Os messias seculares

 

 Trechos deste grande livro de George Steiner (não sei se há edição brasileira, a minha é a da portuguesa “Relógio d’Água”), “Nostalgia do absoluto“. Steiner – nas palavras do João Pereira Coutinho, “o último grande humanista do nosso tempo” – é crítico literário, licenciado em letras pela Universidade de Chicago, com mestrado pela Universidade de Harvard, doutorado pela Universidade de Oxford.

“As grandes mitologias que tem vindo a ser construídas no Ocidente desde o início do século XIX não são apenas tentativas de preencher o vazio deixado pela decadência da teologia e do dogma cristãos. São, em si, uma espécie de teologia substituta. São sistemas de crença e argumento que poderão ser selvaticamente antirreligiosos, postular um mundo sem Deus e negar uma vida depois da morte, mas cujas estruturas, aspirações e exigências feitas ao crente são profundamente religiosas na estratégia e nos efeitos. Por outras palavras, ao considerarmos o marxismo, ao apreciarmos os diagnósticos freudianos ou jungianos da consciência psicológica, ao examinarmos todos estes sistemas como mitologias, verificamos que todos eles são totais, canonicamente organizados, imagens simbólicas do significado do homem e da realidade. Ao reflectirmos sobre eles, neles reconheceremos não apenas negações da religião tradicional (afinal, cada um deles está a dizer-nos: vejam, já não precisamos da velha igreja – fora com o dogma, fora com a teologia), mas também sistemas que, a cada ponto decisivo, mostram sinais de um passado teológico.

Permitam-me que sublinhe esta afirmação. É, com efeito, o centro do que procuro dizer, e espero que esteja perfeitamente claro. Esses grandes movimentos, esses grandes gestos da imaginação que tentaram substituir a religião, especialmente o Cristianismo, no Ocidente, são muito semelhantes às igrejas e teologia que desejam substituir. Dir-se-ia, talvez, que, em qualquer grande luta, começamos a parecer-nos com o nosso inimigo.”

E quais são os aspectos estruturais dessas “mitologias”, desses sistemas de pensamento – cujas bases são muito mais teológicas do que seus pregadores admitem – de que nos fala Steiner?

1) Pretensão de analisar a condição humana em sua totalidade;

2) Criação de um “marco zero”, do instante inaugural lendário e súbito (antes dele nada tinha sentido, depois dele todo o resto perdeu seu valor) e supostamente profético, a fim de assegurar um cânone  desde seus primeiro passos;

3) Desenvolvimento de uma linguagem própria, capaz de engendrar novos mitos, numa espécie de auto-louvação perpétua;

4) Definição dos critérios de sua ortodoxia, para que os “hereges” sejam facilmente reconhecidos e implacavelmente perseguidos.

A moral da história?

Atenção para as emulações;  prefira sempre o original.

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