Filmes

Fantasmas

O narrador do romance “O polígono das secas”, de Diogo Mainardi, nos diz, a certa altura:

“Mais adiante, num arroubo didático, impedindo a livre ação interpretativa por parte do leitor, o autor do romance irá esclarecer suas verdadeiras intenções. (…) O autor deste romance intervém novamente; no caso, com a bibliografia. A intervenção pode desagradar o leitor, mas o autor não se incomoda. O romance é dele – tem o direito de intervir como bem entende. É sua única prerrogativa. (…) O leitor não conta. É subalterno em relação ao autor e não tem qualquer direito a interferir. Para que o leitor não possa adulterar o presente romance com interpretações próprias, o autor irá esclarecer o seu verdadeiro significado, ainda que acabe restringindo demasiadamente o alcance de sua obra.”

É sempre bom ouvir o que o autor (de um livro, de um filme) tem a dizer. No caso de um cineasta culto, meticuloso e exigente como Stanley Kubrick, acho que deveria ser uma obrigação. Pode aprumar voos interpretativos a respeito de seus trabalhos. Isso se aplica principalmente a um de seus filmes mais incompreendidos, o clássico de terror “O iluminado” –  o interessante é que o filme se tornou um clássico pelas razões equivocadas. Sendo tênue a separação entre intenção, resultado efetivo e interpretação, a palavra do autor importa.

Em sua mini-resenha para a Folha de São Paulo, a respeito do “Iluminado”, de Kubrick, no dia 14 de agosto, Inácio Araújo mencionou aquele que não é o principal aspecto do filme:

“Já “O Iluminado” (“The Shining”, Cinemax, 1h15; 16 anos), do mesmo Kubrick, fica no registro da solidão e do terror. A história diz respeito ao zelador de um hotel e aos efeitos que a solidão e o inverno podem causar.”

Vejamos o que Kubrick diz a respeito do roteiro de seu próprio filme (os trechos da entrevista  foram retirados de “Conversas com Kubrick”, de Michel Ciment; são jóias raras, dada a notória aversão de Stanley não só em dar entrevistas como para explicar sua obra):

“Eu definiria como um equilíbrio frágil entre o psicológico e o sobrenatural, capaz de derrubar as barreiras de sua incredulidade e de fazer com que você entre com tudo na história.(…) à medida que os acontecimentos sobrenaturais ocorrem, o leitor continua supondo que eles são provavelmente produtos da imaginação do personagem (…)na verdade, só quando a porta da despensa é aberta por Grady é que temos certeza absoluta de que aquilo não é algo imaginário.”

Portanto, o filme não é a respeito “dos efeitos da solidão e do inverno” sobre um pacato zelador e sua família. O filme narra o aprisionamento de um homem na eternidade do tempo, pelo mal, pela ação de um hotel fantasmagórico, que não é fruto da cabeça de Jack Torrance. As estruturas utilizadas por Kubrick (o aspecto formal do filme) denunciam uma realidade fugaz, mutável: nada é o que parece ser. O grande personagem do filme, o hotel Overlook ,é um fantasma que tenta transmitir uma credibilidade real a fim de capturar Jack, sua mulher e seu filho e, por conseguinte, impor suas vontades; seus aposentos, seus corredores, tudo nele se transforma, o tempo todo, com seus portais que se abrem para outra época ou que permitem acesso aos habitantes macabros do Overlook. Esse disfarce do real ilude Jack, nos engana a nós, espectadores, e enganou o Inácio Araújo; quem escapou foi seu filho, Danny, o “iluminado”. Jack e todos nós somos enganados porque não percebemos aquilo que vemos, e esse é o grande mérito do Kubrick cineasta.

Vejamos:

1) Na cena em que a mulher de Jack, Danny e Halloran estão conhecendo as dependências do hotel, percebam o “fundo” do cenário quando eles estão para entrar no imenso “freezer” e  o mesmo fundo no instante em que eles saem do “freezer” (e saem pelo mesmo caminho pelo qual entraram):

2) Quando Danny está brincando sozinho e, de repente, chega uma bola de tênis até ele, percebam como muda o padrão das listras do carpete:

3) Danny está assistindo à TV; não há nenhum cabo conectando-a uma tomada de parede.

4) Jack Torrance está escrevendo, quando é interpelado por sua mulher; atentem para o cenário atrás de Jack e percebam que, após o corte para ela, há uma cadeira que desapareceu. Erro de continuidade? Pouco provável para o filme de um cineasta conhecido por repetir a mesma cena inúmeras vezes, até à perfeição.

Voltemos a Kubrick:

“A tendência é empregar o diálogo como principal meio de comunicação, mas acho que há, sem dúvida,uma maneira mais cinematográfica de comunicar, mais próxima do cinema mudo. (…) Em todos os filmes, quase tudo é dramatizado e quase nada é ilustrado com mais leveza, apresentado com mais simplicidade. Isso só o cinema mudo realizou, e também os filmes publicitários na televisão. Em trinta segundos, se passa uma ideia visualmente.”

Ora, não é justamente isso que as cenas estão ilustrando? Visual e sutilmente, o diretor está nos transmitindo uma mensagem – a mensagem sobre o que, de fato, seu filme trata, exigindo que prestemos atenção à tudo: cenário, clima, música, fala, interpretações, trejeitos. Até o nome do hotel é significativo: “Overlook”, que quer dizer, entre outras coisas, “supervisionar”. Resumindo: cinema com letra maiúscula.

“A natureza de seus próprios problemas psicológicos o preparou para se submeter às vontades do hotel (…) estando em uma situação que o expôs às forças más do hotel – e este é o aspecto sobrenatural da história -, ele se torna o instrumento perfeito da vontade delas. (…) Ao contar essa história, você diz: foi o que aconteceu. E tenta torná-la o mais real possível.”

Esse é o ponto-chave: vivemos a época do realismo exagerado. Não à toa, a maioria dos filmes hollywoodianos estampa, como forma de nos atrair, os espectadores viciados na realidade, o famigerado “baseado em fatos reais”. Kubrick, ao mesmo tempo em que reduz  o espaço em que seus personagens se deslocam (enclausurando-os no hotel, depois no labirinto do hotel), alarga desmesuradamente o tempo e o espaço subjetivos, dissolvendo a fronteira entre o eu e o mundo, entre o presente e o passado.

E se por acaso, caro leitor, prezada leitora, você sempre teve dúvidas a respeito da autenticidade do que Jack Torrance vivenciava, se produto de sua imaginação ou não, desencadeado pelo isolamento e pelo inverno, sinto muito: dê mais uma olhada, olhe atentamente para a última foto do filme, a fotografia do “Baile do Overlook Hotel, 1921”: você vai perceber que, assim como Jack Torrance, você também está lá; você também  está aprisionado no Hotel, desde sempre.

