Mentiras

Sam Harris é filósofo e neurocientista. Sam Harris é o Ben Stiller do ateísmo militante.  Sam Harris acredita que há um mal no mundo, a religião, que precisa ser extirpado, a todo custo. Ele quer nos convencer a abandonarmos as religiões tradicionais pela religião da modernidade, a Ciência.

Sam Harris é um fanfarrão. Em “A morte da fé”,  escreveu:

“Temos sido muito lentos para reconhecer até que ponto a fé religiosa perpetua a desumanidade do homem para com o homem”

Esse tipo de afirmação (como se todas as religiões se equivalessem) pode deslumbrar adolescentes incautos, mas Harris está em busca de novos adeptos, os adultos entediados, ansiosos por uma espiritualidade “light” e preguiçosa, e para isso está disposto a se transformar no Augusto Cury do ateísmo militante: lançou, recentemente, o livro “Waking up – a guide to spirituality without religion” (algo como: “Despertando – um guia para a espiritualidade sem religião”). Percebam como a capa faz uma referência ao…Céu. Ou seria a imagem de Harris elevada aos céus, como um guru da Nova Era, sem religião?

Abro um parêntese aqui. Não estou argumentando que a Ciência é má e que Harris deve ir para o inferno. O problema é a tentativa de Harris (e dos ateístas) de substituir a fé nas religiões tradicionais pela fé absoluta na Ciência – Harris escreveu um livro inteiro para propor isso, “The moral landscape – How science can determine human values”. É uma questão de colocar as coisas em seu devido lugar. Podemos chamar algumas subciências de “técnica”, ao modo de Ortega y Gasset em seu “Meditação sobre a técnica”:

“Quando o homem não pode satisfazer as necessidades inerentes à sua vida, porque a natureza em redor não lhe presta os meios inescusáveis, o homem não se resigna. (…) O animal não pode retirar-se do seu repertório de atos naturais, da natureza, porque não é senão ela e ao distanciar-se dela não teria onde meter-se. Mas o homem, pelos vistos, não é a sua circunstância, antes está só submerso nela e pode nalguns momentos sair dela e meter-se em si, recolher-se, ensimesmar-se e, sozinho consigo, ocupar-se em coisas que não são direta e imediatamente atender aos imperativos ou necessidades da sua circunstância. Nestes momentos extra ou sobrenaturais de ensimesmamento e retração em si, inventa e executa esse segundo repertório de atos: faz fogo, faz uma casa, cultiva o campo e monta o automóvel. Daí decorre que esses atos modificam ou reformam a circunstância ou natureza, conseguindo que nela haja o que não há. Esses são os atos técnicos. O conjunto deles é a técnica, que podemos, de modo imediato, definir como a reforma que o homem impõe à natureza em vista da satisfação das suas necessidades. Estas, vimo-lo, eram imposições da natureza ao homem. O homem responde impondo por sua vez uma mudança à natureza. A técnica é, pois, a reação enérgica contra a natureza ou circunstância que leva a criar entre esta e o homem uma nova natureza posta sobre aquela. A técnica não é o que o homem faz para satisfazer suas necessidades. Esta expressão é equívoca e seria válida também para o repertório biológico dos atos animais. A técnica é a reforma da natureza, dessa natureza que nos torna necessitados e carenciados, reforma me sentido tal que as necessidades ficam se possível anuladas por deixar de ser problema a sua satisfação.”

Por essa razão, a técnica encanta: como um demiurgo, o homem tem a ilusão de que é possível reformar a natureza ao seu bel prazer, para satisfazer suas necessidades (reais e inventadas). No belíssimo “A descoberta do outro”, Gustavo Corção expõe bem o encanto da técnica:

“A técnica é inebriante por duas razões fortes. Primeiro, dá à inteligência uma satisfação vertiginosa; segundo, porque todos se maravilham com suas prestidigitações. É difícil resistir à admiração dos outros, e o técnico é hoje o mais admirado dos homens. Dum lado, então, pelas espirais lógicas, o técnico farta-se de segurança, de certeza; doutro lado enche-se de louvores. Suas manipulações dão certo. E quando não, ele ainda sorri, sabendo que tem recursos, ou para explicar, ou para retificar.”

