Christopher Nolan

Interstellar e os abismos da modernidade

O texto a seguir tem SPOILERS sobre o filme Interstellar, de Christopher Nolan.

Em 2010, o British Medical Journal anunciou que uma equipe multidisciplinar identificara o crânio mumificado do rei Henrique IV, da França, perdido em 1793. Henrique IV foi o autor do comentário “Paris bem vale uma missa”.

Comentário cínico ou realista? Os fatos são evidentes por si mesmos: se não renunciasse ao protestantismo, Henrique IV não seria reconhecido como herdeiro legítimo do trono da França, à época dividida e com a economia em frangalhos. Converteu-se ao catolicismo, foi recebido em Paris em 1593 pelo arcebispo de Bourges e conseguiu minimizar a oposição da Liga Católica. Para Stephen Toulmin (Cosmopolis – The hidden agenda of modernity, 1992), “tendo-se estabelecido seguramente, pode mostrar sua determinação em reduzir a influência da religião na política; com o Edito de Nantes, regularizou a posição dos cidadãos protestantes. Fez o possível para estabilizar as relações entre católicos e protestantes e garantir as liberdades civis da minoria huguenote”.

Henrique IV entendera que, somente o tratado de Augsburgo (1555) – pelo qual a religião do príncipe seria imposta aos súditos e, caso discordassem, deveriam se mudar para outros locais – não seria suficiente para estabelecer a paz, dado o risco de instauração de novos desequilíbrios religiosos causados pelas migrações internas, em um território vasto como a França. Henrique IV considerava que a tolerância religiosa seria mais prudente, e impor conformidade religiosa seria prejudicial ao reino e à nação – em outros locais, sucessivos monarcas, confessando as mais diversas religiões, imprimiam perseguições aos que não se conformavam a eles. Demonstrava, portanto, que era possível governar um reino pela aceitação da lealdade dos seus cidadãos, independentemente da religião. Provavelmente fora influenciado pelo perfil tolerante de Michel de Montaigne, seu amigo e conselheiro. Montaigne (1533 – 1592) foi um dos principais nomes do Renascimento francês, caracterizado pelo ceticismo. Em um de seus ensaios (Apologia de Raymond Sebond), escreveu:

 “Alem dessa inumerável diversidade de opiniões, é fácil verificar, pela confusão em que nos joga e a incerteza que todos sentem, que nosso julgamento não tem fundamento sólido. Quantas vezes julgamos diversamente as coisas? Quantas vezes mudamos de ideia? O que hoje admito e creio, admito e creio na medida do possível: todas as nossas faculdades, todos os nossos órgãos se apossam desta opinião e por ela respondem quando podem; não poderiam aceitar outra verdade nem a conservar com maior convicção; a ela dei-me por inteiro. Mas não me aconteceu, e não uma vez porém cem ou mil, e diariamente, ter aceito do mesmo modo alguma coisa que posteriormente considerei valso? Que ao menos nos tornemos sensatos a expensas nossas? Se tantas vezes fui traído por meu julgamento, se essa pedra de toque em geral defeituosa, se a balança está mal regulada, que garantia a mais posso ter desta vez? Não será tolice deixar-me enganar por semelhante guia? E no entanto, ainda que destino nos leve a mudar quinhentas vezes de ideia, a ultima, a atual será a verdadeira, a infalível. (…) Nossa condição tão sujeita a desfalecimento deveria inspirar-nos mais moderação e discrição em nossas variações; deveríamos lembrar que, quaisquer que sejam as impressões de nossa inteligência, muitas vezes são coisas falsas e que as percebemos com esses mesmos instrumentos que amiúde se enganam.”

E no ensaio Sobre a inconstância de nossas ações, lemos:

 “Nosso modo habitual é seguir as inclinações de nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo, conforme nos leva o vento das ocasiões: não pensamos no que queremos a não ser no instante em que o queremos, e mudamos como esse animal que toma a cor do lugar onde o colocamos. O que nos propusemos há pouco, ora logo mudamos, e ora, de novo, voltamos atrás: tudo não passa de oscilação e inconstância. Flutuamos entre diversas opiniões: nada queremos livremente, nada absolutamente, nada constantemente.”

De acordo com Stephen Toulmin, Montaigne escreveu pressupondo como típicas experiências humanas a universalidade de suas experiências pessoais. Não há, em seus escritos, o terror solipsista – deflagrado pelo confronto com a variedade de idiossincrasias, perspectivas e histórias de vida que caracteriza a realidade – que encontramos nos filósofos racionalistas, aprisionados em suas atividades mentais. Os ensaios introspectivos de Montaigne ilustram a tentativa de chegar ao conhecimento pelo acúmulo de todos os detalhes concretos possíveis da vida prática, da experiência diária.

