Generalidades

Escolhas e circunstâncias

 

 

De acordo com a Folha de São Paulo de 15 de maio de 2014, “perícia barra docente obeso em concurso do estado de São Paulo”. Trecho da reportagem: “De 11.858 docentes aprovados em concurso para contratação de professores para educação básica, 155 foram considerados inaptos durante as perícias, sendo 39 (25%) deles recusados no serviço por obesidade.” (leia aqui).

Helio Schwartsman comentou o assunto em sua coluna de 25 de maio (link aqui). Ele escreveu:

“Ainda que cruel, não é absurda a preocupação do Estado em zelar pelo que chama de “continuidade no serviço público”. Não é muito sábio contratar alguém que sabemos que tende a faltar com frequência maior do que a média. (…) Moléstias que diminuem a expectativa de vida e a capacidade para o trabalho raramente são uma escolha do paciente. Ainda que muitos afirmem que o sujeito é gordo porque come demais, as pesquisas mais recentes na área apontam para um quadro muito mais complexo, para o qual concorrem fatores genéticos e até o tipo de bactéria que coloniza seu trato intestinal.”

Gostaria de objetar a respeito dos dois pontos especificamente mencionados no excerto acima e que se articulam sob a perspectiva que temos da obesidade e de inúmeros outros problemas nos quais escolhas pessoais e forças impessoais não constituem dois pesos e duas medidas. Émile Durkheim, o “pai” da sociologia moderna, nos ensinou que fatos sociais são “realidades coercitivas”, ou seja: não são os indivíduos que explicam os fatos sociais; estes explicam aqueles. As consciências individuais são orientadas por um arcabouço coletivo de normas, costumes e valores internalizados e que permeia todo seu espectro de possibilidades de ação. Esse suporte, que atua como consciência coletiva, determina coercitivamente maneiras de ser, de agir e de sentir independentemente da vontade do indivíduo. Há um ajuste recíproco entre consciência individual e fatos sociais que não permite distinguir o peso exato a ser atribuído a cada um dos elementos envolvidos na equação que resultou no comportamento. Podemos resumir tudo isso dizendo que toda escolha depende de suas circunstâncias, e sabemos que todas as circunstâncias são sempre provisórias. Não parece razoável acreditar que os extremos do espectro – 0% de responsabilidade ou 100% de responsabilidade pessoal – sejam predominantes. Excluindo-se situações de exceção – condições como Doença de Cushing, Síndrome de Prader-Willi – a responsabilidade individual tem ficado de fora quando se busca explicações para certos fenômenos contemporâneos, como o aumento da obesidade verificado em diferentes países. A obesidade tem sido compreendida como moléstia, como doença semelhante à esclerose múltipla: como algo “adquirido” – e toma-se por regra geral uma explicação cabível apenas às condições patológicas que mencionei há pouco (e outras mais); portanto, os pacientes “tem” obesidade”, mas não “são” obesos (a respeito de uso de cirurgias bariátricas como última opção para tratamento da obesidade, os autores de um estudo, publicado pelo jornal The Lancet, escreveram: “bariatric surgery is almost always used to treat patients who have severe obesity and progressive comorbid disease” aqui). Atribui-se preponderância a fatores alheios, impessoais, na gênese da obesidade – bactérias intestinais que alteram o metabolismo, excesso de frutose em produtos industrializados, genes ruins – excluindo-se da raiz do problema escolhas inadequadas e/ou mal informadas. O “obeso” deixou de ter qualquer responsabilidade pessoal e passou a ser tratado como “vítima”.


Ora, todo discurso revolucionário, propagado por “apóstolos de um futuro melhor”, depende da existência de “vítimas” e “culpados”, porque sustenta o surgimento de “salvadores”. Toda ação executada no presente – como a recusa, pelo Estado, em aceitar docentes “obesos”, os quais são classificados com base em um índice sujeito a mudanças – justifica-se em função de um futuro prometido e redentor, sobretudo incerto, que ninguém sabe quando virá. Todo aquele que se autodenomina guardião de uma promessa de salvação futura – seja por “justiça social”, seja pela “igualdade” – automaticamente é beatificado por hostes de santos iguais em tudo a ele, dispostas a legitimar todas as suas ações – incluindo atitudes condenáveis e transgressoras da lei e da ordem. Eximir alguém de responsabilidade pessoal por suas más escolhas assegura posição simpática e favorável aos olhos da “vítima” e como que pretende ser a única postura capaz de oferecer assistência legítima; quem aponta as más escolhas é “insensível” e quer apenas demonstrar desprezo. Como escreveu Anthony Daniels (Theodore Dalrymple para os íntimos), em artigo para o City Journal que inspirou este texto (você pode ler na íntegra aqui),

“O elemento de escolha pessoal (evitado em discussões sobre problemas sociais como a obesidade) sugere que jamais obteremos uma sociedade perfeita a ponto de deixarmos de considerar necessários bom comportamento ou autocontrole; por conseguinte, o papel dos políticos e de sua burocracia legislativa é necessariamente limitado, o que não é elogioso para sua autoestima ou autoimportância – pois creem que, sem sua orientação e seu direcionamento legitimado por leis em excesso, a sociedade estará condenada à ignorância, ao vício e à desordem.”

Para Daniels, a política é o novo substituto da religião e da cultura como fonte sentido e de orientação pessoal. Para mim, a política e  a ciência são esses substitutos (já escrevi a esse respeito no post “A desdivinização do mundo”).


O filósofo espanhol Ortega Y Gasset escreveu que “a natureza tem horror ao vazio”. Como todo bom ateísta, Schwartsman costuma repudiar Deus em diversos artigos, sem perceber que O substitui por um discurso desumanizador – ao transformar indivíduos e suas escolhas inadequadas e, no limite, autodestrutivas, em vítimas das circunstâncias.

PS: cabe uma perguntinha inocente: se o Estado proíbe docentes obesos de trabalhar, considerando que seus índices de abstenção do serviço por doenças ou pelos altos riscos de morte precoce são justificativas auto-evidentes, será que o próximo passo, levando-se em conta nossos índices de acidentes de trânsito, será proibir a venda de automóveis?

A tirania do pensamento positivo

É tradição antiga atribuir caráter punitivo à doença. Susan Sontag tem um bom livro a respeito, “Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas” (editora Companhia das letras, 2007). A  dra. Jimmie Holland, chefe de Psiquiatria do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York, autora do primeiro livro-texto de psico-oncologia publicado, acompanha pacientes com câncer há mais de 30 anos. Em seu livro – não publicado no Brasil – “The human side of cancer” (editora Harper Collins, 2000, 344 páginas), há um capítulo muito interessante denominado “A tirania do pensamento positivo”. Entre vários casos, relata o de uma paciente com câncer de mama que não apresentava evidências de doença em atividade após completar todo seu tratamento mas que, apesar disso, estava aflita:

“Havia recebido de sua irmã um livro sobre como sobreviver ao câncer e que dizia ser crítico manter uma atitude positiva”.

Para a dra. Holland, não se tratava de um caso isolado:

“Jane estava apenas ecoando um refrão que ouço de pessoas com câncer: a ideia de que sentir-se triste, assustado, bravo ou irritado é inaceitável e que as emoções podem promover o crescimento do tumor. E a ideia de que se a pessoa não está no controle de suas emoções o tempo todo, a batalha contra a doença será perdida. (…) Para a maioria dos pacientes, o câncer é a experiência mais difícil e assustadora com a qual tiveram de lidar. Toda essa campanha publicitária de que se você não mantiver uma atitude positiva seu câncer recrudescerá anula as reações naturais e compreensíveis que todos temos quando enfrentamos ameaças às nossas vidas – e é isso o que chamo de tirania do pensamento positivo.”

