Em busca de sentido

“Ninguém pode esperar que um ser humano viva em completa incerteza e sem limites para suas escolhas: nem o corpo nem tampouco o espírito do homem pode tolerar a variedade infinita”. (Karl Mannheim, “Diagnóstico de nosso tempo”, 1967, Zahar editores).

 

 Em sua coluna (clique aqui) na Folha de São Paulo de 12 de novembro, a respeito do centenário do nascimento de Albert Camus e sobre o mito de Sísifo, João Pereira Coutinho mencionou o texto do filósofo Richard Taylor, O sentido da vida, publicado no livro Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida”, organizado por Desidério Murcho (Dinalivro, 2009). A leitura me remeteu a Viktor Frankl, uma coisa levou à outra, e dessa leitura saiu a inspiração para escrever o texto abaixo, nesta véspera de 2014 – o que me pareceu bastante propício para tais temas.

Sísifo foi condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra até o cume de uma montanha e, aproximando-se do topo, uma força poderosa a retorna ao ponto de partida, obrigando-o a recomeçar o trabalho para toda a eternidade. Esse mito tornou-se a imagem do trabalho repetitivo, incessante e, acima de tudo, desprovido de sentido: segundo Taylor,

“Não é o fato de os labores de Sísifo continuarem para sempre que os priva de sentido. É antes o que isso implica: que não dão em coisa alguma.” (Sísifo tem uma) “existência destituída de sentido que nunca é redimida – nem sequer pela morte que, ainda que nada mais alcançasse, encerraria pelo menos este ciclo idiota .(…) A labuta repetitiva é a sua vida e a sua realidade, e continua para sempre, sem ter qualquer sentido. Nem com um passo, nem com mil, nem com dez mil consegue Sísifo sequer expiar por pouco que seja o pecado cometido contra os deuses que o conduziu a este destino.”

Para Taylor,

“As vidas de todas as pessoas assemelham-se a uma das subidas de Sísifo ao cimo de seu monte, e cada dia é um dos seus passos. (…) Labutamos para alcançar objetivos, a maior parte deles de importância transitória – na realidade, todos – e, mal alcançamos um, lançamo-nos ao seguinte, como se nunca tivesse existido, sendo o seguinte essencialmente mais do mesmo. (…) A falta de sentido é essencialmente despropósito sem fim. Uma atividade, e mesmo uma atividade longa, prolongada e repetitiva, tem sentido se culminar em algo de significativo, um fim mais ou menos perdurável que se possa considerar ter sido a direção e propósito da atividade. O sentido da vida está no nosso interior, não é atribuído do exterior.”

Há um senso de responsabilidade implícito na ideia de que o sentido está em fazer o que temos de fazer. E é precisamente essa ideia que me levou a pensar em  Viktor Frankl (os trechos escritos por Frankl, abaixo mencionados, foram retirados dos livros: “Sede de sentido”, “A vontade de sentido” e “Em busca de sentido – um psicólogo no campo de concentração”).

 

Viktor Frankl foi professor de neurologia e psiquiatria na Universidade de Viena e fundador da Logoterapia, considerada a terceira escola vienense de psicoterapia (as outras duas são a psicanálise de Freud e a psicologia individual de Adler). Publicou 32 livros e é um autor ainda pouco lido no Brasil. Olavo de Carvalho, em “A mensagem de Viktor Frankl”, texto publicado na extinta revista Bravo! e incluído na coletânea “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”) escreveu:

“Viktor Emil Frankl, nascido em Viena em 26 de Março de 1905 (falecido em 2 de Setembro de 1997), foi grande nas três dimensões em que se pode medir um homem por outro homem: a inteligência, a coragem, o amor ao próximo. Mas foi maior ainda naquela dimensão que só Deus pode medir: na fidelidade ao sentido da existência, à missão do ser humano sobre a Terra. Homem de ciência, neurologista e psiquiatra, não foi o estudo que lhe revelou esse sentido. Foi a temível experiência do campo de concentração. Milhões passaram por essa experiência, mas Frankl não emergiu dela carregado de rancor e amargura. Saiu do inferno de Theresienstadt levando consigo a mais bela mensagem de esperança que a ciência da alma deu aos homens deste século.”