Henrique IV foi assassinato por um fanático católico, François Ravaillac, em 1610. O choque subsequente, considerando-se o modo como se deu sua morte, poderia ser traduzido em uma mensagem de terror – “tentou-se inutilmente uma política de tolerância religiosa” –, que perpassará a Europa nos anos seguintes. Fracassado o debate intelectual entre católicos e protestantes, restava apenas o entendimento pela espada e pelo fogo: a maioria das nações enfileirava-se para batalhas sangrentas que durariam de 1618 até 1648 – a “Guerra dos 30 anos”.  Arrastando-se progressiva e interminavelmente, seus combatentes estavam convictos de que eram não somente os portadores da verdadeira mensagem como também suas as doutrinas corretas; era a crença pela crença, que bastava a si mesma. Stephen Toulmin escreve que quanto mais os fanáticos da contra-Reforma se regozijavam no massacre de protestantes na Batalha da Montanha Branca (1620), quanto mais os mercenários protestantes suecos derrubavam, pelo fogo as fortalezas católicas da Boêmia, e pela espada a sua população, mais as pessoas de moderação e boa-vontade enchiam-se de desespero; era esse o dia a dia da Europa entre 1618-1648.

  1. O espírito revolucionário do racionalismo

As drásticas transformações ocorridas entre 1590 e 1640 tornaram o ambiente cultural europeu totalmente inóspito para incertezas, ambiguidades, tolerância e diferenças de opinião. A ordem da Cosmopolis estava fendida. Cosmopolis: do grego, cosmos, a ordem natural do universo; polis, a ordem da sociedade (praticas reconhecíveis de uma sociedade que as qualificam como unidade política organizada). Classicamente, se reconhecia que tanto o mundo no qual se nasce (cosmos) quanto aquele no qual se vive (polis) abrangem dois tipos distintos e interconectados de ordenamento. A crise que varreu o século XVII não foi somente econômica e social, mas também espiritual: significou a quebra da confiança pública no velho consenso cosmopolítico. Essa angústia existencial está expressa no poema Uma anatomia do mundo (1611), de John Donne:

“E a nova filosofia põe tudo em dúvida

O elemento fogo extinguiu-se de todo;

perdido está o Sol e a Terra, e onde procurá-los?

Não o sabe mais o entendimento humano.

Espontaneamente confessam os homens que este mundo está gasto;

Já que nos planetas e no firmamento;

Vão em busca de tantos novos.

Vê-se que este se esmigalha e,

Retornando ao estado de átomos,

voa em estilhaços, toda coerência abolida,

toda justa medida e toda relação.

Príncipe e súditos, pais e filhos, são papéis esquecidos,

Pois cada um se convence de ser

O único chamado a tornar-se Fênix, e que não há de ser

nada daquilo que ele é, senão ela”.

E não é exatamente disso, caro leitor, que trata Interstellar? A decrepitude do planeta Terra, condenado a morrer de fome, sufocado, obrigando fazendeiros a retomarem sua vocação de Fênix? Pioneiros exploradores do espaço em busca de tantos outros planetas novos? A certa altura, o personagem interpretado com garra por Matthew McConaughey diz:

“Sempre nos definimos pela habilidade em superar o impossível. E esses momentos eram importantes. Aqueles momentos em que ousávamos mirar o sublime, quebrar barreiras, alcançar as estrelas, conhecer o desconhecido. Considerávamos esses momentos como nossas vitórias mais significativas. Mas perdemos tudo isso. Ou talvez tenhamos nos esquecido de que ainda somos pioneiros. E que mal começamos. E que nossas maiores conquistas não devem estar atrás de nós porque nosso destino está acima de nós.”

Decerto que a crise do século XVII foi uma crise intelectual: o “fracasso” em oferecer soluções falsificou a impressão de que a filosofia consistia num conjunto de opiniões subjetivas e desordenadas, voltadas para metafísica sem valor, desassociada dos problemas do mundo real. Não seriam os filósofos capazes de encontrar uma base racional capaz de estabelecer claramente novo padrão de conceitos e crenças e que evidenciasse maior grau de certeza? Urgia descobrir algum método para demonstrar a correção ou a incorreção de doutrinas científicas, filosóficas e teológicas e que indicasse o caminho para longe do caos daquela guerra interminável. De onde viria a solução?

Em um dos textos de Galileu, de 1623, lemos (trecho retirado de A filosofia das ciências, de Pascal Nouvel):

“A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.”

Isaac Newton teve o mérito de expressar matematicamente uma única e “simples” lei, válida para todo o Universo (“A Lua cai em torno da Terra”; ou seja, a força que rege o movimento da Lua em torno da Terra é a mesma que rege o movimento da maçã caindo da árvore):

F = G x M1 x M2 /d²

Galileu e Newton estabeleceram, segundo Pascal Nouvel (Filosofia das ciências), as três raízes do pensamento científico moderno: “1) sobre qualquer problema é possível uma guinada do olhar, de modo que o que parece complexo se torna simples; 2) a experimentação permite estabelecer regularidades na natureza; 3) existem leis universais da natureza, válidas para todos os objetos físicos, e essas leis são suscetíveis de serem expressas matematicamente”.