Além do aspecto punitivo, o câncer está associado a todo um vocabulário bélico ou estratégico, cujo efeito é uma peça de publicidade que torna o modo de lidar com uma doença terrível e impessoal algo personalizado: devemos “lutar” contra o câncer, instituição X na “batalha” contra o câncer, a terapia Y é nossa “arma” contra o câncer. Se há uma “batalha” em andamento, está implícita a ideia de que haverá um vencedor e um perdedor; havendo um perdedor, quem é o culpado pela derrota?

Doenças não deveriam ser consideradas em termos de vitória ou derrota porque o corolário disso tudo é a fermentação de uma cultura de “culpabilização”, perversa e inclemente; passamos a responsabilizar o doente ou por “ter tido” câncer ou por ter sucumbido a ele. Por não ter sido positivo ou não ter sido bom e justo ou não ter realmente se empenhado no tratamento o suficiente. A tirania do pensamento positivo não se refere a negar qualquer tipo de apoio psicológico – que é fundamental – ao doente com câncer. Refere-se a como consideramos a perspectiva do doente, sua visão de mundo, seu modo de “encarar a vida” como ferramentas essenciais na reversão da doença, atropelando peculiaridades que lhes são próprias e que dizem respeito somente a ele. Entregamos-lhe, portanto, um fardo adicional sob o pretexto de o auxiliarmos no enfrentamento do problema. E ignoramos o fato de que, ao atribuirmos culpa à “vítima” (seja ela qual for: de um assalto, de um acidente, de uma doença), estamos revelando mais de nós mesmos – refiro-me ao “nós” aqui como natureza humana: estamos revelando, como Narcisos, a vaidade racionalista da modernidade de que somos vítimas:

Quando sabemos pouco sobre algo, tornamo-nos mais assustados e passamos a criar mitos que tentam explicá-lo e adaptá-lo a uma perspectiva mais tolerável (…); (…) culpar a vítima permite-nos dizer: isso não poderia ter acontecido comigo. Culpando a vítima, obtemos uma falsa noção de segurança de que podemos evitar eventos dos quais não temos nenhum controle.”

O primeiro passo no manejo da doença é, nas palavras de Susan Sontag, desmistificá-la, retirar muitos dos conceitos associados a ela; e, acima de tudo, respeitar o modo particular de cada paciente de lidar com todos os seus problemas, baseado em seu temperamento e sistema de crenças, no lugar de impor slogans que, de tão genéricos, não podem ser individualizados.

 

Ideias sem consequências

A disposição consequencialista avalia o valor moral de uma ação em relação ao resultado que produz. O consequencialismo “de regras” seria um meio-termo acanhado, em que certos princípios (esses consequencialistas nem admitem esse termo, princípios; eles preferem “regras”) subjacentes a determinadas ações é que são avaliados em relação aos resultados que produzem (se mais ou menos felicidade para o maior número de pessoas). Um consequencialista antecipa os saldos (positivo ou negativo) de suas possíveis ações e com base nisso decide como agir e o que fazer. Primeiro problema: é impossível conhecer todos os desdobramentos e todas as repercussões de qualquer ação. Segundo problema: o consequencialismo levado às ultimas consequências pode justificar qualquer atitude – considerando-se o “bem-estar” de muitos (por exemplo: a fim de descobrir onde uma bomba fora instalada, poderíamos optar por torturar a mãe de um terrorista capturado). Terceiro problema: uma ética consequencialista nega ou subestima a existência de valores fundamentais – valores que são “fins em si mesmos, subsistentes na realidade humana” (ver Francisco Razzo, “A irresistível confusão dos valores”).
Uma ética consequencialista, se favorável ao aborto, não deveria se opor ao aborto pós-nascimento – qual a diferença moral entre um feto e um recém-nascido, por exemplo? (“After birth abortion: why should the baby live?”) E abortistas são – ainda que nem suspeitem – consequencialistas: para eles, o aborto é um direito da mulher. A mulher teria direito à autonomia sobre seu corpo. Ou seja, a aprovação ao aborto depende de uma ética que valoriza os fins em detrimento dos meios. Liberdades instituídas como direitos por lei prescindem de quaisquer razões ou justificativas, banindo para baixo do tapete julgamentos morais acerca dos valores fundamentais subjacentes às ações a serem realizadas. A partir daí pouco importa saber se um feto é gente ou coisa, um ser humano ou um amontoado de células; se a morte de um feto é um assassinato ou simples eliminação de um objeto indesejado. O que sobra, quando valores fundamentais são retirados da equação, são as platitudes encharcadas de metáforas grotescas que somos obrigados a ler em jornais todos os dias:

Hélio Schwartsmann, Folha de São Paulo,23/04/2014 :

“Uma argumentação provocante em sua defesa é o experimento mental proposto pela filósofa Judith Jarvis Thomson: uma bela manhã você acorda e constata que foi cirurgicamente ligado a um famoso violinista. É que ele sofre de uma doença fatal dos rins e você é a única pessoa do planeta com tipo sanguíneo compatível com o dele. Por isso, a Sociedade dos Amantes da Música o sequestrou e realizou o procedimento que coloca os seus rins para filtrar o sangue de ambos. A boa notícia é que, após nove meses, o virtuose terá condições de viver por conta própria e vocês serão separados. O ponto de Thomson é que você não tem nenhuma obrigação moral de manter-se ligado ao violinista e, assim, garantir que ele viva. Fazê-lo é até meritório, um gesto de abnegação, mas de modo algum um dever.”

Rogério Gentile, Folha de São Paulo, 24/04/2014:

“Engravidar, porém, na maioria dos casos, não é resultado de uma relação sexual forçada. E os métodos anticoncepcionais, atualmente, inclusive a chamada “pílula do dia seguinte”, são mais do que conhecidos. Não dá para comparar, portanto, com o caso de alguém que acorda de manhã e se vê ligado a um paciente que usufrui do seu rim. Melhor, então, seria cotejar o aborto de um feto com o caso de uma pessoa, quem sabe um trompetista, que respira por aparelhos. Você, que está num leito hospitalar ao lado e, por algum motivo, não suporta a companhia dele, vai lá e desliga o equipamento ou paga a alguém para tirá-lo da tomada, matando o sujeito. “

Os limites dos ideais – segunda parte

 

Ideal, do latim ideālis, significa “criado no entendimento e na imaginação”. Um ideal é algo que não existe. Mas não é uma utopia. Aquele que vive pela utopia é um “estrangeiro em qualquer lugar”, pois recusa a realidade e tenta dobrá-la ante sua imaginação. O ideal é um modelo com poucas probabilidades de acontecer na prática, eis a diferença essencial.

Em “O abandono dos ideais”, Olavo de Carvalho define o ideal como a síntese entre o impulso de universalidade e os interesses do indivíduo, entre a ideia do sentido da vida e a do preço exigido para sua realização:

“Diz-se que um homem tem um ideal quando ele sabe em qual direção tem de ir para tornar-se aquilo que almeja, e quando está firmemente decidido a ir nessa direção.”

O ideal é o esteio de coesão da personalidade, sem o qual ela

“(…) se dispersa em aspirações fortuitas e esforços estéreis; miragem e emblema, sua visão nos dinamiza, nos eleva e enobrece, e é sempre a lembrança do seu apelo que nos reergue após cada erro e cada desengano. (…) É ainda pela força do ideal que o homem transcende o sono entorpecido da subjetividade intra-orgânica, das falsas ideias e aspirações que não são senão a secreção passiva da fisiologia, para despertar a um mundo de realidades objetivas que a inteligência discerne e que a consciência moral obriga a reconhecer; é assim que a alma se liberta do poço escuro da individualidade estanque, para elevar-se ao mundo maior da sociedade, da cultura, da vida moral, ao sentimento de universo e ao desejo de Deus.”

