Generalidades

As Humanidades na formação médica

Este é o texto integral da versão que foi publicada no jornal A Gazeta do Povo.

“A medicina está em convulsão hoje porque a sociedade também está convulsionando” (Edmund D. Pellegrino, 1969)

Debates sobre a precariedade da saúde pública inevitavelmente resvalam para a necessidade da humanização. Reivindicação justa, apesar de apresentada quase sempre sob retórica propagandística, como “meta diferenciada a ser alcançada em programas de controle de qualidade hospitalar”. Em conformidade com o imaginário tupiniquim de que problemas se resolvem com mais leis, a formação humanística do estudante de medicina já está determinada no capítulo III, artigo 29, da resolução que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Medicina: “(a estrutura do curso de graduação em medicina deve) incluir dimensões ética e humanística, desenvolvendo, no aluno, atitudes e valores orientados para a cidadania ativa multicultural e para os direitos humanos”. Eis o contexto para o surgimento de uma disciplina denominada Humanidades Médicas, cujo objetivo é incluir, na graduação, tópicos relacionados à literatura, filosofia e artes. A desumanização dos profissionais de saúde tem sido atribuída a diversos fatores, os mais frequentemente mencionados são: sobrecarga de trabalho, baixa remuneração, interface tecnológica entre paciente e médico, “judicialização” da saúde, reducionismo biomédico (que enxerga a doença mas não o doente). Neste ponto, precisamos invocar o famoso personagem do escritor britânico G.K. Chesterton, padre Brown, que, em determinado momento do conto The point of a pin, diz: “não é que eles não conseguem encontrar uma solução. É que eles não conseguem ver qual é o problema.” (The scandal of father Brown, Penguin Classics, 2014). Se quisermos ultrapassar demagogias e diretrizes burocráticas para confrontarmos o real problema, primeiramente é necessário retomarmos o conceito de “humanismo”.

 

O termo latino Humanitas refere-se ao ideal de educação e formação plena do homem para além de qualquer utilidade prática, com base nas “artes liberais”. De acordo com Edmund Pellegrino, médico especialista em bioética, falecido em 2013 – nome pouquíssimo conhecido no Brasil, infelizmente – humanismo em medicina é um ideal educacional para a formação plena do médico, composto por dois elementos: cognitivo – que lidaria com o médico sob a perspectiva de um ser cultural, alguém possuidor de ideias, valores e modos de expressão – e afetivo – relacionado com a atenção e os sentimentos do médico em relação à condição existencial do indivíduo que está doente; ambos os elementos deveriam ser erigidos sobre base técnica competente – sem destreza, o médico humanista é inautêntico (Edmund Pellegrino, Educating the humanist physician – an ancient ideal reconsidered, The Jornal of the American Medical Association, 1974). Entretanto, a crise que se abate sobre as Humanidades está diretamente implicada na gênese de três mal-estares presentes na cultura, descritos pelo filósofo canadense Charles Taylor (As fontes do self – a construção da identidade moderna, edições Loyola, 1997 e A ética da autenticidade, editora É Realizações, 2011), e que impossibilitam justamente a elaboração cabal da imagem do homem perante a si e aos outros: o individualismo, a primazia da razão instrumental e a perda da liberdade. Por outras palavras: as ciências humanas tem contribuído ativamente para a elaboração de uma imagem desumanizada do homem, em razão da contaminação político-ideológica que é diretamente proporcional ao menosprezo pela herança humanista:

         “Educar significa formar lideranças, agentes de mudanças, homens e mulheres dispostos a assumir riscos para construir uma vida melhor. (Jacques Marcovitch, Os desafios da área de Humanidades no Brasil e no mundo, revista Estudos Avançados, volume 16, nº 46, 2002).

 

         “A humanização surge, na história mais recente da Saúde no país, sob a forma de movimentos políticos e ideológicos para a transformação da cultura e da prática profissional em uma perspectiva interativa”. (Humanização e humanidades em medicina – a formação médica na cultura contemporânea, Izabel Cristina Rios e Lilia Blima Schraiber, editora UNESP, 2012, pág. 46)

 

A depreciação das religiões tradicionais, a valorização da vida voltada a si e o louvor a certa espiritualidade difusa, desprovida de significado (porque capaz de comportar qualquer definição que se queira dar) amputaram o homem de vínculos com uma realidade que o transcende. A estrutura da realidade, para o medieval, articulava-se pela unidade de Bem, Belo e Verdadeiro; atualmente, o “Verdadeiro” encontra-se em descrédito e Bem e Belo desintegraram-se em princípios autônomos. Conforme descreveu Martim Vasques da Cunha (A Poeira da Glória, editora Companhia das letras, 2015), a realidade, regida exclusivamente pelo princípio do Belo, se apresenta sob perspectiva estética – onde o que importa é a aparência. O real, visto como obra de arte, permite que cada indivíduo seja livre para modelar-se como bem entender:

         “O século XX foi um período de profundo rompimento com as tradições, e a busca dos tesouros deixados entre as névoas desse passado rompido concorreu para que as instituições legitimadoras – entre elas a médica – empreendesse a invenção de suas tradições (…)”. André Mota, no prefácio do livro Humanização e humanidades em medicina – a formação médica na cultura contemporânea (Izabel Cristina Rios e Lilia Blima Schraiber, ed. UNESP, 2012).

 

A emancipação da vontade perante qualquer horizonte moral transcendente, que funcionava como quadro de referências capaz de dar significado espiritual à vida, emparedou a liberdade para agir sob o jugo da necessidade de satisfazer veleidades transitórias a qualquer custo. Desprovido de configurações capazes de atribuir sentido para práticas morais, o homem se tornou a medida de todas as coisas. Critérios para distinções qualitativas sobre certo ou errado não são mais vistos como necessários. Sob égide individualista, as ciências humanas apregoam que fatos inexistem objetivamente, são construídos conforme interesses contingentes. E, se o conhecimento é convenção social, a verdade é convenção sociológica. Valores são reverenciados como equivalentes no altar da isonomia, emoldurado pelo politicamente correto:

         “Ser capaz de relativizar sobre os conhecimentos e as práticas em medicina, reconhecendo diferentes discursos, “verdades” e saberes”. Objetivos terminais da área de Humanidades no ensino médico de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (http://medicina.fm.usp.br/cedem/hum/disciplinas.php).

 

O ensimesmamento frutífero, vinculado ao cultivo saudável da vida interior, perverteu-se em autoindulgência empenhada no prazer imediato. A percepção estética da realidade se reflete no rebaixamento das artes: ou servem exclusivamente à apreciação sensorial do mundo ou são instrumentalizadas para o desenvolvimento de uma “consciência social”, que discrimina a sociedade em vítimas ou opressores. Os elementos formadores da cultura do Ocidente, que deveriam ser preservados, são repudiados como arbitrários, elitistas, racistas, sexistas.

