Os limites dos ideais – segunda parte

 

Ideal, do latim ideālis, significa “criado no entendimento e na imaginação”. Um ideal é algo que não existe. Mas não é uma utopia. Aquele que vive pela utopia é um “estrangeiro em qualquer lugar”, pois recusa a realidade e tenta dobrá-la ante sua imaginação. O ideal é um modelo com poucas probabilidades de acontecer na prática, eis a diferença essencial.

Em “O abandono dos ideais”, Olavo de Carvalho define o ideal como a síntese entre o impulso de universalidade e os interesses do indivíduo, entre a ideia do sentido da vida e a do preço exigido para sua realização:

“Diz-se que um homem tem um ideal quando ele sabe em qual direção tem de ir para tornar-se aquilo que almeja, e quando está firmemente decidido a ir nessa direção.”

O ideal é o esteio de coesão da personalidade, sem o qual ela

“(…) se dispersa em aspirações fortuitas e esforços estéreis; miragem e emblema, sua visão nos dinamiza, nos eleva e enobrece, e é sempre a lembrança do seu apelo que nos reergue após cada erro e cada desengano. (…) É ainda pela força do ideal que o homem transcende o sono entorpecido da subjetividade intra-orgânica, das falsas ideias e aspirações que não são senão a secreção passiva da fisiologia, para despertar a um mundo de realidades objetivas que a inteligência discerne e que a consciência moral obriga a reconhecer; é assim que a alma se liberta do poço escuro da individualidade estanque, para elevar-se ao mundo maior da sociedade, da cultura, da vida moral, ao sentimento de universo e ao desejo de Deus.”

O ideal é uma abertura para a transcendência no sentido em que representa a tensão vivida pelo indivíduo entre ser e poder ser – distintamente daquela operada pela utopia, entre ser e dever ser. Sem o ideal, assemelhamo-nos aos prisioneiros da caverna de Platão: homens e mulheres impossibilitados de experimentar, de modo inseparável, a beleza, o bem e a verdade.

“(Sem o ideal) não haveria meio de fazer um homem sacrificar-se, impor-se restrições, contrariar desejos e reprimir temores, em prol de algum valor moral, social ou religioso, para alcançar sua plena estatura humana e tornar-se, talvez, maior do que ele mesmo. Mas o desejo, que move a alma, não pode ser despertado por uma simples ideia abstrata, por verdadeira que seja; ele necessita de imagens plásticas, sensíveis, que lhe deem como que uma presença antecipada do seu objetivo. Também não se move, exceto no homem grosseiro, ao simples apelo de uma imagem atrativa; mas aguarda que a inteligência examine e aprove o objeto como desejável e bom. Não basta que a meta seja verdadeira; é preciso que seja bela. Mas não basta que seja bela; é preciso que seja verdadeira e justa. É a síntese dessa tripla exigência, intelectual, estética e moral, que se denomina “ideal”.”

A exigência de que seja bom, belo e verdadeiro mantém a inter-relação do ideal com o real – é a sua moralidade, em oposição à imoralidade tirânica da utopia. O ideal é a medida do homem, enquanto a utopia é sua distensão até os limites inatingíveis de uma perfeição imaginária:

“O ideal é o caminho pelo qual as aspirações individuais de felicidade distribuem-se nos sulcos já abertos da realidade exterior, saem da redoma do sonho e ganham um corpo no cenário maior dos fatos e das coisas. Sem um ideal definido, todas as melhores aspirações não passam de sonhos, porque não há um dever moral imanente a exigir que se amoldem à realidade, que se limitem em extensão para realizar-se em intensidade. Só o homem idealista é realista; os demais são sonhadores ou cínicos. Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, veem-nas melhores ou piores do que são.”

“Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, veem-nas melhores ou piores do que são.” Essa frase do Olavo lembra a de Ortega y Gasset, em “Mirabeau ou o político”:

“A humanidade é como uma mulher que se casa com um artista porque é artista, e depois se queixa porque este não se comporta como um chefe de repartição.”

A utopia é ápice da corrupção do ideal pela “exaltação imaginativa”, descrita por Paul Diel, mencionado por Olavo de Carvalho; a exaltação imaginativa é

“Um estado em que a mente, embevecida com o seu ideal, se identifica mais ou menos inconscientemente com ele e atribui a si as perfeições que a ele pertencem, como se já as tivesse realizado. (…) O exaltado toma o potencial por atual, imaginando possuir as perfeições a que aspira. Por isto mesmo, sua alma experimenta, como num choque de retorno, um sentimento de estranheza e de impotência perante o mundo, que não cede, como ele esperava, aos seus encantos e poderes. Acuado pelas exigências da realidade, ele exacerba ainda mais sua adoração de si mesmo diante de um mundo que ele julga vil, mesquinho e incompreensivo, quando na verdade é ele mesmo quem não compreende o mundo, e por não compreendê-lo, está impotente para agir nele.”

