Discos

2016: o ano da volta dos que não foram (ou: o ano que insiste em não terminar)

“Mediocridade é um termo severo para aplicarmos a nós mesmos; contudo, vejo que se ajusta tão bem `a minha pessoa que me é impossível não me apodar de medíocre – embora compreenda, no preciso momento em que o faço, que só quando estiver velha e caduca é que me resignarei a esse epíteto. Resignar-me a ele, parece-me, seria resignar-me `a Desesperança. Deve haver algum meio de os naturalmente medíocres escaparem `a mediocridade. Esse meio é seguramente a Graça. Deve haver alguma forma de lhe escapar, mesmo quando estamos abaixo desse nível. Talvez percebermos que estamos abaixo desse nível seja um primeiro passo. Digo que se ajusta bem `a minha pessoa; mas a verdade é que sou abaixo de medíocre. Andarei sempre aos tombos entre a Desesperança e a Soberba, encarando primeiro uma e depois a outra, avaliando qual delas me faz sobressair mais, qual delas me faz sentir mais confortável, mais descontraída. Nunca engolirei um grande naco de nada. Hei de mordiscar nervosamente aqui e além. O temor a Deus é uma coisa boa; mas, meu Deus, não é este nervosismo. É algo colossal, grandioso, magnânimo. Tem de ser um júbilo. Todas as virtudes tem de ser vigorosas. A virtude tem de ser a única coisa vigorosa nas nossas vidas.”

Flannery O’Connor, Um diário de preces, 06/11/1946

 

Livros:

A imaginação totalitária – os perigos da política como esperança, Francisco Razzo:

“A experiência religiosa, tanto do indivíduo quanto da comunidade, perdeu qualquer sentido teológico profundo a ponto de não passar de mera convenção social (…) O homem moderno arreligioso assume uma nova situação existencial, ou seja, uma situação que abre espaço para a produção de um imaginário redentor no próprio ato de se fechar para a transcendência. (…) O imaginário totalitário tem a pretensão de resolver o problema da estiagem espiritual na qual se encontra o homem em uma era secular.”

Experimentos contra a realidade – o destino da cultura na pós-modernidade, Roger Kimball:

“O Iluminismo procurou emancipar o homem libertando a razão e lutando contra a superstição. Revelou-se, contudo, que, quando a razão é totalmente libertada da tradição – o que também significa libertá-la completamente de todo e qualquer reconhecimento daquilo que a transcende -, a razão torna-se rancorosa e insolente; em suma, torna-se algo irracional (…) Quando o racionalismo iluminista se volta contra a tradição que deu origem a ele, degenera-se numa força destruidora da cultura e das várias diretrizes que a cultura nos legou.”

 

Não com um estrondo, mas com um gemido – a política e a cultura do declínio, Theodore Dalrymple:

“ Não nos impressiona o fato de o caráter dos britânicos ter se alterado, de sua vigorosa independência ter sido substituída pela passividade, pelas lamúrias ou até mesmo, nas camadas mais baixas da sociedade, por um ressentimento rabugento, motivado pela sensação de que o suficiente ainda não foi nem está sendo feito em favor deles. Para os que se encontram em posição inferior o dinheiro que recebem se assemelha a uma mesada, ao dinheiro que as crianças ganham de seus pais e que é reservado `a satisfação de seus caprichos, Como resultado, eles se infantilizam. Quando se comportam irresponsavelmente – abandonando seus filhos, por exemplo, sempre que se tornam pais -, é porque as recompensas pelo comportamento responsável e as penas pelo comportamento irresponsável não existem mais. Essas pessoas acabam por viver num limbo no qual nada há que possam esperar e almejar nem temer e perder.”

Vibrant paradoxes, Bishop Robert Barron:

“How many people – especially Young people – today would casually hold that the determination of ethical rectitude is largely if not exclusively the prerogative of the individual? That’s the fruit of eating of the tree of the knowledge of good and evil. Just after the fall, the first humans realized that they were naked and sought to cover themselves. I would interpret this not so much as shame but as deep and preoccupying self-consciousness. When we acknowledge that goodness and the value lie outside ourselves, in the objective order, we look outward, forgetting the self; but when we are convinced that our own freedom is the source of value, we tend to turn inward, protective and fearfully.”