O ideal é uma abertura para a transcendência no sentido em que representa a tensão vivida pelo indivíduo entre ser e poder ser – distintamente daquela operada pela utopia, entre ser e dever ser. Sem o ideal, assemelhamo-nos aos prisioneiros da caverna de Platão: homens e mulheres impossibilitados de experimentar, de modo inseparável, a beleza, o bem e a verdade.

“(Sem o ideal) não haveria meio de fazer um homem sacrificar-se, impor-se restrições, contrariar desejos e reprimir temores, em prol de algum valor moral, social ou religioso, para alcançar sua plena estatura humana e tornar-se, talvez, maior do que ele mesmo. Mas o desejo, que move a alma, não pode ser despertado por uma simples ideia abstrata, por verdadeira que seja; ele necessita de imagens plásticas, sensíveis, que lhe deem como que uma presença antecipada do seu objetivo. Também não se move, exceto no homem grosseiro, ao simples apelo de uma imagem atrativa; mas aguarda que a inteligência examine e aprove o objeto como desejável e bom. Não basta que a meta seja verdadeira; é preciso que seja bela. Mas não basta que seja bela; é preciso que seja verdadeira e justa. É a síntese dessa tripla exigência, intelectual, estética e moral, que se denomina “ideal”.”

A exigência de que seja bom, belo e verdadeiro mantém a inter-relação do ideal com o real – é a sua moralidade, em oposição à imoralidade tirânica da utopia. O ideal é a medida do homem, enquanto a utopia é sua distensão até os limites inatingíveis de uma perfeição imaginária:

“O ideal é o caminho pelo qual as aspirações individuais de felicidade distribuem-se nos sulcos já abertos da realidade exterior, saem da redoma do sonho e ganham um corpo no cenário maior dos fatos e das coisas. Sem um ideal definido, todas as melhores aspirações não passam de sonhos, porque não há um dever moral imanente a exigir que se amoldem à realidade, que se limitem em extensão para realizar-se em intensidade. Só o homem idealista é realista; os demais são sonhadores ou cínicos. Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, veem-nas melhores ou piores do que são.”

“Não tendo uma medida do que as coisas deveriam ser, veem-nas melhores ou piores do que são.” Essa frase do Olavo lembra a de Ortega y Gasset, em “Mirabeau ou o político”:

“A humanidade é como uma mulher que se casa com um artista porque é artista, e depois se queixa porque este não se comporta como um chefe de repartição.”

A utopia é ápice da corrupção do ideal pela “exaltação imaginativa”, descrita por Paul Diel, mencionado por Olavo de Carvalho; a exaltação imaginativa é

“Um estado em que a mente, embevecida com o seu ideal, se identifica mais ou menos inconscientemente com ele e atribui a si as perfeições que a ele pertencem, como se já as tivesse realizado. (…) O exaltado toma o potencial por atual, imaginando possuir as perfeições a que aspira. Por isto mesmo, sua alma experimenta, como num choque de retorno, um sentimento de estranheza e de impotência perante o mundo, que não cede, como ele esperava, aos seus encantos e poderes. Acuado pelas exigências da realidade, ele exacerba ainda mais sua adoração de si mesmo diante de um mundo que ele julga vil, mesquinho e incompreensivo, quando na verdade é ele mesmo quem não compreende o mundo, e por não compreendê-lo, está impotente para agir nele.”

Em “Sonho de um homem ridículo”, Dostoiésvki nos apresenta os efeitos da exaltação imaginativa na germinação das utopias e do entrechoque destas com a realidade. Nesse conto, temos um pobre homem não identificado, anônimo, em cuja alma crescia

“Uma melancolia terrível por causa de uma circunstância que já estava infinitamente acima de todo o meu ser: mais precisamente – ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz. Fazia muito tempo que eu vinha pressentindo isso, mas a plena convicção surgiu no último ano, assim, de repente. Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. (…) Tudo me era indiferente.

Então, depois disso, conheci a verdade. Conheci a verdade em novembro passado, mais precisamente em três de novembro, e desde então me lembro de cada instante da minha vida.”

O homem decide se matar:

“O céu estava horrivelmente escuro, mas era possível discernir com clareza algumas nuvens rotas, e entre elas manchas negras sem fundo. De repente notei numas dessas manchas uma estrelinha, e fiquei a olhar fixamente para ela. Porque essa estrelinha me trouxe uma ideia: eu tinha decidido me matar naquela noite.

(…) Então, enquanto eu olhava para o céu, de repente me agarrou pelo cotovelo essa menina. (…) A menina tinha uns oito anos, de lencinho e só de vestidinho, toda encharcada, mas guardei na lembrança especialmente os seus sapatos rotos e encharcados, ainda agora me lembro deles. (…) De repente ela começou a me puxar pelo cotovelo e a me chamar. Não chorava, mas soltava entre gritos umas palavras que não conseguia pronunciar direito, porque tremia toda com tremedeira miúda de calafrio. Estava em pânico por alguma coisa e berrava desesperada: “mamãe! Mamãe!. Voltei o rosto para ela, mas não disse uma palavra e continuei andando, só que ela corria e me puxava, e na sua voz ressoava aquele som que nas crianças muito assustadas significa desespero. Conheço esse som. Embora ela não articulasse bem as palavras, entendi que a sua mãe estava morrendo em algum lugar, ou que alguma coisa acontecera lá com elas, e ela fora correndo chamar alguém ou alguma coisa para ajudar a mãe. Mas não fui atrás dela, e, ao contrário, me veio de repente a ideia de enxotá-la. Primeiro lhe disse que fosse procurar um policial. Mas ela de repente juntou as mãozinhas, e, soluçando, sufocando, corria sem parar ao meu lado e não me largava. Foi então que bati o pé e dei um grito. Ela apenas gritou bem forte: “senhor, senhor!…”, mas de re pente me largou e atravessou a rua correndo desabalada: lá também apareceu um passante qualquer, e ela, pelo visto, largara de mim para alcançá-lo.”

Mas eis que, em seu apartamento, sentado à mesa na poltrona, diante do revólver, o homem adormece e sonha. Sonha que havia se matado e depois conduzido para outro lugar:

“E eis que de repente o meu caixão se rompeu. Isto é, não sei se ele foi aberto ou desenterrado, mas fui pego por alguma criatura escura e desconhecida para mim, e nós nos encontrávamos no espaço. (…) Voávamos no espaço já longe da terra.”

É levado para um mundo ideal, sua mesma terra, só que em outra época, indefinida. Uma época de ouro:

“(…) eu estava nessa outra terra sob a luz radiante de um dia ensolarado e encantador como o paraíso. Tudo era exatamente como na nossa terra, mas parecia que por toda a parte rebrilhava uma espécie de festa e um triunfo grandioso, santo, enfim alcançado. Um carinhoso mar de esmeralda batia tranquilo nas margens e as beijava com um amor declarado, visível, quase consciente. (…) E, finalmente, eu vi e conheci os habitantes dessa terra feliz.(…) Eu nunca tinha visto na nossa terra tanta beleza no homem.”

Sobrevém, a essa terra de ouro, caos, tormento, miséria e sofrimento, e o pobre homem assiste, impotente, a essa destruição.