Sem configurações morais, a ética das virtudes (preocupação com o “viver bem”, com o que é valioso por si mesmo e digno de admiração) se transforma numa ética da eficiência (preocupação em determinar os princípios para a ação, de modo a “maximizar” os resultados). Dada a inexistência de fatos na realidade “manifesta” (para usar os termos do filósofo norte-americano Wilfrid Sellars – Philosophy and the scientific image of man, Ridgeview publishing digital, 2012), conforme propagado pelas ciências humanas, configura-se a ideia de que as verdades objetivas devem ser obtidas pelas ciências naturais, e a perspectiva moderna passa a privilegiar a “imagem científica” da realidade como única capaz de fornecer sentido existencial. A pressão pela eficiência resulta no que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han denominou de “sociedade do esgotamento”: o desaparecimento do universo moral transcendente, em vez de conduzir à liberdade, conduz à liberdade coercitiva de uma sociedade disciplinar na qual somos, simultaneamente, prisioneiros e vigias, e cujas exigências por desempenho resultam em cansaço (Byung-Chul Han, Sociedade do cansaço, editora Vozes, 2010).

 

Harmonizados, os elementos cognitivo e afetivo, necessários ao ideal de humanismo em medicina, permitiriam ao médico “não apenas compreender a sua ciência, mas também identificar-se com a humanidade daqueles a quem ele serve” (Edmund Pellegrino, From medical ethics to a moral philosophy of the professionals, Notre Dame Press, 2011). Resta saber se as Humanidades serão capazes de abandonar seu arcabouço ideológico e retomar a vocação para o estudo, a preservação e o legado do repositório de conhecimento e moral sobre o qual o Ocidente foi constituído, e auxiliar na difícil e nobre missão de formar o profissional médico como ser humano pleno e tecnicamente habilidoso.

Os melhores de 2015

 

“O cristianismo não é apenas mais uma das múltiplas tradições religiosas que concorrem entre si nas sociedades seculares do Ocidente. O cristianismo, em particular a tradição moral judaico-cristã, é o berço do liberalismo, incluindo o liberalismo secular que hoje dá o pano de fundo à cultura política ocidental. Embora não seja politicamente correto recordar isso, é isto que deve ser hoje recordado. (…)

Os cristãos desafiaram o princípio subjacente a todas as tiranias – o princípio de que o “poder é o direito” – e declararam que a lei de Deus é mais alta que a lei dos homens. Em suma, eles disseram que a distinção entre o bem e o mal não depende dos caprichos dos homens, de um, de alguns, nem mesmo de todos reunidos em coletivo. (…)

Todos os grandes falsos profetas adorados no século XX – Nietzsche e Freud, Lênin e Stálin, Hitler e Mussolini – procuraram ridicularizar a ideia de consciência individual. Disseram que era um mito concebido para obrigar os homens a inibir ou restringir a sua liberdade, a refrear seus poderes e apetites revolucionários. São típicos embusteiros: a consciência individual é a força moral mais poderosa do que os tiranos mais poderosos. É ela que nos impede de dormir quando erramos, que nos impele a desobedecer quando nos mandam fazer o mal, que nos leva a questionar a autoridade absoluta dos que pretendem substituir-se à lei moral.

Foi do reconhecimento da importância crucial da consciência individual que nasceu o liberalismo. Ao contrário do que pregam os discípulos da Revolução Francesa, o liberalismo não nasceu do combate contra a religião, muito menos contra o cristianismo. O liberalismo nasceu da convicção judaico-cristã de que existe uma lei moral mais alta que não depende dos poderes de plantão. E nasceu da convicção cristã de que essa lei mais alta está escrita no coração de todos os homens. Porque o Homem pode conhecer a lei moral, ele pode ser livre.

Também a tolerância liberal não nasceu da convicção relativista de que a verdade não existe e de que apenas existem as verdades de cada um. A tolerância liberal nasceu da convicção de que Deus, por ser bom, não deseja que os homens O sigam em resultado da coerção. A descoberta da lei moral deve fundar-se na adesão genuína da consciência individual. Em segundo lugar, a tolerância liberal nasceu da convicção cristã de que a condição humana é a da incerteza e do erro. Se a perfeição é vedada ao Homem, nenhuma autoridade humana deve ser investida da autoridade suprema de impor a lei moral: por ser humana, e portanto imperfeita, essa autoridade ficaria mais do que sujeita à tentação do erro e do abuso de poder.

Mas é bem claro que a liberdade, neste sentido liberal original, é um fardo, não é a licença de agir como nos aprouver. É o fardo de sermos humanos, de termos de exercer o juízo crítico, de não devermos seguir a multidão ou os poderosos para fazer o mal. É também o fardo de uma busca que não tem fim, porque a condição humana veda-nos o acesso à certeza e à perfeição.

Esta é, em suma, a mensagem do Natal, a mensagem que deveria ser recordada por todos os liberais – crentes ou não crentes, conservadores ou progressistas –, por todos aqueles que estão conscientes da precariedade da nossa civilização e de quanto ela deve à tradição cristã.

Infelizmente, esta mensagem moral é hoje de novo ridicularizada por uma época de relativismo sem freios, que se reclama abusivamente da liberdade. A fatal arrogância dos falsos profetas convida os indivíduos a não respeitarem limites e a desprezarem todas as tradições. “Se Deus está morto” – dizem os relativistas – “tudo é permitido”.

Mas Deus não está morto. Mesmo para os não-crentes, nos quais me incluo, Deus não está morto. Ele vive no coração de todos os homens, onde a lei moral está escrita, e onde a consciência individual impele os homens a formular juízos morais assentes na distinção entre o bem e o mal. É por isso que vale a pena sair em defesa do Natal.” (A tradição da liberdade, de João Carlos Espada)

Feliz Natal a todos vocês; deixo aqui uma pequena retrospectiva de 2015, o ano que já morreu e ainda não foi enterrado. Precisamos parar de fomentar uma cultura de reação aos restolhos do cotidiano da política e enxergar a cultura e o tempo presente numa escala de tempo mais dilatada, na qual o próprio tempo é suspenso; isso fará desaparecer de nossas retinas fatigadas Dilmas, Cunhas, Renans, Gregórios Duviviers e quejandos.

MÚSICA:

“”Além, Brigada Ligeira!”
Qual de tal ordem se esgueira?
Soldado algum se desvia
Dos feitos cruentos:
Não tem o que responder,
Nada tem para dizer,
Eles só tem que morrer:
Dentro do Vale da Morte
Vão os seiscentos.(…)
quem de sua glória se abeira?
Que ato o seu! A terra inteira
Espalha-o aos ventos.
Honra à sua carga altaneira!
Honra à Brigada Ligeira,
Nobres seiscentos!”


(A carga da Brigada Ligeira, Alfred Tennyson, tradução de Alexei Bueno)


1) The Decemberist, What a terrible world, what a beautiful world: “Cavalry captain”, canção dos Decemberists, presente no album ‘What a terrible world, what a beautiful world”, e inspirada pelo poema de Tennyson, tem um videoclipe que se contrapõe à temática do texto – no qual um guru de autoajuda espalha o decemberismo, refúgio covarde para auxiliar seus adeptos na conquista de suas glórias. 