Os invernos da ilha, Rodrigo Duarte Garcia:

“Eu lia e relia aqueles versos e estava realmente impressionado. A mim, pareciam conter uma profunda esperança em face da finitude humana, as imagens fortes dessa consciência de que a tarde se esgota, enquanto o inverno é uma promessa destinada `a conversão das trevas em luz.” (…)

“Eu gostava das aulas. (…) elas eram diferentes. Talvez porque o senhor não seja daqui, veio de longe. Esse sotaque esquisito. Desculpa…Não, não é isso. É o que o senhor diz. Acho que faz a gente se sentir como se fosse uma coisa, assim, uma coisa maior. De fazer parte, sabe?

– Fazer parte?

– É, que agente pode morar nessa ilha pequena, trabalhar de pescador, do que for, mas tem todo um outro mundo, enorme. E que dá para imaginar esse mundo, as paisagens que ninguém nunca viu, a gente com que ninguém nunca falou. Fazer tudo isso um pouco nosso, também. E abrir um monte de possibilidades diferentes. (…) Meu pai e minha mãe não tem ideia do que seja isso, muito menos a Viviana. Acho que os meus amigos também não. Eu estou falando meio atropelado, mas o senhor entende? Essas coisas fazem a gente se sentir menos sozinho. E não é ruim, não.”

 

Filmes:

 

Knight of cups (Cavaleiro de copas), Terrence Malick: a história, contada por meio de imagens assombrosas, de peregrinação numa terra desolada (ambição, promessas falsas, amores fáceis), entorpecida e fascinada por si mesma, em busca desta pérola, a “Divina Presença” esquecida (em nós, ao nosso redor)

The Witch (A Bruxa), Robert Eggers: a linguagem e a rigorosa ambientação do século XVII permitiram a criação de uma estética do horror adequada e assustadora e que nos mostram a sedução (gradual e insistente) do Mal.

Almost Holy, Steve Hoover: Nassim Taleb escreveu: “At no point in history have so many non-risk-takers, that is, those with no personal exposure, exerted so much control”. Idealismo, pacifismo e as utopias mataram o conceito de honra no Ocidente; colocar a honra (e a reputação) em palavras e ações requer uma coragem quase sobrenatural, nestes tempos covardes. Eis o filme que é o “anti-exemplo” desta nossa época entupida de pessoas que falam e falam, exigem sacrifícios alheios, mas não assumem quaisquer consequências por suas próprias ações.

Captain America – Civil War, Joe e Anthony Russo: ser livre implica assumir responsabilidade por todas as nossas ações; a experiência da responsabilidade será mais intensa se pudermos estabelecer vínculos entre aquilo que fizemos e suas razões, em obediência ao nosso “fundo insubornável”; quem sabe, com isso, poderemos extrair algo estável e que nos servirá de referência em meio ao caos.

 

Discos:

Leonard Cohen, “You want it darker”

 

 

Sturgill Simpson, “A sailor’s guide to Earth”

 

Metallica, “Hardwired…to self destruct”

 

Gojira, “Magma”

 

Nick Cave and the Bad Seeds, “Skeleton tree”

 

Brian Fallon, “Painkillers”

 

 

Séries:

 

Homeland

 

Daredevil

 

 

The night of

 

 

Game of thrones

 

 

The walking dead

A luz agonizante

 

“Entraram na cidade sob uma chuva fina. O cavalo relinchou baixinho e farejou timidamente os jarretes dos outros animais amarrados diante dos lupanares iluminados por onde passaram. Música de violino ecoava pela solitária rua enlameada e cachorros magros atravessavam seu caminho indo de uma sombra a outra. No fim da cidade ele ouviu os degraus baixos de madeira banhados pela luz fraca que vinha da porta. Virou a cabeça e olhou uma última vez para a rua e para as janelas acesas dispostas aleatoriamente na escuridão e para a luz pálida e agonizante a oeste (the last pale light in the West) e as colinas baixas e escuras em volta.”

Fantasia desbotada

My Favourite Faded Fantasy, de Damien Rice, demorou oito anos para ser escrito; sabe-se lá por quais razões. Talvez houvesse o peso do antecessor, o excelente “9”. No Brasil, Rice ficou associado às versões de seu Jorge e Ana Carolina, de Simone (como diria o coronel Kurtz, “o horror, o horror!”). Esqueça-os. O novo disco é um conjunto de músicas folk nas quais, sem resvalar em obviedades, Rice se mostra um cartógrafo preciso dos relacionamentos marcados por desencontros teimosos, respirações suspensas, falhas de caráter, sentimentos rabiscados ou cindidos, fecundados pelo medo. As oito canções são fantasias desbotadas que retratam, por meio de piano e cordas, ora minimalistas, ora dramáticos, ausências que sangram, felicidades irrisórias que duram menos do que uma lágrima – sem recorrer a clichês, a sentimentalismos toscos.

