Amores incompletos

Na vida pública, somos herdeiros do romantismo, da falsa noção de que a veracidade de nossas intenções passa pela intensidade de nossos sentimentos: somos mais reais à mesma medida que somos capazes de nos expor; o sentimentalismo excessivo e venenosamente adocicado de nossa época é a supressão da reflexão em prol de uma resposta emocional imediata; é a expressão pública de emoções sem o devido reconhecimento de que o julgamento racional é o filtro necessário para nossas reações àquilo que presenciamos. Da mesma forma, na vida privada, o romantismo nos ensinou que o amor verdadeiro tem apenas uma exigência: a paixão; se somos capazes de “sentir”, nos consideramos capazes de amar. “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, é o manual escolar do amor romântico: pela descrição detalhada das experiências intensas que constituem o fundamento do amor, do que é e de como deve se parecer alguém apaixonado. O amor nada mais seria do que um conjunto desordenado de emoções intensas.

Mas nosso imaginário romântico também é herdeiro de Platão. No “Banquete”, após Eurixímaco, temos o discurso de Aristófanes sobre o amor (tradução de Carlos Alberto Nunes):

“Porém, primeiro precisareis conhecer a natureza humana e as modificações porque passou. Antigamente, nossa natureza não era como a de agora, mas muito diferente. Para começar, havia três sexos, e não dois apenas, como hoje: masculino e feminino. Além desses, havia um terceiro, formado dos outros dois; o nome ainda subsiste, porém o sexo desapareceu. Em verdade, era o sexo andrógino, com a forma e o nome dos outros dois sexo, masculino e feminino. Porém, só o nome chegou até nós, bastante desmoralizado. Além do mais, no todo os homens eram redondos, com o dorso e os flancos como uma bola. Possuíam quatro mãos, igual número de pernas, dois rostos perfeitamente iguais num só pescoço bem torneado, e uma única cabeça com os rostos dispostos em sentido contrário (…) Andavam de pé, como hoje, para qualquer lado; porém, se se dispunham a correr velozmente, faziam como os saltimbancos, que viram em círculo e jogam as pernas para o ar, até completar a volta (…) eram de força e vigor extraordinários, e por serem dotados de coragem sem par, atacaram os próprios deuses (…). Então Zeus deliberou com as demais divindades sobre o que era preciso fazer com eles, porém não chegaram a nenhuma conclusão. Realmente, nem era aconselhável matá-los ou fulminá-los, como haviam feito com os gigantes, destruindo, desse modo, toda a espécie, pois tal medida implicava o desaparecimento do culto e dos sacrifícios prestados pelos homens, nem deixar, ainda, que prosseguissem com tamanha insolência. Depois de muito refletir, falou Zeus deste modo: “Penso ter encontrado um meio”, declarou, “de conservar os homens e por cobro a essa indisciplina: bastará enfraquecê-los. Agora mesmo vou dividi-los pelo meio, pois desse modo não somente ficarão mais fracos, como nos serão também de maior utilidade, pelo fato de aumentarem de número.” (…) Assim dizendo, partiu os homens ao meio (…) à medida que os ia dividindo, mandava que Apolo lhes virasse o rosto e metade do pescoço para o lado do corte: ao perceber a incisão que lhes fora feita, o homem saberia moderar-se.(…)
Seccionados, desse modo, os corpos, cada metade sentiu saudades da outra, e procurando ambas a sua parte, estendiam reciprocamente os braços, estreitavam-se, no anelo de se fundirem num só corpo, do que resultou morrerem de fome e inanição, pelo fato de nenhuma parte querer fazer nada separada da outra. (…) Cada um de nós, por conseguinte, só é homem pela metade, mero símbolo, por ter sido cortado ao meio (…) de um passaram a ser dois, do que resulta viverem todos a procurar sua metade complementar.
Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam a vida juntas, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. Apenas poderia ser o prazer dos sentidos que leva cada um a procurar a companhia do outro. É evidente que a alma de ambos deseja algo que ela própria não sabe definir, mas advinha ou sugere vagamente. E, se, porventura, se aproximasse deles Hefesto com seus instrumentos, quando estivessem dormindo no mesmo leito, e lhes perguntasse: “Homens, que é o que cada um de vós deseja do outro?” E percebendo o enleamento dos dois, voltasse a interrogá-los: “O que quereis não será, porventura, unir-se o mais intimamente possível, sem vos separardes nem de dia nem de noite? Se é isso o que almejais, vou derreter-vos e insuflar em ambos um sopro único, de forma que de dois passeis a ser um só, para que enquanto viverdes possais estar sempre juntos como se fôsseis apenas um, e, depois de mortos, no Hades, não sejais dois, porém apenas um morto apenas, por haverdes tido morte comum.” (…)
Se ouvissem tal proposta, estamos certos de que nenhum diria não, nem declararia desejar outra coisa, mas com a maior boa fé julgaria ter ouvido o que de muito ambicionavam: unir-se ao objeto amado e com ele fundir-se, para formarem um único ser, em vez de dois. E a razão disso é que primitivamente era assim nossa natureza, e nós formávamos um todo homogêneo. A saudade desse todo e o empenho em restabelecê-lo é o que denominamos amor.”