P.S.: Há teorias exageradas e conspiratórias  a respeito do filme; para conhecê-las, recomendo o documentário “Room 237” (no Brasil, “O labirinto de Kubrick”) e a extensa, minuciosa e exaustiva análise do MasterMind, “Physical cosmologies” (link aqui); para conhecer mais sobre o diretor e seus filmes, recomendo “Conversas com Kubrick”.

True Detective e o sentido de eternidade

“Quem, seu eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia Sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia valer? Nem Anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido.”

Primeira elegia, “Elegias de Duíno” (1923), Rainer Maria Rilke

A história de True Detective (compre o DVD aqui) é narrada em dois planos temporais: um se passa em 1995, na Louisiana, e mostra a investigação de um crime com características de ritual satânico efetuada por Rust Cole (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson). Tudo parece apontar para um assassino em série, o Rei de Amarelo, habitante de Carcosa. O outro plano temporal situa-se em 2012, com Hart e Cohle mais velhos, narrando a história da investigação que fizeram em depoimentos para dois detetives que investigam crimes ocorridos no presente, nos quais aparentemente um criminoso está usando os mesmos métodos do serial killer ritualístico. Em uma proeza rara na TV, todos os episódios foram dirigidos por Cary Fukunaga e escritos por Nic Pizzolatto.

1. Carcosa

Ambrose Bierce (1842-1913), escritor mordaz e aforístico (dono de pérolas como  “A paciência é uma forma menor de desespero, disfarçada em virtude”), escreveu o conto “Um habitante de Carcosa”, incluído na coletânea Cruzando o umbral (publicada no Brasil em “Visões da noite – contos satíricos de horror” e em “O símbolo amarelo”):

“O dia me parecia avançado, embora o sol não estivesse visível; e apesar de ciente de que o ar estava úmido e gelado, minha consciência desse fato era mais mental do que física: eu não tinha uma sensação de desconforto. Um dossel de nuvens baixas cor de chumbo pairava como uma maldição visível sobre toda a paisagem sinistra. Havia em tudo isso uma ameaça e um presságio – uma alusão a algo maligno, uma sugestão de ruína. Não havia pássaros, feras ou insetos. O vento assobiava nos galhos desfolhados das árvores mortas e o capim cinzento curvava-se para sussurrar à terra seu terrível segredo; contudo, nenhum outro som ou movimento rompia o silêncio sepulcral daquele lugar pavoroso. (…) Um coro de lobo uivantes saudou a aurora. Vi sentarem-se nas patas traseiras, sozinhos e em grupos, nos topos dos montes e túmulos irregulares que tomavam metade da paisagem desértica e estendiam-se até o horizonte. E então eu soube que aquelas eram ruínas da antiga e famosa cidade de Carcosa.”

A inspiração para a Carcosa de Ambrose Bierce pode ter vindo por meio do poema “Carcassone”, de Gustave Nadaud (1820 – 1893), no qual um homem lamenta por não ter conhecido sua cidade natal, Carcassonne:

I’m growing old, I’m sixty years; I’ve labored all my life in vain. In all that time of hopes and fears, I’ve failed my dearest wish to gain. I see full well that here below Bliss unalloyed there is for none My prayer would else fulfilment know — Never have I seen Carcassonne!

A investigação de 1995 de Cole e Hart é uma descida para o coração do abismo. Pouco a pouco, pressentem que irão topar com algo inominável, sinistro. Em 2005, o jornal The New York Times apresentou uma reportagem sobre a  prisão de 10 indivíduos, incluindo o pastor Louis Lamonica Jr (Igreja Hosana), em Tangipahoa, um vilarejo de pouco mais de 800 pessoas situado ao norte da Louisiana, acusados de abusar sexualmente de 25 crianças e de mutilar  animais para a prática de rituais satânicos. A arte imita a vida: a Carcosa do roteirista Nic Pizzolato é a Louisiana e seu bando de pássaros a coreografar o mau agouro por vir, suas fábricas isoladas, destacadas dos pântanos a arremeter contra os céus suas fumaças e contra os rios seus detritos. A Louisiana de Nic Pizzolato é a sombra de um lugar, os restos despejados do Éden, dominados pelo pesadelo: a inocência corrompida pelo pecado, pelo abominável. A espoliação da beleza pelo mal.

O drama real de True Detective é a jornada De Cole e Hart de volta à luz, a partir da escuridão.

2. O Rei de Amarelo

“Pela costa as ondas escuras a quebrar / baixam ao lago os sóis em par, / estendem-se as sombras / em Carcosa. Estranha é a noite com estrelas negras a despontar, / e estranhas luas que vagam pelo ar, / mas, ainda mais estranha é a / perdida Carcosa.” (A Canção de Cassilda, o Rei de Amarelo, ato 1, cena 2).

Robert Chambers (1865 – 1933) escreveu, em 1895, quatro contos (O reparador de reputações, A máscara, Na travessa do dragão, O símbolo amarelo) que giram em torno de uma peça de teatro chamada O Rei de Amarelo. Não sabemos nada dessa peça, exceto por pequenos trechos que surgem como epígrafes desses quatro contos; alguns trechos mencionam a Carcosa, de Ambrose Bierce. No Brasil, os quatro contos foram publicados em “O símbolo amarelo e outros contos”, pela editora Arte e Letra; e “O Rei de Amarelo”, editora Intrínseca (a publicação da editora Arte e Letra traz de brinde o conto “Um habitante de Carcosa”, de Ambrose Bierce). Nos contos, a partir da leitura do segundo ato da peça fictícia, os personagens são acometidos pela loucura e pelo desespero:

“Durante minha convalescença, comprei e li pela primeira vez O Rei de Amarelo. Lembro-me de que, após terminar o primeiro ato, ocorreu-me que era melhor eu parar. Levantei-me de súbito e joguei o livro na lareira; o volume atingiu a grade e caiu aberto à luz do fogo. Se eu não tivesse visto de relance as palavras iniciais do segundo ato, jamais o teria terminado, mas ao abaixar-me para recolher o livro, meus olhos se fixaram na página aberta, e com um grito de terror, ou talvez fosse de um júbilo tão intenso que senti em todos os nervos, tirei o tomo das brasas e arrastei-me trêmulo para o quarto, onde li e reli, e chorei e ri e estremeci com um horror que por vezes ainda me acomete. É isso o que me preocupa, pois não consigo esquecer Carcosa, onde as estrelas negras pairam no céu (…) Peço a Deus que amaldiçoe o autor, tal como o autor amaldiçoou o mundo com essa criação bela e estupenda, terrível em sua simplicidade, irresistível em sua veracidade – um mundo que agora treme diante do Rei de Amarelo.”

“O reparador de reputações”, Robert Chambers

“Bastou um olhar para perceber que ela havia sido punida por sua insensatez. O Rei de Amarelo estava caído a seus pés, mas o livro estava aberto na segunda parte. Olhei para Tessie e vi que era tarde demais. Ela abrira O Rei de Amarelo.(…) Oh, a perversidade, a danação desesperadora de uma alma que podia fascinar e paralisar criaturas humanas com tais palavras.”

