Discos

Sofredores melodramáticos

As origens do melodrama remontam ao modo de encenação pelo excesso, em decorrência de uma economia verbal (Jesus Martin-Barbero, “Dos meios as mediações – comunicação, cultura e hegemonia”). Há três séculos, teatro literário, supostamente de “alta cultura”, era restrito às classes “altas”. Apresentações “populares” eram proibidas de recorrer à retórica verbal; portanto, para expor sentimentos, apelavam à opulência de encenação, com gestualidade excessiva e expressividade corporal exagerada. Esses mesmos recursos foram apropriados, com ênfase na década de 1970, por determinados compositores e intérpretes – apoiados pela maior presença de rádio e televisão como meios de comunicação no Brasil –, cujas expressões receberam a alcunha de “brega”; e que, apesar de ainda conservar certo público fiel, foi nesse período que alcançaram sua grande popularidade (Silvia Oliveira Cardoso, “Eu não sou lixo – Música brega, indústria fonográfica e crítica musical no Brasil dos anos 1970“). Não é à toa que artistas como Céu e Bárbara Eugênia recorram a sonoridades dos anos 70 para algumas músicas de seus mais recentes discos, marcados por forte acento romântico brega.

A música depende não somente de melodia, ritmo e letra. Depende também de harmonia com o contexto em que é apreciada. Música relaciona-se com a sensibilidade do ouvinte e pode marcá-lo como um pedaço de fotografia de um instante capaz ou não perdurar ou de refazer-se no futuro, como memória ou imaginação (Olavo de Carvalho, em artigo de 2009, intitulado “A consciência sem consciência”, escreveu que a música não tem apenas ordem, tem significado, ao apontar para algo que se estende além dos elementos sonoros que a compõem). A música brega tem uma característica que pode passar despercebida ao ouvinte casual: a ambiguidade. Pois, se no conteúdo acumplicia-se ao desespero dos que foram traídos, descreve os tormentos das separações e a resignação dos solitários incompreendidos, na forma expõe a comicidade e o exagero da situação desses trágicos, repondo tudo em seu devido lugar. A teatralidade das emoções afaga os sofredores e os reconduz à banalidade de suas vidas. Não é despropositado que esse cancioneiro seja denominado romântico: herdeiro da tradição que acredita que o que vale é a intensidade do sentimento atual. Nossas frustrações, em nossos relacionamentos, devem-se ao caráter antecipatório da paixão amorosa: ao consagrar o sentimento presente, a imaginação desenha um quadro favorável no futuro, convenientemente adaptado às demandas do que estamos sentindo agora (“Conditions of Love”, John Armstrong). A antecipação do futuro do relacionamento é determinada por nossas esperanças, não por nossa compreensão; se o sofrimento é baseado na fantasia, a cura seria uma generosa dose de banalidade”.

Essa ambiguidade ramifica-se em dois grupos de canções distintas no álbum “É o que temos”, de Bárbara Eugênia. Na primeira parte, temos canções cuja amargura lança o ouvinte no autêntico repertório romântico brega (“Coração”, “Por que brigamos” – versão de “I am…I said”, de Neil Diamond, regravada em 1972 por Diana –, “Roupa suja”, “O peso dos erros”; menos com “I Wonder” e “Sozinha”, como se ambas representassem momento de transição). A banalidade, a reabertura, daquele que sofreu, a novas experimentações ocorre, a partir de então, com “Ugabuga feelings”, “Eu não tenho medo da chuva e não fico só”, “You wish, you get it”, até o fim do álbum, que termina com “Out in the Sun” – representando a fuga do sofredor solitário de seu melodrama e sua imersão imediata, de braços abertos, em um mundo cheio de novas expectativas.

 

 

 

Lugar comum

“O lugar pode ser este, se outro

melhor não houver. O que há

de comum: tudo aí se estabelece.”

Lugar comum e outros poemas”, Heleno Godoy, 2005

Em oposição à ideia de algo batido, repetido, esvaziado de sentido – portanto, fora de lugar –, o lugar comum a que se refere o poeta é aquele comum a todos, onde tudo pode ser compartilhado: as mesmas experiências, as mesmas alegrias e as infelicidades nossas de cada dia. Comparação temática bizarra, entre um poeta goiano de altíssimo nível, Heleno Godoy, praticamente desconhecido no Brasil, com o sexto álbum do grupo de Ohio, The National, “Trouble Will find me”.