Os métodos usados pelos cientistas da época, obtendo sucessos espetaculares, enfeitiçaram a imaginação daquela geração. No ensaio “Os filósofos do Iluminismo” (A força das ideias, 2005), Isaiah Berlin escreveu:

“Quando algum ramo da investigação humana conseguia notáveis sucessos empregando esta ou aquela nova e fértil técnica, fazia-se invariavelmente uma tentativa de aplicar técnicas análogas também aos problemas filosóficos, com resultados, felizes e infelizes, que são um elemento permanente na história do pensamento humano. (…) O progresso sem paralelo da física e da matemática no século XVII transformou de tal maneira a visão que geralmente se tinha da natureza do mundo material, e, ainda mais, da natureza do verdadeiro conhecimento, que essa época ainda permanece entre nós e as eras que a precederam, e faz as ideias filosóficas da Idade Média, e até da Renascença, parecerem remotas, fantasiosas e, às vezes, quase ininteligíveis. A aplicação das técnicas matemáticas – e da linguagem matemática – às propriedades mensuráveis do que os sentidos revelam tornou-se O ÚNICO MÉTODO DE DESCOBERTA E ELUCIDAÇÃO.” (o grifo é meu).

Toulmin listou algumas modificações de mentalidade ocorridas nos séculos XVI e XVII, que podem ser resumidas como desvios em quatro modalidades de conhecimento: do oral para o escrito; do particular para o universal; do local para o geral; e do temporal para o atemporal:

1) Palavra oral para palavra escrita: a filosofia moderna deixa de lado questões relacionadas à argumentação, entre pessoas específicas, em situações específicas, em favor de provas, da evidência técnica;

2) Particular para universal: os filósofos modernos perderam interesse pelos problemas concretos relacionados à prática moral; para eles, o que interessava era descobrir os princípios gerais, universais e atemporais, que pudessem ser formulados  numa teoria formal;

3) Local para Geral: para Descartes, o conhecimento não dependia do acúmulo de experiência de indivíduos e de casos específicos; as demandas da racionalidade impõem à filosofia a busca por ideias abstratas e princípios gerais pelos quais os casos particulares podem se conectar; trata-se do repúdio à diversidade concreta da vida em prol de generalizações abstratas, a fim de, artificiosamente, congregar a pluralidade do real.

4) Temporal para o atemporal: questões temporais não interessavam mais; a atenção deveria se voltar para princípios que fossem verdadeiros e bons, sempre, de modo permanente. O homem abandona o perene pelo provisório: não está mais interessado em descobrir as soluções para os problemas que afligem sua alma.

Essas quatro mudanças refletem um desvio da filosofia do campo da vida prática (raciocínio oral, análise moral de casos) para o campo exclusivamente teórico; estratosférica em suas pretensões, a filosofia partiu em busca de soluções gerais para problemas universais e nos quais a ética estaria conformada a teorias abstratas, atemporais, gerais. Atormentado por guerras sucessivas, o homem do século XVII iniciou a busca pela certeza, para trazer a exatidão dos números para dentro da sociedade e para dentro de sua existência individual. Troca-se o mundo prático pela abstração teórica. O racionalismo decorrente do apogeu físico-matemático incorporou-se em políticas de Estado, resultando na formação dos Estados absolutistas (a ciência e a técnica a serviço da centralização dos Estados); e em formulações teológicas (livre-exame racionalista, a supressão dos conteúdos dogmáticos e a negação do papel da Igreja), que culminaram na Reforma protestante – por exemplo, a crítica de Lutero à transubstanciação devia-se à impossibilidade de medi-la.

Eis os pilares do pensamento moderno: a ciência de Galileu e de Newton e o método de reflexão, por ela inspirado, iniciado por Renê Descartes. O real foi redimensionado pelos limites de seus aspectos mensuráveis; a realidade matemática começa a se impor sobre a realidade sensível; tudo o que não pode ser observado, medido e expresso matematicamente não existe. Segundo Julían Marías, “o racionalismo é anti-histórico: vício radical do pensamento sobre a sociedade e o Estado, que são realidades históricas”. Autoajuda da modernidade: todos os problemas são solúveis a partir da descoberta de respostas objetivas; uma vez estabelecidas, seu valor seria eterno e universal. Do interesse pela natureza, pelo natural, bastou um pequeno passo para o reconhecimento do caráter natural de todas as coisas: passou-se a falar de direito natural, moral natural, ciência natural. Claro que a filosofia deveria expressar-se “naturalmente” também: em busca da ordem perfeita, deveria iniciar com uma observação empírica, formular leis gerais com base na observação e no experimento e deduzir conclusões específicas. E também se menciona uma religião natural, que nada mais seria do que a ideia que o homem faz de Deus, por sua própria natureza, sem dogmas, sem intermediários; tudo aquilo que compete ao homem por ser homem, fora da Graça. Na sua História da Filosofia (2004), Julián Marías declara que “a época do Iluminismo representa o fim da especulação metafísica do século XVII. Depois de quase uma centúria de intensa e profunda atividade filosófica, encontramos uma nova lacuna em que o pensamento filosófico perde sua tensão e se banaliza (…) O homem não vai a Deus porque lhe interesse, o que lhe importa é o mundo; o homem moderno, esquecido de Deus, volta-se para a natureza.”

