A maçã envenenada

Trecho de “Coração tão branco”, de Javier Marías:

“Os passos que você dá uma noite ao acaso e inconsequentemente acabam levando a uma situação irremediável ao cabo do tempo ou do futuro abstrato e, ante essa situação chegada, nos perguntamos às vezes com incrédula ilusão: E se não tivesse entrado naquele bar? E se não tivesse ido àquela festa? E se não tivesse aceitado o trabalho naquela segunda? Perguntamo-nos essas coisas ingenuamente, acreditando um instante (mas só um instante) que nesse caso não teríamos conhecido Luísa e não estaríamos à beira de uma situação irremediável e lógica, que justamente por sê-lo já não podemos saber se queremos ou se nos aterra, não podemos saber se queremos o que nos pareceu que queríamos até hoje mesmo. Mas sempre conhecemos Luísa, é ingênuo perguntar-se o que quer que seja porque tudo é assim, nascer depende de um movimento casual, de uma frase pronunciada por um desconhecido no outro canto do mundo, um gesto interpretado, uma mão no ombro e um sussurro que pôde não ser sussurrado. Cada passo dado e cada palavra dita por qualquer pessoa em qualquer circunstância (na hesitação ou na convicção, na sinceridade ou no engano) têm repercussões inimagináveis que afetam quem não nos conhece nem pretende conhecer, quem não nasceu ou ignora que poderá aturar-nos, e se transformam literalmente em caso de vida ou morte, tantas vidas e tantas mortes têm sua enigmática origem no fato de que ninguém adverte nem recorda, na cerveja que decidimos tomar depois de hesitar se teríamos tempo, no bom humor que nos fez mostrar-nos simpáticos com quem acabavam de nos apresentar sem saber que vinha de gritar ou de prejudicar alguém, na torta que paramos para comprar a caminho de um almoço em casa de nossos pais e por fim não compramos, no afã de escutar uma voz ainda que não nos importasse muito o que dissesse, no telefonema que aventuramos para tanto, em nosso desejo de ficar em casa que não cumprimos. Sair, e falar, e fazer, mover-se, olhar e ouvir e ser percebido nos põe em constante risco, nem mesmo fechar-se e calar e ficar quieto nos salva de suas consequências, das situações lógicas e irremediáveis, do que é hoje iminente e era tão inesperado já faz quase um ano, ou faz quatro, ou dez, ou cem, ou até mesmo ontem.”

Em “A maçã envenenada”, Michel Laub nos apresenta um protagonista sem nome, jornalista, que, após entrevistar a escritora tutsi Imaculée Ilibagiza, sobrevivente do genocídio de Ruanda de Abril de 1994, passa a rememorar seu namoro tumultuado com Valéria e os eventos que ocorreram antes e após um show do Nirvana em São Paulo, em 1993. Em 1993 o protagonista cumpria, como parte do serviço militar obrigatório, expediente em um quartel em Porto Alegre e precisava decidir se viajava a São Paulo para assistir ao show com a namorada ou permanecia no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva:

“Eu desliguei o gravador depois da entrevista, agradeci pelo tempo gasto comigo, peguei um táxi na porta do hotel e então cheguei em casa. Eu tomei um copo d´água. Eu tirei os sapatos. Eu apaguei a luz do quarto e resolvi deitar um pouco. Eu tinha vinte e quatro horas para escrever a matéria, ainda havia dados a conferir e a gravação para transcrever, e lembro de ter pensado que o melhor era começar de uma vez e digitar o máximo de blocos de texto para organizar na manhã seguinte e não pensar no que tinha acabado de ver e ouvir, no que aconteceu desde que me despedi de Imaculée, uma sensação que eu não sabia se era por causa dela ou da coincidência de datas ou porque há vinte anos eu quase não pensava a respeito, Ruanda e Londres, 1994 e 1993, Kurt Cobain e o CPOR (Centro de preparação de oficiais da reserva) e Unha e Valéria e como uma conversa tão curta com alguém que eu nunca tinha visto antes era capaz de me afetar daquela maneira.”

“Para mim, Kurt Cobain sempre será o homem que subiu ao palco do Morumbi, em 1993, para o que mais tarde chamaria de o pior show da carreira do Nirvana. Na época eu morava em Porto Alegre, tinha dezoito anos e estava no quartel.”

“Eu evitei dizer a Valéria que não podia garantir a minha ida, que não era improvável estar ausente no momento mais importante da vida dela, sobre o qual ela vinha falando tanto e há tanto tempo, e na fatalidade retrospectiva não seria difícil identificar aí um dos focos de conflito. As noites em que deixei de encontrá-la porque na manhã seguinte tinha de estar cedo no quartel.”

