Os melhores de 2015

 

“O cristianismo não é apenas mais uma das múltiplas tradições religiosas que concorrem entre si nas sociedades seculares do Ocidente. O cristianismo, em particular a tradição moral judaico-cristã, é o berço do liberalismo, incluindo o liberalismo secular que hoje dá o pano de fundo à cultura política ocidental. Embora não seja politicamente correto recordar isso, é isto que deve ser hoje recordado. (…)

Os cristãos desafiaram o princípio subjacente a todas as tiranias – o princípio de que o “poder é o direito” – e declararam que a lei de Deus é mais alta que a lei dos homens. Em suma, eles disseram que a distinção entre o bem e o mal não depende dos caprichos dos homens, de um, de alguns, nem mesmo de todos reunidos em coletivo. (…)

Todos os grandes falsos profetas adorados no século XX – Nietzsche e Freud, Lênin e Stálin, Hitler e Mussolini – procuraram ridicularizar a ideia de consciência individual. Disseram que era um mito concebido para obrigar os homens a inibir ou restringir a sua liberdade, a refrear seus poderes e apetites revolucionários. São típicos embusteiros: a consciência individual é a força moral mais poderosa do que os tiranos mais poderosos. É ela que nos impede de dormir quando erramos, que nos impele a desobedecer quando nos mandam fazer o mal, que nos leva a questionar a autoridade absoluta dos que pretendem substituir-se à lei moral.

Foi do reconhecimento da importância crucial da consciência individual que nasceu o liberalismo. Ao contrário do que pregam os discípulos da Revolução Francesa, o liberalismo não nasceu do combate contra a religião, muito menos contra o cristianismo. O liberalismo nasceu da convicção judaico-cristã de que existe uma lei moral mais alta que não depende dos poderes de plantão. E nasceu da convicção cristã de que essa lei mais alta está escrita no coração de todos os homens. Porque o Homem pode conhecer a lei moral, ele pode ser livre.

Também a tolerância liberal não nasceu da convicção relativista de que a verdade não existe e de que apenas existem as verdades de cada um. A tolerância liberal nasceu da convicção de que Deus, por ser bom, não deseja que os homens O sigam em resultado da coerção. A descoberta da lei moral deve fundar-se na adesão genuína da consciência individual. Em segundo lugar, a tolerância liberal nasceu da convicção cristã de que a condição humana é a da incerteza e do erro. Se a perfeição é vedada ao Homem, nenhuma autoridade humana deve ser investida da autoridade suprema de impor a lei moral: por ser humana, e portanto imperfeita, essa autoridade ficaria mais do que sujeita à tentação do erro e do abuso de poder.

Mas é bem claro que a liberdade, neste sentido liberal original, é um fardo, não é a licença de agir como nos aprouver. É o fardo de sermos humanos, de termos de exercer o juízo crítico, de não devermos seguir a multidão ou os poderosos para fazer o mal. É também o fardo de uma busca que não tem fim, porque a condição humana veda-nos o acesso à certeza e à perfeição.

Esta é, em suma, a mensagem do Natal, a mensagem que deveria ser recordada por todos os liberais – crentes ou não crentes, conservadores ou progressistas –, por todos aqueles que estão conscientes da precariedade da nossa civilização e de quanto ela deve à tradição cristã.

Infelizmente, esta mensagem moral é hoje de novo ridicularizada por uma época de relativismo sem freios, que se reclama abusivamente da liberdade. A fatal arrogância dos falsos profetas convida os indivíduos a não respeitarem limites e a desprezarem todas as tradições. “Se Deus está morto” – dizem os relativistas – “tudo é permitido”.