“O símbolo amarelo”, Robert Chambers

“Eu estava esgotado após três noites de sofrimento físico e agruras mentais: a última havia sido a pior, e eu levara um corpo exausto e uma mente entorpecida, ainda que intensamente sensitiva, à minha igreja favorita para serem curados. Pois eu estivera lendo O Rei de Amarelo.”

“Na travessa do dragão”, Robert Chambers

É nesse conto, “Na travessa do dragão”, que o Rei de Amarelo aparece (na imaginação?) para o personagem:

“E agora eu ouvia a sua voz, avolumando-se, ribombando através da luz cegante e, quando eu tombei, o resplendor cada vez mais ardente cobriu-me em ondas chamejantes. Então desci às profundezas, e ouvi o Rei de Amarelo sussurrar-me na alma: – Quão terrível é cair nas mãos do Deus vivo!”

A respeito do simbolismo da cor amarela, Carlos Orsi, na introdução ao livro Rei de Amarelo (editora Intrínseca) escreveu:

“Na última década do século XIX, o amarelo era o matiz do pecado, da podridão, da decadência, da loucura. (…) A chamada escola decadente francesa inspirava-se na poesia de Charles Baudelaire. O decadentismo atingiu seu ponto alto na obra de Joris-Karl Huysmans, principalmente em seu romance “Contra a natureza”, publicado em 1884. Muitos críticos acreditam que o “livro amarelo” que tanto fascinou Dorian Gray, no romance de Oscar Wilde, era exatamente esse volume de Huysmans. (…) Afinal, o que eram e o que queriam os “mefíticos” decadentes franceses? Humilhados pela derrota da França na guerra de 1870 com a Prússia, desiludidos com o fim sangrento da Comuna de Paris de 1871, esmagados pelo peso da geração de gigantes literários que os antecedera – Balzac, Vitor Hugo, Gustave Flaubert –, os decadentistas viam-se como mentes velhas em corpos jovens, os últimos filhos de uma civilização que já fizera tudo e, agora, rumava para a tumba ou, já morta, decompunha-se. Seu projeto era radicalizar o frisson nouveau de Baudelaire: descobrir, estimular e registrar emoções inéditas, capazes de sufocar o tédio de uma existência crepuscular (…) É nesse contexto que Robert Chambers  publica os contos em torno da peça O Rei de Amarelo.”

Nic Pizzolato, o criador da série, é um homem das letras, e transportou isso para a TV: pela primeira vez temos uma série de altíssimo nível e de excelente qualidade e que poderia ser descrita como um livro filmado. A interligação literária de diversos livros (os contos de Robert Chambers que falam de uma peça fictícia, O Rei de Amarelo, que por sua vez menciona Carcosa, termo criado por outro escritor, Ambrose Bierce, que pode ou não ter suas origens num poema de outro escritor, Gustave Nadaud) espelha a multiplicidade de narrativas que estrutura True Detective: a narrativa de Cole e Hart para os detetives em 2012 a respeito da investigação que fizeram em 1995; a narrativa que cada um conta sobre o que ocorreu em 2002 (ano em que romperam um com o outro, abruptamente), a narrativa sobre como veem o mundo; e cada qual a sua narrativa autobiográfica – a que estão a narrar para si mesmos.

E tal como o Rei de Amarelo atormentará para sempre os personagens dos contos de Robert Chambers que leem o segundo ato da peça, a investigação e os eventos de 1995 na Louisiana amaldiçoarão, até o ponto da obsessão, Cole e Hart. Dois personagens opostos: um caminha pela vida evitando a verdade, outro a persegue implacavelmente. Mas não seriam apenas faces complementares de uma mesma realidade? Em determinado momento, Rust Cole – homem marcado por uma tragédia familiar e atormentado pelo convívio diário com o mal –  diz para os detetives, em 2012: “Time is a flat circle”, o tempo é um círculo plano.

3. Tempo linear e o eterno retorno

“A crença no modelo cíclico de tempo era um aspecto comum a várias culturas antigas, e caracterizava em particular as ideias cosmológicas gregas, sobretudo na época helênica.Antes da ascensão do cristianismo, com exceção de alguns escritores isolados, como Sêneca, só os hebreus e os iranianos zoroástricos parecem ter considerado a história progressiva, e não cíclica”.

“O que é o tempo? Uma visão clássica sobre a natureza do tempo”, G.J. Whitrow

O tempo cíclico é um eterno retorno, cujo movimento circular inexorável se caracteriza pela repetição de todos os instantes, anulando, portanto, presente, passado e futuro. Se nenhum evento tem começo nem fim, não tem significado nem importância. Se o tempo é cíclico, nenhum evento tem propósito e nos encontramos eternamente libertos do peso representado pela fugacidade de tudo o que nos acontece; Nietzsche, em “A gaia ciência”, descreveu bem esse aspecto:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

O conceito de tempo cíclico determina a cosmovisão de Cole: vivemos uma ilusão, em um simulacro da realidade em que nada faz sentido. Cole poderia ser descrito como um filósofo pessimista:

“Toda a sua vida, todo o seu amor, todo o seu ódio, toda a sua memória, toda a sua dor. Era tudo a mesma coisa. Era tudo o mesmo sonho. Um sonho que você teve dentro de uma sala trancada. O sonho de ser uma pessoa”.

O conceito de tempo linear, progressivo, nasceu com o cristianismo:

“A influência do cristianismo sobre nosso conceito moderno de tempo não se restringe aos detalhes do calendário. Ela foi bem mais fundamental que isso. Considerou-se a doutrina central da Crucificação como um evento único no tempo, não sujeito à repetição, implicando assim que o tempo deve ser linear, e não cíclico.”

“O que é o tempo?”, G.J. Whitrow

O tempo linear constitui-se por cadeia de eventos únicos e insubstituíveis, inscritos numa progressão histórica, do passado para o futuro. Cada instante, cada momento, cada evento terá o sentido que lhe atribuirmos, orientados por um propósito, particular e específico de cada um (Viktor Frankl), ao contrário do tempo cíclico, esvaziado de sentido. Quando narramos nossas vidas para os outros ou para nós mesmos estamos priorizando, selecionando os eventos que importam ou que importaram um dia, em detrimento de outros, de muitos outros, e atribuindo-lhes um sentido em nossa história que é, até certo ponto, intransferível. O que aconteceu aconteceu uma só vez e eternizou-se em nossa história. Somos circunscritos pelo peso da memória.

4. Vislumbres da eternidade

 “Toda natureza humana resiste vigorosamente à graça, porque a graça nos transforma e a mudança é dolorosa.”

