Pascal Bruckner

Amores incompletos

Na vida pública, somos herdeiros do romantismo, da falsa noção de que a veracidade de nossas intenções passa pela intensidade de nossos sentimentos: somos mais reais à mesma medida que somos capazes de nos expor; o sentimentalismo excessivo e venenosamente adocicado de nossa época é a supressão da reflexão em prol de uma resposta emocional imediata; é a expressão pública de emoções sem o devido reconhecimento de que o julgamento racional é o filtro necessário para nossas reações àquilo que presenciamos. Da mesma forma, na vida privada, o romantismo nos ensinou que o amor verdadeiro tem apenas uma exigência: a paixão; se somos capazes de “sentir”, nos consideramos capazes de amar. “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, é o manual escolar do amor romântico: pela descrição detalhada das experiências intensas que constituem o fundamento do amor, do que é e de como deve se parecer alguém apaixonado. O amor nada mais seria do que um conjunto desordenado de emoções intensas.

Mas nosso imaginário romântico também é herdeiro de Platão. No “Banquete”, após Eurixímaco, temos o discurso de Aristófanes sobre o amor (tradução de Carlos Alberto Nunes):

“Porém, primeiro precisareis conhecer a natureza humana e as modificações porque passou. Antigamente, nossa natureza não era como a de agora, mas muito diferente. Para começar, havia três sexos, e não dois apenas, como hoje: masculino e feminino. Além desses, havia um terceiro, formado dos outros dois; o nome ainda subsiste, porém o sexo desapareceu. Em verdade, era o sexo andrógino, com a forma e o nome dos outros dois sexo, masculino e feminino. Porém, só o nome chegou até nós, bastante desmoralizado. Além do mais, no todo os homens eram redondos, com o dorso e os flancos como uma bola. Possuíam quatro mãos, igual número de pernas, dois rostos perfeitamente iguais num só pescoço bem torneado, e uma única cabeça com os rostos dispostos em sentido contrário (…) Andavam de pé, como hoje, para qualquer lado; porém, se se dispunham a correr velozmente, faziam como os saltimbancos, que viram em círculo e jogam as pernas para o ar, até completar a volta (…) eram de força e vigor extraordinários, e por serem dotados de coragem sem par, atacaram os próprios deuses (…). Então Zeus deliberou com as demais divindades sobre o que era preciso fazer com eles, porém não chegaram a nenhuma conclusão. Realmente, nem era aconselhável matá-los ou fulminá-los, como haviam feito com os gigantes, destruindo, desse modo, toda a espécie, pois tal medida implicava o desaparecimento do culto e dos sacrifícios prestados pelos homens, nem deixar, ainda, que prosseguissem com tamanha insolência. Depois de muito refletir, falou Zeus deste modo: “Penso ter encontrado um meio”, declarou, “de conservar os homens e por cobro a essa indisciplina: bastará enfraquecê-los. Agora mesmo vou dividi-los pelo meio, pois desse modo não somente ficarão mais fracos, como nos serão também de maior utilidade, pelo fato de aumentarem de número.” (…) Assim dizendo, partiu os homens ao meio (…) à medida que os ia dividindo, mandava que Apolo lhes virasse o rosto e metade do pescoço para o lado do corte: ao perceber a incisão que lhes fora feita, o homem saberia moderar-se.(…)
Seccionados, desse modo, os corpos, cada metade sentiu saudades da outra, e procurando ambas a sua parte, estendiam reciprocamente os braços, estreitavam-se, no anelo de se fundirem num só corpo, do que resultou morrerem de fome e inanição, pelo fato de nenhuma parte querer fazer nada separada da outra. (…) Cada um de nós, por conseguinte, só é homem pela metade, mero símbolo, por ter sido cortado ao meio (…) de um passaram a ser dois, do que resulta viverem todos a procurar sua metade complementar.
Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam a vida juntas, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. Apenas poderia ser o prazer dos sentidos que leva cada um a procurar a companhia do outro. É evidente que a alma de ambos deseja algo que ela própria não sabe definir, mas advinha ou sugere vagamente. E, se, porventura, se aproximasse deles Hefesto com seus instrumentos, quando estivessem dormindo no mesmo leito, e lhes perguntasse: “Homens, que é o que cada um de vós deseja do outro?” E percebendo o enleamento dos dois, voltasse a interrogá-los: “O que quereis não será, porventura, unir-se o mais intimamente possível, sem vos separardes nem de dia nem de noite? Se é isso o que almejais, vou derreter-vos e insuflar em ambos um sopro único, de forma que de dois passeis a ser um só, para que enquanto viverdes possais estar sempre juntos como se fôsseis apenas um, e, depois de mortos, no Hades, não sejais dois, porém apenas um morto apenas, por haverdes tido morte comum.” (…)
Se ouvissem tal proposta, estamos certos de que nenhum diria não, nem declararia desejar outra coisa, mas com a maior boa fé julgaria ter ouvido o que de muito ambicionavam: unir-se ao objeto amado e com ele fundir-se, para formarem um único ser, em vez de dois. E a razão disso é que primitivamente era assim nossa natureza, e nós formávamos um todo homogêneo. A saudade desse todo e o empenho em restabelecê-lo é o que denominamos amor.”