Mas Deus não está morto. Mesmo para os não-crentes, nos quais me incluo, Deus não está morto. Ele vive no coração de todos os homens, onde a lei moral está escrita, e onde a consciência individual impele os homens a formular juízos morais assentes na distinção entre o bem e o mal. É por isso que vale a pena sair em defesa do Natal.” (A tradição da liberdade, de João Carlos Espada)

Feliz Natal a todos vocês; deixo aqui uma pequena retrospectiva de 2015, o ano que já morreu e ainda não foi enterrado. Precisamos parar de fomentar uma cultura de reação aos restolhos do cotidiano da política e enxergar a cultura e o tempo presente numa escala de tempo mais dilatada, na qual o próprio tempo é suspenso; isso fará desaparecer de nossas retinas fatigadas Dilmas, Cunhas, Renans, Gregórios Duviviers e quejandos.

MÚSICA:

“”Além, Brigada Ligeira!”
Qual de tal ordem se esgueira?
Soldado algum se desvia
Dos feitos cruentos:
Não tem o que responder,
Nada tem para dizer,
Eles só tem que morrer:
Dentro do Vale da Morte
Vão os seiscentos.(…)
quem de sua glória se abeira?
Que ato o seu! A terra inteira
Espalha-o aos ventos.
Honra à sua carga altaneira!
Honra à Brigada Ligeira,
Nobres seiscentos!”


(A carga da Brigada Ligeira, Alfred Tennyson, tradução de Alexei Bueno)


1) The Decemberist, What a terrible world, what a beautiful world: “Cavalry captain”, canção dos Decemberists, presente no album ‘What a terrible world, what a beautiful world”, e inspirada pelo poema de Tennyson, tem um videoclipe que se contrapõe à temática do texto – no qual um guru de autoajuda espalha o decemberismo, refúgio covarde para auxiliar seus adeptos na conquista de suas glórias. 


2) Lana Del Rey, Honeymoon:  voz fantasmagórica sobreposta a arranjos orquestrados em câmera lenta que desvelam a esperança de sobreviver aos seus abismos sentimentais  


3) Chris Stapleton, Traveller: cantores de country music ainda são os melhores feitores de canções de exílio (interior e exterior) atualmente.


4) Iron Maiden, Book of souls: a definição de épico em um disco


5) The White Buffalo, Love and the death of damnation: o exílio permanente dos que se creem fora do alcance de qualquer redenção


6) Ryan Adams, 1989: Adams mostra que Taylor Swift não é só um rostinho bonito

7) Florence + the Machine, How big, how blue, how beautiful; Natalie Prass, Natalie Prass: o pop em sua melhor expressão

CINEMA:

Star Wars – O despertar da força, de J.J.Abrams

 

Lutas de sabres de luz, guerras interestelares, naves supersônicas, novos personagens carismáticos e o retorno de velhos conhecidos das sagas anteriores: tudo isso a serviço do “guarda-roupa da imaginação moral, que o coração possui e o entendimento ratifica, como necessária para cobrir os defeitos de nossa natureza nua e trêmula e para elevá-la à dignidade em nossa própria avaliação” (Edmund Burke, Reflexões sobre a Revolução na França)

 

Beasts of no nation, Cary Joji Fukunaga

“A Netflix matou o cinema”. Eis o lamento dos exibidores cinematográficos, servilmente ecoado por jornalistas culturais, a respeito de Beasts of no nation; ilustra bem o tamanho do poço cultural quando o principal aspecto comentado é a estratégia de lançamento do produto artístico – simultaneamente para salas comerciais e para os assinantes do serviço de streaming -, deixando-se de lado aquilo que realmente importa: do que trata o filme? Qual o tom adequado para contar uma história sobre meninos-soldados africanos? Cary Joji Fukunaga, que não ficou para ver o naufrágio da segunda temporada de True Detective, respondeu: acompanhe a jornada de um deles até o coração das trevas:

“A compreensão do que nos cercava fugia do nosso alcance; avançávamos deslizando como fantasmas, admirados e intimamente assustados, a reação de qualquer homem sensato  diante de uma irrupção exaltada entre os pacientes de um hospício. Não tínhamos como compreender porque havíamos ido longe demais, e não tínhamos como recordar porque atravessávamos a noite das primeiras eras, as eras que não nos deixaram sinal algum – e nenhuma memória. A Terra era irreconhecível. Estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta. Não era uma coisa deste mundo, e os homens…Não, não eram desumanos. Bem, era isso o pior de tudo – essa desconfiança de que não fossem desumanos.”(Joseph Conrad, Coração das trevas).