2) Lana Del Rey, Honeymoon:  voz fantasmagórica sobreposta a arranjos orquestrados em câmera lenta que desvelam a esperança de sobreviver aos seus abismos sentimentais  


3) Chris Stapleton, Traveller: cantores de country music ainda são os melhores feitores de canções de exílio (interior e exterior) atualmente.


4) Iron Maiden, Book of souls: a definição de épico em um disco


5) The White Buffalo, Love and the death of damnation: o exílio permanente dos que se creem fora do alcance de qualquer redenção


6) Ryan Adams, 1989: Adams mostra que Taylor Swift não é só um rostinho bonito

7) Florence + the Machine, How big, how blue, how beautiful; Natalie Prass, Natalie Prass: o pop em sua melhor expressão

CINEMA:

Star Wars – O despertar da força, de J.J.Abrams

 

Lutas de sabres de luz, guerras interestelares, naves supersônicas, novos personagens carismáticos e o retorno de velhos conhecidos das sagas anteriores: tudo isso a serviço do “guarda-roupa da imaginação moral, que o coração possui e o entendimento ratifica, como necessária para cobrir os defeitos de nossa natureza nua e trêmula e para elevá-la à dignidade em nossa própria avaliação” (Edmund Burke, Reflexões sobre a Revolução na França)

 

Beasts of no nation, Cary Joji Fukunaga

“A Netflix matou o cinema”. Eis o lamento dos exibidores cinematográficos, servilmente ecoado por jornalistas culturais, a respeito de Beasts of no nation; ilustra bem o tamanho do poço cultural quando o principal aspecto comentado é a estratégia de lançamento do produto artístico – simultaneamente para salas comerciais e para os assinantes do serviço de streaming -, deixando-se de lado aquilo que realmente importa: do que trata o filme? Qual o tom adequado para contar uma história sobre meninos-soldados africanos? Cary Joji Fukunaga, que não ficou para ver o naufrágio da segunda temporada de True Detective, respondeu: acompanhe a jornada de um deles até o coração das trevas:

“A compreensão do que nos cercava fugia do nosso alcance; avançávamos deslizando como fantasmas, admirados e intimamente assustados, a reação de qualquer homem sensato  diante de uma irrupção exaltada entre os pacientes de um hospício. Não tínhamos como compreender porque havíamos ido longe demais, e não tínhamos como recordar porque atravessávamos a noite das primeiras eras, as eras que não nos deixaram sinal algum – e nenhuma memória. A Terra era irreconhecível. Estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta. Não era uma coisa deste mundo, e os homens…Não, não eram desumanos. Bem, era isso o pior de tudo – essa desconfiança de que não fossem desumanos.”(Joseph Conrad, Coração das trevas).

 

A entrega, Michael Roskam

Em uma de suas “Cartas a Olga”, o tcheco Vaclav Havel escreveu que a essência da responsabilidade decorre da tensão constante entre o nosso “eu” e a experiência de algo que nos transcende; este “horizonte absoluto do ser” constitui o “background” de nossas ações, nos serve de coordenadas e confere contexto e significado ao que fazemos – e, portanto, constitui o fundamento de nossa identidade. A experiência da responsabilidade é mais intensa quando, obedecendo a este “fundo insubornável” (Ortega y Gasset), somos obrigados a agir contra a opinião geral do meio no qual estamos inseridos. Se alguém é capaz de saber o que fez e porque fez alguma coisa, poderá extrair algo estável e que servirá de referência em meio ao caos. Se, no entanto, justificamos nossos erros em função de circunstâncias adversas, desfavoráveis, ou em função das más influências – como faz Bob Saginowski, o personagem vivido por Tom Hardy em “A entrega” (“eu só cuido do bar”) –, estamos, na verdade, arranjando falsos obstáculos que nos impossibilitam de assumirmos plenamente nossas responsabilidades; criamos barreiras entre nossas ações e nossa identidade. Resultado: perdemos nossa liberdade, porque passamos a habitar um mundo aprisionado no pior dos pesadelos, o da impossibilidade da redenção – como nos arrepender do que nos recusamos a possuir? Bob Saginowski vivencia a pior solidão, pois tem em si a imagem de um Deus que é incapaz de expiar aqueles cujas vidas estão quebradas; e não é exatamente isso o que precisa ser salvo, “a imagem do próprio Deus em nós”?

Expresso do amanhã, Joon-ho Bong

 

 

A liberdade interior é a principal resistência que podemos oferecer a qualquer forma de tirania; tiranias exigem sacrifícios e sempre que há sacrifícios (em prol de um projeto de poder, em prol de uma coletividade, em prol da justiça ou reformas sociais) haverá alguém para coletar as ofertas sacrificiais. Nossas almas jamais serão entregues de bandeja nesse altar de oferendas somente se nossas ações se ordenarem sob a perspectiva da Eternidade, de modo que o “horizonte absoluto do ser” constitua o fundamento de nossa identidade e o “background” de nossas ações (ver o artigo The philosophy of Snowpiercer – link aqui).

 

Mad Max – Estrada da fúria, George Miller

Cinema de ação intensa, surreal, expressionista, o nome que você quiser dar: trata-se da batalha pela liberdade no inferno sobre (muitas) rodas.

 

 

 

O ano mais violento, J.C. Chandor

“Minhas mãos estão da cor das tuas. Mas me envergonho de guardar tão branco o coração.” (MacBeth, Shakespeare). O personagem vivido por Oscar Isaac irá perceber – como demonstra a belíssima cena final – que, a depender de nossas escolhas morais, as mãos e o coração ganham as mesmas cores de sangue.

 

 

Caçada mortal, Scott Frank

 

 

Caso raro de adaptação para o cinema muito melhor do que o livro no qual se inspirou (Caçada mortal, do escritor Lawrence Block); podemos aplicar as mesmas palavras que Raymond Chandler usou para descrever a sua criação literária, o detetive Philip Marlowe, para o detetive Matt Scuder, vivido por Liam Neesom, depois que ele conheceu o inferno:

“Em tudo que se pode chamar de arte existe uma qualidade de redenção. Pode ser pura tragédia, se for alta tragédia, e pode ser compaixão e ironia, e pode ser a risada rouca do homem forte. Mas nas ruas sórdidas da cidade grande precisa andar um homem que não é sórdido, que não se deixou abater e que não tem medo. Nesse tipo de história o detetive deve ser este homem. Ele é o herói; ele é tudo. Ele deve ser um homem completo e um homem comum e, contudo, um homem fora do comum. Ele deve ser, para usar um clichê, um homem honrado – por instinto, por ser isso inevitável, sem que ele pare para pensar sobre isso, e certamente sem que ele o diga. Ele deve ser o melhor homem em seu mundo, e um homem bom o suficiente para qualquer mundo.” (Raymond Chandler, A simples arte de matar)

 

The babadook, Jennifer Kent

 