“Told myself I´d regret it but what do I know / about all these useless dreams of living alone like a dogless bone”

“I just came across a manger / out among the danger / somewhere in a strange´s eye”

“Cause we never wanted to be lusty or lewd / nor tethered to prudish strings / and we never wanted to be jealously tuned / nor withered into ugly things”

Suas canções insistem em dizer que as lembranças são como fotografias partidas e repartidas entre duas pessoas: sozinhos, os pedaços restam inconclusos – órfãos de significados; viram borrões, soterrados por inúmeros outros pedaços desiguais.

Rice canta sobre as expectativas pesadas e impossíveis que construímos no entrecho de todos os dias; na urdidura de promessas que jamais serão cumpridas. Nas falsas medidas do tempo. Ouça com cuidado.

Muna

A retrospectiva do “Letra em cena” só vai acontecer em Dezembro, mas Marketa Irglova lançou o que para mim será o melhor álbum de 2014, “Muna”.

“God, I was sent here deaf to learn to hear,
To have faith in you and never fear.
Life is an ocean, you its every wave,
Your arms would cradle me, and keep me safe.
You’re right, all this, and more I need to learn,
All this unease just makes my stomach churn.
It was I not you who set this trap, but
You did leave me here without a map.
All this time I’ve had to guess the way,
To keep moving when I wished to stay.
I’ve been right as much as I’ve been wrong, so
All I hear from you is: ‘You are strong enough,
For all you’ll ever have to face,
The only map you need is Love,
To guide you through this illusion of a maze.”

 

 

31 canções

Em “A música no seu cérebro – a ciência de uma obsessão humana“, Daniel Levitin escreveu:

“Para o artista, o objetivo da pintura ou da composição musical não é transmitir uma verdade literal, mas certo aspecto de uma verdade universal que possa seguir comovendo as pessoas mesmo que o contexto, a sociedade ou a cultura não sejam os mesmos. (…) Em certa medida, nos rendemos à música ao ouvi-la: decidimos confiar nos compositores e músicos, deixamos que a música nos leve a algum lugar fora de nós mesmos. Muitos sentimos que a boa música nos liga a algo maior que nossa existência, a outras pessoas, a Deus. Mesmo quando não nos transporta a algum lugar de transcendência emocional, ela pode alterar nosso estado de espírito. É compreensível, assim, que relutemos em baixar a guarda, em desarmar nossas defesas emocionais para qualquer um. (…) Esse sentimento de vulnerabilidade e entrega parece mais intenso do que nunca no rock e na música popular dos últimos quarenta anos. Permitimos que (músicos) entrem em nossas salas e quartos quando não há mais ninguém por perto. Eles entram por nossos ouvidos quando não estamos nos comunicando com mais ninguém neste mundo. A força da arte consiste nessa capacidade de nos conectar às pessoas e a verdades maiores no que diz respeito à vida e ao seu significado.”

Sob experiências emocionais suscitadas pela música, somos transportados em direção a outro lugar, para outras épocas, para outras circunstâncias. Amplificamos, de algum modo, nosso conhecimento acerca de aspectos ocultos, esquecidos, ignorados, subestimados ou sequer imaginados de nossa própria existência, deitados no sofá.

 

Em “31 canções“, Nick Hornby escreveu:

“O que eu escuto são canções. Quando as pessoas me perguntam de que música eu gosto, acho muito difícil responder, porque elas geralmente querem nomes de pessoas e posso dar-lhes apenas nomes de canções. E tudo o que eu tenho a dizer sobre essas canções é basicamente que eu as adoro, que quero cantar junto e forçar as outras pessoas a escutá-las e que fico contrariado quando essas pessoas não gostam delas tanto quanto eu. (…) Mas qual o tema apropriado para uma canção? Canções diferem de livros de muitas maneiras, mas tanto compositores quanto romancistas estão em busca de material que de algum modo signifique algo além da coisa em si, algo que contenha ressonâncias, ironias, textura e complexidade. algo que seja tanto temporal quanto atemporal (…). No fim das contas são as canções de amor as que duram mais.Canções sobre trabalho são boas. Canções sobre rios, pais ou estradas também. Boas canções sobre filhos são surpreendentemente raras; canções sobre animais de estimação é melhor evitar. Quantas vezes você deseja ouvir uma canção satirizando a intolerância ou a parcialidade da política do Congresso americano? (…) As canções realmente maravilhosas, aquelas que o tempo e as rádios que só tocam músicas antigas não conseguem destruir, são sobre sentimentos românticos. E não é porque os compositores tenham algo a acrescentar sobre o assunto; é simplesmente porque o romance, com seus altos e baixos, reviravoltas e tropeços, síncopes, chiliques e achaques, é uma metáfora natural para a música em si. Canções sobre coisas complicadas apenas chamam a atenção para a artificialidade inerente ao meio: por que esse cara está cantando? por que não escreve um artigo no jornal? E, afinal de contas, como pode um solo de mandolim ilustrar ou elucidar as agruras dos esquimós? Mas, como se convencionou escrever sobre as questões do coração, a linguagem parece perder o caráter de inadequação, torna-se transparente e você consegue ver a música nas palavras. Em outras palavras, letras de amor são como instrumento musical e canções de amor tornam-se de algum modo pura canção. Talvez seja isso que dê a vantagem a “You had time” [canção de Ani DiFranco, que entraria facilmente na minha lista]: nossas separações, no fim das contas, tem mais melodia do que nosso trabalho.”