Para Stephen Toulmin, “ao estabelecer como meta da Modernidade uma agenda intelectual e prática que desprezou a atitude tolerante e cética dos humanistas do século XVI, focando, no século XVII, na busca pela exatidão matemática e pelo rigor lógico, pela certeza intelectual e pureza moral, a Europa instalou-se em uma estrada político-cultural que conduziu aos seus mais surpreendentes sucessos técnicos e aos seus fracassos humanos mais retumbantes.”

Não é esse o sentido da frase de Cooper, em conversa com o sogro, na varanda de sua fazenda, em Interstellar?

“Costumávamos olhar para o céu e nos perguntar sobre o nosso lugar entre as estrelas. Agora, olhamos para baixo e nos preocupamos com o nosso lugar no meio da sujeira.”

E não é o mesmo mundo, retratado por Interstellar: em vez de guerras, um mundo devastado por pragas que escasseiam os alimentos? Um mundo que requer pessoas capazes de resolver os problemas daquela época, não os de todas as épocas. O diretor da escola dos filhos de Cooper diz a ele: “não precisamos mais de engenheiros; não estamos sem televisores ou aviões. Estamos sem alimentos.”

O que seria, então, a Modernidade, e quais os desdobramentos? Michael Gillespie (Theological origins of modernity, 2009) define a modernidade como ineditismo; trata-se de um novo modo de estar neste mundo. Implica enxergar-se como sem precedentes no fluxo temporal, algo diferente de tudo o que antecedera. Compreender-se a si como novidade também é compreender-se como criado a partir de si mesmo, radicalmente livre, e não meramente determinado por qualquer tradição ou governado por quem quer que seja, destino ou Providência. Não é simplesmente estar na História, mas fazer História; não é simplesmente definir-se em termos temporais, mas definir o tempo nos seus próprios termos. O racionalismo moderno – a crença na unidade, na imutabilidade e na perenidade da razão – é um estado de espírito revolucionário: “e como a razão é essencialmente uma e mesma, e o que dispõe é o que deve ser, portanto é para sempre, cria-se um estado de espírito revolucionário”(Julían Marías). Toda revolução visa à modificação da natureza humana e/ou da sociedade mediante a concentração de poder necessário para realizá-la. Para os racionalistas, a razão é o instrumento para a reforma da natureza humana. Os versos de W.B.Yeats, do poema A segunda vinda, sintetizam esse espírito revolucionário racionalista:

“Falta fé aos melhores, já os piores

se enchem de intensidade apaixonada”

Atualmente, a expressão da ideologia da razão em sua vocação revolucionária – ideologia que modelou o Iluminismo francês (ver Gertrude Himmelfarb, Os Caminhos para a Modernidade, 2011), o qual resultou na Revolução Francesa – é o CIENTIFICISMO: o desejo, germinado gradualmente nas conquistas obtidas pela técnica, de dominar a realidade. O desejo de vencer a morte. A celebração de uma “técnica de domínio da vida fundamentada na ciência.” No ensaio A ciência como vocação, Max Weber escreveu:

“A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente acerca das condições em que vivemos. Significam, antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, bastando que o quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira com o curso de nossa vida; em uma palavra, que podemos dominar tudo, por meio da previsão. Equivale a despojar de magia o mundo. Para nós não mais se trata, como para o selvagem que acredita na existência daqueles poderes, de apelar a meios mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, mas de recorrer à técnica e à previsão. (…) Se existem conhecimentos capazes de extirpar, até às raízes, a crença na existência de seja lá o que for que se pareça a uma “significação” do mundo, esses conhecimentos são exatamente os que se traduzem pela ciência. (…)

Não é por acaso que, no filme, o cientista Dr. Brand, vivido por Michael Caine, repete obsessiva e exaustivamente (o que acaba por lhe retirar, afinal de contas, via exaustão, sua força dramática) o poema “Do not go gentle into that good night” (1945), de Dylan Thomas (dedicado ao pai enfermo) – e que expressa a recusa da morte:

Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti,meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Tradução de Ivan Junqueira, Dylan Thomas – Poemas reunidos (2003)

