A descoberta do outro

Eis o começo magnífico de “A descoberta do outro“, de Gustavo Corção:

“Num romance de Alexandre Herculano, um personagem faz à sua namorada uma pergunta patética, no gosto da época: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?”

Não me recordo se Hermengarda sabia; eu porém já posso dizer que avalio aquela situação porque passei mais de quinze anos amarrado à técnica. Cinco entre teodolitos e outros dez, os últimos, fitando ponteiros de galvanômetros. Durante esse tempo tentei algumas evasões, tentativas frouxas, veleidades em letras e em tintas, versos ou quadros, mas acabava voltando ao galvanômetro.(…)

Nesse modo de vida apurei um certo fôlego lógico que me fartava a razão e que ainda por cima me dava algum prestígio. Levei tempo a descobrir que aquela faculdade se desenvolvera à custa de uma atrofia; foi preciso que coisas graves acontecessem para que eu me desse conta de estar amarrado ao meu próprio cadáver.

A técnica é inebriante por duas razões fortes. Primeiro, porque dá à inteligência uma satisfação vertiginosa; segundo, porque todos se maravilham com suas prestidigitações. É difícil resistir à admiração dos outros, e o técnico é hoje o mais admirado dos homens. Dum lado, então, pelas espirais lógicas, o técnico farta-se de segurança, de certeza; doutro lado enche-se de louvores. Suas manipulações dão certo. E quando não, ele ainda sorri, sabendo que tem recursos, ou para explicar, ou para retificar. (…)

Tudo isso é assim mesmo e está bem; um indivíduo não precisa interromper sua leitura do galvanômetro para pensar na dor e na morte; mas corre o risco de levar esse critério para fora do laboratório. Saíra então cambaleando, ébrio de logaritmos e de papel milimetrado e chegará em casa nesse estado. Ora, eu vivi mais de quinze anos nessa intemperança, e as pessoas respeitáveis que conheci estavam convencidas que minha vida era um pequeno modelo de virtude porque não espancava a mulher e não deixava os filhos sem pão.”

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