Voltemos à Sam Harris.

Em 2010, Harris lançou o livro “Lying” (“Mentindo”). Como não simpatizar com suas ideias? Lendo-o, como alguém poderia não pensar “ei, esse cara está falando umas coisas bacanas”?. Eis o ponto: são, de fato, coisas “bacanas”. Só que não são, legitimamente, suas ideias – e esconder, ou sequer rastrear a origem do que se está a dizer pode ser tanto farsa quanto ignorância intelectual. E saibam que Harris é considerado o mais preparado dos ateístas militantes.

Filósofos diversos problematizaram a mentira (Platão, Aristóteles), mas foi Santo Agostinho quem melhor definiu-a; aliás, a definição de mentira, proposta por Agostinho, é a mais difundida em nossa cultura – sendo, inclusive, usada por Harris, sem o crédito devido. E o mais irônico é que a condenação da mentira é um princípio ético tradicional na cultura religiosa: a primeira referência está em Gênesis 4, 9-10: logo após ter matado Abel, Caim é questionado por Deus, “Onde está teu irmão Abel?”, e Caim responde com uma mentira, “não sei, acaso sou guarda de meu irmão?”.

Em “De mendacio” (Sobre a mentira), escrito em 395 d.C., Agostinho escreve que

“a mentira é uma significação falsa unida à vontade de enganar”

Em termos lógicos, a teoria ficaria deste modo ordenada:

Y mente se, e somente se

(i) Y afirma uma falsidade;

(ii) Y acredita que p, e deliberadamente afirma o oposto de p

(iii) Y tem a intenção de enganar (para que acreditem que o oposto de p é verdadeiro)

O Catecismo da Igreja Católica, a respeito da mentira, diz:

“A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar. A mentira é a ofensa mais direta à verdade. Mentir é falar ou agir contra a verdade para induzir em erro. A gravidade da mentira se mede segundo a natureza da verdade que ela deforma. A mentira é condenável em sua natureza.”

 Tanto o Catolicismo quanto Agostinho consideram que atos intrinsecamente maus serão sempre imorais, em razão de sua natureza: mentir não é questão relacionada somente à falsidade ou à veracidade de uma afirmação – pois não mente aquele que diz uma falsidade acreditando-a verdadeira (“quem expressa o que crê ou opina interiormente, ainda que seja um erro, não mente; crê que é assim como enuncia e, levado por essa crença, expressa o que sente”) –– mas sobre a intenção contida na alma.

Para Santo Agostinho, quem mente possui um “duplo coração”:

“Por conseguinte, dirá uma mentira aquele que, tendo algo na mente, expressa algo distinto com palavras ou outro signo qualquer. Por isso se diz que o mentiroso tem um duplo coração: aquele que sabe ou opina o que é verdade e se cala, e outro, aquele que diz pensando ou sabendo que é falso”

Em “Filoctetes”, temos o seguinte diálogo entre dois personagens de Sófocles (496 – 406 a.C.):

“Odisseu: Peço-te que agarres Filoctetes através da fraude

Neoptólemo: Não crês que é degradante dizeres mentiras?

Odisseu: Não, se a mentira nos conduz à salvação”

É, nas palavras do filósofo romeno Gabriel Liiceanu, o surgimento da “moral da segunda instância”, ou seja, a justificativa, como se virtuosa fosse, da utilização de quaisquer meios para atingir o bem comum. É a eficácia pragmática, que atingiria seu desenvolvimento intelectual pleno com Maquiavel. É uma perguntinha que paira desde a Antiguidade: por acaso existiria alguma mentira boa, uma mentira dita para salvar alguém? Agostinho propõe o seguinte dilema:

 “Um homem que está à sua frente esconde o dinheiro dele para que não seja furtado mediante violência. Se lhe perguntam se sabes onde está o dinheiro, deves mentir?”