 “E, no entanto, se pelo menos fosse possível que eles voltassem àquele estado inocente e feliz do qual se privaram, e se pelo menos alguém de repente o mostrasse a eles de novo e lhes perguntasse: querem voltar? – eles certamente recusariam. Respondiam-me: “e daí que sejamos mentirosos, maus e injustos, sabemos disso e deploramos isso, e nos afligimos por isso a nós mesmos (…) Mas temos a ciência, e por meio dela encontraremos de novo a verdade, mas dessa vez a usaremos conscientemente, o entendimento é superior ao sentimento, a consciência da vida – é superior à vida. A ciência nos dará sabedoria, a sabedoria revelará as leis, e o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade.”

Repare o leitor que essa é a frase-chave que define uma utopia e a diferencia de um ideal: “o conhecimento das leis da felicidade é superior à felicidade.” E então o pobre homem acorda, e percebe que seu sonho foi, na verdade, uma revelação, uma epifania:

“A verdade, eu a vi com meus próprios olhos! (…) Todos seguem em direção a uma única e mesma coisa, pelo menos todos anseiam por uma única e mesma coisa, do mais sábio ao último dos bandidos, só que por caminhos diferentes. (…) Eu sei que as pessoas podem ser belas e felizes, sem perder a capacidade de viver na terra.”

Distinto leitor, note que sem perder a capacidade de viver na terra” equivale a “não ser um estranho em sua própria casa” (Thomas More). O pobre homem não desperta somente de seu sonho, mas do sonho que era sua própria vida. Determinado a mudar o mundo, descobre que é mais importante mudar a si mesmo:

“A verdade, porém, me cochichou que eu mentia e me guardou e me aprumou o passo. Mas como instaurar o paraíso – isso eu não sei (…). O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal. (…) “A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade” – é contra isso que é preciso lutar!”

O conto termina com o pobre homem saindo à procura pela menininha de oito anos nas ruas de São Petersburgo.

O ideal é a argamassa dos magnânimos; a utopia, a dos pusilânimes. Em “Mirabeau ou o político”, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreve duas perspectivas morais contraditórias que atribuem sentidos distintos à realidade:

“Desde há um século e meio, tudo conspira para nos ocultar o fato de que as almas tem formatos diferentes, que existem almas grandes e almas pequenas, onde grande e pequeno não significam nossa avaliação dessas almas, e sim a diferença real de duas estruturas psicológicas distintas, de dois modos antagônicos de funcionamento da psique. O magnânimo e o pusilânime pertencem a espécies diversas; viver é, para um e outro, uma operação de sentido divergente. (…)

O magnânimo é um homem que tem missão criadora: viver e ser são, para ele, fazer grandes coisas, produzir obras de grande calibre. O pusilânime, por sua vez, carece de missão; viver é para ele simplesmente existir, conservar-se, andar por entre as coisas que já estão aí, feitas por outros. Seus atos não brotam de uma necessidade criadora, originária, inspirada e ineludível. O pusilânime, por si, não tem o que fazer: faltam-lhe os projetos e o afã rigoroso de execução. De forma que, não havendo “destino” em seu interior, necessidade congênita de criar, de extravasar-se em obras, só age movido por interesses subjetivos: o prazer e a dor. Procura o prazer e evita a dor. Esse modo de funcionar vitalmente que encontra em si mesmo leva-o a supor, por exemplo, que um pintor se entrega a seu trabalho movido pelo desejo de ser famoso, rico, etc. Como se entre o desejo de fama, riqueza, prazeres e a possibilidade de pintar este ou aquele quadro, de inventar um estilo determinado, existisse a menor conexão! O pusilânime deveria saber que o primeiro pintor famoso não teve a intenção de ser um pintor famoso, mas exclusivamente de pintar, pela simples necessidade de criar beleza plástica. Só posteriormente a sua vida e obra que se formou na mente dos outros, especialmente dos pusilânimes, a ideia ou ideal de ser “pintor famoso”. E então, só então, atraídos realmente pelas vantagens egoísticas desse papel, o de “pintor famoso”, é que começaram a pintar os pusilânimes, isto é, os maus pintores.”

Os ideais ampliam os horizontes das potencialidades humanas, mas dentro dos limites do possível, da realidade. O ideal embasa o presente, mira o futuro e permite corrigir erros do passado. Um ideal contém em si sua impossibilidade: o que importa é o caminho, não o fim. Retorno a Ortega y Gasset:

“Talvez o que mais diferencie a mente infantil do espírito maduro seja que aquela não reconhece a jurisdição da realidade e deturpa as coisas com imagens desejadas. Sente o real como uma matéria mole e mágica, dócil às combinações de nossa ambição. A maturidade começa quando descobrimos que o mundo é sólido, que a margem de folga concedida à intervenção de nosso desejo é muito escassa, e que um pouco além dele levanta-se uma matéria resistente, de consitutição rígida e inexorável.”

 

Concluo com uma frase de Isaiah Berlin, de “A busca do ideal”, texto presente no livro “Os limites da utopia” (tradução em português da editora Companhia das Letras para a edição de “The crooked timber of humanity – chapters in the history of ideas):

“As formas de viver são diferentes. Os fins, os princípios morais são variados. Mas não infinitamente variados: eles devem se situar nos limites do horizonte humano. Caso contrário, estarão fora da esfera humana.”

P.S.: o assunto acerca das restrições dos ideais surgiu após assistir à primeira aula do Curso “Steve Jobs – um artista da fome?”, do Martim Vasques da Cunha, que versou, entre outras coisas, sobre a psicologia do empreendedor e sua tentativa de dobrar o real ante seus desejos. Martim gentilmente me indicou os textos do Olavo de Carvalho e do Isaiah Berlin, pelo que sou-lhe grato.

A realidade imaginária

1) A respeito dos recentes eventos na Ucrânia, o professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Sr. Paulo Nassar, termina da seguinte forma seu artigo publicado no jornal “Folha de São Paulo”, de 10 de Fevereiro de 2014: (os grifos são meus)

“Há uma nova história que passa a ser contada em Kiev. Esse enredo é baseado também numa ilha, imaginada no século 16, por outro escritor inglês. Trata-se de Thomas More e sua obra “Utopia”. Nesse lugar imaginado, a tolerância é a linha mestra da educação e o pacifismo uma condição de existência.”

2) Em 21 de Julho de 2011, o jornal “O Globo” publicou trechos do discurso proferido pelo Sr. Luís Inácio “Lula” da Silva, em evento realizado em Salvador (ironia das ironias!) para pequenos agricultores locais:

“É bobagem essa coisa que inventaram que os pobres vão ganhar o reino dos céus. Nós queremos o reino agora, aqui na Terra. Queremos que todo o mundo vá para o céu, agora. Queremos ir para o céu vivo. Não venha pedir para a gente morrer para ir para o céu que a gente quer ficar aqui mesmo.”

O que poderia haver em comum entre a fala do ex-presidente, de 2011, e o trecho do artigo do professor Paulo Nassar, de 2014? Ou, dito de outra forma, o que ambos estão a dizer sobre os nossos tempos?

A) UTOPIA

“Há uma nova história que passa a ser contada em Kiev. Esse enredo é baseado também numa ilha, imaginada no século 16, por outro escritor inglês. Trata-se de Thomas More e sua obra “Utopia”. Nesse lugar imaginado, a tolerância é a linha mestra da educação e o pacifismo uma condição de existência.”

Será que nós (eu e o sr. Nassar) lemos o mesmo livro? “Utopia”, de Thomas More? “A tolerância é a linha mestra da educação e o pacifismo uma condição da existência”? É disso que trata “Utopia”?