A narrativa em espiral e os efeitos de eventos (históricos ou distantes) sobre vidas particulares aproximam um de meus livros favoritos, “Coração tão branco”, deste livro de Laub, um dos melhores de ficção que li neste ano. Espiral: tentativa de capturar aquilo que não se alcança (em “Assim falou Zaratustra”, Nietzsche escreveu que “tudo o que é reto mente (…) toda verdade é curva”). O ato de narrar, além de evocar o passado, quer reconstruí-lo. Nossas recordações ocorrem sob as sombras de quem achamos que somos no presente. Personalidade e expectativas – crenças, ideias, metas, objetivos – influenciam seletivamente aquilo que recordamos e a perspectiva que temos no presente é capaz de enviesar a forma como enxergamos o passado. Buscamos evidências do passado que indiquem uma estabilidade constante a respeito de nossa identidade. Buscamos estabelecer uma identidade coerente através do tempo e a memória autobiográfica pode servir à sua elaboração, realçando percepções individuais de consistência pessoal ao longo dos anos. As narrativas memorialísticas tentam reconstruir o passado com base nos sentimentos registrados na memória.

Mudanças ao longo do tempo podem fraturar o senso de identidade; a elaboração de narrativas pessoais que as justifiquem ou as expliquem permitiria que os indivíduos ainda se vissem como os mesmos. A forma como narramos nossas histórias a nós mesmos pode minimizar o impacto negativo de traumas passados: se nos concentramos, por exemplo, em como eventos traumáticos pessoais levaram a um crescimento positivo, a ganhos positivos para nossa identidade. Esse modo de narrar pode enfatizar que ocorrências traumáticas do passado permaneceram no passado – distanciando-as, portanto, do presente, ainda que o presente tenha sido delimitado por aquele passado (às vezes tão próximo). Mas e se formos incapazes de encontrar um sentido para determinados eventos? Se não compreendemos totalmente o passado? Se intuirmos que, em certas experiências, há um significado fundador, corroído ou ocultado pelo tempo?

“Na noite em que nos conhecemos Valéria disse, olha que tem perigo de eu gostar, e se eu gostar você está pronto para ir até o final? Para dar adeus ao que foi sua vida até agora? Você está pronto para entregar tudo o que tem, ela perguntava com os dentes brancos, os olhos que ficavam esverdeados na luz, o lábio superior, o lábio inferior, o nariz, o queixo, o pescoço, os braços, a cintura, as pernas, e na fatalidade retrospectiva eu só posso lamentar o que dá para reconstituir daquelas conversas externas, a descrição do cenário, as datas e os fatos objetivos, porque a sensação de estar preso ao poder que a presença física dela exercia é algo hoje que parece tão incompreensível (…)”

“Nos vinte anos posteriores a 1993 eu eventualmente detestei o trabalho, os relacionamentos que não deram certo, e também me senti exausto, doente e vencido, e poderia listar dez ou vinte ou noventa situações em que é tentador pensar que tudo acabou por antecipação, portanto não há mais dor e problemas e estamos apenas cumprindo os últimos atos de uma pantomina comandada por um titereiro que gosta de brincar. É verdade que nem todo mundo nasce com o gene defeituoso que permite ir além desse instante de devaneio, e na sequência você termina o expediente ou o namoro ou o que for preciso, uma pessoa com qualquer outra, achando bom caminhar depois da chuva e sentir o cheiro de grama e tomar sopa e dormir bem quentinho debaixo de um cobertor no dia do aniversário, mas o fato é que esse instante existe e ele pode ser decisivo  para a sorte de quem nasce destinado a se confrontar com ele, e  é por isso que em quarenta anos de vida analisada a única passagem que permanece numa zona de sombras é o período próximo do show do Nirvana.”

Diante do incompreensível ou da ausência de parâmetros para julgar eventos pessoais traumáticos – que seriam marcos na organização de uma trajetória individual – o narrador tenta, em vão, perscrutar e entender o significado de outros acontecimentos coincidentes e cuja hierarquização – se comparados com eventos ocorridos no âmbito das intimidades – talvez permitisse definir-se e reconhecer-se em sua própria experiência. Em abril de 1994, dois episódios históricos e assimétricos, porém coincidentes, ocorreram: o suicídio de Kurt Cobain (alguém que tinha fama, dinheiro, glória e família e desistiu de tudo), vocalista da banda Nirvana e a deflagração do genocídio em Ruanda, período em que a tutsi Immaculée Ilibagiza teve sua família assassinada por hútus, sendo obrigada a passar 90 dias escondida em um banheiro de um metro quadrado na companhia de outras sete mulheres (alguém que perdera tudo e optou por sobreviver a todo custo).