O filme de Jennifer Kent situa-se naquele território ambíguo do “uncanny valley” (termo cunhado na década de 70 por Masahiro Mori, professor de robótica do Instituto Tecnológico de Tóquio), o vale da estranheza do gênero sobrenatural situado entre o maravilhoso (tanto o espectador quanto o personagem, diante do que vivenciam, devem admitir novas leis da natureza pelas quais o fenômeno pode ser explicado) e o estranho (as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fenômenos descritos) (vide Tzvetan Todorov). Ambíguo porque os fenômenos, apesar de não participarem da realidade ordinária como tal, são aceitos – daí o terror. Embora isso possa soar como uma espécie de determinismo, que encerraria os personagens numa realidade terrível e inescapável, a força do filme não está nessa assombração, de viver num mundo sem possibilidade de redenção; a força está em transmitir essa ambiguidade de origem, essa hesitação do sobrenatural aceito, para o nosso olhar, e evidenciar a ambiguidade do real por meio da seguinte questão que, ao final do filme, formulamos: estamos diante de eventos reais ou estamos diante de doença mental? Como escreveu Joseph Conrad no “Coração das trevas”:

“A sua própria realidade – para você, não para os outros – que nenhum outro homem jamais terá como conhecer. Os outros só enxergam a mera aparência, e jamais sabem o que a pessoa de fato sente.”

Operação Invasão 2, Gareth Evans

O cinema asiático ainda é pródigo na ação bem coreografada; desta vez, a ação ilustra a tensão vivida pelo protagonista na “vastidão dos espelhos”.

Ficou a dever: Hacker (BlackHat), Michael Mann

 

 

Tecnicamente impecável, todos os grandes temas deste grande cineasta, Michael Mann, estão lá: a indistinção entre vida pessoal e profissional, de modo que o trabalho se torna a única via de expressão da individualidade, resultando no entanto no isolamento psicológico dos protagonistas, alienados e abandonados na indiferença das vastidões das cidades; a tentativa de eliminar os “cisnes negros” e domar a contingência. Porém, ao contrário de suas obras primas (Heat, Miami Vice, Collateral), a promessa da transcendência que nunca se consuma foi substituída pelo happy-ending, pelo final feliz do “outsider”. De tanto que seus protagonistas espelhavam os vilões, Mann tornou-se fascinado pelo “fora-da-lei” (já percebemos isso em Os Inimigos Públicos) – o que por si é uma característica do cinema noir; no entanto, trata-se de uma característica que ressalta as ambiguidades dos personagens. Neste Blackhat, não há ambiguidade nenhuma.

 

SÉRIES DE TV:

 

Daredevil – Demolidor

 

 

 

Show me a hero, David Simon

 

 

 

Black mirror, Charlie Brooker (dica do bunker do Dio)

 

Livros:

O livro de 2015: em breve um texto a respeito.

 

DESCOBERTA MAIS LEGAL DO ANO: O Bunker do Dio (link para o canal no YouTube aqui)

O canal mais inteligente da Internet, com dicas preciosas; seus vídeos são instrutivos e objetivos. Dionisius Amendola é um leitor rigoroso, apreciador de boa música e de bons filmes. Que seu bunker tenha vida longa e produtiva.

A glória do homem de bem

“Pois eu, que conheço o bem, te digo, Perses, grande tolo:

mui pronto o vício conquista multidões,

é muito fácil: seu caminho é plano e está logo ali.

Mas perante a virtude suor ordenaram os deuses

imortais. É longa e inclinada a subida até ele,

espinhosa no início, mas quando se chega ao topo

mais fácil se torna, ainda que seja difícil.

Eis o melhor: aquele que pensa tudo por si

e conjuga o que convém agora com o fim.

É bom também quem ouve do bem e obedece,

mas quem não pensa por si, nem ouvindo o conselho

não o guarda na mente, este é um homem inútil.”

Hesíodo, Os trabalhos e os dias (século VII a.C.?)

“A glória do homem de bem é o testemunho da boa consciência”

Tomás de Kempis, A imitação de Cristo (século XIV)

Recentemente, noticiou-se (link aqui) que Sailson Jose das Graças havia sido preso em flagrante, após assassinar uma mulher, em Nova Iguaçu (RJ), e que, durante seu depoimento, ele afirmara ter matado outras 42 pessoas nos últimos nove anos. Vejamos alguns trechos do depoimento:

“Eu não matava com preocupação de ir pra cadeia não. Fazia as coisas bem feito, é por gostar mesmo isso. Preocupava mais com a digital, se o local tem câmera, se o local não tem câmera. Eu não levava documento, não levava nada que desse pista para a polícia. (…) Ficava observando a vítima, estudando. Esperava um mês, às vezes uma semana, dependendo do local. Eu procurava saber onde ela mora, como é a família dela, se ela passava na rua, via, dava uma olhada na casa, ficava estudando ela. (…) Se eu sair daqui a uns 10, 15 ou 20 anos, eu vou voltar a fazer a mesma coisa. É a vontade mesmo, não tem jeito. Eu saio, escolho as minhas ‘mulher’, as mulheres do meu perfil, e se achar que tem que ser, vai ser”

A tendência quase que imediata do público é declarar: eis mais um psicopata. Para além de especulações acerca dos detalhes técnicos da classificação psiquiátrica, dois aspectos de seu discurso chamaram a minha atenção: o planejamento meticuloso, organizado e consciente, orgulhosamente descrito para os policiais – e eficaz, pois se as provas corroborarem sua história, Sailson permaneceu impune por nove longos anos – e a crença na inelutabilidade de seu comportamento. Temos aí uma combinação aparentemente contraditória e, no entanto, além de altamente inflamável, ordinariamente utilizada por perpetradores de violência em geral e usuários de drogas, à guisa de explicação para suas ações.

“Eu não matava com preocupação de ir pra cadeia não. Fazia as coisas bem feito, é por gostar mesmo isso. Preocupava mais com a digital, se o local tem câmera, se o local não tem câmera”. Em graus distintos, toda técnica inebria (Gustavo Corção); aplicar-se ao estudo de qualquer técnica até dominá-la assegura uma sensação de poder. Apreender os detalhes técnicos de sua “empreitada” não lhe servia apenas para manter suas atividades ocultas, mas principalmente para  validar sua crença de que tal conhecimento, secreto e valioso, seria capaz de atribuir-lhe domínio sobre o presente, inexistente na realidade concreta, em seu dia-a-dia, e obter com isso vanglórias imaginárias (consequentemente, domínio sobre o futuro); para lidar com as frustrações cotidianas de uma sociedade que elege o igualitarismo como concepção única de justiça e que avalia o sucesso e o fracasso à luz de posses materiais, ou da capacidade de que cada um dispõe para obtê-los, todo fracassado precisa estabelecer ele mesmo os seus próprios moldes do que é ser ou não vitorioso. Narciso pode se sentir melhor mudando de espelho. Temos, portanto, outro desdobramento desse trecho de seu discurso: a preocupação e o desejo de uma boa autoimagem. Em outras palavras: o controle absoluto de suas cenas de crime poderia compensar a falta de controle sobre todos os outros aspectos de sua vida (social, econômico, afetivo). E tal desdobramento nos aponta para o que está implícito em sua fala:

“Se eu sair daqui a uns 10, 15 ou 20 anos, eu vou voltar a fazer a mesma coisa. É a vontade mesmo, não tem jeito. Eu saio, escolho as minhas ‘mulher’, as mulheres do meu perfil, e se achar que tem que ser, vai ser”.