Vou utilizar como referências para o texto que segue o próprio texto de More, como não poderia deixar de ser, “Utopia” (editora Martins Fontes, 3ª. edição, 2009, 247 páginas), o excelente livro de Martim Vasques da Cunha, “Crise e utopia – o dilema de Thomas More”; e o curso promovido online pelo Martim Vasques, ocorrido em Setembro e Outubro de 2013, “Utopia e globalização – psicoses do imaginário” (http://www.cedetonline.com.br/index.php/ementas-cursos-sobre-politica-e-estado/107-ementa-utopia-e-globalizacao-psicoses-do-imaginario).

Não se sabe exatamente a data de nascimento de Thomas More, acredita-se que tenha sido por volta de 1477, em Londres. Um dos principais nomes do  humanismo renascentista, ao lado de Erasmo de Roterdam, More foi nomeado conselheiro real por Henrique VIII em 1525; depois, foi preso pelo mesmo Henrique VIII na Torre de Londres, por se opor à anulação de seu casamento com Catarina de Aragão para se casar com sua amante Ana Bolena – episódio que culminou na criação da Igreja Anglicana – depois julgado e condenado à morte por traição em 1535. Recomendo um filme espetacular sobre esse período da vida de More, “O homem que não vendeu a sua alma”, dirigido por Fred Zinneman em 1966 (veja um trecho abaixo)

Na época em que o livro foi escrito, Thomas More vivia um momento de crise existencial – e que refletia a crise experimentada no seio do Renascimento:

“a Renascença marca o início da era em que o homem se declara satisfeito com o estado da natureza decaída” (“O espírito da filosofia medieval”, Étienne Gilson, 2006).

Segundo Martim Vasques,

“o espírito que move esses humanistas é o da procura por uma autêntica transformação do homem com relação à natureza e com relação ao conhecimento da “vontade de Deus”. A crise que se insinua será revelada em todas as suas forças com a Reforma protestante – e Thomas More será o homem que se encontrará no exato momento em que o fim de um mundo e o início de outro se encontram para fazer nascer o que chamamos hoje de “modernidade”. (…) Ao mesmo tempo em que se procura uma nova forma de ver a condição humana, sabe-se também que ela apresenta dados invariáveis que se estendem no tecido da História. A ideia fixa da redenção do homem em um cosmos dominado por forças cruéis e incompreensíveis e que também transforma a sua relação com a natureza tem seu apelo. Mas, como o próprio nome diz, é uma ideia, algo que somente o nosso intelecto produz e que não tem necessariamente uma concordância com a realidade concreta. Esta mesma ideia lhe dá a capacidade de ser um “pesquisador das coisas”, como diria Leonardo Da Vinci, um poder que o faz se conscientizar de sua divindade. Eis aí a transformação, a reformatio, que equivale a uma recriação espiritual. A ideia ganha uma corporificação, uma “solidez” que antes não tinha – e transforma-se agora em um instrumento que o homem usa para sua autonomia sobre o mundo.(…) Esse é o movimento espiritual de uma alma que, inconformada pela crise dentro de si e dentro do mundo que habita, passa a estetizar a sua vida, transformando-a em uma obra de arte que se estende em diversas estruturas, dos costumes à política, passando especialmente pela religião.”

E para quê? Para eliminar do mundo tudo o quanto seja de aparência deformada, nas palavras de Ernst Cassirer.

A crise vivida pelo humanismo leva ao desencantamento do mundo (ou à “desdivinização” do mundo) por dois caminhos possíveis: a aceitação da renúncia do próprio conhecimento da condição humana e da natureza, ou a utilização da renúncia como  fundamento para a recriação da própria realidade – portanto, negando a própria realidade. E a negação da realidade faz germinar no intelectual renascentista o pensamento utópico de que o mundo deve ser igual ao seu pensamento – “ele fará tudo para que a sua ideia seja encaixada na impenetrabilidade do mundo. Encontramos aqui a tendência do intelectual para a pleonexia, o desejo infatigável por poder, que  provocará o inevitável fascínio por este último e a consequente aliança com reis e príncipes, através do eufemismo do “aconselhamento”. Este trecho do livro do Martim Vasques aponta para  o centro da tensão vivenciada pelo próprio Thomas More: viver uma vida contemplativa ou atuar nos negócios do reino; ser um homem do mundo ou um homem do espírito? Para usar os termos de Santo Agostinho, viver na “cidade de Deus” ou na “cidade dos homens”? Para More, a virtude e o amor de Deus poderiam ser encontrados na confusão dos negócios do reino:

a fusão entre trabalho laico e a santificação no cotidiano se torna uma nova forma de vocação em que o exercício de uma vida pública é o caminho justo para agradar a Deus.”

O título original de “Utopia” é “Sobre a melhor constituição de uma república e a nova ilha de Utopia” e o livro filia-se aos diálogos platônicos, pois, segundo Martim Vasques,

“(More) tentou encontrar uma forma literária adequada para transmitir os dilemas do período em que vivia e os da própria consciência que se digladiava entre aceitar as normas de uma vida devota e as agitações de um mundo conturbado. O diálogo platônico foi o meio que se ajustou à sua personalidade enigmática para transmitir a sua mensagem por meio de pistas, alusões, piadas internas, trocadilhos e uma cosmovisão que, por meio de muita risada e sarcasmo, escondia um profundo pessimismo pelas coisas desta terra.

O livro foi concebido no verão de 1515; está dividido em duas partes, os livros I e II. More, em viagem para a Antuérpia, travou amizade com Peter Giles, e o livro I de Utopia relata o encontro entre Giles e More com o navegador Raphael Hitlodeu. O livro I começa com uma carta de More a Peter Giles. Há um trecho significativo que expressa a cosmovisão de Thomas More autor-personagem – e que servirá de oposição à personalidade de Raphael Hitlodeu:

Assim, passo quase todo o dia a tratar com outras pessoas, e a casa e a família me ocupam o tempo restante; para mim mesmo, portanto – isto é, para meus estudos –, não me sobra tempo nenhum. Ao chegar em casa, tenho de falar com minha esposa, conversar com as crianças e entender-me com os criados. Vejo tudo isso como parte de meus afazeres; são coisas que precisam ser feitas, A MENOS QUE UM HOMEM SE CONTENTE EM SER UM ESTRANHO NA PRÓPRIA CASA. (…) O tempo que me reservo é só aquele que roubo ao sono e à alimentação.”

Raphael Hitlodeu é descrito como um homem de grande sabedoria e que queria conhecer o mundo, acompanhando Américo Vespúcio em suas três últimas viagens:

“Bem, Raphael o acompanhou nas três últimas viagens, mas, na última delas, não voltou para a Europa com ele. Em vez disso, praticamente o forçou a deixá-lo junto com os 24 homens que permaneceram estacionados no ponto mais extremo a que se chegara. E ele ali ficou, entregue aos prazeres das viagens que sempre foram sua principal razão de viver. Pouco lhe importava onde viesse a morrer, pois eram dois os seus provérbios favoritos: “Os mortos insepultos tem o Céu por mortalha”, e “DE ONDE QUER QUE PARTA UMA SÓ É A DISTÂNCIA PARA O CÉU”.

Quando More contrapõe sua visão sobre as funções e as tarefas que lhe cabem como homem público e pai de família em oposição ao estilo aventureiro de Hitlodeu, demonstra a personalidade de um homem maduro, cujos pés estão fincados na realidade, na experiência concreta. Já Raphael é um estrangeiro em qualquer lugar, com sede de combates, que nunca encontra um porto seguro, para quem “pouco importa onde se esteja, pois é um só o caminho para o Céu”. Segundo Martim Vasques,“é aqui que Thomas More indica um dos temas ocultos de Utopia: a busca pelo lugar ideal na Terra é uma aventura que pode terminar sem a possibilidade de retorno – seja físico, psíquico ou espiritual.”

