfiado na cabeça funcionava como substituição do cabelo rapado do recluso. O procedimento que consiste em rapar a o cabelo, que acontece na maioria das prisões e nas forças militares, é concebido, em parte, para diminuir a individualidade, uma vez que algumas pessoas expressam a sua individualidade através do penteado que usam ou do comprimento do seu cabelo. É também uma forma de levar as pessoas a obedecer às ordens arbitrárias e coercivas da instituição. Não foi dada formação específica aos guardas para desempenharem o seu papel. Tinham liberdade, dentro de certos limites, para fazer o que pensassem que fosse necessário para manter a lei e a ordem na prisão e para assegurar o respeito dos reclusos. Os guardas elaboraram as suas próprias regras, que implementaram sob a supervisão do Diretor David Jaffe, um estudante de licenciatura da Universidade de Stanford.

Contudo, foram avisados da potencial seriedade da sua missão e dos possíveis riscos da situação que estavam prestes a enfrentar como sucede, de fato, com os verdadeiros guardas que, de forma voluntária, assumem este trabalho perigoso. Começamos com nove guardas e nove reclusos na nossa prisão. Três guardas trabalhavam num dos três turnos de oito horas, enquanto três reclusos ocupavam cada uma das três celas nuas 24 horas por dia. Os restantes guardas e reclusos da nossa amostra de 24 encontravam-se de prevenção para o caso de serem necessários. As celas eram tão pequenas que existia somente espaço para três casacos em cima dos quais os reclusos dormiam ou se sentavam, sem grande espaço para mais. Às duas e meia da manhã os reclusos foram rudemente acordados por apitos estridentes para a primeira de muitas “contagens”. As contagens serviam o propósito de familiarizar os reclusos com os seus números (as contagens ocorriam várias vezes em cada turno e frequentemente à noite). Mas, mais importante ainda, esses acontecimentos representavam uma oportunidade para os guardas exercerem regularmente controlo sobre os reclusos. Numa primeira fase os reclusos não tinham assumido completamente os seus papéis e não levavam as contagens muito a sério. Estavam ainda a afirmar a sua independência. Os guardas também sentiam que ainda não estavam habituados aos seus novos papéis e não tinham a certeza de como deveriam exercer a autoridade sobre os reclusos. Isto foi o princípio de uma série de confrontações diretas entre os guardas e os reclusos.(…)

(…)Terminei o estudo prematuramente por duas razões. Em primeiro lugar, tínhamos constatado, através de vídeos, um agravamento dos abusos aos reclusos a meio da noite por parte dos guardas quando pensavam que nenhum investigador os estava a observar e que a experiência estava “desligada”. O seu aborrecimento levou-os a abusos mais pornográficos e degradantes dos reclusos. Em segundo lugar, Christina Maslach, uma recém-doutorada de Stanford, que tinha sido convidada a realizar entrevistas a guardas e reclusos, opôs-se fortemente quando viu os nossos reclusos serem conduzidos para a casa de banho, com sacos enfiados nas cabeças, pernas acorrentadas, com as mãos nos ombros uns dos outros. Cheia de indignação, afirmou: “O que vocês estão a fazer a estes rapazes é terrível!” No meio de 50 ou mais indivíduos externos que viram a nossa prisão ela foi a única que questionou o seu estatuto moral. Contudo, após a sua chamada de atenção para o efeito poderoso da situação, ficou claro que o estudo deveria terminar. E assim, após apenas seis dias, a nossa simulação de prisão, que deveria durar duas semanas, foi cancelada.”

Há um filme livremente inspirado no experimento de Stanford, chamado “A detenção“:

Para Zimbardo, os processos sociais que levam à escalada do mal, e cujas engrenagens são mais facilmente acionadas quando as pessoas estão em uma situação nova, não familiar (ou ambíguas – situações nas quais os padrões de respostas e a moralidade estão desfocados) são:

  • Anonimato (pela desindividualização – obtido pelo uso de máscaras, com rostos pintados, no êxtase coletivo em festividades, ou meramente pelo modo de tratamento do indivíduo com indiferença, em que sua identidade pessoal é ignorada – reduz-se a sensação de responsabilidade pessoal);
  • Necessidade de aceitação social, senso de pertencer a um grupo, por necessidades de informação (outras pessoas tem ideias, perspectivas e conhecimentos que nos permitem navegar melhor em nosso mundo) ou por necessidades normativas (outras pessoas estão mais aptas a nos aceitar quando concordamos com elas e, por conseguinte, nos prendemos às suas visões de mundo para substituir diferenças por semelhanças)
  • desumanização do outro
  •  difusão de responsabilidade pessoal
  •  obediência cega à autoridade
  •  conformismo não-crítico às regras do grupo
  • tolerância passiva ao mal pela indiferença ou inação
  • desligamento moral ocasionado: – pela criação de justificativas morais para determinadas ações, de comparações vantajosas que contrastam nossos comportamentos com os de nossos “inimigos” (nós torturamos, eles degolam); – reconstruindo nossas percepções das vítimas como merecedoras de punição

De fato, o mal desafia “as palavras e os pensamentos”. A questão sobre o mal ainda não se esgotou, mesmo após décadas de estudos que tentaram abordá-lo sob os mais diversos ângulos. Em “Anything goes”, a respeito do austríaco Josef Fritzl, que aprisionou sua filha no porão por mais de 20 anos, estuprando-a repetidamente, Theodore Dalrymple escreveu sobre nossa incapacidade de compreensão plena da natureza humana:

“Acredito que o único modo honesto de viver é com senso de mistério. Não que nenhuma explicação específica me satisfaça, não posso conceber como seria uma explicação inteiramente satisfatória sobre nós (…). Um caso como o de Fritzl nos confronta com uma questão da seguinte forma: em que ponto somos capazes de dizer a nós mesmos, “ah, agora compreendemos, realmente compreendemos as razões pelas quais ele se comportou daquele jeito”. Quanto de sua base genética, de sua história pregressa, de sua neuroanatomia e neuroquímica, de sua posição social, sua herança cultural, necessitaremos saber antes de dizermos que já não há nenhum mistério para nós? Acho que a resposta é óbvia. Nunca atingiremos esse patamar. Nossa compreensão de nós mesmos permanecerá amplamente na periferia de nossas vidas. Seremos capazes de feitos tecnológicos miraculosos, mas jamais compreenderemos nossa subjetividade, ou seremos aptos a ligá-la conceitualmente às bases físicas de nosso ser. Quando Hamlet diz a Guildenstern: “Pois veja só que coisa mais insignificante você me considera! Em mim você quer tocar; pretende conhecer demais os meus registros; pensa poder dedilhar o coração do meu mistério”, ele estava, na verdade, falando para toda humanidade. Somos todo mistério para nós mesmos e para outros, e assim permaneceremos.”

Essas dificuldades não podem, entretanto, paralisar-nos em busca de uma compreensão – ainda que parcial, mesmo que imperfeita. Conhecendo nossas limitações, o esforço deve ser redobrado. Chesterton, em “O que há de errado com o mundo”, escreveu:

“Enquanto Roma arde em chamas, é errado tocar violino; mas é correto estudar teoria hidráulica”.

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