Sailson se coloca como vítima de circunstâncias incompreensíveis, de alguma patologia incurável e incontrolável. Ele não é alguém que age por pura maldade, mas simplesmente alguém que é incapaz de controlar a perversidade que o acomete. Percebem a contradição? Ele é tão incapaz de controlar suas ações que ficava observando a vítima, estudando. Esperava um mês, às vezes uma semana, dependendo do local. Eu procurava saber onde ela mora, como é a família dela, se ela passava na rua, via, dava uma olhada na casa, ficava estudando ela”.

Theodore Dalrymple (pseudônimo literário do psiquiatra inglês Anthony Daniels; Daniels  trabalhou em diversos países até se aposentar em 2005 em um hospital e em uma penitenciária em Birmingham; autor de A vida na sarjeta – o círculo vicioso da miséria moral, Spoilt Rotten – the toxic cult of sentimentality, In praise of prejudice, entre outros) escreveu, em um de seus ensaios magistrais:

“Excluindo-se os casos de malformações neurológicas, a única causa inquestionável da violência, tanto a política quanto a criminosa, é a decisão pessoal de a cometer. Qualquer estudo sobre a violência que não leve em consideração os estados de espírito é incompleto. (…) Tentamos esvaziar o mundo do seu conteúdo moral atribuindo tudo a forças impessoais que, naturalmente, só nós, espertos como somos, podemos remediar – tão logo nos deem poder para tal. (…) A violência jamais poderá ser compreendida corretamente se não levarmos em consideração as ideias que as pessoas tem sobre o que é certo; o que é justo; o que é correto; o que cada um merece; quais são as consequências para quem a pratica; e, acima de tudo, sobre o que é realmente importante na vida”.

Neste final de ano, em tempos de materialismo desesperado – a ponto do combativo filósofo e neurocientista ateísta Sam Harris lançar um livro bizarro, intitulado “Despertando – Um guia para a espiritualidade sem religião” – talvez valha a pena resgatarmos a ideia socrática de alma – isso mesmo, prezado leitor, prezada leitora, essa coisa tão fora de moda: alma, a essência do homem, aquilo que ele “é” quando se recusa a se deixar guiar por opiniões correntes e olha para dentro de si e se concentra sobre sua própria capacidade escolher e decidir; a sede das capacidades racionais humanas, que abriga a verdade, o local da compreensão do que é universal; pois a partir do momento em que procuramos o bem universal e o encontramos, não no mundo, mas em nossa interioridade, somos capazes – e aqui, a contribuição do Cristianismo: com a graça de Deus e a imitação de Cristo – de chegar à virtude; e uma vez compreendida, a virtude deve ser incorporada em nossa ação, em nossas atitudes, em nosso comportamento. A ordenação da alma é a medida mais eficaz para aferir a desordem do mundo.

Ordenar a alma é buscar o bem; conhecê-lo. Pois o mal, insidiosa e habitualmente, se apresenta disfarçado com as virtudes do bem.

Deixo-os, agora, além de minha pequena e amena retrospectiva de 2014, com as palavras do filósofo francês Fabrice Hadjadj, retiradas de seu livro de 2009 (infelizmente não publicado em português) “La Fe de lós demônios – o el ateísmo superado”, e com os meus votos de feliz Natal e excelente 2015. Obrigado pela companhia.

“(…) O mal mais ilusório não se encontra no vício reconhecido. O vício enquanto vício não tem força para nos seduzir. Nossa vontade não pode querer o mal pelo mal. Para movê-la é preciso uma certa aparência de bem. (…) O mal não é nada bom em si, para atrair-nos tem sempre que emprestar do bem sua fachada, e o que faz La Rouchefoucauld, ao desvelar o mecanismo de nossa hipocrisia ou de nosso orgulho, é denunciar a debilidade ontológica do vício: para fascinar-nos, precisa adornar-se com plumas de pavão, pretender-se superior, enfim, disfarçar-se de virtude. E esse disfarce não consiste em simular virtude, mas, para que sigamos persuadidos de nossa retidão, consiste em separar uma virtude de seu cônjuge – em romper o elo onde uma afirma a excelência da outra. Chesterton havia enxergado isso perfeitamente. Repete-se frequentemente, em nosso meio, esta sua frase: “as ideias modernas são ideias cristãs que enlouqueceram”, frase que, retirada de seu contexto, deformada em seu conteúdo, chega a ser uma cantilena que, ela própria, enlouquece. Esqueceu-se, nesse intervalo de tempo, do princípio dessa loucura ideal: o desmembramento da estrutura trinitária do verdadeiro, o deslocamento do organismo das virtudes conexas.

“O mundo moderno não é mau; sob determinados aspectos, o mundo moderno é até excessivamente bom. Ele está repleto das mais selvagens e desperdiçadas virtudes. Quando um sistema religioso sofre qualquer abalo (como aconteceu com o Cristianismo por ocasião da Reforma), não são apenas os vícios que ficam em liberdade. Os vícios ficam, sem dúvida, à solta, vagueiam livremente e causam imensos danos. Mas as virtudes também andam à solta, vagueiam de modo mais selvagem e causam danos ainda maiores. O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Essas virtudes enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas.” (G.K.Chesterton, Ortodoxia).

Essas linhas bebem na profundidade dos últimos versículos do Salmo 61:

“Deus falou uma vez,

E duas vezes eu ouvi

Isto: a Deus pertence a força,

E a ti, Senhor, pertence o amor;

E isto: quanto a ti, pagas

o homem segundo suas obras.”

Sempre ouvimos a única palavra divina, na casa de Deus, por meio de um par de enunciados que devem se manter unidos. Neste caso, a misericórdia (a ti, Senhor, pertence o amor) unida à justiça (pagas o homem segundo suas obras). Mas como isso não funciona, o mundo, segundo Chesterton, introduziu o divórcio nesse difícil matrimônio e resulta que cada virtude se torna tanto mais segura de si mesma quanto mais adúltera. A dupla se transforma em dualidade. A complementaridade se quebra em contrariedade. Como temos visto, o gênio diabólico não consiste tanto em rechaçar o bem mas em monopolizá-lo para proveito próprio (rezar sem respeitar a ordem divina, como dizia Santo Tomás de Aquino). Dessa forma se extravia inclusive nosso desejo de fazer o bem, isolando as bondades que a verdade une: a justiça sem misericórdia, que se torna crueldade, frente à misericórdia sem justiça, que se torna permissividade; a humildade sem generosidade, que se torna modéstia indolente, frente à generosidade sem humildade, que se torna ativismo vaidoso…e finalmente, a verdade sem amor, que é a fé dos demônios, frente ao amor sem verdade, que é a filantropia do diabo. Corremos atrás dessas virtudes parciais que são vícios completos, e o mundo pode perecer por nossa diligência”.