E em texto para a extinta revista Primeira Leitura, de 2005, “Redescobrindo o sentido da vida” (também republicado na coletânea mencionada), Carvalho escreveu:

“A análise existencial de Frankl, a contrapelo do existencialismo de Heidegger e Sartre, que é uma apoteose da paralaxe cognitiva (o hiato entre o eixo da experiência pessoal e o da construção teórica), recupera o dom de raciocinar desde a experiência direta, que ao longo da modernidade foi renegada pelos filósofos e só encontrou refúgio entre os poetas e romancistas.”

Pense o distinto leitor ou a distinta leitora em sua própria hierarquia de valores. Ou sobre como faz suas escolhas. Trata-se de uma via de mão dupla: fazer escolhas depende de uma escala de valores bem definida e o estabelecimento de uma hierarquia de valores depende das escolhas que são feitas. Valorizo algo quando o prefiro em detrimento de outra coisa. Valores existem no ambiente subjetivo – as escolhas que são feitas pelo indivíduo – e ocorrem como normas objetivas, como conselhos, como determinações morais – ou seja, são fixados pela sociedade como reguladores da conduta dos homens. Valores são, em parte, expressões de aspirações subjetivas e, em parte, a realização de funções sociais objetivas. Destarte, o estabelecimento de uma hierarquia de valores depende de tradições morais e consciência individual (consciência individual: sua importância será enfatizada mais adiante). Volto a Karl Mannheim:

“Há um ajuste contínuo se processando entre o que os indivíduos gostariam de fazer se suas escolhas fossem dirigidas apenas por seus desejos pessoais e o que a sociedade quer que eles façam.”

Em uma sociedade dinâmica, cujas relações interpessoais tornam-se complexas, o processo de valoração requer tempo, pois envolve a criação, a disseminação, a reconciliação, a padronização e a assimilação de valores – muitas vezes divergentes; do contrário sua própria experiência é reduzida à insignificância. Mannheim:

“Para que uma sociedade dinâmica possa ao menos funcionar, precisa de uma variedade de respostas ao ambiente mutável, mas se a variedade dos padrões aceitos torna-se excessiva, conduz à exasperação nervosa, à incerteza e ao medo. Fica cada vez mais difícil para o indivíduo viver em uma sociedade informe, em que até nas situações mais simples tenha de optar entre vários padrões de ação e valorações sem sanção, sem que ele nunca tenha aprendido a escolher ou a confiar em si mesmo. (…) Onde não existe um sistema de valores reconhecido, a autoridade dispersa-se, os métodos de justificação tornam-se arbitrários e ninguém mais é responsável.”

Em “Sede de sentido” (Quadrante editora, 2003), Viktor Frankl destaca que

“Ao contrário do animal, o homem não tem instintos que lhe dizem o que tem de fazer; e ao contrário do que acontecia em séculos passados, o homem de hoje já não conta com as tradições que lhe dizem o que deve fazer; assim, muitas vezes parece já não saber o que quer.”

A impossibilidade de contar com instintos primitivos e o repúdio às tradições, aliados a outros fatores como a covardia intelectual do relativismo cultural, que nivela valores tão abrangentes quanto discordantes entre si, seja pela contração de tempo, seja pela dificuldade de reconciliação de diferenças ou pela recusa à assimilação, tem abalado o processo de valoração. Mannheim:

“Nada existe em nossa vida, nem mesmo no nível de hábitos básicos como alimentação, boas maneiras e comportamento, sobre que nossos modos de ver não divirjam. Nem sequer chegamos a um ajuste para saber se esta grande variedade de opiniões é boa ou má, se é a maior conformidade ao passado ou a ênfase moderna dada à livre escolha que deve ser preferida.”