  1. A nostalgia do absoluto

No breve conto de Arthur C. Clarke que inspirou a obra-prima de Stanley Kubrick, 2001 – Uma odisséia no espaço, A sentinela (1951), um grupo de pesquisadores encontra, numa das inúmeras montanhas da Lua, situada não por acaso na região denominada Mare Crisium, o Mar das Crises, um brilho metálico, um ponto luminoso semelhante a uma estrela. Decidido a investigá-la, o narrador se dirige ao local e acaba topando com uma estrutura piramidal, áspera e brilhante, fixada na rocha e rodeada por uma espécie de muro invisível protetor. Refletindo sobre o que descobrira, o narrador diz: (grifos destacados são meus)

“Talvez você compreenda agora porque aquela pirâmide de cristal estava colocada sobre a Lua e não na Terra. Seus construtores não estavam interessados em espécies que ainda lutavam para sair da selvageria. Só teriam interesse em nossa civilização se provássemos uma aptidão para sobreviver: cruzando o espaço, escapando dos limites da Terra, nosso berço. É o desafio que, mais cedo ou mais tarde, todas as espécies inteligentes precisam enfrentar. É um duplo desafio, pois depende da conquista da energia atômica e da escolha decisiva entre a vida e a morte. Uma vez que já superamos essa crise, encontrar a pirâmide, e conseguir abri-la, era só questão de tempo. Agora seus sinais cessaram. Os que estavam na escuta certamente voltaram suas mentes para a Terra. Talvez desejam auxiliar nossa jovem civilização.” 

Chamo a atenção do leitor para dois aspectos, opostos, do excerto – a vitória sobre a morte como etapa ulterior do desenvolvimento tecnológico e a necessidade de sermos salvos por uma civilização avançada; no instante mesmo em que tece elogios à racionalidade humana, a seguir a desfigura como insuficiente para nos salvar do abandono a que estamos condenados. A síntese desses opostos se dará pela lente da nostalgia do absoluto.

Embora não seja possível descrever um único Iluminismo, o ponto unificador de suas características francesas, inglesas, alemãs, americanas, e assim por diante, foi a crença na razão como “poder formativo homogêneo”, capaz de resgatar o homem do nevoeiro místico e da metafísica confusa que marcaram o final da Idade Média, e conduzi-lo para o apogeu do conhecimento, por meio da descoberta e da formulação de leis gerais abstratas e universais, regentes da natureza e comuns a toda experiência humana. Não à toa que Luiz Felipe Pondé escreve no prefácio de Os caminhos para a modernidade, de Gertrude Himmelfarb: (meu grifo)

“O Iluminismo foi uma tentativa de examinar três formas básicas da experiência humana a partir do exercício livre do pensamento, a saber, a moral, o conhecimento e a política. Os caminhos para a modernidade seriam essas três formas de abordar a experiência humana a partir do século XVII e com isso “RE-FUNDARa vida em sociedade (…)”

 A “concretização existencial” do Iluminismo (francês) se deu em um dos eventos mais dramáticos da modernidade, a Revolução Francesa. Desnecessário apontar, dado o período de Terror revolucionário, o impacto, nas mentalidades originário da decepção com as promessas frustradas da ideologia da razão, anteriormente exaltada como via única de ordenamento, como trilha segura para a excelência moral do homem (como indivíduo) e o esplendor da sociedade. A crença de que a luz da ciência brilharia sobre as trevas do irracionalismo e preencheria o vazio deixado no espírito humano pela decadência da religião não parecia se confirmar. As décadas de 60 e 70 do século XX presenciaram um regresso reativo do irracionalismo: George Steiner, em Nostalgia do Absoluto, afirma que

“Abalados pela catástrofe (duas grandes guerras, campos de concentração, torturas), vivendo sob a ameaça palpável da autodestruição por armas atômicas e dos problemas, aparentemente insolúveis, do excesso populacional, da fome e do ódio político, as pessoas começaram, literalmente, a olhar para além da Terra. (…) Incapaz de lidar com as suas próprias circunstâncias, o homem deseja desesperadamente poder contar com uma vigilância benevolente e onisciente, e, numa eventualidade extrema, com auxílio do exterior. As criaturas do espaço não permitirão que a humanidade se extermine a si própria. Infinitamente mais evoluídas do que nós, as criaturas do espaço darão respostas anos nossos dilemas desesperados.”

O declínio do papel desempenhado pelos sistemas religiosos no Ocidente, entrincheirados pelo racionalismo científico e pelo brio adquirido no aperfeiçoamento da capacidade de previsão técnica, deixou um vazio que seria ocupado pelas “teologias substitutas”, as “meta-religiões”, as “mitologias”, nas palavras de George Steiner. As teologias substitutas comungam das seguintes condições: 1) exibem pretensões de totalidade, ou seja, oferecem uma explicação completa, uma análise total da condição humana; 2) tem seu momento inaugural, um início fundador reconhecível e mítico; 3) desenvolvimento de uma linguagem própria; 4) estabelecimento de uma ortodoxia, para vigiar e punir os hereges. Não foi assim com o Marxismo, com a Psicanálise, com o Estruturalismo, com o Cientificismo? São sistemas de crenças e argumentos que tentam preencher a nostalgia do absoluto e cujas estruturas, aspirações e exigências são religiosas – nas estratégias e nos efeitos; todos semelhantes à teologia (Cristianismo) que pretendem substituir. E, contudo, em termos históricos ou em termos proféticos, falharam em seus propósitos.