A) FILMES

1) True Detective: minissérie que é, ao mesmo tempo, cinema e literatura; o sentido de eternidade, ou o desejo de se prolongar ao “inacabável do tempo”, só é possível pela consciência da finitude.

2) All is lost, de J.C. Chandor: adversidades que ressaltam a percepção de abandono do personagem e o que é preciso para escapar de sua condição: o sacrifício interior a ser realizado por um homem que, enfim, reconhece seus erros e admite que, para sobreviver, necessita restabelecer sua alteridade.

3) The Immigrant, de James Gray: quando Marion Cotillard e sua irmã chegam em Nova Iorque, vemos o dorso da famosa Estátua, numa prefiguração de que a verdadeira liberdade não poderá ser encontrada na cidade; a obra-prima de James Gray descreve a construção de uma relação de co-dependência entre dois indivíduos, cujo pragmatismo lhes trará mais perdas do que ganhos; que liberdade resta quando se perde a própria alma? E, no entanto, também lhes propiciará o caminho para a redenção.  “Passei por tantas provações. Será que lutar tanto para sobreviver se tornou um pecado para mim? Será um pecado querer sobreviver, quando fiz tantas coisas ruins? Deus enviou-me a uma pessoa tão incrivelmente perdida, alguém que transformou a minha vida em pecado, e agora, essa pessoa sofre por mim. Assim, estou aprendendo o poder do perdão.”

4) O lobo de Wall Street, de Martim Scorsese: o triunfo e a glorificação do sucesso individual a qualquer preço: dinheiro, excessos e alienação formam os moldes dessa descrição vigorosa da década do “eu”.

B) DISCOS

8) Ryan Adams, Ryan Adams: o nome do álbum já diz tudo: depois da tempestade (“eu estava me fingindo de morto, não fazia um som, segurava minha respiração enquanto afundava”), otimismo e prenúncios de felicidades (“não posso ver a escuridão em ascensão, ficarei esperando aqui até que a maré mude”) pelo retorno às origens, com belas melodias e músicas diretas.

7) Sharon Van Etten, Are we there: ao contrário de Lykke Li, o esquadrinhamento intimista que Sharon Van Etten faz de amores quebrados e relacionamentos imperfeitos demonstra maturidade, ao sinalizar uma esperança, uma saída do ambiente melancólico – por meio da ironia, do reconhecimento de que alegrias e tristezas fazem parte do mesmo cardápio.

6) Brody Dalle, Diploid Love: guitarras altas, linha de baixo sombria, bateria pulsante, trompetes e mariachis delimitam o cenário para a força da voz de Brody, que anuncia: não se metam com ela (“eu vou queimar esta cidade”), nem com seus sonhos (“dias melhores estão esperando por mim e eu irei vestida de sonhos”). Em 2014 o rock esteve mais bem cuidado sob mãos femininas.

5) Lykke Li, I never learn: relacionamentos fracassados que se repetem como valsas melancólicas deixam feridas expostas que, apesar de não sangrarem mais, demoram a cicatrizar. Lykke Li fala sobre erros que nunca se convertem em aprendizado, e canta para os corações sofredores que insistem em caminhar para frente com passos falsos (“onde a lua azul brilha e onde as lágrimas derretem o gelo num oceano de culpa sob estrelas caídas, melodias solitárias, cantos de dor, há uma tempestade e somente o amor permanece”).

4) Damien Rice, My favourite faded fantasy: Rice canta suas fantasias desbotadas; retratos, em piano e cordas, ora minimalistas, ora dramáticos, de ausências que sangram e felicidades irrisórias que duram menos do que uma lágrima. Quem disse que os homens não sofrem?

3) Leonard Cohen, Popular problems: aos 80 anos, Cohen, com sua voz de barítono e sua poesia recitada, sussurra sabedorias e ironias em baladas a respeito da velhice e da proximidade da morte (“estou amarrando meus sapatos / mas não quero me apressar / chegarei lá quando eu chegar / não precisa de tiro de largada / gosto de não ter pressa / protelo enquanto flutuo / uma semana em seus lábios / a vida inteira em seus olhos”), relacionamentos (“os limoeiros florescendo / as amendoeiras murchando / alguma vez fui alguém / que poderia te amar para sempre? / alguma vez eu te abandonei? / eu já fui capaz? / ainda estamos nos apoiando / naquela mesma velha mesa?”), sofrimento (“e nós que clamamos por misericórdia / do fundo do poço / foi nossa oração tão indigna / que o Filho a rejeitou?”) e esperança.

2) Gaslight Anthem, Get hurt: Nick Hornby escreveu em 2004 um texto que cai como uma luva para o Gaslight Anthem e este Get Hurt: “o rock era e continua a ser necessário porque, afinal, quem não precisa de uma sensação inexplicável de felicidade e de um sentimento de invencibilidade, mesmo às vezes? (…) não me importa se a música soa nova ou velha – só quero que ela tenha anseios e exuberância, que seja desinibida, que reconheça o poder redentor do barulho, que admita que a inteligência emocional às vezes se expressa melhor por uma grande troca de acordes do que por um cenho franzido”

1) Marketa Irglova, Muna: Muna, em islandês, significa “lembrar”; as belas e angélicas harmonias vocais desta cantora checa evocam a beleza da Islândia, país onde mora atualmente, e a descoberta da Graça divina (“nuvens descem sobre gramas selvagens, grandiosas e imponentes, exuberantes à mão, curvam-se no ar como um homem em oração”), apesar das perdas e das dúvidas que surgem pelo caminho (“tem havido sinais pelo caminho / mas são tão obscuros / algumas vezes eu pensava que sabia o que significavam / mas como eu poderia ter certeza? / Todo esse mal-estar faz meu estômago revirar / embora tenha sido eu que montei a armadilha e não Você / Você me deixou aqui sem um mapa / por todo esse tempo eu tive que aprender o caminho / mover-me quando queria ficar / estive certa tanto quanto estive errada / e tudo que eu escuto de você é: / Você é forte o suficiente / por tudo o que teve que enfrentar / o único mapa de que você precisa é Amor / para guiá-la neste labirinto ilusório”). Marketa Irglova nos lembra daquilo que nos falta: “como um desejo que permanece oculto / uma ferida que nunca cicatriza / na secreta linguagem do coração convoquei-o para mim / como a parte que falta do projeto de minha vida”.

Dois anos de blog

No centro do campus da Universidade de Pittsburgh, em Oakland, onde estive recentemente por razões profissionais, situa-se o maior edifício educacional do Ocidente, uma bela construção gótica chamada “Cathedral of Learning”. No 36º. andar, além de uma magnífica visão panorâmica da cidade, encostados num cantinho, estão dois livros de Henry Adams. Adams, descendente de dois ex-presidentes norte-americanos (John Quincy Adams, avô; e John Adams, bisavô), filho do embaixador de Lincoln em Londres, foi historiador, jornalista e escritor, conhecido por “History of the United States”, e da autobiografia “The education of Henry Adams”.

