Doentes mentais

“(…) todo o mundo moderno, ou pelo menos toda a imprensa moderna, tem um perpétuo e esgotante terror da pura moral. Os homens sempre tentam evitar condenar algo apenas por argumentos morais. Se eu espancar minha avó até a morte amanhã no meio de Battersea Park, podem ter certeza de que as pessoas dirão tudo sobre isso exceto o fato simples e bastante óbvio de que é algo errado. Alguns o chamarão de insanidade; isto é, o acusarão de uma deficiência de inteligência. Isto não é necessariamente verdade. Vocês não poderiam dizer se foi um ato pouco inteligente ou não a menos que conhecessem minha avó. Alguns o chamarão de vulgar, repugnante, e coisas assim; isto é, o acusarão de falta de educação. Talvez demonstre mesmo uma falta de educação; mas dificilmente é seu maior defeito. Outros falarão sobre o asqueroso espetáculo, e a cena revoltante; isto é, o acusarão de uma falta de arte ou de beleza estética. Também isso depende das circunstâncias: para ter certeza absoluta de que a aparência da velha senhora definitivamente deteriorou-se no processo de ser espancada até a morte, é necessário que o crítico filosófico esteja bem certo de quão feia ela era antes. Outra escola de pensadores dirá que o ato é pouco eficiente: que é um desperdício pouco econômico de uma boa avó. Mas isso só poderia depender do valor, que é novamente um assunto individual. O único ponto real que vale a pena mencionar é que é um ato perverso, pois sua avó tem o direito de não ser espancada até a morte. Contudo, o jornalista moderno tem, dessa simples explicação moral, um persistente medo. Chamará a ação de qualquer outra coisa – louca, bestial, vulgar, idiota, antes de chamá-la pecaminosa.” (G.K.Chesterton, “Considerando todas as coisas”)

O medo de explicações morais, apontado por Chesterton quase um século atrás, ampara a soberba da ciência contemporânea – especialmente a neurociência e a psiquiatria –, que tende a transformar comportamentos em diagnósticos médicos, esvaziando-os, portanto, de qualquer conteúdo moral, a serviço de uma objetividade apócrifa. Lembrei-me de Chesterton ao ler a coluna de Theodore Dalrymple para a edição de outono de 2013 do City Journal (vol. 23, n4), intitulada “Everyone on the couch” (“Todos no divã”; clique aqui para ler), sobre o 5º. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM-V, produzido pela Associação Americana de Psiquiatria. Em entrevista à Revista Veja de Maio 2013, David Kupfer, psiquiatra da Universidade de Pittsburgh e chefe do grupo revisor do manual, disse (o grifo é meu):

“Desde que o DSM-IV foi desenvolvido, tem surgido uma grande quantidade de pesquisas e conhecimentos sobre transtornos mentais. O DSM-5 representa a melhor possibilidade de aplicação clínica dessa ciência para os seus diagnósticos [dos transtornos mentais]. Muitas das mudanças do DSM-5 foram feitas para melhor caracterizar os sintomas e os comportamentos de grupos de pessoas que estão em busca de ajuda clínica, mas que não são bem definidos pelo DSM-IV.”

Quando você só tem um martelo, tudo começa a se parecer com um prego…

Para Dalrymple, todos exibimos alguns padrões de comportamentos que, longe de serem propícios à nossa felicidade ou ao nosso sucesso, não nos transforma em doentes, apenas evidenciam nossas falibilidade e fraquezas. Como exemplo do fenômeno progressivo de transformar falhas de conduta em doenças, ele menciona o “Transtorno de comportamento explosivo intermitente”, cujos critérios diagnósticos, segundo o DSM-V, seriam:

1) três episódios de explosão de comportamento envolvendo dano ou destruição de propriedade e/ou de agressão física envolvendo injúria física contra animais ou outros indivíduos que tenham ocorrido em um período de 12 meses;

2) a magnitude da agressividade é desproporcional aos fatores estressores psicossociais precipitantes;

3) as explosões agressivas recorrentes não são premeditadas e não visam a objetivos tangíveis (dinheiro, poder, intimidação, etc.). P

O jargão nosológico psiquiátrico reveste-se de números misteriosos: por que três e não quatro ou cinco episódios de irascibilidade agressiva para a caracterização do transtorno? Por que a ocorrência deve se dar em 12 meses e não 11 ou 13? De acordo com Dalrymple, uma noção de explosão temperamental desproporcionalmente ao que quer que seja capaz de deflagrá-la pressupõe um julgamento moral – acerca do que exatamente constitui comportamento apropriado e/ou uma inadequada exibição de raiva. O termo “apropriado” é um conceito moral, requer julgamento consciente que não será auxiliado por nenhuma imagem de Ressonância magnética funcional – da amígdala ou de qualquer outra parte do cérebro.

Há certas sobreposições entre comportamentos (sejam não-estereotipados ou bizarros) secundários a determinadas condições genuinamente patológicas e outros decorrentes de fatores sociais, psicológicos ou relacionados a péssimas escolhas morais – de modo que se espera dos psiquiatras critério no que considerar como doença genuína. Ora, justamente o que o DSM-V faz, tendo por escudo “grande quantidade de pesquisas e novos conhecimentos a respeito das doenças mentais” (conforme dito pelo dr. David Kopfer na entrevista), é estreitar qualquer margem para o uso do bom senso dos psiquiatras. Olavo de Carvalho escreveu, em artigo de 2009 (“A ciência contra a razão”), que

“O apego à autoridade da “ciência”, tal como hoje se vê na maior parte dos debates públicos, não é senão a busca de uma proteção fetichista, socialmente aprovada, contra as responsabilidades do uso da razão.”

A se levar em conta as taxas de prevalência descritas no Manual, depreende-se que um americano médio sofre de mais de duas doenças psiquiátricas em um ano. Ao categorizar como “transtornos” diversos tipos de comportamentos, a Associação Americana de Psiquiatria “coloniza a experiência humana com diagnósticos psiquiátricos”. Transtorno de estresse pós-traumático? Para que seja diagnosticado, basta que o indivíduo tenha conhecimento de um familiar ou um amigo que tenha sofrido experiência traumática. Perdeu um ente querido? Se os sintomas relacionados ao luto durarem além de duas semanas (olha a quantificação misteriosa aí novamente), você está é deprimido.

Para Dalrymple, o excesso pormenorizado de categorias de comportamentos patológicos do DSM-V transforma seres humanos em mecanismos, ao privar de significado suas condutas e seus comportamentos, tornando-os, assim, presas fáceis de empresários da miséria humana. Os autores do DSM-V sofreriam, segundo Dalrymple, de Transtorno da Supervalorização da Nosologia Psiquiátrica, caracterizado pelos seguintes critérios:

1) crença grandiosa de que toda fraqueza humana poderia e deveria ser dividida em categorias diagnósticas válidas;

2) crença firme e inabalável de que todo sofrimento humano é ocasionado por disfunção do metabolismo da serotonina; e de que, em futuro próximo, uma Ressonância magnética funcional irá ensinar aos seres humanos como viver.

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