Auto-retrato

“Se já escolhi caminhos errados,

Sempre sei aonde não quero ir;

Prefiro evitar amigos a construir

Adeptos – sou muito constante

Quando trato de ódio; vulnerável,

Quando acho que o que é amor

Perdura.

Assim, raramente me protejo,

E ando cheio de cicatrizes.”

Marcas

1.

“Restam, sobre mim, como num
desafio, certas marcas de outro
dia: um calendário de anos antes,
guardado como relíquia, retalhos
e panos velhos, sobras de roupas
não vestidas, promessas de ternos,
gravatas nunca lá usadas, algumas
meias sujas, limpas outras, cuecas,
as coisas de que me despi, ao longo
dos anos e que fui para trás esque-
cendo amontoadas, coisas externas,
que não fazem parte mais de mim,
que me envolveram durante algum
tempo e até, sim, me estimularam.

2.
Restam, também, certas garrafas vazias,
maldição de família, a inserção líquida
na vida de todos os dias, copos e taças,
medida da dose diária de compensações.

Sobras sobre toalhas, pão comido pela
metade, vai ficando de mim esse pobre
esquecimento de alguns ritos e outros
tantos risos artificiais, alegrias neutras

 como induzidas, uma quantidade pouca
de ilusões, como se a vida natural que
aqui ainda restasse, sobre essa mesma


toalha suja, tão carcomida, substituísse
aquela que se esvai líquida e certa como
erva usada apenas por seu próprio cheiro.

3.
Restam, também (sempre sobram, claro),
algumas esperanças: bilhetes de loteria
esquecidos no fundo de uma tal gaveta,
uma réstia de alho atrás da porta, sempre
aquela crença de que os dias vão passar
e os tempos vão mudar, como mudam
as folhas das árvores e se altera o nosso
gosto por frutas tenras, da nova estação.

Mas sempre volta aquele mesmo pó que
antes se levantara do chão e incomodara
nossos olhos, sempre retorna aquele vento
frio que sopra de vez em quando, sempre
renascem os mesmos gestos ágeis de dedos
a conferirem números e os atirarem fora.

4.
Não restariam ainda outras marcas?
Por exemplo, alguns amores havidos,
umas emoções tantas, talvez parcas
horas partilhadas, quantos gemidos?
Sempre sobra, como marca mordida
sobre a pele em chama, luta travada,
um selo partido, golpes, ferida
aberta para nova e incerta agulhada.
Ali, quando crescem mais e mais flores
(jardim suspenso sempre se condensa
sob um céu de estrelas), certos odores
flutuam como igreja que se incensa.
Sempre sobra, como marca sensata,
o que machuca – reveses, sucata.

 “Trouble will find me” é um álbum de assimilação gradual, requer tempo; a voz de barítono de Matt Berninger aproxima do ouvinte o lado assombrado da vida. Porque o disco trata disso: sobras no presente de sombras do passado, estilhaços de futuro fragmentados por expectativas que não se cumprem. Trata de adultos encastelados por uma tirania infantilizada que exige felicidade o tempo todo, com suas insatisfações permanentes a servir-lhes de refúgio das assombrações de suas vidas, à sua volta. O grupo escapa da cilada autoindulgente porque suas melodias descrevem o sofrimento como lugar comum; o cantor, como o poeta, enxerga, em suas vivências, o terreno da experiência comum; as melodias acomodam o caos originário de perdas acumuladas, recolhem os cacos de corações partidos, auxiliadas por camadas instrumentais versáteis e nada grandiloquentes de bateria, baixo e guitarra. E, no entanto, que estranha forma de esperança paira sobre cada canção: sobreviver à ausência, dar um tempo ao tempo que passa e aquiesce a dor.

“o tempo é esse lugar que se apaga a cada passo

e não há metáforas para além destas distâncias

intransponíveis e vertiginosas

que nos cabe esquecer”

(“Nesta cidade e abaixo de teus olhos”, Annita Costa Malufe, 2007)