Temos aí, distinto leitor, prezada leitora, o mais conhecido mito de origem do amor: o amor como a busca pela nossa outra metade, nossa “cara-metade”; e, ao encontrá-la, não sabemos bem porque, simplesmente “sentimos” que é com ela que queremos passar o resto de nossa vida juntos (“essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra”). O amor como força que supera tudo, até os deuses.

A partir da noção de que existe realmente alguém por aí que é a nossa perfeita metade, elaboramos um conjunto de especificações daquilo que esperamos do amado ausente, com os elementos que supostamente preencheriam nosso vazio ontológico. John Armstrong, em “Conditions of Love – the philosophy of intimacy”, argumenta que, sempre que a “pessoa certa” é excessivamente especificada, inevitavelmente ficará aquém do que imaginamos, sempre estará fora do limite dessas compatibilidades idealizadas. Pascal Bruckner, em “Fracassou o casamento por amor?”, escreve: Estabeleça um ideal e você imediatamente estará engendrando millhões de inadaptados, incapazes de alçar a essa altitude que se imaginam, então, deficientes.(…) A esfera doméstica tornou-se um campo de batalha titânica entre o sublime que se almeja e o trivial que se vive”. Acredita-se, vulgarmente, que incompatibilidades são destrutivas para os relacionamentos, e se esquece de que, durante qualquer relacionamento, durante o curso de uma vida mesmo, prioridades mudam – seja porque as pessoas mudam, seja porque, como dizia o poeta, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”; portanto, durante um relacionamento as compatibilidades podem mudar também. Logo, não pode haver uma compatibilidade perfeita. Quando todo mundo concorda com todo mundo em tudo, as poucas diferenças irão parecer desproporcionais.

Não que certas compatibilidades não sejam necessárias, obviamente que são. O ponto é que talvez seja mais sábio mudar de perspectiva: em vez de pensar em buscar “a pessoa certa”, procurar pelas “atitudes certas” – os recursos e as capacidades para se importar com alguém, para amar alguém. Quando se pensa em procurar pela “pessoa certa”, todo o foco recai sobre o procurado, eximindo o procurador de responsabilidades sobre si na parte que lhe cabe do relacionamento. Como escreve Armstrong:

“Evitar tem sido uma característica chave na busca pela pessoa certa, pois a atenção é desviada daqueles que procuram. Eles não tem responsabilidades no amor; imaginam que, quando encontrarem a pessoa certa, o amor florescerá fácil e espontaneamente e sobreviverá por conta própria.(…) a experiência de aprendizado para amar alguém no longo prazo requer adaptações, inclui abandonar algumas exigências e aprender outras, mudar de prioridades. Se você é capaz de fazer isso com alguém, provavelmente será capaz de fazê-lo com outras pessoas. Compatibilidade, por conseguinte, será uma conquista, não um pré-requisito para o amor.”

A perfeita contraposição de Goethe é Ortega Y Gasset em seu “Estudos sobre o amor”. Se o romantismo ama a ideia de amor, a ideia de apaixonar-se, o ser amado torna-se mero pretexto para amar, pretexto que aos poucos se converte em uma ficção. Gasset afirma que amar é

atuar na direção do amado, um ato transitivo através do qual nos entregamos àquilo que amamos”. O desejo tem caráter passivo pois “aquilo que desejo quando desejo é que o objeto venha até mim”; o amor é o eterno insatisfeito e, no ato amoroso, “saímos de nós próprios…não é o objeto que é atraído por mim, sou eu que gravito na sua direção.”