“(…) o que a tragédia dessa pessoa hoje resumida a algumas dezenas de fotografias e registros de shows e gravações de estúdio, assim como a tragédia desta mulher de Ruanda e tantas outras tragédias das quais esqueci ou nunca soube, me ensina sobre a tragédia que me interessa de fato e desde sempre?”

No seu “Dicionário de termos literários” (1974), Massaud Moisés escreveu sobre narrativas memorialísticas:

“a veracidade que possam ter é menos documental que vivencial: o subjetivismo, congenial às modalidades autobiográficas vizinhas (autobiografias, confissões, diários), alcança neste caso suma intensidade (…)”.

O subjetivismo é imperfeito e é com essa incapacidade de compreensão plena que o protagonista se depara quando tenta entender o bilhete suicida de Kurt Cobain e os escritos e as palestras de Imaculée: são todas narrações em primeira pessoa que posicionam o foco sobre as emoções relacionadas ao evento que dizem respeito, mais do que sobre suas circunstâncias objetivas; sobre como algo foi dito ou recordado, mais do que sobre o assunto em si. E embora o protagonista divise essa distorção enviesada do subjetivismo sobre eventos alheios a si mesmo, escapa-lhe quando tenta decifrar sua própria vida:

“(…) e na fatalidade retrospectiva eu só posso lamentar o que dá para reconstituir daquelas conversas externas, a descrição do cenário, as datas e os fatos objetivos, porque a sensação de estar preso ao poder que a presença física dela exercia é algo hoje que parece tão incompreensível (…)”

No dia de seu aniversário, dois meses após o show do Nirvana, o protagonista recebe um cartão de Valéria – que havia sido postado na sexta-feira, dia do show, com entrega agendada para aquela data futura. Nele está traduzida  parte da letra da música “Drain you”, do Nirvana:

“um bebê diz para o outro / que sorte tem encontrado você / eu não me importo com o que você pensa / a não ser que seja sobre mim / com olhos dilatados eu / me tornei seu pupilo / você me ensinou tudo ao me dar / a maça envenenada.”

A letra original diz: “you´ve taught me everything / without a poison apple” (“você me ensinou tudo sem uma maçã envenenada”).

Seria o erro proposital? Ou o cartão adquiriu significado pelo tempo que passou?

Como em “Coração tão branco“, o presente, sob a luz do passado, prefigura-se como destino decorrente de ações aleatórias cujo peso não pode ser devidamente antevisto:

“o acidente aconteceu por causa da bebida, a viagem a Londres por causa do acidente, a mudança de profissão por causa da viagem a Londres, a saída de Porto Alegre por causa da mudança de profissão, e as coisas que fiz e a pessoa que me tornei por causa disso tudo, e o que mais se pode destacar numa biografia iniciada com aqueles oito versos dentro do meu bolso? O momento em que tudo ficou tão claro: os dois meses entre o show do Nirvana e aquela noite, eu me iludindo de que não seria assim, sessenta dias nos quais fingi que Valéria não tinha direito a isso, o último pedido, a prova que ela sempre quis e agora estava ao meu alcance.”

Narrativas memorialísticas tentam ordenar a memória; entretanto, memória (supostamente) ordenada não resulta, necessariamente, em uma história satisfatória ou positiva: para o protagonista do livro, o amadurecimento resultante do confronto com os fatos passados tem, além de um preço, um sabor amargo – o gosto da mordida de uma maçã envenenada.

“E as coisas poderiam terminar ali, Valéria apenas como a primeira namorada que eu perdi de vista. Eu falaria dela no tom resignado de quem comenta uma lista iniciada aos dezoito anos (…) Eu poderia seguir explicando que no final de cada relacionamento se fica triste e se pensa que não há mais forças, mas chega o ponto em que é preciso olhar para frente.(…) Então veio o resto da trade, o sábado, a manhã de domingo, as horas em que eu ainda tinha esperança de me tornar essa pessoa que não poderia mais ser depois que o telefone tocou e atendi e reconheci a voz de Unha e ele tinha uma notícia para me dar.”

“As lembranças de um namoro podem se resumir a pouca coisa, uma viagem, um passeio de bicicleta, a inscrição numa camiseta, os apelidos secretos e as piadas internas feitas de termos que só fazem sentido para duas pessoas, um dicionário de sentimentos e o museu de um período da vida, mas nada disso importa diante do que Valéria significou para mim. Não importa o prato preferido dela. Não importam os filmes que ela gostava de ver. (…) porque é como se essa memória existisse para explicar não mais o passado dela(…) e sim o futuro do lado que sobreviveu: quem eu sou de verdade, a pergunta que me faço desde 1993, as coisas que fiz e as pessoas que encontrei e as decisões tomadas numa existência previsível com uma única exceção.”

 

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