Em “Sonho de um homem ridículo”, Dostoiésvki nos apresenta os efeitos da exaltação imaginativa na germinação das utopias e do entrechoque destas com a realidade. Nesse conto, temos um pobre homem não identificado, anônimo, em cuja alma crescia

“Uma melancolia terrível por causa de uma circunstância que já estava infinitamente acima de todo o meu ser: mais precisamente – ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz. Fazia muito tempo que eu vinha pressentindo isso, mas a plena convicção surgiu no último ano, assim, de repente. Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. (…) Tudo me era indiferente.

Então, depois disso, conheci a verdade. Conheci a verdade em novembro passado, mais precisamente em três de novembro, e desde então me lembro de cada instante da minha vida.”

O homem decide se matar:

“O céu estava horrivelmente escuro, mas era possível discernir com clareza algumas nuvens rotas, e entre elas manchas negras sem fundo. De repente notei numas dessas manchas uma estrelinha, e fiquei a olhar fixamente para ela. Porque essa estrelinha me trouxe uma ideia: eu tinha decidido me matar naquela noite.

(…) Então, enquanto eu olhava para o céu, de repente me agarrou pelo cotovelo essa menina. (…) A menina tinha uns oito anos, de lencinho e só de vestidinho, toda encharcada, mas guardei na lembrança especialmente os seus sapatos rotos e encharcados, ainda agora me lembro deles. (…) De repente ela começou a me puxar pelo cotovelo e a me chamar. Não chorava, mas soltava entre gritos umas palavras que não conseguia pronunciar direito, porque tremia toda com tremedeira miúda de calafrio. Estava em pânico por alguma coisa e berrava desesperada: “mamãe! Mamãe!. Voltei o rosto para ela, mas não disse uma palavra e continuei andando, só que ela corria e me puxava, e na sua voz ressoava aquele som que nas crianças muito assustadas significa desespero. Conheço esse som. Embora ela não articulasse bem as palavras, entendi que a sua mãe estava morrendo em algum lugar, ou que alguma coisa acontecera lá com elas, e ela fora correndo chamar alguém ou alguma coisa para ajudar a mãe. Mas não fui atrás dela, e, ao contrário, me veio de repente a ideia de enxotá-la. Primeiro lhe disse que fosse procurar um policial. Mas ela de repente juntou as mãozinhas, e, soluçando, sufocando, corria sem parar ao meu lado e não me largava. Foi então que bati o pé e dei um grito. Ela apenas gritou bem forte: “senhor, senhor!…”, mas de re pente me largou e atravessou a rua correndo desabalada: lá também apareceu um passante qualquer, e ela, pelo visto, largara de mim para alcançá-lo.”

Mas eis que, em seu apartamento, sentado à mesa na poltrona, diante do revólver, o homem adormece e sonha. Sonha que havia se matado e depois conduzido para outro lugar:

“E eis que de repente o meu caixão se rompeu. Isto é, não sei se ele foi aberto ou desenterrado, mas fui pego por alguma criatura escura e desconhecida para mim, e nós nos encontrávamos no espaço. (…) Voávamos no espaço já longe da terra.”

É levado para um mundo ideal, sua mesma terra, só que em outra época, indefinida. Uma época de ouro:

“(…) eu estava nessa outra terra sob a luz radiante de um dia ensolarado e encantador como o paraíso. Tudo era exatamente como na nossa terra, mas parecia que por toda a parte rebrilhava uma espécie de festa e um triunfo grandioso, santo, enfim alcançado. Um carinhoso mar de esmeralda batia tranquilo nas margens e as beijava com um amor declarado, visível, quase consciente. (…) E, finalmente, eu vi e conheci os habitantes dessa terra feliz.(…) Eu nunca tinha visto na nossa terra tanta beleza no homem.”

Sobrevém, a essa terra de ouro, caos, tormento, miséria e sofrimento, e o pobre homem assiste, impotente, a essa destruição.

 “E, no entanto, se pelo menos fosse possível que eles voltassem àquele estado inocente e feliz do qual se privaram, e se pelo menos alguém de repente o mostrasse a eles de novo e lhes perguntasse: querem voltar? – eles certamente recusariam. Respondiam-me: “e daí que sejamos mentirosos, maus e injustos, sabemos disso e deploramos isso, e nos afligimos por isso a nós mesmos (…) Mas temos a ciência, e por meio dela encontraremos de novo a verdade, mas dessa vez a usaremos conscientemente, o entendimento é superior ao sentimento, a consciência da vida – é superior à vida. A ciência nos dará sabedoria, a sabedoria revelará as leis, e o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade.”