Sem os instintos e sem as tradições – sem referenciais seguros a servir como guia – as pessoas acabam fazendo escolhas ou por conformismo ou por obediência, de acordo com Viktor Frankl:

“Em consequência, (o indivíduo) acaba por empenhar-se em querer fazer o que os outros fazem – e o resultado é o conformismo – ou então faz aquilo que os outros querem, aquilo que se exige dele – e aí temos o totalitarismo.”

Resultado: o sentimento de vazio existencial ou de falta de sentido – a frustração existencial por trás do conformismo e do totalitarismo.

Para Frankl, o sentido da vida não é uma criação cultural, mas um dado objetivo da realidade, uma realidade ontológica. Toda sua experiência nos campos de concentração fora convertida na elaboração do conceito que exprime a patologia predominante em nosso tempo – as neuroses noogênicas, resultantes da frustração da vontade de sentido, da tirania opressiva que é a sensação de viver uma futilidade absurda – e em sua terapia, denominada logoterapia, ou terapia do discurso. Pessoas que se sentem frustradas em sua vontade de sentido tendem a refugiar-se em diversões baratas, as quais ocupam o espaço deixado pelo vácuo existencial – refugiam-se na vontade de prazer: hipertrofia do instinto sexual, abuso de drogas e álcool, comportamentos de risco, irresponsabilidade na hora de fazer suas escolhas.

“O sentido de uma pessoa, coisa ou situação não pode ser dado. Tem que ser encontrado pela própria pessoa – mas não dentro dela. Não se trata de injetar sentido nas coisas, mas de extrair o sentido delas, de captar o sentido de cada uma das situações com que nos defrontamos. O sentido está lá: é uma realidade objetiva. O sentido é, pois, uma silhueta que se recorta contra o fundo de realidade. É uma possibilidade que se destaca luminosamente, e é também uma necessidade. É aquilo que é preciso fazer em cada situação concreta; e esta possibilidade de sentido é, sempre, como a própria situação, única e irrepetível. Tudo aquilo que realizamos e criamos fica guardado, conservado no interior do passado. Encontra-se imunizado contra a contingência, contra o desgaste do tempo.”

O pressuposto ontológico do vazio existencial é o de que o ser humano é essencialmente um ser em busca de sentido; move-se e é motivado por uma “vontade de sentido”. Essa foi a grande lição que Frankl apreendeu no campo de concentração: todos os prisioneiros que se orientavam em direção a um futuro eram os que apresentavam as maiores probabilidades de sobrevivência. Mais do que isso: essa é uma característica que eleva o homem – a capacidade para a autotranscendência, para mirar além de si próprio, para uma causa, para uma tarefa ou para outra pessoa a quem ama; e é “somente na medida em que o ser humano se autotranscende que lhe é possível realizar-se – tornar-se real – a si próprio”. Esquecer-se de si mesmo, dedicar-se com um autoesquecimento positivo a uma tarefa ou a uma pessoa – a plenitude de sentido – tem como corolário a autorrealização.

 “Não se deve procurar um sentido abstrato da vida. Cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma tarefa concreta, que está a exigir realização. Nisso a pessoa não pode ser substituída, nem sua vida pode ser repetida. Assim, a tarefa de cada um é tão singular como a sua oportunidade específica de levá-la a cabo.”

Para Frankl, há três formas de descobrir o sentido na vida:

1) criando um trabalho ou praticando um ato, uma ação: “Nas palavras do rabino Hillel, escritas há quase dois mil anos: “Se não eu, quem então? Se não agora, quando então? E se só para mim, quem sou eu?”  Se não sou que o faço, quem o fará por mim? Se não o fizer agora, quando poderei fazê-lo? Deverei esperar até que passe a oportunidade? E se somente o faço por mim mesmo, quem é que eu sou, em que é que me torno?”

2) experimentando algo (a bondade, a beleza e a verdade; experimentando a natureza e a cultura) ou encontrando alguém (experimentando outro ser humano em sua originalidade única, amando-o – ecoando Kierkegaard: amor como um dever; ou Terrence Malick, no filme “Amor pleno”: you shall love, você deve amar);

3) pela atitude que tomamos em relação ao sofrimento inevitável (transformar a tragédia pessoal em um triunfo, converter nosso sofrimento em uma conquista humana; quando já não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós próprios).

