Os limites dos ideais – primeira parte

Quem resiste ao poder encantatório das palavras de José Ingenieros, no início de seu “O homem medíocre”?

“Há certa hora na qual o pastor ingênuo assombra-se diante da natureza que o envolve. A penumbra se espessa, a cor das coisas se conforma num cinza homogêneo das silhuetas, a primeira umidade crepuscular levanta de todas as plantas um vago perfume, aquieta-se o rebanho a fim de dormir, a remota campainha toca seu aviso vesperal. (…) Sentado na pedra menos áspera que encontra à beira do caminho, o pastor contempla e emudece, convidado em vão a meditar, pela convergência do lugar e da hora. Sua admiração primitiva é simples estupor. A poesia natural que o rodeia, ao refletir-se em sua imaginação, não se converte em poema. (…) A imensa massa dos homens pensa com a cabeça deste ingênuo pastor: não entende o idioma de quem lhe explica algum mistério do universo ou da vida, a evolução eterna de tudo o que é conhecido, nem tampouco a possibilidade de aperfeiçoamento humano na contínua adaptação do homem à natureza.”

Lindo, não? Mas o que prometem essas palavras?

“Para conceber uma perfeição é necessário certo nível ético e é indispensável um mínimo de educação intelectual. Sem eles, pode haver fanatismos e superstições; ideias jamais.”

 

Ingenieros quer falar sobre ideais. O homem medíocre é o homem sem ideais. É o homem para quem os limites do real – e de si mesmo – são formados pelos limites de sua própria experiência sensível, encarcerado em si mesmo, incapaz de compreender nada além do que a vista pode alcançar. O homem medíocre se espanta diante do mundo, e esse espanto não frutifica, torna-se estupor paralisante – para ser, mais tarde, esquecido.

“Suas rotinas e seus pré-juízos parecem-lhes eternamente invariáveis; sua obtusa imaginação não concebe perfeições passadas nem futuras; o estreito horizonte de sua experiência constitui o limite necessário de sua mente. Não podem formar um ideal. (…) Todo sonho seguido por multidões, apenas é pensado por poucos visionários que são seus amos.”

Os homens medíocres estão entre os “mentalmente inferiores, que merecem o desprezo” e os “mentalmente superiores, que merecem a apologia”.

“Individualmente considerada, a mediocridade poderá ser definida como uma ausência de características pessoais que permitam distinguir o indivíduo em sua sociedade.”

A solenidade pomposa das palavras de Ingenieros mal disfarça seu desprezo à ideia de mediocridade como valor absoluto, pois pouco importa se o desenvolvimento interior do homem é capaz de sustentar ou não sua virtude moral; o que importa é se há uma função social, se o fortalecimento da consciência individual dirige-se para o progresso social.

“O homem medíocre apenas pode ser definido em relação à sociedade em que vive, e por sua função social.”

A mediocridade, portanto, não pode nem deve ser malvista.

“Não concebemos o aperfeiçoamento social como um produto da uniformidade de todos os indivíduos, senão como a combinação harmônica de originalidades incessantemente multiplicadas. Todos os inimigos da diferenciação vem a sê-lo do progresso; é natural, por fim, que considerem a originalidade um defeito imperdoável.”

O homem medíocre é definido em relação à sociedade em que vive, como elemento constitutivo essencial – porém, encontra-se aprisionado nela (pois travestido de uma função social), na mesma sociedade da qual deveria (tentar) se ver livre.

“Os homens sem ideais desempenham na história humana o mesmo papel que a herança na evolução biológica; conservam e transmitem as variações úteis para a continuidade do grupo social. Constituem uma força destinada a contrastar o poder dissolvente dos inferiores e a conter as antecipações atrevidas dos visionários. A coesão do conjunto, deles necessita, como um mosaico bizantino precisa do cimento que o sustém.”

Mas o ponto mais interessante – e mais difícil de ser resolvido – levantado pelo gongorismo de Ingenieros, involuntariamente, aparece neste trecho:

“As existências vegetativas não tem biografia: na história de sua sociedade apenas vive aquele que deixa rastros nas coisas ou nos espíritos.”

Os mesmos limites impostos pela vida em sociedade (os fardos de rotinas, os preconceitos e as domesticidades) não seriam necessários para a construção e para o suporte da personalidade do indivíduo? Visar a um ideal não se aproxima perigosamente da elaboração de uma utopia? Um ideal deve conter implícita em sua gênese sua própria impossibilidade, considerando-se a “insuficiência ontológica” (palavras de Luiz Felipe Pondé) do homem? Se homens desprovidos de personalidade estão à mercê de influências sociais que oscilam conforme o zeitgeist (o espírito de uma época), viver para “deixar rastros nas coisas” não equivale a viver apenas para fundar reinos de sonhos privados? Viver para alcançar a eternidade no presente? Viver não se torna uma “missão” cujo fim seria a substituição da realidade por outra, imaginária?

 

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