  1. O homem-Deus

Christopher Nolan quer nos propor uma teologia substituta em Interstellar, porém, em trajes que não ousam dizer seu nome. Para Nolan, somente o amor salva. Trata-se de uma versão moderna e vulgarizada do cristianismo, que se alimenta de seu ideal de amor, porém, desamarrando-se das exigências de sujeição a um Deus absoluto; uma espécie de cristianismo sem Cristo. Sem a submissão à autoridade, esse novo humanismo sacraliza o amor – e o sentimento se torna o verdadeiro significado, o verdadeiro sentido de uma vida sem alma e o único que ainda justificaria atos de sacrifício. A capacidade para amar, sem o auxílio da Graça: eis a divinização do homem. Nas palavras de Luc Ferry, no seu livro O Homem-Deus ou o sentido da vida:

“Os modernos rejeitam a heteronomia do teológico-ético, mas veem introduzir em suas vidas cotidianas sentimentos aptos à valorização do conteúdo de um discurso que sacraliza o amor e o torna o lugar derradeiro do sentido da vida”.

O homem divinizado assume o lugar de Deus, do sujeito absoluto. No terceiro e último ato de Interstellar, Cooper (Matthew McConaughey) sacrifica-se, por Amelia (Anne Hathaway) e pela humanidade inteira, ao mergulhar no horizonte de eventos do buraco negro a fim de poder transmitir os dados quânticos capazes de salvar a Terra. E os eventos subsequentes nos mostram que a salvação da humanidade depende da evolução e do aprimoramento tecnológico da própria humanidade – até o ponto em que o homem se torna Deus, capaz de dominar integralmente as leis do Universo e  de manipular o tempo e o espaço. É a utopia racionalista: quando atingida, em questão de tempo, finalmente poderemos nos recusar a entrar docilmente na noite acolhedora e reacender a luz que deixou de fulgurar. O filme perde em sutileza quando percebemos que os humanos do futuro, divinizados, evoluídos, tecnológicos, se tornaram incapazes de estabelecer comunicação efetiva com seus antepassados porque são incapazes de amar; à conquista da técnica segue-se uma involução sentimental e o homem do futuro perdeu sua aptidão para instituir ou reconhecer hierarquia de valores: por essa razão, os homens do futuro construíram para Cooper uma espécie de cubo cósmico, no interior do buraco negro Gargantua, que se assemelha ao quarto de sua filha; o restabelecimento dos laços históricos, entre passado e futuro, depende da (re)conquista da capacidade de amar e de sacrifícios que podem ser feitos em nome desse amor.

Entretanto, os erros lógicos do roteiro de Nolan, relacionados às suas escolhas para o desfecho do filme, inviabilizam a restauração das pontes entre passado e futuro, pois de que modo os seres humanos do futuro poderiam salvar-se a si mesmos, no passado, se a condenação da Terra se efetivasse? Cooper diz, a certa altura, resignado:

“Os pais são os fantasmas do futuro de seus filhos”

O grande equívoco de Interstellar é que, ironicamente, Cooper, ao se transformar no salvador de um futuro que não lhe pertence (por impossibilidade lógica), torna-se o fantasma do passado que nunca pretendeu ser.

 P.S.: apesar das irregularidades do roteiro, das explicações reiteradas, de falhas de encenação, vale a pena assistir ao filme; suas imagens são deslumbrantes, o primeiro ato é excelente (a preparação para a viagem interestelar), o segundo ato é regular (as viagens aos dois planetas pela ponte de Einstein-Rosen) e o terceiro ato é desastroso (o desfecho).

Batman e as duas cidades

“Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, pacíficas, úteis, prósperas e alegres. Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. O que faço é de longe a melhor coisa que fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.”

Eis as palavras lidas pelo comissário Gordon (Gary Oldman), diante de umas 3 ou quatro pessoas, no “funeral” de Bruce Wayne/Batman nas últimas cenas de “Batman – O Cavaleiro das trevas ressurge” (Batman – Dark knight rises).

São os últimos pensamentos de Sidnei Carlton,  personagem de “Um conto de duas cidades”, de Charles Dickens, a grande inspiração para o filme do Christopher Nolan – inspiração que não foi notada por nenhum dos nossos críticos cinematográficos.