Se o desejo se anula quando se satisfaz, o amor, pelo contrário, ao buscar sua satisfação, intensifica-se; amar seria a preservação intencional do ser amado.

“O amor chega ao objeto numa dilatação virtual, e empenha-se numa tarefa invisível, mas divina, e a mais diligente que possa existir: afirmar seu objeto. (…) Amar uma coisa é estar empenhado em que exista; não admitir, naquilo que de nós depende, a possibilidade de um universo onde esse objeto esteja ausente. Mas note-se que isto equivale a dar-lhe vida de forma contínua, naquilo que de nós depende, intencionalmente. (…) O exclusivismo da atenção que dirigimos ao ser amado o dota de qualidades prodigiosas. Não é que se imaginem nele perfeições inexistentes, embora isso possa acontecer. À força de manipular pela atenção um objeto, de nos fixarmos nele, o objeto adquire para a consciência uma força de realidade incomparável. Existe permanentemente para nós; está sempre ali, ao nosso lado.”

O amor nos enriquece porque amplia nossa perspectiva: passamos a enxergar o mundo com outros olhos, além dos nossos. Poderíamos aplicar aqui o mesmo conceito da “compaixão”, nas palavras de Milan Kundera: o amor permite “compartilhar com alguém a mesma imaginação afetiva.”

A hora mais escura

A última cena de “A hora mais escura” (Zero dark thirty, 2012), de Kathryn Bigelow, evoca uma cena descrita por Samuel Beckett no fim de sua peça “Improviso de Ohio”(1980):

“Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos, não, não-pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar.”

O piloto de um avião militar diz à protagonista, vivida por Jessica Chastain:

“Você deve ser importante para mandarem um avião só pra você! Disseram para levar você para onde você quiser. Onde você quer ir?”

Ela nada responde, seu rosto está imóvel, mergulhado em sabe-se lá que abismos de pensamentos, ou não-pensamentos, “onde nenhuma luz pode chegar”; ela olha para frente e uma lágrima escorre. É um filme corajoso realizado em época covarde, habitada por pessoas covardes. Pessoas que ou não levam a sério ou ignoram completamente um velho princípio moral que diz que cada um é autor de seus atos. Dedução lógica: cada um deve encarar as consequências de seus atos. Porém, antes de tudo é preciso tomar uma posição, fazer escolhas; e, no entanto, o resultado da combinação entre o anseio por vantagens desatreladas a responsabilidades é a tendência a refutar os erros que surgem no caminho: as pessoas preferem fugir de escolhas complicadas e sempre optam por explicações mais simples; é mais cômodo atribuir seus próprios equívocos a terceiros ou apenas apontar dedos com acusações genéricas.

O filme mostra o cotidiano áspero de pessoas que, por dever de ofício, fazem das suas as horas mais escuras; são os agentes responsáveis por elucidar todos os quebra-cabeças relacionados à busca pelo paradeiro de Osama Bin Laden. E essas pessoas precisam fazer escolhas, assumir riscos e conviver com os desdobramentos dessas ações, para que outros – eu, você, todos nós que pertencemos à civilização ocidental, civilização esta que remói suas abominações passadas (guerras, escravidão, imperialismo, fascismo, comunismo) e desdenha de suas maiores virtudes (disciplina, trabalho, artes, ciência, filosofia e metafísica) a ponto de atribuir a si as desgraças do mundo e, por conta disso, absurdo dos absurdos, chegar a pensar que os americanos plantaram o que colheram, após os atentados de 11 de setembro (recomendo um livro de 2006, “A tirania da penitência – Ensaio sobre o masoquismo ocidental”, de Pascal Bruckner) já que se tratava de revide de uma civilização tornada miserável em decorrência de ações ocidentais – possamos seguir adiante com nossas rotinas de liberais roussenianos sustentáveis, para quem a vida é sempre um jardim de infância e o homem tem uma índole boa – estragada pela cultura imperialista norte-americana ou, de modo mais abrangente, pela cultura ocidental. Abraçar árvores, reciclar lixo, manter o corpo em forma com academia e dieta, cultivar a espiritualidade, fazer yoga ou pilates, suportar o tédio do domingo assenta-se sobre o trabalho sujo de indivíduos que vivem nas sombras, à margem de suas próprias vidas.