More e Hitlodeu discutem, no livro I, a situação geral da Inglaterra, marcada por corrupção generalizada e injustiças, e Hitlodeu identifica como fonte de todos os males a propriedade privada.  Segundo Martim Vasques, “a conversa entre (o personagem) More e Hitlodeu não é apenas o relato de um divertissement entre dois homens que divergem em assuntos políticos; trata-se de um verdadeiro problema da alma que ocorria na própria consciência de More, de um drama que o consumia existencialmente e que ele, como é de hábito em escritores de gênio que procuram seus leitores atentos, tentou comunicar através das ironias que só o discurso provocado pelo amor à sabedoria permite.”

Fala Hitlodeu:

“Naquelas partes do reino onde se produz a mais bela e mais cara lã, os nobres e os fidalgos (para não mencionarmos vários veneráveis abades – homens de Deus) deixaram de contentar-se com os rendimentos que seus antepassados extraíam de suas propriedades. Não mais lhes basta levar uma vida cheia de ócio e conforto, que em nada contribui para o bem da sociedade – precisam, agora, fazer-lhe positivamente o mal, e para isso CERCARAM TODA A TERRA ARÁVEL PARA CONVERTÊ-LA EM PASTAGENS, NADA DEIXANDO PARA O CULTIVO. (…) Para vos falar a verdade, meu caro More, não vejo como se possa pensar em justiça ou prosperidade verdadeiras enquanto existir A PROPRIEDADE PRIVADA, E TODAS AS COISAS TIVEREM NO DINHEIRO O SEU SUPREMO PARÂMETRO. (…) EM OUTRAS PALAVRAS, ESTOU PERFEITAMENTE CONVENCIDO DE QUE NUNCA CHEGAREMOS A UMA JUSTA DISTRIBUIÇÃO DOS BENS, OU A UMA SATISFATÓRIA ORGANIZAÇÃO DOS NEGÓCIOS DOS MORTAIS, ENQUANTO NÃO SE ACABAR POR COMPLETO COM A PROPRIEDADE PRIVADA.”

À oposição de More ao sistema de propriedades coletivas “não acredito que se chegasse jamais a um padrão de vida razoável sob um sistema de comunidade de bens. Haveria sempre a ameaça de escassez, pois nem todos se predisporiam a trabalhar o suficiente. Sem a perspectiva de lucros, todos se tornariam preguiçosos e transfeririam aos demais o trabalho que caberia a eles realizar”), Hitlodeu responde: “não me surpreendo que seja essa sua opinião já que não conseguis imaginar como seria tal sociedade, ou dela tendes uma imagem muito pouco clara. Mas, SE TIVESSEIS ESTADO COMIGO EM UTOPIA E VOS INTEIRADO PESSOALMENTE DO MODO COMO AS COISAS ALI SE PASSAM, COMO ACONTECEU COMIGO – COMO SABEIS, LÁ VIVI POR MAIS DE CINCO ANOS, E SÓ VOLTEI MOVIDO PELO DESEJO DE DIFUNDIR A EXISTÊNCIA DESS MUNDO NOVO – SERÍEIS O PRIMEIRO A ADMITIR QUE NÃO EXISTA, EM PARTE ALGUMA, UM PAÍS TÃO BEM ORGANIZADO”.

À medida que Raphael tem seus argumentos refutados, percebemos que seu discurso torna-se menos persuasivo – ou seja, ele não tenta mais convencer pela razão – e mais pragmático, cuja preocupação não é mais construir “a ordem da alma, mas ajustar o comportamento de outras pessoas como meio para realizar seu próprio intento” (nas palavras de Eric Voegelin), até se tornar um discurso intoxicante, quando “tenta convencer os outros de que a sua visão de mundo é a única que os pode ajudar a compreender a realidade”, o que culmina com a sua descrição em detalhes sobre uma ilha do Novo Mundo, chamada Utopia – que é o que lemos no livro II. Aliás, o modo do discurso de Hitlodeu é o protótipo do modo discursivo da modernidade, identificado por Hermann Broch em seu ensaio “Espírito e espírito de época”:

“Um desprezo peculiar pela palavra, até mesmo quase asco ante a palavra, tomou conta da humanidade. A bela confiança de que seres humanos pudessem convencer uns aos outros através da palavra, da palavra e da língua, foi radicalmente perdida;(…) Jamais antes, pelo menos na história da Europa ocidental, o mundo admitiu com tanta honestidade e clareza, e pouco importa se isso parece cinismo ou não, que a palavra de nada vale; mais do que isso, que nem sequer vale a pena buscar um entendimento; sim, jamais o mundo se resignou com tanta honestidade a admitir que não pode, não se deve fazer uso de nenhum outro meio que não o poder, o poder que o mais forte exerce sobre o mais fraco. (…) Mas, apesar desse mutismo, o mundo é cheio de vozes. Elas não se falam, são apenas vozes, confusas como a confusão de um alto-falante que funciona mal, cada uma tentando gritar mais alto do que as outras, superá-las pela potência, todas soltas ao mesmo tempo, uma baralhada de línguas de opiniões, falando umas sobre as outras sem se ouvir, e apenas mecanicamente e sem solenidade é que soa no meio de tudo a transmissão de um culto divino, superado, banalizado, aniquilado pelo burburinho terreno. É o burburinho terrível do mutismo, que acompanha o assassinato, é o retórico por excelência (…) ele não surge das esferas do intelecto, ele surge da escuridão, não convence, arrebata, fascina pelo poder da escuridão (…).”

“Utopia”, em grego, significa “não lugar”, “nenhures” (também pode ser entendido como um trocadilho de “eutopía”, “lugar feliz”). O nome Raphael origina-se do hebraico, Raphá, “ele curou”, El, “Deus”. Hitlodeu significa “mercador de disparates”, ou “aquele que diz bobagens”. Rapahel Hitlodeu: “ele curou Deus e dispara bobagens”. A verdadeira intenção de Hitlodeu, ao descrever a ilha em que supostamente esteve, ficará nas sombras até o final do livro.

Veja o leitor alguns aspectos sobre a ilha de Utopia, conforme descrito por Raphael Hitlodeu no livro II: (os grifos e os destaques em letras maiúsculas foram feitos por mim)

“Foi conquistada pelo rei Utopos, que lhe deu o nome atual, transformou um amontoado de selvagens ignorantes naquilo que hoje talvez seja a nação mais civilizada do mundo e ATÉ MUDOU SUA GEOGRAFIA. Assim que desembarcou e assumiu com uma só batalha o controle do país, ordenou imediatamente que se abrisse um canal de vinte e quatro quilômetros de largura no meio de um istmo que ligava Utopia ao continente (…). Temendo que os habitantes se ressentissem por terem de fazer sozinhos todo o trabalho, Utopos determinou que todos os seus soldados ajudassem na construção da obra.”

“Uma vez por ano, cada cidade envia um de seus mais velhos e sábios cidadãos para um encontro em AMAUROT, quando então se discutem as questões mais importantes do país. A cidade é vista COMO CAPITAL, POIS ESTÁ SITUADA COMO QUE NO UMBIGO DA ILHA (…)”.

Mais uma pista de More: Amaurot, em grego, quer dizer: “obscurecido”. Ou “cidade das trevas”.