Ele responde retoricamente, com outra pergunta:

“Não é lícito ocultar um pecado, mas é lícito cometê-lo?”

Para Agostinho, de nada adianta salvar o próximo se ao tentar salvá-lo você condena a si mesmo; o mandamento é “amarás ao próximo como a ti mesmo”, e não “amarás mais o próximo do que a ti mesmo”.

Vamos comparar trechos de “Lying” (em vermelho), do guru Sam Harris, com trechos da Sagrada Escritura e do Catecismo da Igreja Católica (em azul).

“A mentira nasce quando se comunica algo e se acredita em outra coisa. Mentir é conduzir intencionalmente alguém, que espera por comunicação honesta, ao erro. As mentiras fazem com que os outros formem crenças que não são verdadeiras.” (Sam Harris, Lying, 2010)

“A mentira é uma significação falsa unida à vontade de enganar. Por conseguinte, dirá uma mentira aquele que, tendo algo na mente, expressa algo distinto com palavras ou outro signo qualquer. Por isso se diz que o mentiroso tem um duplo coração: aquele que sabe ou opina o que é verdade e se cala, e outro, aquele que diz pensando ou sabendo que é falso” (Sobre a mentira, 395 d.C., Santo Agostinho)

“A mentira é a estrada real para o caos” (Sam Harris, Lying, 2010)

“Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Evangelho de São João 8, 44)

“Mas agora eu sabia que infinitas formas de sofrimento e constrangimento poderiam ser evitados simplesmente dizendo-se a verdade. Pesquisas sugerem que todas as formas de mentiras estão associadas com uma piora da qualidade dos relacionamentos” (Sam Harris, Lying, 2010)

“A mentira é funesta para toda a sociedade; mina a confiança entre os homens e rompe o tecido das relações sociais. A mentira é a ofensa mais direta à verdade” (Catecismo da Igreja Católica)

“A honestidade é um presente que oferecemos aos outros. Ao mentir, negamos aos outros acesso à realidade. Nossos amigos podem agir com base em crenças falsas, ou falhar em resolver problemas que poderiam ser resolvidos com base em informações verdadeiras. Frequentemente, mentir é lesar a liberdade dos que são importantes para nós.” (Sam Harris, Lying, 2010)

“A mentira é uma profanação da palavra que tem por finalidade comunicar a outros a verdade conhecida. A mentira (por ser uma violação da virtude da veracidade) é uma verdadeira violência feita ao outro porque o fere em sua capacidade de conhecer, que é a condição de todo juízo e de toda decisão. Contém em germe a divisão dos espíritos e todos os males que ela suscita. A mentira é funesta para toda a sociedade; mina a confiança entre os homens e rompe o tecido das relações sociais.” (Catecismo da Igreja Católica)

Sam Harris é graduado em filosofia, portanto deve conhecer a obra de Santo Agostinho. Se ele conhecia, ocultou-a de seu livrinho, ou seja, mentiu; mas não o fez para fazer o mal (vamos conceder-lhe o benefício da dúvida), mas para fazer o bem – na sua cabeça cheia de miolos moles, livrar o mundo da religião é fazer o bem; ele precisa justificar suas crenças com base em “pesquisas científicas”.  Ora, quem mente para fazer o bem é um embusteiro, o que, para Agostinho, já é um grande progresso.

Sam Harris, tenho fé em você.

Bibliografia utilizada e recomendada:

“Lying”, Sam Harris, edição para Kindle, 2010

“Treatise on lying”, Saint Augustine, edição para Kindle, tradução para o inglês do latim

“Da mentira”, Gabriel Liiceanu, 2014, edição para Kindle

Catecismo da Igreja Católica, 2011, edição revisada de acordo com o texto em latim

Bíblia de Jerusalém

Dissertação de mestrado de Lisiane Sabala Blans, “A análise da mentira em Agostinho”, 2012

2 comentários

  1. A verdade sobre a mentira é tão antiga e tão óbvia mas o ser humano teima em desacreditá-la. Justificando suas mentiras, segue longe da verdade.
    Parabéns pelo texto!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s