Um aspecto significativo na logoterapia é o chamado à responsabilidade – considerada essência mesma da existência humana. Trata-se de descobrir para o que somos vocacionados: o que somente nós, e mais ninguém, podemos fazer:

“Cada pessoa é questionada pela vida; e somente ela pode responder à vida respondendo por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo responsável. A logoterapia vê na responsabilidade a essência propriamente dita da existência humana.”

Escolher, decidir e estabelecer valores exige a educação de uma consciência individual responsável, que não fuja às suas obrigações.

“Numa época em que as tradições e os valores universais que elas encerram se vão esboroando, educar significa formar a consciência pessoal. É graças à minha consciência atenta e bem formada que eu me torno capaz de compreender o apelo ao sentido que cada situação me propõe; é graças a ela que me torno capaz de ouvir as questões que o dia-a-dia me formula, e é graças a ela que sou capaz de responder a essas questões empenhando a minha própria existência, assumindo uma responsabilidade. (…) O homem de consciência não se dobra diante do totalitarismo nem aceita passivamente o conformismo. E é sua consciência – somente a sua consciência – que lhe permite dizer “não”.”

“A logoterapia vê a consciência como um fator estimulador que, se necessário, indica a direção em que temos que nos mover em determinada situação da vida. Para levar a cabo tal tarefa, a consciência deve aplicar uma fita métrica à situação enfrentada. A situação deve ser medida e avaliada à luz de um conjunto de critérios e uma hierarquia de valores.”

No campo de concentração, onde a existência humana é reduzida a seu aspecto mais primitivo e miserável (“quem não vivenciou pessoalmente a situação reinante num campo de concentração não faz a menor ideia da radical insignificância a que se reduz o valor da vida do indivíduo ali internado”), Frankl pode confirmar que o homem é capaz de elevar-se, transcender-se, superar-se. Nesses nossos tempos apressados, em que todos parecem correr sem bem saber para onde, em busca de uma felicidade abstrata, a mensagem de Viktor Frankl se faz cada vez mais necessária.

“Lembro-me que, pouco depois, me pareceu que eu morreria em um futuro próximo. Dentro dessa situação crítica, entretanto, eu tinha uma preocupação diferente da maioria dos meus companheiros. A pergunta deles era: será que vamos sair com vida do campo de concentração? Caso contrário, todo esse sofrimento não tem sentido. A pergunta que atormentava a mim era: será que tem sentido todo esse sofrimento, toda essa morte ao nosso redor? Caso contrário, não faz sentido sobreviver; uma vida cujo sentido depende de semelhante eventualidade – escapar ou não escapar – em última análise, nem valeria a pena ser vivida.”

Feliz ano novo para todos nós.

Para qualquer parte que vás não lhe podes fugir, porque para onde quer que fores, levas a ti mesmo contigo e sempre acharás a ti mesmo. Quer te eleves, ou te abaixes; ou te dês às coisas exteriores ou às interiores, em tudo acharás a cruz. E é necessário que sempre tenhas paciência, se queres paz interior, e merecer a coroa eterna.” (Imitação de Cristo)

2 comentários

  1. Carlos querido,
    Muito obrigada pelo texto, saído de sua “inspiração” e enviado nesta véspera de 2014. Começo a lê-lo: ele me toca como se escrito especialmente para mim nesta hora que passo. Outros leitores possivelmente sentiram o mesmo, pois costuma ser esse o efeito das palavras portadoras do essencial para nossa existência. Sei que preciso relê-lo, relê-lo e relê-lo, ou seja, daqui pra frente, vou tê-lo comigo, certamente sempre lhe agradecendo por tê-lo escrito neste dia. Feliz 2014, Carlos, com as bênçãos de Deus. Abraços, Léa Nilse

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