Há outra cena brilhante: durante a pausa de uma das sessões de tortura, o grupo de agentes a CIA assiste, impassivelmente, à uma entrevista do novo ícone do liberal moderno, Barack Obama, garantir que os Estados Unidos não praticam tortura. Quem enxerga em “A hora mais escura” uma apologia à tortura provavelmente entrou na sessão errada. “A hora mais escura” incomoda porque propõe um dilema moral difícil de ser resolvido, o que é da própria natureza dos dilemas morais, pois são originários de princípios morais conflitantes. Imagine que você é o motorista de um trem desgovernado a 80 km/h. À sua frente, nos trilhos, você vê 5 operários em pé, que não o veem. O freio não funciona e você sabe que, se atropelá-los, irá matá-los. De repente, você enxerga um desvio para direita. Há um operário naqueles trilhos também, somente um. Você percebe que pode desviar o trem, matando esse único operário e poupando os outros cinco. O que você deve fazer? Sacrificar uma vida por cinco? Parece ser a atitude mais correta? Considere agora outro cenário: você não é o maquinista, mas um observador numa ponte acima dos trilhos. Não há desvios. O trem avança em direção aos cinco operários e os freios não funcionam. Você nota que, próximo a você, há um homem alto e gordo, corpulento o suficiente para, se empurrado no caminho sobre os trilhos, parar o trem, ou pelo menos dar tempo para os outros cinco escaparem. Qual a coisa certa a se fazer? Excluindo-se contingências hipotéticas e atitudes covardes (recusar-se a responder), a resposta não é imediata. São cinco vidas em troca de uma, e nenhum dos homens sacrificados escolheu envolver-se. Temos aí dois princípios morais que se entrechocam (salvar o máximo de vidas possível, matar um inocente por uma boa causa). De acordo com Michael Sandel em “Justiça – o que é fazer a coisa certa”, temos nossas opiniões e convicções sobre o que achamos ser a coisa certa a fazer; a partir disso, procuramos um princípio no qual elas se baseiam; porém, quando uma situação coloca em xeque tais princípios, a confusão se instala: não sabemos o que fazer. A reflexão moral consiste em equilibrar julgamentos com princípios, e por isso mesmo é dialética – desloca-se entre os julgamentos das diferentes situações que vivenciamos e os princípios que norteiam tais julgamentos – e requer sempre um interlocutor, necessita de diálogo.

O dilema moral proposto por Kathryn Bigelow e seu roterista Mark Boal é tão difícil de ser resolvido quanto o dilema do trem: para salvar o máximo de vidas possível é lícito utilizar um método que tem resultados consequentes, que funciona?

É fácil criticar os Estados Unidos porque caímos – nós, civilização ocidental – em uma armadilha sem perceber: o terrorismo engendra uma guerra assimétrica, pois é praticado por organismos revolucionários a quem tudo é permitido; estão isentos de todos os compromissos que pesam sobre os Estados constituídos. Por essa razão, alguns poucos abusos cometidos por uns gatos-pingados do exército norte-americano aparecem como atrocidades muito mais odiosas do que todos os assassinatos cometidos pelos jihadistas e por regimes fundamentalistas islâmicos, mesmo em períodos de paz. Em texto para o jornal O Globo, de 2004, Olavo de Carvalho aponta de modo certeiro:

“Há uma diferença substantiva entre o modo americano e o iraquiano de tratar prisioneiros de guerra. Os americanos os despem, os humilham e até lhes dão uns sopapos. Os iraquianos os esfolam, os queimam vivos ou os degolam, como fizeram aliás com centenas de milhares de seus compatriotas.
Há também uma diferença nas reações que despertam em seus governos. Os americanos são presos e submetidos a côrte marcial. Os iraquianos são aplaudidos como heróis e incentivados a caprichar um pouco mais da próxima vez, por exemplo cortando os pênis dos malditos imperialistas como sugerido por um jornal árabe. Há por fim uma diferença no modo como as condutas de uns e outros repercutem na mídia. Os feitos iraquianos, quando não omitidos por completo, são mostrados de maneira discreta, fria e sem comentários, como rotinas de guerra. Os americanos são alardeados como crimes contra a humanidade, despertam campanhas mundiais de protesto e se trasmutam em crise política, enquanto a indignação suscitada pelos poucos casos comprovados é multiplicada ad infinitum por uma estonteante proliferação de episódios forjados.”

Por essa e outras razões, a guerra ao terror é uma guerra impossível de ser vencida (La Guerre asymétrique ou la Défaite du vainqueur, de Jacques Baud – “A guerra assimétrica – a derrota do vencedor”, 2004).