Repare o leitor que essa é a frase-chave que define uma utopia e a diferencia de um ideal: “o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade.” E então o pobre homem acorda, e percebe que seu sonho foi, na verdade, uma revelação, uma epifania:

“A verdade, eu a vi com meus próprios olhos! (…) Todos seguem em direção a uma única e mesma coisa, pelo menos todos anseiam por uma única e mesma coisa, do mais sábio ao último dos bandidos, só que por caminhos diferentes. (…) Eu sei que as pessoas podem ser belas e felizes, sem perder a capacidade de viver na terra.”

Distinto leitor, note que sem perder a capacidade de viver na terra” equivale a “não ser um estranho em sua própria casa” (Thomas More). O pobre homem não desperta somente de seu sonho, mas do sonho que era sua própria vida. Determinado a mudar o mundo, descobre que é mais importante mudar a si mesmo:

“A verdade, porém, me cochichou que eu mentia e me guardou e me aprumou o passo. Mas como instaurar o paraíso – isso eu não sei (…). O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal. (…) “A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade” – é contra isso que é preciso lutar!”

O conto termina com o pobre homem saindo à procura pela menininha de oito anos nas ruas de São Petersburgo.

O ideal é a argamassa dos magnânimos; a utopia, a dos pusilânimes. Em “Mirabeau ou o político”, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreve duas perspectivas morais contraditórias que atribuem sentidos distintos à realidade:

“Desde há um século e meio, tudo conspira para nos ocultar o fato de que as almas tem formatos diferentes, que existem almas grandes e almas pequenas, onde grande e pequeno não significam nossa avaliação dessas almas, e sim a diferença real de duas estruturas psicológicas distintas, de dois modos antagônicos de funcionamento da psique. O magnânimo e o pusilânime pertencem a espécies diversas; viver é, para um e outro, uma operação de sentido divergente. (…)

O magnânimo é um homem que tem missão criadora: viver e ser são, para ele, fazer grandes coisas, produzir obras de grande calibre. O pusilânime, por sua vez, carece de missão; viver é para ele simplesmente existir, conservar-se, andar por entre as coisas que já estão aí, feitas por outros. Seus atos não brotam de uma necessidade criadora, originária, inspirada e ineludível. O pusilânime, por si, não tem o que fazer: faltam-lhe os projetos e o afã rigoroso de execução. De forma que, não havendo “destino” em seu interior, necessidade congênita de criar, de extravasar-se em obras, só age movido por interesses subjetivos: o prazer e a dor. Procura o prazer e evita a dor. Esse modo de funcionar vitalmente que encontra em si mesmo leva-o a supor, por exemplo, que um pintor se entrega a seu trabalho movido pelo desejo de ser famoso, rico, etc. Como se entre o desejo de fama, riqueza, prazeres e a possibilidade de pintar este ou aquele quadro, de inventar um estilo determinado, existisse a menor conexão! O pusilânime deveria saber que o primeiro pintor famoso não teve a intenção de ser um pintor famoso, mas exclusivamente de pintar, pela simples necessidade de criar beleza plástica. Só posteriormente a sua vida e obra que se formou na mente dos outros, especialmente dos pusilânimes, a ideia ou ideal de ser “pintor famoso”. E então, só então, atraídos realmente pelas vantagens egoísticas desse papel, o de “pintor famoso”, é que começaram a pintar os pusilânimes, isto é, os maus pintores.”

Os ideais ampliam os horizontes das potencialidades humanas, mas dentro dos limites do possível, da realidade. O ideal embasa o presente, mira o futuro e permite corrigir erros do passado. Um ideal contém em si sua impossibilidade: o que importa é o caminho, não o fim. Retorno a Ortega y Gasset:

“Talvez o que mais diferencie a mente infantil do espírito maduro seja que aquela não reconhece a jurisdição da realidade e deturpa as coisas com imagens desejadas. Sente o real como uma matéria mole e mágica, dócil às combinações de nossa ambição. A maturidade começa quando descobrimos que o mundo é sólido, que a margem de folga concedida à intervenção de nosso desejo é muito escassa, e que um pouco além dele levanta-se uma matéria resistente, de consitutição rígida e inexorável.”

 

Concluo com uma frase de Isaiah Berlin, de “A busca do ideal”, texto presente no livro “Os limites da utopia” (tradução em português da editora Companhia das Letras para a edição de “The crooked timber of humanity – chapters in the history of ideas):

“As formas de viver são diferentes. Os fins, os princípios morais são variados. Mas não infinitamente variados: eles devem se situar nos limites do horizonte humano. Caso contrário, estarão fora da esfera humana.”

P.S.: o assunto acerca das restrições dos ideais surgiu após assistir à primeira aula do Curso “Steve Jobs – um artista da fome?”, do Martim Vasques da Cunha, que versou, entre outras coisas, sobre a psicologia do empreendedor e sua tentativa de dobrar o real ante seus desejos. Martim gentilmente me indicou os textos do Olavo de Carvalho e do Isaiah Berlin, pelo que sou-lhe grato.

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