 

A entrega, Michael Roskam

Em uma de suas “Cartas a Olga”, o tcheco Vaclav Havel escreveu que a essência da responsabilidade decorre da tensão constante entre o nosso “eu” e a experiência de algo que nos transcende; este “horizonte absoluto do ser” constitui o “background” de nossas ações, nos serve de coordenadas e confere contexto e significado ao que fazemos – e, portanto, constitui o fundamento de nossa identidade. A experiência da responsabilidade é mais intensa quando, obedecendo a este “fundo insubornável” (Ortega y Gasset), somos obrigados a agir contra a opinião geral do meio no qual estamos inseridos. Se alguém é capaz de saber o que fez e porque fez alguma coisa, poderá extrair algo estável e que servirá de referência em meio ao caos. Se, no entanto, justificamos nossos erros em função de circunstâncias adversas, desfavoráveis, ou em função das más influências – como faz Bob Saginowski, o personagem vivido por Tom Hardy em “A entrega” (“eu só cuido do bar”) –, estamos, na verdade, arranjando falsos obstáculos que nos impossibilitam de assumirmos plenamente nossas responsabilidades; criamos barreiras entre nossas ações e nossa identidade. Resultado: perdemos nossa liberdade, porque passamos a habitar um mundo aprisionado no pior dos pesadelos, o da impossibilidade da redenção – como nos arrepender do que nos recusamos a possuir? Bob Saginowski vivencia a pior solidão, pois tem em si a imagem de um Deus que é incapaz de expiar aqueles cujas vidas estão quebradas; e não é exatamente isso o que precisa ser salvo, “a imagem do próprio Deus em nós”?

Expresso do amanhã, Joon-ho Bong

 

 

A liberdade interior é a principal resistência que podemos oferecer a qualquer forma de tirania; tiranias exigem sacrifícios e sempre que há sacrifícios (em prol de um projeto de poder, em prol de uma coletividade, em prol da justiça ou reformas sociais) haverá alguém para coletar as ofertas sacrificiais. Nossas almas jamais serão entregues de bandeja nesse altar de oferendas somente se nossas ações se ordenarem sob a perspectiva da Eternidade, de modo que o “horizonte absoluto do ser” constitua o fundamento de nossa identidade e o “background” de nossas ações (ver o artigo The philosophy of Snowpiercer – link aqui).

 

Mad Max – Estrada da fúria, George Miller

Cinema de ação intensa, surreal, expressionista, o nome que você quiser dar: trata-se da batalha pela liberdade no inferno sobre (muitas) rodas.

 

 

 

O ano mais violento, J.C. Chandor

“Minhas mãos estão da cor das tuas. Mas me envergonho de guardar tão branco o coração.” (MacBeth, Shakespeare). O personagem vivido por Oscar Isaac irá perceber – como demonstra a belíssima cena final – que, a depender de nossas escolhas morais, as mãos e o coração ganham as mesmas cores de sangue.

 

 

Caçada mortal, Scott Frank

 

 

Caso raro de adaptação para o cinema muito melhor do que o livro no qual se inspirou (Caçada mortal, do escritor Lawrence Block); podemos aplicar as mesmas palavras que Raymond Chandler usou para descrever a sua criação literária, o detetive Philip Marlowe, para o detetive Matt Scuder, vivido por Liam Neesom, depois que ele conheceu o inferno:

“Em tudo que se pode chamar de arte existe uma qualidade de redenção. Pode ser pura tragédia, se for alta tragédia, e pode ser compaixão e ironia, e pode ser a risada rouca do homem forte. Mas nas ruas sórdidas da cidade grande precisa andar um homem que não é sórdido, que não se deixou abater e que não tem medo. Nesse tipo de história o detetive deve ser este homem. Ele é o herói; ele é tudo. Ele deve ser um homem completo e um homem comum e, contudo, um homem fora do comum. Ele deve ser, para usar um clichê, um homem honrado – por instinto, por ser isso inevitável, sem que ele pare para pensar sobre isso, e certamente sem que ele o diga. Ele deve ser o melhor homem em seu mundo, e um homem bom o suficiente para qualquer mundo.” (Raymond Chandler, A simples arte de matar)

 

The babadook, Jennifer Kent

 

O filme de Jennifer Kent situa-se naquele território ambíguo do “uncanny valley” (termo cunhado na década de 70 por Masahiro Mori, professor de robótica do Instituto Tecnológico de Tóquio), o vale da estranheza do gênero sobrenatural situado entre o maravilhoso (tanto o espectador quanto o personagem, diante do que vivenciam, devem admitir novas leis da natureza pelas quais o fenômeno pode ser explicado) e o estranho (as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fenômenos descritos) (vide Tzvetan Todorov). Ambíguo porque os fenômenos, apesar de não participarem da realidade ordinária como tal, são aceitos – daí o terror. Embora isso possa soar como uma espécie de determinismo, que encerraria os personagens numa realidade terrível e inescapável, a força do filme não está nessa assombração, de viver num mundo sem possibilidade de redenção; a força está em transmitir essa ambiguidade de origem, essa hesitação do sobrenatural aceito, para o nosso olhar, e evidenciar a ambiguidade do real por meio da seguinte questão que, ao final do filme, formulamos: estamos diante de eventos reais ou estamos diante de doença mental? Como escreveu Joseph Conrad no “Coração das trevas”:

“A sua própria realidade – para você, não para os outros – que nenhum outro homem jamais terá como conhecer. Os outros só enxergam a mera aparência, e jamais sabem o que a pessoa de fato sente.”

Operação Invasão 2, Gareth Evans

O cinema asiático ainda é pródigo na ação bem coreografada; desta vez, a ação ilustra a tensão vivida pelo protagonista na “vastidão dos espelhos”.

Ficou a dever: Hacker (BlackHat), Michael Mann

 

 

Tecnicamente impecável, todos os grandes temas deste grande cineasta, Michael Mann, estão lá: a indistinção entre vida pessoal e profissional, de modo que o trabalho se torna a única via de expressão da individualidade, resultando no entanto no isolamento psicológico dos protagonistas, alienados e abandonados na indiferença das vastidões das cidades; a tentativa de eliminar os “cisnes negros” e domar a contingência. Porém, ao contrário de suas obras primas (Heat, Miami Vice, Collateral), a promessa da transcendência que nunca se consuma foi substituída pelo happy-ending, pelo final feliz do “outsider”. De tanto que seus protagonistas espelhavam os vilões, Mann tornou-se fascinado pelo “fora-da-lei” (já percebemos isso em Os Inimigos Públicos) – o que por si é uma característica do cinema noir; no entanto, trata-se de uma característica que ressalta as ambiguidades dos personagens. Neste Blackhat, não há ambiguidade nenhuma.

 

SÉRIES DE TV:

 

Daredevil – Demolidor

 

 

 

Show me a hero, David Simon

 

 

 

Black mirror, Charlie Brooker (dica do bunker do Dio)

 

Livros:

O livro de 2015: em breve um texto a respeito.

 

DESCOBERTA MAIS LEGAL DO ANO: O Bunker do Dio (link para o canal no YouTube aqui)

O canal mais inteligente da Internet, com dicas preciosas; seus vídeos são instrutivos e objetivos. Dionisius Amendola é um leitor rigoroso, apreciador de boa música e de bons filmes. Que seu bunker tenha vida longa e produtiva.

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