Reprodução

Em texto para o jornal “O Estado de São Paulo” a respeito dos melhores lançamentos literários nacionais de determinado ano, Daniel Piza escreveu: quando Bernardo Carvalho não lançava livro, pouco havia o que comentar. Eu costumava subscrevê-lo. Bernardo Carvalho é um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Não que eu seja um especialista em escritores contemporâneos brasileiros. É aborrecido demais acompanhar a chamada “cena literária” da atualidade. As novas promessas da literatura brasileira duplicam da noite para o dia, e há mais promessas  do que há leitores. Leitores de livros minguam dia após dia: abandonaram o sensacional e inclassificável novo romance da nova promessa da literatura brasileira em prol do Domingão do Faustão.

Eis que Bernardo Carvalho lançou, em Setembro de 2013, “Reprodução”. Foi o acontecimento literário do ano: o lançamento do romance mais chato de 2013. Como? Não, escrevi errado: o livro mais chato e enfadonho de 2013 e 2014 – isso se Chico Buarque não escrever nenhum romance até 2014.

O primeiro livro de Bernardo Carvalho que li foi “Onze” (1995), em 1997. Na sequência, li “Aberração” (1993), “Os bêbados e os sonâmbulos” (1996), “Teatro” (1999), “As iniciais” (1999), “Medo de Sade” (2000), “Nove noites” (2002), “Mongólia” (2003). Livrões. Aguardava seus livros com ansiedade e sua periodicidade denotava criatividade em pleno vapor. Depois de um hiato de quatro anos, vieram “O sol se põe em São Paulo” (2007) e “O filho da mãe” (2009). O que havia acontecido? O declínio parecia apontar para este “Reprodução”.

Os primeiros parágrafos de Bernardo Carvalho envolvem o leitor em sua armadilha literária e você não consegue largar o livro, até o fim:

1) “Os bêbados e os sonâmbulos”:

“Quando nos acidentes há uma testemunha, alguém que estava passando no local e foi surpreendido pelo acidente, essa pessoa tem uma função e seu testemunho não serve apenas para fins legais ou jornalísticos, mas para alguma outra coisa que eu nunca soube bem o quê, e foi ainda no meio desse raciocínio confuso e inacabado que decidi procurar a mulher que tinha sido entrevistada pelos jornais da época.

Há cinco anos, quando tiraram o tumor da cabeça da minha mãe, também havia uma terceira pessoa. Na noite da operação, quando o médico me chamou, tocou o interfone no hall do hospital vazio, às cinco da manhã, onde eu tinha ficado no escuro, esperando com o Sergio, um amigo dela, e a Ivone, que tinha acabado de chegar de Nova York, havia uma terceira pessoa.”

2) “Teatro”:

“A primeira vez que me tomaram a mão para ler, e isso sem que eu quisesse, de repente, sem que esperasse – e sem poder reagir também, sob o risco de parecer grosseiro –, foi numa daquelas festas, e eu ri, ri muito, estourei de rir, quando a mulher, a quem eu realmente não dava o menor crédito, me disse que havia um corte na linha da vida, um momento em que eu me tornaria um terrorista ou coisa que o valha, entraria para a clandestinidade, enfim, que desapareceria, pelo menos da maneira como tinha vivido até então, e isso seria lá pelos cinquenta ou sessenta, o que parecia pouco verossímil e provável, e foi quando eu parei de rir e lhe perguntei se aquilo, aquele corte, não podia significar também a morte e ela disse que sim.”

3) “Medo de Sade”:

“Não há uma luz sequer em lugar nenhum. É normal que o barão de LaChafoi, do alto dos seus quarenta e poucos anos bem vividos, não veja ninguém ao abrir os olhos. Não entende por que foi parar ali. Jogaram-no dentro do que lhe pareceu, até onde pôde aferir pelo tato, uma cela de pedra, e bateram a porta. Tudo começou quando, uma semana antes, acordou de uma noite de devassidão e excessos, dos quais infelizmente não tinha a menor lembrança, com os gritos dos guardas que o cercavam pela manhã, sob impropérios e acusações. Mal se lembrava de onde estava – e nada do que havia acontecido nas últimas horas. Alguém tinha sido assassinado.(…)

Quis acreditar que ainda estivesse de olhos fechados e tentou abri-los de novo. Como se já não estivessem bem abertos, arregalou-os. Continuava sem ver um palmo adiante do nariz. “Quem está aí?”, exclamou ao mesmo tempo que ia se encolhendo contra a parede, de medo. Mas a voz apenas lhe respondeu: “Se eu lhe disser o meu nome, é capaz de você não suportar mais a escuridão, nem a  minha presença.”

4) “Nove noites”:

“Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá de preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não tem mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de Agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo e de uma violência assustadora. Que se maltratou, a despeito das súplicas dos dois índios que o acompanhavam na sua última jornada de volta da aldeia para Carolina e que fugiram apavorados diante do horror e do sangue. Que se cortou e se enforcou. Que deixou cartas impressionantes mas que nada explicam. Que foi chamado de infeliz e tresloucado em relatos que eu mesmo tive a infelicidade de ajudar a redigir para evitar o inquérito. Passei anos à sua espera, seja você quem for, contando apenas com o que eu sabia e mais ninguém, mas já não posso contar com a sorte e deixar desaparecer comigo o que confiei à memória. Também não posso confiar a mãos alheias o que lhe pertence e durante todos esses anos de tristezas e desilusões guardei a sete chaves, à sua espera. Me perdoe. Não posso me arriscar. Já não estou em condições ou idade de desafiar a morte. Amanhã pego a balsa de volta para Carolina. Mas antes deixo este testamento para quando você vier e deparar com a incerteza mais absoluta.”