            “O hábito de ser”, Flannery O’Connor

Diante do Mal, após o confronto  com o Rei de Amarelo, eis que as perspectivas de Cole se abrem:

“Teve um momento, eu sei, quando eu tava lá embaixo, no escuro, ao que quer que eu tinha sido reduzido, não tinha nem consciência, só uma vaga noção no escuro e eu…pude sentir minha definição se esvaindo. E debaixo dessa escuridão, pude sentir outra forma. Mais profunda. Terna. Eu sabia que minha filha esperava por mim, lá. Senti meu pai também. Era como se eu fosse parte de tudo o que já amei. A escuridão, eu aceitei. E desapareci. E pude sentir o amor dela, nada além daquele amor.

Vou te falar, Marty, tenho ficado no quarto olhando pela janela toda noite aqui e pensando…só existe uma história…a mais antiga.

E qual é?

Luz versus trevas.”

Sua cosmovisão mudou porque sua visão de tempo mudou; o que era um círculo plano ganhou sentido: como se sua consciência tivesse apreendido outros aspectos, esquecidos, que também constituem a estrutura da realidade, situados para além do tempo presente. O movimento de abertura para a transcendência requer a consciência de nossas imperfeições, de nossas limitações. É um recuo do olhar (Olavo de Carvalho), para outra escala de tempo, e, ao fazê-lo, Cole tem vislumbres, ainda que precários, da eternidade, daquilo que é “imperecível”.

“Uma vez que certas estruturas da realidade se diferenciam e despertam na consciência articulada, adquirem vida própria na história. Uma das conquistas mais relevantes nesses processos de diferenciação é a apreensão de um movimento da realidade em direção a um estado que se situa além de sua estrutura presente. Isso vale tanto para os filósofos quanto para os profetas de Israel ou os cristãos do primeiro século. No que se refere ao indivíduo, é claro que esse movimento só pode se consumar com a morte. Os filósofos clássicos, e esta foi sua grande descoberta, perceberam que o homem, longe de ser um “mortal”, é um ser que participa de um movimento em direção à imortalidade. O athanatizein – o ato de imortalizar – como essência da vida do filósofo é uma experiência central tanto em Platão como em Aristóteles. Do mesmo modo, o grande insight de Paulo foi a experiência do movimento da realidade para além da estrutura presente da morte, para o estado imperecível que lhe sucederá por meio da graça de Deus – a aphtharsia, ou imperecível. Esse movimento em direção a um estado que está além da estrutura presente do ser introduz uma outra tensão na ordem existencial, uma vez que é preciso orientar a conduta da vida de um modo que nos leve à imperecibilidade. Nem todos, contudo, estão dispostos a sintonizar sua vida com esse movimento. Muitos sonham com um atalho para a perfeição aqui mesmo, nesta vida.”

 “Reflexões autobiográficas”, Eric Voegelin

Quando Luiz Felipe Pondé, a respeito da série, escreveu em sua coluna na Folha de SP que: “A virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil”, estava ecoando não só Dostoievski e os “Irmãos Karamazov” (“Há uma luta entre Deus e o Diabo e o placo é o coração humano”), mas também Miguel de Unamuno e Santo Tomás de Aquino.

“Enquanto peregrinei pelos campos da razão em busca de Deus, não O pude encontrar, porque a ideia de Deus não me enganava, nem pude tomar por Deus uma ideia. (…) Mas ao ir afundando no ceticismo racional, de um lado, e no desespero sentimental, de outro, abrasou-me a fome de Deus e a sufocação do espírito me fez sentir, com sua falta, sua realidade.”

 “Do sentimento trágico da vida” (1913), Miguel de Unamuno

“Ora, se nenhum mal houvesse nas coisas, em muito seria diminuído o bem do homem no tocante ao conhecimento e ao desejo, ou amor do bem. Com efeito, o bem é melhor conhecido ao ser comparado com o mal e, quando fazemos o mal, mais ardentemente desejamos o bem. (…) Pelo exposto, são destruídos os erros daqueles que, por verem o mal no mundo, afirmavam que Deus não existe. Assim é que Boécio cita um filósofo que perguntava: “Se há Deus, donde vem o mal”? No entanto, ele deveria ser refutado com esta argumentação: se há o mal, Deus existe, pois, excluída a ordenação do bem, não haveria o mal, porque o mal é a privação do bem. Assim sendo, não havendo a ordenação do bem, Deus não existiria.”

Capítulo LXXI, “Suma contra os gentios”, Santo Tomás de Aquino

Em entrevista para a revista Entertainment Weekly, o próprio criador da série, Nic Pizzolato, comentou:

“True Detective reforça o tempo todo que tudo é uma história. Quem você diz ser para si mesmo, o que diz a si mesmo que o mundo é, uma investigação, uma religião, um ponto de vista niilista. São apenas histórias que você conta a si mesmo. Escolha com cuidado as histórias que conta a si mesmo. Termino a série com os detetives deixando o palco, e não sabemos que tipo de vida eles terão, mas podemos ter certeza de que os dois estão mais dispostos a aceitar a presença da graça. Porque foi nesse ponto que os dois falharam: nenhum deles conseguia conciliar o conceito de graça com suas racionalidade. Não queria que eles chegassem num ponto de redenção, de conversão, de entendimento e muito menos de resolução. Eles não estão curados, mas, pela primeira vez, você pode conceber que existe um futuro em que eles possam estar curados.”

Assim como, pela presença do mal, anseia-se pelo bem (Santo Tomas de Aquino), o sentido de eternidade, o desejo de se prolongar ao “inacabável do tempo” (Miguel de Unamuno), só é possível pela consciência da finitude.

P.S.: Para combinar, clipe de “Hurt”, na voz de Johnny Cash. A canção foi composta por Trent Reznor, do Nine Inch Nails e lançada em 1994 no album “The downward spiral” (“A espiral descendente”). Cash a regravou em 2002 e  dizem que, após ouvi-la, Reznor gostou tanto que declarou: “A canção agora pertence a Johnny Cash”.

Do abandono à redenção

Numa época em que fetichizamos a individualidade (“seja você mesmo, seja único”), ao incentivar e louvar, eivados de sabedoria, sua expressão como um modo de ser superior neste mundo, do qual devemos, por sinal, nos separar por meio de nossas particularidades, acabamos por nos esquecer dos laços que nos unem a todos os outros e à realidade que nos supera. É o que “Até o fim”, filme de J.C. Chandor, vem nos relembrar: dos vínculos necessários à nossa sobrevivência.

A história começa com uma narração em “off”, na qual ouvimos a voz do protagonista, e percebemos palavras que expressam arrependimento:

“Sinto muito; sei que significa pouco a esta altura. Mas eu sinto. Eu tentei. Acho que todos vocês devem concordar que eu tentei, ser verdadeiro, ser forte. Ser generoso. Amar. Ser correto. Mas eu não fui. E sei que vocês sabem disso, à sua maneira. E eu sinto muito. Tudo está perdido aqui. Com exceção da alma e do corpo, que é tudo o que sobrou. E meio dia de provisão. É realmente imperdoável, agora eu sei. Não podia levar tanto tempo para admitir que não tenho certeza, mas levou. Lutei até o fim. Não sei ao certo se isso vale a pena, mas sei que fiz. Sempre esperei mais para todos vocês. Vou sentir a falta de vocês. Sinto muito.”