“Cada casa tem uma porta principal que dá para a rua, e uma porta dos fundos que dá para o jardim. Nenhuma dessas portas de duas folhas é fechada a chave (…) Assim, todos podem entrar e sair, de modo que ali inexiste a propriedade privada. As casas são distribuídas por sorteio, e a cada dez anos faz-se um revezamento de moradores.”

 “Todo cidadão é iniciado num determinado ofício (…) todos os habitantes da ilha usam o mesmo tipo de roupa (…).”

“Quem tem duas profissões pode exercer a que mais lhe aprouver, A MENOS QUE UMA DELAS SEJA IMPRESCINDÍVEL À CIDADE”.

“Durante o tempo que lhes resta são livres para fazer o que acharem melhor, DESDE QUE não se entreguem à ociosidade e à satisfação excessiva dos próprios DESEJOS DESORDENADOS”.

“Nenhuma criatura viva é voraz e gananciosa por natureza, mas apenas pelo medo de sofrer privações; e, no caso do ser humano, a razão é a simples vaidade, a ideia de que se é melhor do que os outros quando se podem ostentar grandes propriedades e todo o tipo de lixo supérfluo. ESSE TIPO DE COISA, PORÉM, NÃO ACONTECE NO ESQUEMA QUE VIGORA EM UTOPIA.”

“As pessoas comem juntas com seus iguais, mas também se misturam com grupos de mais idade. O objetivo de tal procedimento, segundo ouvi dizer, é fazer com que o respeito pela geração mais velha desestimule o mau comportamento dos mais jovens, já que TUDO O QUE DIZEM OU FAZEM VAI SER PERCEBIDO PELOS QUE ESTÃO SENTADOS AO SEU LADO.”

“Todos estão sob o olhar vigilante dos demais (…) é como se a ilha toda formasse uma GRANDE FAMÍLIA.”

“Não existem viajantes solitários: as viagens são feitas em grupo, e todos recebem uma carta na qual o governador AUTORIZA A PARTIDA E DETERMINA O DIA DO RETORNO. (…)Não é preciso levar bagagem, pois, NÃO IMPORTA ONDE ESTEJA, UM UTOPIANO ESTARÁ SEMPRE EM CASA, E NADA LHE FALTARÁ.”

TODAS ESSAS TENTATIVAS DE MELHORAR A CONDIÇÃO HUMANA SÃO GESTOS DA MAIS LOUVÁVEL HUMANIDADE – POIS É EVIDENTE QUE NADA PODERIA SER MAIS HUMANO, OU MAIS NATURAL PARA UM SER HUMANO, DO QUE ALIVIAR OS SOFRIMENTOS DAS PESSOAS, PÔR FIM ÀS SUAS MISÉRIAS E DEVOLVER-LHES A ALEGRIA DE VIVER (…).”

“Mas, se além de incurável, a doença também provoca dores torturantes e permanentes, alguns sacerdotes e funcionários do governo visitam o indivíduo em questão e FAZEM-NO VER QUE SE TORNOU UM FARDO PARA SI E PARA OS OUTROS, E QUE, NA VERDADE, ESTÁ COMO QUE SOBREVIVENDO À PRÓPRIA MORTE. POR QUE CONTINUAR ALIMENTANDO O MAL QUE O CONSOME? JÁ QUE SUA VIDA SE TRANSFORMOU NA MAIS VIL DAS MISÉRIAS, POR QUE HESITAR EM MORRER?”

A LEI DEVE OFERECER A TODOS UMA PROTEÇÃO CONTRA O ENGANO VOLUNTÁRIO

“Em minha opinião, trata-se não apenas do melhor país do mundo, mas também do único que tem o direito de atribuir-se o nome de república. (…) PELO MODO DE VIDA QUE ADOTARAM, OS UTOPIANOS TEM A OFERECER NÃO APENAS A BASE MAIS SÓLIDA PARA UMA COMUNIDADE FELIZ E CIVILIZADA, MAS TAMBÉM, TANTO QUANTO O ESPÍRITO HUMANO PODE PREVER, A PERPETUIDADE DESSE ESTADO DE BEM-AVENTURANÇA.”

Thomas More não está descrevendo o comunismo, ele descreve a atitude de alguém de quer substituir a realidade por uma visão de mundo. Um “mercador de disparates” que elogia “lugar nenhum” e condena a Inglaterra (e, por extensão, toda a Europa). A descrição da ilha de Utopia é a mudança de discurso de Hitlodeu para convencer seus interlocutores da preponderância da realidade que lhes descreve sobre a realidade em que vivem – pois, de acordo com Martim Vasques, “quando a persuasão se transforma em astúcia, ocorre a perversão da prudência e o início da pleonexia – o fascínio e o desejo pelo poder nascido na alma de homens eruditos que sonham em se tornar conselheiros de reis e principados”.

E o que percebemos da descrição da ilha de Utopia? Que a felicidade dos moradores é regida por um racionalismo cujo corolário é a tirania: a autoridade se estende pelos mínimos detalhes do dia-a-dia dos moradores; e mais: é justamente isso o que eles desejam. Como escreveu Ortega y Gasset, “a existência humana tem horror ao vazio; para que o homem deixe de crer em algumas coisas, é preciso que germine nele a fé confusa em outras. O desencantamento do mundo ocidental consistiu na substituição do cristianismo pelo discurso político contemporâneo, pelo discurso político das massas: a promessa de salvação da humanidade e a busca pela perfectibilidade do homem tornaram-se deveres, atribuições do Estado moderno – em troca de coerções e tolhimento das liberdades individuais. O problema existencial do declínio do poder espiritual como ordenador da sociedade acometeu a Europa no fim da Idade Média, no período em que houve, para Martim Vasques, “a gradual substituição do ideal de vida cristã, voltada para a orientação ao Bem supremo, para a felicidade terrena dentro da res pública, do reino, do secto específico que conhece o rumo da História”.

Eis o ponto que articula as frases do Sr. Nassar e do Sr. Lula da Silva, as quais iniciaram este texto.

O verdadeiro tema de “Utopia” foi colocado pelo próprio Raphael Hitlodeu:

“E grande parte de Seus ensinamentos está mais em desacordo com as convenções do mundo de hoje do que qualquer coisa que eu tenha sugerido, a menos que se levem em conta as doutrinas modificadas pelos pregadores hábeis e astutos – os quais, sem dúvida, resolveram seguir os mesmos conselhos que há pouco me aconselhastes! – “Jamais conseguiremos harmonizar o comportamento humano com a ética cristã”, parecem ter concluído esses sábios, “e então o melhor a fazer é adaptar a ética cristã ao comportamento humano”, como se aquela fosse uma vara de medir feita de chumbo. Assim, por esse raciocínio, as duas coisas teriam alguma correspondência entre si. Mas não vejo que o possam ter feito de bom ao procederem dessa maneira. SIMPLESMENTE PERMITIRAM QUE AS PESSOAS PEQUEM SEM UMA CLARA CONSCIÊNCIA DO MAL QUE ESTÃO PRATICANDO.” Quando Thomas More coloca essa última frase na boca de Raphael Hitlodeu, temos aí o verdadeiro tema de Utopia, aquele que o seu autor camuflou entre idas e vindas, piadas e trocadilhos, pistas e caminhos sinuosos: vivemos em um mundo onde ninguém mais sabe qual é a clara consciência do mal que se está a praticar. Estamos novamente no wretched world que More já anunciava na sua biografia de Pico Della Mirandola. Contudo, o mundo corrompe-se porque ninguém mais vê o que acontece nos meandros de nossa própria consciência – e isso é algo que acontecia provavelmente no embate espiritual do próprio More naquele momento de sua vida. (…) A fundação de uma cidade ou de uma ilha (como é o caso do relato de Raphael Hitlodeu sobre Utopia) repete a Criação e representa o Mundo. A lacuna evidente entre a busca de um mundo onde não existam mais deficiências ou imperfeições e um mundo onde se vê uma miséria constante cria um pessimismo que dá origem a uma nova visão de mundo: o da impossibilidade da existência do Paraíso Terrestre, mesclado a uma procura intensa por ele, nas palavras de Sergio Buarque de Holanda, só poderia terminar em uma psicose da imaginação. (…) O relacionamento do homem com sua visão do Paraíso muda para uma expectativa que todos sabem que jamais será cumprida, mas que, ainda assim, se transforma em um ideal, em uma ideia fixa. (…) More mostra que a ilha de Utopia é o Paraíso perdido que jamais será encontrado. E isso acontecerá simplesmente porque o homem seguiu a atitude de Hitlodeu de querer resolver a injustiça do mundo através de uma medíocre metástase da fé; para ele, basta abolir a propriedade privada que todas as mazelas e precariedades seriam resolvidas. (…) A grande encruzilhada que o texto de More mostra é o ímpeto humano de transformar tais lugares inexistentes em realidades que tragam o Paraíso definitivamente para a Terra.”