Temos aí, distinto leitor, prezada leitora, o mais conhecido mito de origem do amor: o amor como a busca pela nossa outra metade, nossa “cara-metade”; e, ao encontrá-la, não sabemos bem porque, simplesmente “sentimos” que é com ela que queremos passar o resto de nossa vida juntos (“essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra”). O amor como força que supera tudo, até os deuses.

A partir da noção de que existe realmente alguém por aí que é a nossa perfeita metade, elaboramos um conjunto de especificações daquilo que esperamos do amado ausente, com os elementos que supostamente preencheriam nosso vazio ontológico. John Armstrong, em “Conditions of Love – the philosophy of intimacy”, argumenta que, sempre que a “pessoa certa” é excessivamente especificada, inevitavelmente ficará aquém do que imaginamos, sempre estará fora do limite dessas compatibilidades idealizadas. Pascal Bruckner, em “Fracassou o casamento por amor?”, escreve: Estabeleça um ideal e você imediatamente estará engendrando millhões de inadaptados, incapazes de alçar a essa altitude que se imaginam, então, deficientes.(…) A esfera doméstica tornou-se um campo de batalha titânica entre o sublime que se almeja e o trivial que se vive”. Acredita-se, vulgarmente, que incompatibilidades são destrutivas para os relacionamentos, e se esquece de que, durante qualquer relacionamento, durante o curso de uma vida mesmo, prioridades mudam – seja porque as pessoas mudam, seja porque, como dizia o poeta, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”; portanto, durante um relacionamento as compatibilidades podem mudar também. Logo, não pode haver uma compatibilidade perfeita. Quando todo mundo concorda com todo mundo em tudo, as poucas diferenças irão parecer desproporcionais.

Não que certas compatibilidades não sejam necessárias, obviamente que são. O ponto é que talvez seja mais sábio mudar de perspectiva: em vez de pensar em buscar “a pessoa certa”, procurar pelas “atitudes certas” – os recursos e as capacidades para se importar com alguém, para amar alguém. Quando se pensa em procurar pela “pessoa certa”, todo o foco recai sobre o procurado, eximindo o procurador de responsabilidades sobre si na parte que lhe cabe do relacionamento. Como escreve Armstrong:

“Evitar tem sido uma característica chave na busca pela pessoa certa, pois a atenção é desviada daqueles que procuram. Eles não tem responsabilidades no amor; imaginam que, quando encontrarem a pessoa certa, o amor florescerá fácil e espontaneamente e sobreviverá por conta própria.(…) a experiência de aprendizado para amar alguém no longo prazo requer adaptações, inclui abandonar algumas exigências e aprender outras, mudar de prioridades. Se você é capaz de fazer isso com alguém, provavelmente será capaz de fazê-lo com outras pessoas. Compatibilidade, por conseguinte, será uma conquista, não um pré-requisito para o amor.”

A perfeita contraposição de Goethe é Ortega Y Gasset em seu “Estudos sobre o amor”. Se o romantismo ama a ideia de amor, a ideia de apaixonar-se, o ser amado torna-se mero pretexto para amar, pretexto que aos poucos se converte em uma ficção. Gasset afirma que amar é

atuar na direção do amado, um ato transitivo através do qual nos entregamos àquilo que amamos”. O desejo tem caráter passivo pois “aquilo que desejo quando desejo é que o objeto venha até mim”; o amor é o eterno insatisfeito e, no ato amoroso, “saímos de nós próprios…não é o objeto que é atraído por mim, sou eu que gravito na sua direção.”

Se o desejo se anula quando se satisfaz, o amor, pelo contrário, ao buscar sua satisfação, intensifica-se; amar seria a preservação intencional do ser amado.

“O amor chega ao objeto numa dilatação virtual, e empenha-se numa tarefa invisível, mas divina, e a mais diligente que possa existir: afirmar seu objeto. (…) Amar uma coisa é estar empenhado em que exista; não admitir, naquilo que de nós depende, a possibilidade de um universo onde esse objeto esteja ausente. Mas note-se que isto equivale a dar-lhe vida de forma contínua, naquilo que de nós depende, intencionalmente. (…) O exclusivismo da atenção que dirigimos ao ser amado o dota de qualidades prodigiosas. Não é que se imaginem nele perfeições inexistentes, embora isso possa acontecer. À força de manipular pela atenção um objeto, de nos fixarmos nele, o objeto adquire para a consciência uma força de realidade incomparável. Existe permanentemente para nós; está sempre ali, ao nosso lado.”

O amor nos enriquece porque amplia nossa perspectiva: passamos a enxergar o mundo com outros olhos, além dos nossos. Poderíamos aplicar aqui o mesmo conceito da “compaixão”, nas palavras de Milan Kundera: o amor permite “compartilhar com alguém a mesma imaginação afetiva.”

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