Depois disso, vemos o personagem de Robert Redford em algum lugar no meio do oceano, sozinho, e os destroços de sua embarcação. Quem é esse homem? Quem foi esse homem? Do que se arrepende? Para quem são essas palavras, filhos, mulher, ex-mulher, amigos? Pouco importa, o que importa é que nos recordemos das palavras do apóstolo:

“Alegro-me agora, não por vos ter contristado, mas porque a vossa tristeza vos levou ao arrependimento. A tristeza segundo Deus produz arrependimento que leva à salvação e não volta atrás”.

 A tristeza segundo Deus: o pesar pelo mal sobre os outros, o arrependimento verdadeiro e, sobretudo, tranquilo.

Dois elementos simbólicos perpassam por toda a narrativa e explicam a travessia do personagem, do abandono à possibilidade de redenção: o mar e o anel.

  1. O mar

Muitos críticos cinematográficos viram semelhanças neste filme com o mais medíocre romance de Ernest Hemingway, “O velho e o mar”. Não poderia haver equívoco maior: neste, há o elogio do “espírito” humano, que não desiste, na imagem da persistência do velho pescador Santiago, que trava luta duríssima com um peixe excepcional; naquele, há o naufrágio do indivíduo isolado da civilização, relegado a si mesmo, abandonado do mundo – um mundo onde Deus não está presente. Se há semelhanças, elas estão limitadas a este trecho do livro:

“Alguns dos pescadores mais novos, aqueles que usam boias como flutuadores para as suas linhas e tem barcos a motor, comprados quando os fígados dos tubarões valiam muito dinheiro, ao falarem do mar dizem el mar, que é masculino. Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo”.

Hemingway aponta a ambiguidade do mar, descrita por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant no “Dicionário de símbolos”; ambiguidade simbólica que servirá de palco para o renascimento do personagem de Redford:

Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. (…) O mar simboliza uma situação de ambivalência que é a de incerteza, de dúvida, de indecisão”.

Segundo Aereld de Riévaulx, monge cisterciense (1110 – 1167),

“o mar se situa entre Deus e nós; designa o século presente. Uns se afogam, outros o franqueiam. Para atravessar o mar, é necessário um navio”.

 E que navio é esse? No filme de J.C.Chandor, a percepção de que habitamos um mundo que aponta para algo além de nosso próprio umbigo.

No mar, nada permanece – não há passado, não há futuro – exceto a constância de seu fluxo que se move, indefinidamente (é o tempo presente). Como um nômade dos tempos modernos, essa é a razão pela qual o personagem de Redford refugiou-se nele: é sua tentativa de anular o tempo, de alcançar um presente perpétuo, dispersar passado (apagando, por consequência, supostos erros cometidos) e futuro (evitando, assim, qualquer possibilidade de arrependimento). Não há outra coisa a fazer senão ocupar-se em sobreviver, ocupar-se do imediato, do aqui e do agora, permanecendo, portanto, na eternidade de um instante. Ao buscar o isolamento, recusa a civilização da qual faz parte, e o personagem naufraga. Kenneth Clark, no seu magistral “Civilização”, assim a descreve:

“Civilização é algo mais do que energia, vontade e poder criativo; algo que os normandos não possuíam, mas que, mesmo na sua época, estava reaparecendo na Europa Ocidental. Como defini-la? Em poucas palavras: um sentido de permanência. Os nômades e invasores viviam num fluxo contínuo. Não sentiam necessidade de ver além do próximo fim de inverno, ou da próxima viagem ou da próxima batalha. Por isso não construíram casas de pedra nem escreveram livros. Dos livros de pedra construídos nos séculos posteriores ao Mausoléu de Teodorico, um dos únicos a sobreviver foi o Batistério de Poitiers. É muito primitivo. Os construtores tentaram usar elementos de arquitetura romana, capitéis, frontões, pilares, mas esqueceram suas intenções primeiras. Mas, pelo menos, esta construção precária se conservou. Não é apenas uma tenda. Acho que o homem civilizado precisa sentir que ele tem uma lugar no tempo e no espaço e que tem um futuro e um passado.”

  1. O anel

Outro elemento significativo é a imagem do anel: os anéis usados pelo personagem, o formato do bote salva-vidas, o anel de fogo no mar e a lua vista debaixo d’água. Prefigurando a restauração dos elos rompidos entre o homem e uma realidade que o transcende, simbolicamente “o anel aparece como o signo de uma aliança, de um voto, de uma comunidade, de um destino associado. (…) Em numerosos contos, romances, dramas, canções e lendas irlandesas o anel serve como meio de reconhecimento: símbolo de uma força ou de um laço que nada pode romper, mesmo que o anel se perca ou seja esquecido à beira de um caminho”.  (Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “Dicionário de símbolos”).

Heródoto (480 – 425 a.C.) nos narra a história do rei grego Polícrates e seu anel (os fragmentos a seguir foram retirados de “O anel de Polícrates e outras histórias”, organização de Francisco Achcar e Rogério Hafez, 2000).

Conta-nos Heródoto que Polícrates, “aonde quer que se dirigisse para guerrear, era em tudo bem sucedido”; seus êxitos não passaram despercebidos a Amásis, rei do Egito, que lhe escreveu uma carta, na qual dizia: “Eu, de certo modo, desejo que eu mesmo e todos aqueles por quem me preocupo tenhamos boa fortuna em alguns de nossos atos e, em outros, o fracasso, de modo que contrabalancemos nossa vida com a alternância das vicissitudes, o que é preferível a ser bem sucedido em tudo. (…) Reflete e encontra aquilo que te é mais precioso, aquilo cuja perda mais afligiria a tua alma; então, joga-o fora de modo que ele nunca mais reapareça entre os homens”.

Polícrates escolheu seu anel. Embarcou em um navio rumo ao alto mar e, “quando se viu distante de sua ilha, tirou o anel de seu dedo e, à vista de todos os tripulantes, atirou-o ao mar. Tendo feito isso, mandou que navegassem de volta e, chegando em casa, sentiu-se muito desafortunado.”

Cinco ou seis dias após, eis o que ocorre: “um homem do mar, tendo pescado um peixe grande e belo, julgou-o digno de ser ofertado, como um presente, ao soberano. (…) E o pescador, sentindo-se muito honrado com o convite, foi para casa, enquanto os serventes do rei, talhando o peixe, encontravam no ventre dele o mesmo anel de Polícrates. Tão logo o viram e apanharam, levaram-no cheios de alegria a Polícrates e, entregando-lhe o anel, disseram-lhe de que modo ele havia sido encontrado.”