O erro do Sr. Paulo Nassar foi não compreender que Thomas More não descreve um lugar ideal pelo qual todos devemos lutar. Ele não escreve para elogiar uma utopia, mas descreve uma distopia, um anseio por um Paraíso perdido que jamais será encontrado aqui na Terra. A construção de uma utopia implica não apenas em uma mudança da própria natureza humana – o que está na raiz de todos os totalitarismos modernos – mas na recusa de viver com os dois pés em uma realidade concreta, imperfeita e, acima de tudo, finita. A construção de uma utopia exige que se viva em uma realidade paralela – uma psicose da imaginação. Na Utopia descrita por Hitlodeu, não se cultiva um espírito aberto à transcendência, “mas sim o da comunidade fechada em si mesma, que se limita aos seus habitantes e não quer depender de nada que possa escapar ao seu controle.”  É o sonho de realização plena da autossuficiência do homem. Nas palavras de Eric Voegelin: “a ordem espiritual é substituída pelo ideal social. O ideal ganha sua suprema importância na política moderna porque parece abrir caminho para uma ordem social estável através de meios pragmáticos em vez da santificação da vida.”

O homem que habita o mundo de Utopia é aquele que sempre será um estranho em sua casa – porque recusa deliberadamente a realidade, porque tentará substituí-la por um mundo imaginário. Porque, no fundo, é aquele que recusa “um fato cruel da existência humana: a de que todos irão morrer.” A ilha de Utopia é uma mentira existencial. Embalado pelo sonho da Utopia, o homem torna-se um reformador do mundo – ou um “salvador” do mundo, aquele que combate o mal com o disfarce do bem.

Como no poema “A segunda vinda”, de W. B. Yeats: “falta fé aos melhores, já os piores / se enchem de intensidade apaixonada”.

B) A CRISE

“É bobagem essa coisa que inventaram que os pobres vão ganhar o reino dos céus. Nós queremos o reino agora, aqui na Terra. Queremos que todo o mundo vá para o céu, agora. Queremos ir para o céu vivo. Não venha pedir para a gente morrer para ir para o céu que a gente quer ficar aqui mesmo.”

Retorno à frase de Ortega y Gasset: “a existência humana tem horror ao vazio; para que o homem deixe de crer em algumas coisas, é preciso que germine nele a fé confusa em outras. O desencantamento do mundo ocidental, com sua recusa da fé em troca de uma razão autossuficiente, substituiu o ideal de vida cristão pelo ideal do discurso político contemporâneo. A promessa de salvação da humanidade não se dará pela santificação da vida, mas pela crença em um “salvador” laico e/ou em um progresso tecnológico capaz de resolver tudo, incluindo os paradoxos da condição humana. A perda dos vínculos transcendentes possibilita a ascensão das ideologias revolucionárias e das utopias inatingíveis. Estão aí os senhores Lula da Silva e Barack Obama que não me deixam mentir.

Vladimir Soloviev, filósofo e teólogo russo nascido em 1853 e falecido em 1900, publicou no ano de sua morte o livro “Breve conto sobre o Anticristo”. O livro descreve a formação dos Estados Unidos da Europa no século XXI:

Se a Europa viveu sob o domínio dos bárbaros durante cinquenta anos por causa da desunião entre os estados, cada um visando apenas seu próprio interesse nacional específico, a grande e gloriosa libertação foi conseguida pela organização internacional das forças unidas de toda a população europeia. Como consequência natural desse fato tão manifesto, as velhas estruturas tradicionais de cada nação perdem seu significado, e em quase toda a parte desaparecem os últimos vestígios dos antigos regimes monarquistas. No século XXI, a Europa passa a apresentar uma união de povos – os Estados Unidos da Europa, com governos mais ou menos democráticos. A cultura externa, que por causa da invasão dos mongóis e da luta pela liberdade se achava em declínio, encontra-se agora num rápido progresso. No entanto, as questões de consciência interior, referentes à vida e à morte ou ao destino final do mundo e dos homens, tem-se tornado ainda mais complexas e confusas por causa de numerosas descobertas e investigações fisiológicas e psicológicas novas que impedem qualquer resposta clara, sendo que tais questões, como antes, ainda aguardam uma solução.(…) A humanidade superou definitivamente o estágio da infância filosófica. Mas, por outro lado, torna-se evidente que ela também perdeu a capacidade infantil de uma fé ingênua que tudo aceita e não pergunta por razões.”

Nesse cenário surge um

“homem notável – muitos o chamam super-homem –, que, em relação ao pensar está tão longe daquela ingenuidade infantil quanto o está do coração. (…) Nessas coisas, porém, ele apenas acredita, pois ama unicamente a si próprio. Ele acredita em Deus, sim, mas no fundo de sua alma, sem querer e sem se dar conta disso, preza mais a si mesmo do que a Ele. Acredita no bem, mas o olho onividente da eternidade sabe que esse homem sucumbiria às tentações do mal logo que este o instigasse – não por paixões vulgares ou ilusões sensoriais, nem mesmo pela isca quase irresistível do poder, mas UNICAMENTE POR SEU AMOR-PRÓPRIO DESMEDIDO. (…) O fato de tal homem, com base em seu amor-próprio, preferir sua pessoa à do Cristo é justificado por ele com o seguinte raciocínio: ‘Cristo, que pregava o bem moral, realizando-o plenamente durante a sua vida, era um REFORMADOR da humanidade, enquanto eu fui chamado a ser um BENFEITOR tanto daquela parte dos homens já redimidos quanto da parte incorrigível da humanidade. EU VOU DAR A TODOS OS HOMENS TUDO O QUE ELES PRECISAM. CRISTO, COMO MORALISTA, DIVIDIU OS HOMENS PELA DISTINÇÃO ENTRE O BEM E O MAL; EU OS UNIREI POR MEIO DOS BENS QUE AMBOS – OS BONS E OS MAUS – PRECISAM.”

O homem pós-renascentista, livre de qualquer laço transcendental que o ligava a um Deus vivo, está disposto a ceder sua liberdade e sua autonomia – pois, por excesso de vaidade ou amor próprio desmedido, acredita ser possível o estabelecimento de uma ordem gerida pela vontade do Estado. O homem moderno, ao permitir que o Estado decida por ele, tornou-se incapaz de fazer escolhas morais – e não tem a menor consciência do mal que está a praticar.