Em 1885, sua mulher, acometida por depressão grave, suicidou-se. Para recuperar-se desse episódio, Adams partiu em viagem pela Europa, o que resultou no relato “Mont Saint Michel e Chartres”. O capítulo III do livro destina-se às suas impressões sobre “The Merveille”, “A maravilha”, apelido dado pelos franceses ao Mont Saint-Michel, situado na região noroeste da França. Nesse livro, podemos ler as seguintes passagens:

“When men no longer felt the passion, they fell back on themselves, or lower. (…) The architect meant it to reassert, with all the art and grace he could command, the mastery of love, of thought and poetry, in religion (…) the whole Mount still kept the grand style; it expressed the unity of Church and State, God and Man, Peace and War, Life and Death, Good and Bad; it solved the whole problem of the universe. God reconciles all. The world is an evident, obvious, sacred harmony. (…) a symbol of unity; and assertion of God and Man in a bolder, stronger, closer union than ever was expressed by other art; and when the idea is absorbed, accepted, and perhaps partially understood, one may move on.”

No livro “The science delusion – Asking the Big Questions in a culture of easy answers” (“A ilusão da ciência – fazendo as Grandes Perguntas numa cultura de respostas fáceis”), o ensaísta norte-americano Curtis White escreveu:

“Os novos ateístas falam em nome da ciência, assim como os neurocientistas, e a mensagem é: submetam-se. Confessem a superioridade da razão e da ciência. Mas essa instrução não é direcionada apenas aos evangélicos; também é direcionada aos outros adversários históricos – arte, filosofia e as ciências humanas.  A mensagem é: a mente humana e as criações humanas não são consequências de algo chamado Vontade, ou inspiração, ou comunicação com uma Musa ou mesmo com o Demônio, e menos ainda resultados de genialidade. Tudo isso é muito nebuloso; vem da mente fraca de poetas e religiosos. A mente humana é uma máquina de matéria, neurônios e bioquímica. Com suficientes dinheiro e tecnologia computacional, o quebra-cabeças do cérebro será completado, e saberemos então quem somos e como devemos agir”.

Curtis White também descreve, no livro, uma parábola interessante:

“Um evangélico e um cientista estão fazendo uma caminhada, e a floresta em que se encontram ecoam seus refrãos que não terminam nunca: “Evolução!” “Design inteligente!” “Evolução!” “Design inteligente!” Gustav Mahler (compositor austríaco) se aproxima, vindo da direção oposta. Ele pára diante dos dois e diz: “Não há porque discutir sobre a origem deste mundo, destas montanhas e destas árvores”; Mahler gesticula grandiosamente, como se regesse uma orquestra. “Eu já compus tudo isso”. O evangélico e o cientista olham para ele, espantados, como se dissessem “o que esse cara está fazendo aqui?”. Mas eis que olham para os lados, para a direção dos gestos de Mahler e, em uníssono, gritam: “Veja, estamos em uma floresta!”.

E completa:

“Em resumo, a ciência (quando nos insta a ficarmos maravilhados diante do cosmos) opera com um conjunto de valores estéticos que nos são familiares mas que, apesar de não ser necessariamente religioso, não é científico. E parece estar completamente alheia a esse fato. Pior ainda, a educação que oferece aos jovens e aos velhos é essa: submeta-se aos melhores do que você, aqueles que sabem, aos cientistas. Se eles dizem que o cosmos é lindo, é porque é lindo. Para a ciência, a única coisa que está mais morta do que Deus é a filosofia.”

Este blog completou 02 anos de vida em 18 de Agosto. Seu conteúdo de algum modo resulta da tentativa de restaurar, em mim mesmo, uma harmonia que parece distanciar-se deste mundo cada vez mais incapaz de maravilhar-se. Agradeço aos persistentes e corajosos leitores: sigamos, pois, para o terceiro ano.

Amores incompletos

Na vida pública, somos herdeiros do romantismo, da falsa noção de que a veracidade de nossas intenções passa pela intensidade de nossos sentimentos: somos mais reais à mesma medida que somos capazes de nos expor; o sentimentalismo excessivo e venenosamente adocicado de nossa época é a supressão da reflexão em prol de uma resposta emocional imediata; é a expressão pública de emoções sem o devido reconhecimento de que o julgamento racional é o filtro necessário para nossas reações àquilo que presenciamos. Da mesma forma, na vida privada, o romantismo nos ensinou que o amor verdadeiro tem apenas uma exigência: a paixão; se somos capazes de “sentir”, nos consideramos capazes de amar. “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, é o manual escolar do amor romântico: pela descrição detalhada das experiências intensas que constituem o fundamento do amor, do que é e de como deve se parecer alguém apaixonado. O amor nada mais seria do que um conjunto desordenado de emoções intensas.

Mas nosso imaginário romântico também é herdeiro de Platão. No “Banquete”, após Eurixímaco, temos o discurso de Aristófanes sobre o amor (tradução de Carlos Alberto Nunes):