Para Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, “o anel de Polícrates simboliza o destino, do qual o homem não consegue se livrar, um elo indissolúvel. Polícrates quis dar o seu anel como oferenda compensatória, mas os deuses aceitam somente aquilo que eles mesmos já decidiram tomar; portanto, não seria um ato de abandono material e espetacular que os faria mudar seus desígnios. Só conta o sacrifício interior, que é a aceitação do destino”.

O que o filme mostra não é a luta pela sobrevivência e a conservação da dignidade do homem diante de uma Natureza perversa e indiferente. Entregue a si mesmo, o personagem sofre, de fato, com as mudanças climáticas, as restrições de provisões e de espaço a que se vê reduzido em determinado momento. Porém, as adversidades apenas ressaltam a percepção de abandono do personagem e o que é preciso para escapar de sua condição: o sacrifício interior a ser realizado por um homem que, enfim, reconhece seus erros e admite que, para sobreviver, necessita restabelecer sua alteridade.

Batman e as duas cidades

“Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, pacíficas, úteis, prósperas e alegres. Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. O que faço é de longe a melhor coisa que fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.”

Eis as palavras lidas pelo comissário Gordon (Gary Oldman), diante de umas 3 ou quatro pessoas, no “funeral” de Bruce Wayne/Batman nas últimas cenas de “Batman – O Cavaleiro das trevas ressurge” (Batman – Dark knight rises).

São os últimos pensamentos de Sidnei Carlton,  personagem de “Um conto de duas cidades”, de Charles Dickens, a grande inspiração para o filme do Christopher Nolan – inspiração que não foi notada por nenhum dos nossos críticos cinematográficos.


Um conto de duas cidades” descreve os impactos da Revolução Francesa sobre indivíduos de todas as camadas sociais e o reino de terror, com suas execuções aleatórias e cruéis, que se seguiu. Embora desenhe panorama tão amplo, Dickens centra sua narrativa em relativamente poucos personagens: Charles Darnay, Lucie Manette, Dr. Manette, Jarvis Lorry, sr. e sra. DeFarge e Sidnei Carlton. Qual a relação entre o romance de 1859 e o filme de 2013?

1) A REVOLUÇÃO

A decadência moral e espiritual da França pré e pós-Revolução, o frenesi revolucionário sedento por sangue, o discurso de salvação dos “oprimidos” pelos aristocratas, o direito à vingança pelos “oprimidos”, a necessidade de derrubar o antigo para instaurar o novo, esses são aspectos que constituem parte da essência do livro de Dickens, cujo início estabelece o clima soturno, ao leitor, a respeito dos eventos que serão narrados:

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da razão, a idade da insensatez, a época da crença, a época da incredulidade, a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, todos iríamos direto para o Paraíso, todos iríamos direto no sentido oposto – em suma, a época era tão parecida com o presente que algumas das autoridades mais ruidosas insistiram que ela fosse recebida, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.”

“Estava por chegar a época em que outro vinho também seria derramado nas pedras da rua e tingiria de vermelho muitos dos que estavam ali.”

Após 8 anos dos eventos ocorridos no segundo filme (Batman – O cavaleiro das trevas), Batman é considerado um pária, um foragido da justiça. Bruce Wayne está recluso, não quer contato nenhum com o mundo: “não há nada lá para mim, Alfred”, diz Wayne. Suas empresas deixaram de lucrar, resultando em dificuldades financeiras para inúmeras outras instituições dependentes da Fundação Wayne. Eis que surge do subterrâneo o vilão, Bane, que personifica o revolucionário fervoroso.

O que é uma revolução? Olavo de Carvalho já deixou bem claro que se trata de modificar a realidade mediante a concentração de poder. O revolucionário acredita que a construção de um futuro redentor depende da aniquilação das tradições, da destruição do presente e da reelaboração do passado; o revolucionário é o transformador do mundo, portando é livre para agir no presente com vistas a esse futuro possível; como tem o monopólio das virtudes, coloca-se como “vítima”, ao lado dos “oprimidos”, estabelecendo as linhas gerais de um discurso maniqueísta (“nós contra eles”) que traduz uma visão de mundo rasa e bidimensional (dividido entre “oprimidos e opressores”); o corolário é que, como a História nos mostra, essa “vertigem libertadora” sempre degenera em anarquia e tirania. No filme isso bem claro em vários pontos:

a) Selina Keyle para Bruce Wayne: “Vem tempestade por aí, Sr. Wayne; é bom você e seus amigos se prepararem, porque quando ela chegar vocês irão se perguntar como pensaram que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós.”
Há uma correspondência direta com esta passagem do livro de Dickens: “Mas outros ecos, distantes, ressoavam de modo ameaçador naquela esquina, ao longo de todo esse tempo. E foi agora, na época do sexto aniversário da pequena Lucie, que começaram a ter um som terrível, como se houvesse uma enorme tempestade na França e o temeroso mar subisse.”

b) Alfred descreve Bane sabiamente: “dê uma olhada nele: a rapidez, a ferocidade, o treinamento; vejo o poder da crença nele”

c) Bane começa sua “revolução” de modo semelhante aos jacobinos franceses: libertando os presos da “Bastilha” de Gotham e invadindo e saqueando ambientes luxuosos: “atrás de mim (a prisão de Gotham) está um símbolo de opressão; vamos tirar Gotham das mãos dos corruptos, dos ricos e dos opressores, que subjugaram vocês com mitos de oportunidade; os poderosos serão arrancados de seus mundos decadentes e lançados ao mundo frio que conhecemos e ao qual sobrevivemos”

d) Não pode haver críticos à revolução: ou você é aliado ou faz parte dos “opressores” (ou da “mídia golpista”, das “elites”), cujo castigo é o desterro ou a morte. Bane instaura tribunais para julgar os tais “inimigos da revolução”, em que os acusados não tem direito nem à defesa nem a advogados; não são julgamentos propriamente, mas audiências para leitura das sentenças (“exílio ou morte”). Contrapartida em Dickens: “Que na prisão havia encontrado em sessão um tribunal autodesignado perante o qual os presos era apresentados um por um, e logo que ordenava que fossem massacrados (…).” “prisões abarrotadas de pessoas que não cometeram delito nenhum e não conseguiam obter o direito de serem levadas a julgamento; tais coisas tornaram-se a norma estabelecida e a essência dos eventos, e pareciam ser costume antigo antes de sequer completarem algumas semanas de existência. Acima de tudo, uma figura horrenda tornou-se tão familiar quanto se tivesse estado diante do olhar de todos desde a fundação do mundo – a figura de uma mulher afiada chamada Guillotine”.

e) Bane anuncia para o mundo possuir um reator nuclear, após destruir um campo de futebol americano; enquanto seu exército subterrâneo se preparava para invadir o gramado, uma imensa plateia assistia à apresentação do Hino Nacional, sem imaginar o mal que se avizinhava; o mal se prepara abaixo da superfície e o preço de ignorá-lo é a morte. A correspondência em Dickens: “A nova era se iniciou; o rei foi processado, condenado e decapitado; a república da Liberdade, Igualdade, Fraternidade, ou Morte, declarou-se pela vitória ou pela morte contra o mundo em armas; a bandeira negra ondulava dia e noite no alto das grandes torres de Notre-Dame; trezentos mil homens, convocados a se erguerem contra os tiranos da Terra, ergueram-se de todos os solos da França.”

f) O discurso de Bane é libertário, “contra os opressores”; ele pede que os moradores da cidade a tomem para si, criando uma falsa sensação de segurança, de controle, e transforma Gotham em uma cidade isolada – em que as pessoas não podem entrar ou sair – aterrorizada e desprovida de qualquer liberdade; o leitor pensou em uma ilha chamada…Cuba?

