Retrospectiva cinematográfica de 2013

1. Amor pleno, de Terrence Malick: belíssima meditação de Malick sobre o amor: transformar o amor em dever é estratégia, em oposição às oscilações das contingências, em favor da sua permanência. Aquilo que não está fundado sobre o eterno está sujeito a alterar-se em si mesmo e/ou deixar de ser– a transformar-se em outra coisa ou a se esgotar. Inseguro de si, o amor espontâneo coloca-se à prova constantemente e escraviza-se; tornado dever, o amor liberta-se. Tornado dever, o amor deixa de buscar causa ou fruto. Amor pleno: o amor que, como o cinema de Terrence Malick,  busca a transcendência para eternizar-se.

P.S.: recomendo a resenha de Martim Vasquez Cunha sobre o filme.

 

2. A caça, de Thomas Vinterberg: linchamento moral, encampado pelas ideias cretinas de um canalha (Jean Jacques Rousseau) – o paralelo entre a natureza primitiva, bondosa e pura, e a criança, ainda não degenerada pela civilização – de uma população contra um homem inocente. Lucas, vivido pelo magistral Mads Mikkelsen, professor de jardim de infância, é acusado injustamente de pedofilia. Civilidade e irracionalidade caminham de mãos dadas.

 

3. A hora mais escura, de Kathryn Bigelow: e já que falamos de Rousseau, é bom lembrar que somos seus filhotinhos: achamos que a vida é um jardim de infância e todos somos essencialmente bons, o que nos estraga é a civilização – ocidental, obviamente. O filme de Bigelow nos lembra das horas mais escuras dos que combatem uma guerra assimétrica – o terrorismo; das horas escuras – porque solitárias – dos que, responsáveis por seus próprios atos, precisam também lidar com as consequências.

 

4. Bullet to the head, de Walter Hill: retorno de Hill à direção, em filme de ação padrão “anos 80”: dupla que não se bica une forças para combater vilão, com direito a duelo com machadinhas no final. Apesar do roteiro fraco, Hill é o último cineasta macho vivo. Cenas de ação sem câmeras tremendo e sem cortes  a cada dois segundos.

 

5. Amor, de Michael Haneke: os efeitos devastadores da velhice, da crueldade do tempo, da anatomia da debilidade e da demência, da fragilidade da existência, do fim do amor, da ausência que resta sobre os que permanecem.

 

6. 007 – Operação Skyfall, de Sam Mendes: os melhores filmes de 007? Casino Royale, 007 contra Goldfinger, 007 – A serviço secreto de sua majestade e este Skyfall. Autoironias, referências a “Rio Bravo”, de Howard Hawks, ao passado do agente e ao da própria série 007, à passagem do tempo – Bond como uma fênix que renasce envelhecida.

7. Django livre, de Quentin Tarantino: mitologia nórdica, blaxpoitation e faroeste-spaghetti em um filme cujo mecanismo de paródia, em vez de ridicularizar, dialoga com o passado. O cinema como instrumento redentor da História.

 

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