 

 

Encontramos, porém, a síntese de ambos os trechos mencionados acima, a respeito da música, numa belíssima passagem de “No caminho de Swann“, o primeiro volume de “Em busca do tempo perdido“, de Marcel Proust – no momento em que Swann ouve novamente uma sonata, de Vinteuil (compositor inventado), sonata que ficara associada ao seu amor por Odette:

“E antes que Swann tivesse tempo de compreender e dizer consigo “É a pequena frase da sonata de Vinteuil, não escutemos!”, todas as lembranças do tempo em que Odette estava enamorada dele e que até aquele dia conseguira manter invisível nas profundezas de seu ser, iludidas por aquela brusca revelação do tempo de amor que lhes parecia ter voltado, despertaram e subiram em revoada para lhe cantar perdidamente, sem piedade para com o seu atual infortúnio, os refrãos esquecidos da felicidade. Em vez das expressões abstratas “tempo em que eu era feliz”, “tempo em que eu era amado” que tantas vezes pronunciara até então e sem muito sofrer, pois sua inteligência só encerrara ali algumas pretensas amostras do passado que nada conservavam do mesmo, Swann reencontrou tudo o que havia fixado para sempre a específica e volátil essência daquela felicidade perdida. (…) E pela primeira vez o pensamento de Swann se transportou, num impulso de piedade e ternura, para aquele Vinteuil, para aquele irmão desconhecido e sublime que tanto deveria ter sofrido também; qual teria sido a sua vida? Ao fundo de que dores fora ele buscar aquela força de deus, aquele poder ilimitado de criar? Quando era a pequena frase que lhe falava da vaidade de seus sofrimentos, Swann achava até certa doçura naquela mesma indiscrição que no entanto momentos antes lhe parecera intolerável quando julgava lê-la no rosto dos indiferentes que consideravam o seu amor como uma divagação sem importância. É que a pequena frase, pelo contrário, qualquer que fosse o seu juízo sobre a brevidade desses estados d’alma, via nisso alguma coisa, não como o fazia toda aquela gente, de menos sério que a vida fosse positiva, mas, antes, de tão superior a ela, que só isso valia a pena ser expresso. Todos os encantos de uma tristeza íntima, era a eles que ela tentava imitar e recriar, e até a sua própria essência, que consiste em serem incomunicáveis e parecerem frívolos a qualquer outra pessoa que não seja a que os experimente, a pequena frase a havia captado e tornado visível. De tal sorte que fazia confessar seu valor e gozar sua divina doçura àqueles mesmos ouvintes – desde que tivessem um mínimo de pendor musical – que em seguida os desconheceriam na vida, em cada amor particular que vissem nascer perto de si. (…) Assim, a frase de Vinteuil, como determinado tema de “Tristão”, por exemplo, que nos representa também certa aquisição sentimental, havia esposado nossa condição mortal e adquirido algo de humano que era assaz comovedor. Sua sorte estava ligada ao futuro e à realidade da nossa alma, de que ela era um dos ornamentos mais particulares, mais diferenciados. Talvez o nada é que seja a verdade e todo o nosso sonho não exista, mas sentimos que então essas frases musicais, essas noções que existem em função do sonho, não hão de ser nada, tampouco. Pereceremos, mas temos como reféns essas divinas cativas que seguirão a nossa sorte. E a morte com elas tem alguma coisa de menos amargo, de menos inglório, de menos provável, talvez.”

Música: tentativa de recriar e expressar um afeto que por si só é incomunicável em nossas experiências cotidianas.