A Revolução Francesa de Robespierre e a revolução de Bane engendraram, sob promessas de verdadeira liberdade para o “povo”, de construção de um reino “do povo para o povo”, reinos de tirania, medo e opressão. Dickens descreveu isso muito bem: “Todos os portões da cidade e postos de cobrança de taxas dos vilarejos tinham seus grupos de cidadãos-patriotas, com seus mosquetes nacionalistas no mais explosivo estado de prontidão, que paravam todos os que chegavam e partiam, faziam-lhes interrogatórios cruzados, averiguavam-lhes os documentos, procuravam seus nomes em suas próprias listas, mandavam-nos voltar ou mandavam que seguissem adiante, ou os paravam e detinham, conforme seus juízos ou imaginações imprevisíveis supunham ser o melhor para a nascente República Una e Indivisível, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ou Morte.”

Todo discurso revolucionário busca eliminar a noção de indivíduo em prol de abstrações coletivistas (“oprimido”, “opressor”, “povo”, “capitalista”, etc.), objetivando com isso substituir a autonomia absoluta da consciência individual (a verdadeira liberdade) pela sujeição a uma igualdade imposta, ilusória e inexistente. O homem utópico deixa a realidade prática em troca de conceitos abstratos; em sua busca desesperada pelo seu lugar no mundo, persegue tudo o que é capaz de unir artificiosamente a pluralidade da realidade concreta, como uma ideologia. Dickens: “Ele mente – gritou o ferreiro. Ele é um traidor desde o decreto. Sua vida foi confiscada pelo povo. Sua maldita vida não lhe pertence!”

À morte física dos inimigos da Revolução, e dos opressores, seguiu-se a morte espiritual de uma nação inteira; após derrotar Batman em uma luta épica e brutal, Bane diz: “Quero saber o que será quebrado primeiro, seu corpo ou seu espírito”. A contrapartida em Dickens: “(A guilhotina) era o símbolo da regeneração da raça humana. Suplantava a cruz. Suas miniaturas eram usadas nos peitos onde a cruz fora descartada, e era a ela que faziam reverências e nela que acreditavam enquanto a cruz era renegada.”

O que toda Revolução promete é a possibilidade de conquistar o Paraíso perdido, nesta vida e nesta Terra; nas palavras de Bane, quando aprisiona Batman / Bruce Wayne em uma prisão nos confins da Terra: “Há uma razão para esta prisão ser o pior inferno na Terra: a esperança. Todo homem que apodreceu aqui, século após século, olhou para a luz e se imaginou subindo rumo à liberdade. Tão fácil, tão simples, como náufragos bebendo água do mar devido à sede incontrolável, muitos morreram tentando. Eu aprendi que não há desespero real sem esperança. Então, quando eu aterrorizar Gotham, vou dar às pessoas esperança para envenenar suas almas.”

2) A QUEDA – A CIDADE DOS HOMENS

Bane aprisiona Batman / Bruce Wayne no poço daquela que foi sua prisão outrora: “Vai conhecer onde fui criado, enquanto me preparava para fazer justiça. Nasci nas trevas, fui moldado por elas; só vi a luz quando já era um homem e só o que me fez foi cegar-me.”
Só há uma saída do poço: escalar suas paredes e saltar pelo abismo para outra parede e daí para fora. Depois de recuperado fisicamente, Bruce Wayne, içado por uma corda, tenta inúmeras vezes realizar a escalada e o salto, mas é constantemente malsucedido. Um dos prisioneiros, antigo médico da prisão, diz a ele que

“o salto para a liberdade não é uma questão de força; a sobrevivência é a do espírito”

O que o prisioneiro está a dizer a Bruce Wayne é que, para escapar, será necessário mais do que um salto: será necessário que ele dê um salto de fé.
Eis que chegamos à outra inspiração do filme de Christopher Nolan e do livro de Charles Dickens: Santo Agostinho e seu livro “A cidade de Deus”.

Para Santo Agostinho, o homem, com a perda do Éden, se põe a construir cidades, para sua própria glória; o homem elege como fim último de sua existência sua autoglorificação, nos limites da cidade, a cidade dos homens. A cidade dos homens é a cidade do amor por si mesmo, na soberba e no orgulho, do amor relacionado a tudo o que é mundano; o amor pela glória de homens que se encontram sozinhos em si mesmos e uns com os outros, atendo-se à vida terrena nas cidades do amor próprio, e encontrando nelas os fins últimos de sua existência, apartados de Deus. Segundo Agostinho, dois amores construíram duas cidades: o amor de si até o desprezo de Deus – a cidade dos homens; o amor a Deus até o desprezo de si – a cidade de Deus. É pelo amor por si, pelo poder recém-conquistado, que o povo “oprimido” encena sua ilusão de controle da cidade, que permite a Bane enganá-los, pois ele é o verdadeiro responsável pelo destino de Gotham. É pelo desprezo de si que Bruce Wayne poderá dar seu salto de fé sobre o abismo e que lhe permitirá escapar da prisão.

Salto de fé: da cidade dos homens para a cidade de Deus. A carta encíclica Lumen Fidei do papa Francisco nos ensina que a fé “é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado, abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas.”

No filme, vemos isso acontecer quando Bruce Wayne salta o abismo sem cordas que lhe prendam. Batman está pronto para o sacrifício que lhe será exigido para salvar a sua cidade.

3) O SACRIFÍCIO – A CIDADE DE DEUS

Um conto de duas cidades”: é um livro que fala da França e da Inglaterra, Paris e Londres. Mas é um livro que fala sobre duas outras cidades: a cidade dos homens e a cidade de Deus. No sermão 81 dos “Sermões sobre a queda de Roma”, Agostinho nos diz que

“Vós viestes a este mundo para partir; não vos deixeis perturbar pelos que amam o mundo, os que querem ficar no mundo mas, queiram ou não queiram, são forçados a deixá-lo; que eles não vos iludam, não vos seduzam. Estes sofrimentos não são escândalos. Sede justos, e eles serão antes provações.”

