Escolhas e circunstâncias

 

 

De acordo com a Folha de São Paulo de 15 de maio de 2014, “perícia barra docente obeso em concurso do estado de São Paulo”. Trecho da reportagem: “De 11.858 docentes aprovados em concurso para contratação de professores para educação básica, 155 foram considerados inaptos durante as perícias, sendo 39 (25%) deles recusados no serviço por obesidade.” (leia aqui).

Helio Schwartsman comentou o assunto em sua coluna de 25 de maio (link aqui). Ele escreveu:

“Ainda que cruel, não é absurda a preocupação do Estado em zelar pelo que chama de “continuidade no serviço público”. Não é muito sábio contratar alguém que sabemos que tende a faltar com frequência maior do que a média. (…) Moléstias que diminuem a expectativa de vida e a capacidade para o trabalho raramente são uma escolha do paciente. Ainda que muitos afirmem que o sujeito é gordo porque come demais, as pesquisas mais recentes na área apontam para um quadro muito mais complexo, para o qual concorrem fatores genéticos e até o tipo de bactéria que coloniza seu trato intestinal.”

Gostaria de objetar a respeito dos dois pontos especificamente mencionados no excerto acima e que se articulam sob a perspectiva que temos da obesidade e de inúmeros outros problemas nos quais escolhas pessoais e forças impessoais não constituem dois pesos e duas medidas. Émile Durkheim, o “pai” da sociologia moderna, nos ensinou que fatos sociais são “realidades coercitivas”, ou seja: não são os indivíduos que explicam os fatos sociais; estes explicam aqueles. As consciências individuais são orientadas por um arcabouço coletivo de normas, costumes e valores internalizados e que permeia todo seu espectro de possibilidades de ação. Esse suporte, que atua como consciência coletiva, determina coercitivamente maneiras de ser, de agir e de sentir independentemente da vontade do indivíduo. Há um ajuste recíproco entre consciência individual e fatos sociais que não permite distinguir o peso exato a ser atribuído a cada um dos elementos envolvidos na equação que resultou no comportamento. Podemos resumir tudo isso dizendo que toda escolha depende de suas circunstâncias, e sabemos que todas as circunstâncias são sempre provisórias. Não parece razoável acreditar que os extremos do espectro – 0% de responsabilidade ou 100% de responsabilidade pessoal – sejam predominantes. Excluindo-se situações de exceção – condições como Doença de Cushing, Síndrome de Prader-Willi – a responsabilidade individual tem ficado de fora quando se busca explicações para certos fenômenos contemporâneos, como o aumento da obesidade verificado em diferentes países. A obesidade tem sido compreendida como moléstia, como doença semelhante à esclerose múltipla: como algo “adquirido” – e toma-se por regra geral uma explicação cabível apenas às condições patológicas que mencionei há pouco (e outras mais); portanto, os pacientes “tem” obesidade”, mas não “são” obesos (a respeito de uso de cirurgias bariátricas como última opção para tratamento da obesidade, os autores de um estudo, publicado pelo jornal The Lancet, escreveram: “bariatric surgery is almost always used to treat patients who have severe obesity and progressive comorbid disease” aqui). Atribui-se preponderância a fatores alheios, impessoais, na gênese da obesidade – bactérias intestinais que alteram o metabolismo, excesso de frutose em produtos industrializados, genes ruins – excluindo-se da raiz do problema escolhas inadequadas e/ou mal informadas. O “obeso” deixou de ter qualquer responsabilidade pessoal e passou a ser tratado como “vítima”.


Ora, todo discurso revolucionário, propagado por “apóstolos de um futuro melhor”, depende da existência de “vítimas” e “culpados”, porque sustenta o surgimento de “salvadores”. Toda ação executada no presente – como a recusa, pelo Estado, em aceitar docentes “obesos”, os quais são classificados com base em um índice sujeito a mudanças – justifica-se em função de um futuro prometido e redentor, sobretudo incerto, que ninguém sabe quando virá. Todo aquele que se autodenomina guardião de uma promessa de salvação futura – seja por “justiça social”, seja pela “igualdade” – automaticamente é beatificado por hostes de santos iguais em tudo a ele, dispostas a legitimar todas as suas ações – incluindo atitudes condenáveis e transgressoras da lei e da ordem. Eximir alguém de responsabilidade pessoal por suas más escolhas assegura posição simpática e favorável aos olhos da “vítima” e como que pretende ser a única postura capaz de oferecer assistência legítima; quem aponta as más escolhas é “insensível” e quer apenas demonstrar desprezo. Como escreveu Anthony Daniels (Theodore Dalrymple para os íntimos), em artigo para o City Journal que inspirou este texto (você pode ler na íntegra aqui),

“O elemento de escolha pessoal (evitado em discussões sobre problemas sociais como a obesidade) sugere que jamais obteremos uma sociedade perfeita a ponto de deixarmos de considerar necessários bom comportamento ou autocontrole; por conseguinte, o papel dos políticos e de sua burocracia legislativa é necessariamente limitado, o que não é elogioso para sua autoestima ou autoimportância – pois creem que, sem sua orientação e seu direcionamento legitimado por leis em excesso, a sociedade estará condenada à ignorância, ao vício e à desordem.”

Para Daniels, a política é o novo substituto da religião e da cultura como fonte sentido e de orientação pessoal. Para mim, a política e  a ciência são esses substitutos (já escrevi a esse respeito no post “A desdivinização do mundo”).


O filósofo espanhol Ortega Y Gasset escreveu que “a natureza tem horror ao vazio”. Como todo bom ateísta, Schwartsman costuma repudiar Deus em diversos artigos, sem perceber que O substitui por um discurso desumanizador – ao transformar indivíduos e suas escolhas inadequadas e, no limite, autodestrutivas, em vítimas das circunstâncias.

PS: cabe uma perguntinha inocente: se o Estado proíbe docentes obesos de trabalhar, considerando que seus índices de abstenção do serviço por doenças ou pelos altos riscos de morte precoce são justificativas auto-evidentes, será que o próximo passo, levando-se em conta nossos índices de acidentes de trânsito, será proibir a venda de automóveis?

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