Um conto de duas cidades” descreve os impactos da Revolução Francesa sobre indivíduos de todas as camadas sociais e o reino de terror, com suas execuções aleatórias e cruéis, que se seguiu. Embora desenhe panorama tão amplo, Dickens centra sua narrativa em relativamente poucos personagens: Charles Darnay, Lucie Manette, Dr. Manette, Jarvis Lorry, sr. e sra. DeFarge e Sidnei Carlton. Qual a relação entre o romance de 1859 e o filme de 2013?

1) A REVOLUÇÃO

A decadência moral e espiritual da França pré e pós-Revolução, o frenesi revolucionário sedento por sangue, o discurso de salvação dos “oprimidos” pelos aristocratas, o direito à vingança pelos “oprimidos”, a necessidade de derrubar o antigo para instaurar o novo, esses são aspectos que constituem parte da essência do livro de Dickens, cujo início estabelece o clima soturno, ao leitor, a respeito dos eventos que serão narrados:

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da razão, a idade da insensatez, a época da crença, a época da incredulidade, a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, todos iríamos direto para o Paraíso, todos iríamos direto no sentido oposto – em suma, a época era tão parecida com o presente que algumas das autoridades mais ruidosas insistiram que ela fosse recebida, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.”

“Estava por chegar a época em que outro vinho também seria derramado nas pedras da rua e tingiria de vermelho muitos dos que estavam ali.”

Após 8 anos dos eventos ocorridos no segundo filme (Batman – O cavaleiro das trevas), Batman é considerado um pária, um foragido da justiça. Bruce Wayne está recluso, não quer contato nenhum com o mundo: “não há nada lá para mim, Alfred”, diz Wayne. Suas empresas deixaram de lucrar, resultando em dificuldades financeiras para inúmeras outras instituições dependentes da Fundação Wayne. Eis que surge do subterrâneo o vilão, Bane, que personifica o revolucionário fervoroso.

O que é uma revolução? Olavo de Carvalho já deixou bem claro que se trata de modificar a realidade mediante a concentração de poder. O revolucionário acredita que a construção de um futuro redentor depende da aniquilação das tradições, da destruição do presente e da reelaboração do passado; o revolucionário é o transformador do mundo, portando é livre para agir no presente com vistas a esse futuro possível; como tem o monopólio das virtudes, coloca-se como “vítima”, ao lado dos “oprimidos”, estabelecendo as linhas gerais de um discurso maniqueísta (“nós contra eles”) que traduz uma visão de mundo rasa e bidimensional (dividido entre “oprimidos e opressores”); o corolário é que, como a História nos mostra, essa “vertigem libertadora” sempre degenera em anarquia e tirania. No filme isso bem claro em vários pontos:

a) Selina Keyle para Bruce Wayne: “Vem tempestade por aí, Sr. Wayne; é bom você e seus amigos se prepararem, porque quando ela chegar vocês irão se perguntar como pensaram que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós.”
Há uma correspondência direta com esta passagem do livro de Dickens: “Mas outros ecos, distantes, ressoavam de modo ameaçador naquela esquina, ao longo de todo esse tempo. E foi agora, na época do sexto aniversário da pequena Lucie, que começaram a ter um som terrível, como se houvesse uma enorme tempestade na França e o temeroso mar subisse.”

b) Alfred descreve Bane sabiamente: “dê uma olhada nele: a rapidez, a ferocidade, o treinamento; vejo o poder da crença nele”

c) Bane começa sua “revolução” de modo semelhante aos jacobinos franceses: libertando os presos da “Bastilha” de Gotham e invadindo e saqueando ambientes luxuosos: “atrás de mim (a prisão de Gotham) está um símbolo de opressão; vamos tirar Gotham das mãos dos corruptos, dos ricos e dos opressores, que subjugaram vocês com mitos de oportunidade; os poderosos serão arrancados de seus mundos decadentes e lançados ao mundo frio que conhecemos e ao qual sobrevivemos”

d) Não pode haver críticos à revolução: ou você é aliado ou faz parte dos “opressores” (ou da “mídia golpista”, das “elites”), cujo castigo é o desterro ou a morte. Bane instaura tribunais para julgar os tais “inimigos da revolução”, em que os acusados não tem direito nem à defesa nem a advogados; não são julgamentos propriamente, mas audiências para leitura das sentenças (“exílio ou morte”). Contrapartida em Dickens: “Que na prisão havia encontrado em sessão um tribunal autodesignado perante o qual os presos era apresentados um por um, e logo que ordenava que fossem massacrados (…).” “prisões abarrotadas de pessoas que não cometeram delito nenhum e não conseguiam obter o direito de serem levadas a julgamento; tais coisas tornaram-se a norma estabelecida e a essência dos eventos, e pareciam ser costume antigo antes de sequer completarem algumas semanas de existência. Acima de tudo, uma figura horrenda tornou-se tão familiar quanto se tivesse estado diante do olhar de todos desde a fundação do mundo – a figura de uma mulher afiada chamada Guillotine”.