Ao longo do livro, Sidnei Carlton, o “mais indolente e menos promissor dos homens” (“Sou um burro de carga frustrado, senhor. Não me importo com ninguém neste mundo e ninguém neste mundo se importa comigo.” “O senhor me conhece; sabe que sou incapaz dos melhores e mais altos voos que cabem aos homens.”), passa por uma transformação: abandona sua vida pregressa e torna-se um homem que  se redime através do sacrifício por amor.

“Com as forças esgotadas e o deserto ao seu redor, esse homem parou quando atravessava um terraço silencioso e viu, por um instante, deitada na selvageria que tinha diante de si, uma miragem de ambição decente, abnegação e perseverança. Na cidade clara na qual se dava a aparição, galerias arejadas de onde os amores e as graças o observavam de cima, jardins em que os frutos da vida amadureciam, águas de esperança que brilhavam perante seus olhos. Um instante depois, acabou. Subindo até seus aposentos, que ficavam num andar alto, num amontoado de casas, ele se jogou ainda vestido na cama negligenciada e molhou seu travesseiro de lágrimas desperdiçadas.”

“Era sim a atitude arraigada de um homem cansado, que perambulara e lutara e se perdera, mas enfim encontrava seu caminho e via onde ele terminava. Muito tempo antes, quando era famoso entre seus primeiros concorrentes como um jovem muito promissor, seguira o pai até o túmulo. A mãe havia morrido anos antes. Aquelas palavras solenes que foram lidas no funeral do pai surgiam em sua mente enquanto ele caminhava pelas ruas escuras, em meio às sombras opressivas, com a lua e as nuvens correndo o céu acima de sua cabeça. “Eu sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor: quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá: e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá.” Em uma cidade sob o jugo do machado, sozinho na noite, com melancolia brotando dentro de si pelos 63 que naquele dia foram executados, e pelas vítimas de amanhã, que aguardavam seus destinos na prisão, e as dos outros amanhãs, o fluxo de associações fez com que ele se recordasse das palavras, assim como a âncora enferrujada de um velho navio poderia ser encontrada com facilidade no fundo do mar.”

Por amor à Lucie Manette, pelo amor à felicidade que lhe poderá propiciar, possibilitando sua reunião definitiva com sua família, ele prepara um arranjo folhetinesco e troca de lugar, na prisão, com o marido dela, Charles Darnay, acusado injustamente pelo tribunal da revolução e sentenciado à morte.

Na cidade dos homens, sacrifica-se uma vida em prol da revolução, em prol da glória de um futuro terreno promissor:

“Naquela manhã, Saint-Antoine era uma vasta massa obscura de espantalhos correndo de um lado para outro, com frequentes raios de luz em cima das cabeças revoltas, onde lâminas de aço e baionetas reluziam ao sol. (…) Todos os seres vivos dali viam a vida como algo sem importância, e eram atingidos pela loucura de se prontificarem com veemência a sacrificá-la.”

Em seus últimos pensamentos, que são os mesmos mencionados pelo comissário James Gordon, a respeito de Bruce Wayne – enquanto Sidnei Carlton se prepara para seu último sacrifício por aqueles a quem ama – o mesmo sacrifício que será exigido de Batman / Bruce Wayne no filme –, percebemos sua confiança na cidade, nas pessoas e em seu destino. Seu salto de fé estava completo.

Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo e, em suas lutas para serem livres de verdade, em seus triunfos e suas derrotas, nos longos anos que ainda estão por vir, vejo o mal desta época e da época passada, da qual naturalmente se originou, aos poucos expiando a si próprio e se esgotando. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, tão pacíficas, úteis, prósperas e alegres, na Inglaterra que não voltarei a ver. (…) Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. Eu a vejo, mulher idosa, chorando por mim no aniversário deste dia. Vejo o marido e ela, depois de percorrerem todo o seu caminho, deitados lado a lado no último leito mundano que dividirão, e sei que um não foi mais honrado e sagrado na alma do outro do que fui na alma de ambos. (…) O que faço é de longe a melhor coisa que já fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.”

Veja o filme. Leia o livro.

Retrospectiva cinematográfica de 2013

1. Amor pleno, de Terrence Malick: belíssima meditação de Malick sobre o amor: transformar o amor em dever é estratégia, em oposição às oscilações das contingências, em favor da sua permanência. Aquilo que não está fundado sobre o eterno está sujeito a alterar-se em si mesmo e/ou deixar de ser– a transformar-se em outra coisa ou a se esgotar. Inseguro de si, o amor espontâneo coloca-se à prova constantemente e escraviza-se; tornado dever, o amor liberta-se. Tornado dever, o amor deixa de buscar causa ou fruto. Amor pleno: o amor que, como o cinema de Terrence Malick,  busca a transcendência para eternizar-se.

P.S.: recomendo a resenha de Martim Vasquez Cunha sobre o filme.

 

2. A caça, de Thomas Vinterberg: linchamento moral, encampado pelas ideias cretinas de um canalha (Jean Jacques Rousseau) – o paralelo entre a natureza primitiva, bondosa e pura, e a criança, ainda não degenerada pela civilização – de uma população contra um homem inocente. Lucas, vivido pelo magistral Mads Mikkelsen, professor de jardim de infância, é acusado injustamente de pedofilia. Civilidade e irracionalidade caminham de mãos dadas.

 

3. A hora mais escura, de Kathryn Bigelow: e já que falamos de Rousseau, é bom lembrar que somos seus filhotinhos: achamos que a vida é um jardim de infância e todos somos essencialmente bons, o que nos estraga é a civilização – ocidental, obviamente. O filme de Bigelow nos lembra das horas mais escuras dos que combatem uma guerra assimétrica – o terrorismo; das horas escuras – porque solitárias – dos que, responsáveis por seus próprios atos, precisam também lidar com as consequências.

 

4. Bullet to the head, de Walter Hill: retorno de Hill à direção, em filme de ação padrão “anos 80”: dupla que não se bica une forças para combater vilão, com direito a duelo com machadinhas no final. Apesar do roteiro fraco, Hill é o último cineasta macho vivo. Cenas de ação sem câmeras tremendo e sem cortes  a cada dois segundos.

 

5. Amor, de Michael Haneke: os efeitos devastadores da velhice, da crueldade do tempo, da anatomia da debilidade e da demência, da fragilidade da existência, do fim do amor, da ausência que resta sobre os que permanecem.

 

6. 007 – Operação Skyfall, de Sam Mendes: os melhores filmes de 007? Casino Royale, 007 contra Goldfinger, 007 – A serviço secreto de sua majestade e este Skyfall. Autoironias, referências a “Rio Bravo”, de Howard Hawks, ao passado do agente e ao da própria série 007, à passagem do tempo – Bond como uma fênix que renasce envelhecida.

7. Django livre, de Quentin Tarantino: mitologia nórdica, blaxpoitation e faroeste-spaghetti em um filme cujo mecanismo de paródia, em vez de ridicularizar, dialoga com o passado. O cinema como instrumento redentor da História.