A narrativa de Bernardo Carvalho poderia ser descrita como diabólica: seus narradores não são confiáveis; seus personagens mudam de gênero ou de nome; há duplicidades nos relatos que distorcem ou corrigem o que fora narrado previamente. Carvalho enreda o leitor em um labirinto de incertezas e dúvidas, capaz de dissolver identidades e de atribuir a um mesmo gesto ou ato significados distintos; o leitor vê-se destituído de suas hipóteses, elaboradas para dar sentido ao que lê: Carvalho constrói uma realidade precária constituída por certezas flutuantes, provisórias.

E eis que temos…”Reprodução” (2013):

“Tudo começa quando o estudante de chinês decide aprender chinês”

O tom inicial é de fábula, enredo no qual, por imitação de ações, há interesse satírico ou pedagógico (Massaud Moisés); o tom estabelece a intenção: o romance (mal) disfarça uma finalidade moralista: Carvalho quer falar sobre o mundo contemporâneo; quis criar um romance que transparecesse sua visão acerca do mundo contemporâneo.  A trama: estudante de chinês, pretendendo viajar para Xangai, na fila do aeroporto reencontra sua antiga professora de chinês; mal tem tempo de lhe dirigir a palavra, ambos são retirados da fila por agentes policiais e conduzidos à delegacia local; tem início um dos monólogos mais chatos da literatura recente, em que o estudante de chinês se põe a depor. Na segunda parte, o estuda escuta uma conversa – na verdade, outro monólogo – entre seu interrogador e outra colega policial. Na terceira, última e aborrecida parte, novamente temos o monólogo do estudante de chinês e as resoluções dos mistérios (??) que surgiram nas partes anteriores.

O personagem “estudante de chinês” representaria, esquematicamente, o usuário de Internet anônimo, frequentador de redes sociais, leitor e comentarista de blogs, saturado por excesso de informações superficiais, inculto e racista. Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, Carvalho explicita quem é seu personagem:

“(Na Internet) Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato. Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet. No livro há uma frase do [filósofo espanhol] Ortega y Gasset: “Todo povo cala uma coisa para poder dizer outra. Porque tudo seria indizível”. O personagem tem a informação absoluta, mas nada do que ele diz quer dizer muito. Não adianta você saber um monte de coisas, ser informado na superficialidade midiática sem uma compreensão do mundo. Você só reproduz, não consegue mais produzir.”

 “Isso resume várias pessoas. É uma grosseria de pensamento, gente que fala como se falasse com crianças. O problema não é ser colunista de direita, é o tipo de argumento primário e fácil de ser derrubado.”

“O livro não é jornalístico, não está atado ao presente. Poderia falar de Dirceu, Mensalão, mas o central para mim hoje são os evangélicos, a religião interferindo no poder, e isso é o cerne do livro.”

Se Carvalho tivesse escrito um livro de ensaios, suas ideias teriam espaço mais adequado, embora ainda permanecessem frouxas. Mas não, Carvalho optou por ficcionalizá-las em um fiapo de história. Neste “Reprodução”, a história é o que menos importa: o autor – à semelhança do anônimo inculto – quer discursar, o que resulta em passagens pretensamente humorísticas, como esta:

“E, em alguns meses, depois de coletar, numa pequena caderneta, os telefones de todos os alunos da escola que passaram por suas classes e aos quais poderia oferecer seus serviços sem a necessidade de intermediários, pediu as contas, ludibriando a diretora, que era quem a rigor devia explorar e ludibriar os empregados”,

em que há uma inversão de papéis dos protagonistas da “luta de classes” – ou esta outra, em que faz referência à professora de chinês, incapaz de se expressar adequadamente na língua que ensina (“Falava uma língua ainda mais incompreensível que a das professoras anteriores. Um chinês que não correspondia nem mesmo à transliteração oficial do pinyin…”).

A intenção de criticar o internauta anônimo vituperador inculto  (obviamente associando-o aos “colunistas de direita”; a esquerda é sacrossanta, como sói nestas nossas terras brasiliensis) resulta em monólogos repetitivos e exaustivos, como se os personagens estivessem falando ao telefone:

“Eu sempre escrevo pra seção de cartas do leitor. Eu também tenho um blog. Estou no Facebook. Tenho muita opinião. E seguidores. O endereço é fácil. Não quer? Tudo bem, não quer, não precisa anotar. Tenho milhares de amigos e seguidores. Mais um, menos um, pra mim tanto faz. Mas vou dar minha opinião mesmo assim. É meu direito de cidadão. Estamos numa democracia. Ou não estamos? Me diga. Não, faço questão.”

A alegoria de Carvalho é rasa: um estudante de chinês acredita ter algo a dizer, incompreendido em sua língua nativa, imagina que apenas outra língua, estranha e distante, poderá dar conta de sua sapiência vultosa; descoberta a língua na qual é possível expressar tudo o que tem a dizer, torna-se um falante desenfreado (e podemos, aqui, imaginar Carvalho piscando o olho aos leitores, como se dissesse: vejam a alegoria do internauta que descobre seus pares, os “colunistas de direita” provavelmente, ou os evangélicos, e, assegurado seu anonimato em meio à multidão de iguais, torna-se odioso, racista, desatando a escrever ou a falar o tempo todo, sempre).

Carvalho aborrece-se com grupos organizados politicamente, eleitos pelo voto livre, interferindo no poder, como explica na entrevista à Folha de São Paulo? Quer se contrapor à bancada dos evangélicos (ou dos ruralistas, ou dos anões)? Que monte o partido dos escritores com ideias fora do lugar e tente eleger-se. Assim, talvez, voltasse a escrever bons romances e deixasse os discursos monótonos para a Assembleia constituinte.

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