“Porém, primeiro precisareis conhecer a natureza humana e as modificações porque passou. Antigamente, nossa natureza não era como a de agora, mas muito diferente. Para começar, havia três sexos, e não dois apenas, como hoje: masculino e feminino. Além desses, havia um terceiro, formado dos outros dois; o nome ainda subsiste, porém o sexo desapareceu. Em verdade, era o sexo andrógino, com a forma e o nome dos outros dois sexo, masculino e feminino. Porém, só o nome chegou até nós, bastante desmoralizado. Além do mais, no todo os homens eram redondos, com o dorso e os flancos como uma bola. Possuíam quatro mãos, igual número de pernas, dois rostos perfeitamente iguais num só pescoço bem torneado, e uma única cabeça com os rostos dispostos em sentido contrário (…) Andavam de pé, como hoje, para qualquer lado; porém, se se dispunham a correr velozmente, faziam como os saltimbancos, que viram em círculo e jogam as pernas para o ar, até completar a volta (…) eram de força e vigor extraordinários, e por serem dotados de coragem sem par, atacaram os próprios deuses (…). Então Zeus deliberou com as demais divindades sobre o que era preciso fazer com eles, porém não chegaram a nenhuma conclusão. Realmente, nem era aconselhável matá-los ou fulminá-los, como haviam feito com os gigantes, destruindo, desse modo, toda a espécie, pois tal medida implicava o desaparecimento do culto e dos sacrifícios prestados pelos homens, nem deixar, ainda, que prosseguissem com tamanha insolência. Depois de muito refletir, falou Zeus deste modo: “Penso ter encontrado um meio”, declarou, “de conservar os homens e por cobro a essa indisciplina: bastará enfraquecê-los. Agora mesmo vou dividi-los pelo meio, pois desse modo não somente ficarão mais fracos, como nos serão também de maior utilidade, pelo fato de aumentarem de número.” (…) Assim dizendo, partiu os homens ao meio (…) à medida que os ia dividindo, mandava que Apolo lhes virasse o rosto e metade do pescoço para o lado do corte: ao perceber a incisão que lhes fora feita, o homem saberia moderar-se.(…)
Seccionados, desse modo, os corpos, cada metade sentiu saudades da outra, e procurando ambas a sua parte, estendiam reciprocamente os braços, estreitavam-se, no anelo de se fundirem num só corpo, do que resultou morrerem de fome e inanição, pelo fato de nenhuma parte querer fazer nada separada da outra. (…) Cada um de nós, por conseguinte, só é homem pela metade, mero símbolo, por ter sido cortado ao meio (…) de um passaram a ser dois, do que resulta viverem todos a procurar sua metade complementar.
Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam a vida juntas, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. Apenas poderia ser o prazer dos sentidos que leva cada um a procurar a companhia do outro. É evidente que a alma de ambos deseja algo que ela própria não sabe definir, mas advinha ou sugere vagamente. E, se, porventura, se aproximasse deles Hefesto com seus instrumentos, quando estivessem dormindo no mesmo leito, e lhes perguntasse: “Homens, que é o que cada um de vós deseja do outro?” E percebendo o enleamento dos dois, voltasse a interrogá-los: “O que quereis não será, porventura, unir-se o mais intimamente possível, sem vos separardes nem de dia nem de noite? Se é isso o que almejais, vou derreter-vos e insuflar em ambos um sopro único, de forma que de dois passeis a ser um só, para que enquanto viverdes possais estar sempre juntos como se fôsseis apenas um, e, depois de mortos, no Hades, não sejais dois, porém apenas um morto apenas, por haverdes tido morte comum.” (…)
Se ouvissem tal proposta, estamos certos de que nenhum diria não, nem declararia desejar outra coisa, mas com a maior boa fé julgaria ter ouvido o que de muito ambicionavam: unir-se ao objeto amado e com ele fundir-se, para formarem um único ser, em vez de dois. E a razão disso é que primitivamente era assim nossa natureza, e nós formávamos um todo homogêneo. A saudade desse todo e o empenho em restabelecê-lo é o que denominamos amor.”

Temos aí, distinto leitor, prezada leitora, o mais conhecido mito de origem do amor: o amor como a busca pela nossa outra metade, nossa “cara-metade”; e, ao encontrá-la, não sabemos bem porque, simplesmente “sentimos” que é com ela que queremos passar o resto de nossa vida juntos (“essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra”). O amor como força que supera tudo, até os deuses.

A partir da noção de que existe realmente alguém por aí que é a nossa perfeita metade, elaboramos um conjunto de especificações daquilo que esperamos do amado ausente, com os elementos que supostamente preencheriam nosso vazio ontológico. John Armstrong, em “Conditions of Love – the philosophy of intimacy”, argumenta que, sempre que a “pessoa certa” é excessivamente especificada, inevitavelmente ficará aquém do que imaginamos, sempre estará fora do limite dessas compatibilidades idealizadas. Pascal Bruckner, em “Fracassou o casamento por amor?”, escreve: Estabeleça um ideal e você imediatamente estará engendrando millhões de inadaptados, incapazes de alçar a essa altitude que se imaginam, então, deficientes.(…) A esfera doméstica tornou-se um campo de batalha titânica entre o sublime que se almeja e o trivial que se vive”. Acredita-se, vulgarmente, que incompatibilidades são destrutivas para os relacionamentos, e se esquece de que, durante qualquer relacionamento, durante o curso de uma vida mesmo, prioridades mudam – seja porque as pessoas mudam, seja porque, como dizia o poeta, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”; portanto, durante um relacionamento as compatibilidades podem mudar também. Logo, não pode haver uma compatibilidade perfeita. Quando todo mundo concorda com todo mundo em tudo, as poucas diferenças irão parecer desproporcionais.

Não que certas compatibilidades não sejam necessárias, obviamente que são. O ponto é que talvez seja mais sábio mudar de perspectiva: em vez de pensar em buscar “a pessoa certa”, procurar pelas “atitudes certas” – os recursos e as capacidades para se importar com alguém, para amar alguém. Quando se pensa em procurar pela “pessoa certa”, todo o foco recai sobre o procurado, eximindo o procurador de responsabilidades sobre si na parte que lhe cabe do relacionamento. Como escreve Armstrong:

“Evitar tem sido uma característica chave na busca pela pessoa certa, pois a atenção é desviada daqueles que procuram. Eles não tem responsabilidades no amor; imaginam que, quando encontrarem a pessoa certa, o amor florescerá fácil e espontaneamente e sobreviverá por conta própria.(…) a experiência de aprendizado para amar alguém no longo prazo requer adaptações, inclui abandonar algumas exigências e aprender outras, mudar de prioridades. Se você é capaz de fazer isso com alguém, provavelmente será capaz de fazê-lo com outras pessoas. Compatibilidade, por conseguinte, será uma conquista, não um pré-requisito para o amor.”

A perfeita contraposição de Goethe é Ortega Y Gasset em seu “Estudos sobre o amor”. Se o romantismo ama a ideia de amor, a ideia de apaixonar-se, o ser amado torna-se mero pretexto para amar, pretexto que aos poucos se converte em uma ficção. Gasset afirma que amar é

atuar na direção do amado, um ato transitivo através do qual nos entregamos àquilo que amamos”. O desejo tem caráter passivo pois “aquilo que desejo quando desejo é que o objeto venha até mim”; o amor é o eterno insatisfeito e, no ato amoroso, “saímos de nós próprios…não é o objeto que é atraído por mim, sou eu que gravito na sua direção.”

Se o desejo se anula quando se satisfaz, o amor, pelo contrário, ao buscar sua satisfação, intensifica-se; amar seria a preservação intencional do ser amado.

“O amor chega ao objeto numa dilatação virtual, e empenha-se numa tarefa invisível, mas divina, e a mais diligente que possa existir: afirmar seu objeto. (…) Amar uma coisa é estar empenhado em que exista; não admitir, naquilo que de nós depende, a possibilidade de um universo onde esse objeto esteja ausente. Mas note-se que isto equivale a dar-lhe vida de forma contínua, naquilo que de nós depende, intencionalmente. (…) O exclusivismo da atenção que dirigimos ao ser amado o dota de qualidades prodigiosas. Não é que se imaginem nele perfeições inexistentes, embora isso possa acontecer. À força de manipular pela atenção um objeto, de nos fixarmos nele, o objeto adquire para a consciência uma força de realidade incomparável. Existe permanentemente para nós; está sempre ali, ao nosso lado.”

O amor nos enriquece porque amplia nossa perspectiva: passamos a enxergar o mundo com outros olhos, além dos nossos. Poderíamos aplicar aqui o mesmo conceito da “compaixão”, nas palavras de Milan Kundera: o amor permite “compartilhar com alguém a mesma imaginação afetiva.”