e) Bane anuncia para o mundo possuir um reator nuclear, após destruir um campo de futebol americano; enquanto seu exército subterrâneo se preparava para invadir o gramado, uma imensa plateia assistia à apresentação do Hino Nacional, sem imaginar o mal que se avizinhava; o mal se prepara abaixo da superfície e o preço de ignorá-lo é a morte. A correspondência em Dickens: “A nova era se iniciou; o rei foi processado, condenado e decapitado; a república da Liberdade, Igualdade, Fraternidade, ou Morte, declarou-se pela vitória ou pela morte contra o mundo em armas; a bandeira negra ondulava dia e noite no alto das grandes torres de Notre-Dame; trezentos mil homens, convocados a se erguerem contra os tiranos da Terra, ergueram-se de todos os solos da França.”

f) O discurso de Bane é libertário, “contra os opressores”; ele pede que os moradores da cidade a tomem para si, criando uma falsa sensação de segurança, de controle, e transforma Gotham em uma cidade isolada – em que as pessoas não podem entrar ou sair – aterrorizada e desprovida de qualquer liberdade; o leitor pensou em uma ilha chamada…Cuba?

A Revolução Francesa de Robespierre e a revolução de Bane engendraram, sob promessas de verdadeira liberdade para o “povo”, de construção de um reino “do povo para o povo”, reinos de tirania, medo e opressão. Dickens descreveu isso muito bem: “Todos os portões da cidade e postos de cobrança de taxas dos vilarejos tinham seus grupos de cidadãos-patriotas, com seus mosquetes nacionalistas no mais explosivo estado de prontidão, que paravam todos os que chegavam e partiam, faziam-lhes interrogatórios cruzados, averiguavam-lhes os documentos, procuravam seus nomes em suas próprias listas, mandavam-nos voltar ou mandavam que seguissem adiante, ou os paravam e detinham, conforme seus juízos ou imaginações imprevisíveis supunham ser o melhor para a nascente República Una e Indivisível, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ou Morte.”

Todo discurso revolucionário busca eliminar a noção de indivíduo em prol de abstrações coletivistas (“oprimido”, “opressor”, “povo”, “capitalista”, etc.), objetivando com isso substituir a autonomia absoluta da consciência individual (a verdadeira liberdade) pela sujeição a uma igualdade imposta, ilusória e inexistente. O homem utópico deixa a realidade prática em troca de conceitos abstratos; em sua busca desesperada pelo seu lugar no mundo, persegue tudo o que é capaz de unir artificiosamente a pluralidade da realidade concreta, como uma ideologia. Dickens: “Ele mente – gritou o ferreiro. Ele é um traidor desde o decreto. Sua vida foi confiscada pelo povo. Sua maldita vida não lhe pertence!”

À morte física dos inimigos da Revolução, e dos opressores, seguiu-se a morte espiritual de uma nação inteira; após derrotar Batman em uma luta épica e brutal, Bane diz: “Quero saber o que será quebrado primeiro, seu corpo ou seu espírito”. A contrapartida em Dickens: “(A guilhotina) era o símbolo da regeneração da raça humana. Suplantava a cruz. Suas miniaturas eram usadas nos peitos onde a cruz fora descartada, e era a ela que faziam reverências e nela que acreditavam enquanto a cruz era renegada.”

O que toda Revolução promete é a possibilidade de conquistar o Paraíso perdido, nesta vida e nesta Terra; nas palavras de Bane, quando aprisiona Batman / Bruce Wayne em uma prisão nos confins da Terra: “Há uma razão para esta prisão ser o pior inferno na Terra: a esperança. Todo homem que apodreceu aqui, século após século, olhou para a luz e se imaginou subindo rumo à liberdade. Tão fácil, tão simples, como náufragos bebendo água do mar devido à sede incontrolável, muitos morreram tentando. Eu aprendi que não há desespero real sem esperança. Então, quando eu aterrorizar Gotham, vou dar às pessoas esperança para envenenar suas almas.”

2) A QUEDA – A CIDADE DOS HOMENS

Bane aprisiona Batman / Bruce Wayne no poço daquela que foi sua prisão outrora: “Vai conhecer onde fui criado, enquanto me preparava para fazer justiça. Nasci nas trevas, fui moldado por elas; só vi a luz quando já era um homem e só o que me fez foi cegar-me.”
Só há uma saída do poço: escalar suas paredes e saltar pelo abismo para outra parede e daí para fora. Depois de recuperado fisicamente, Bruce Wayne, içado por uma corda, tenta inúmeras vezes realizar a escalada e o salto, mas é constantemente malsucedido. Um dos prisioneiros, antigo médico da prisão, diz a ele que

“o salto para a liberdade não é uma questão de força; a sobrevivência é a do espírito”

O que o prisioneiro está a dizer a Bruce Wayne é que, para escapar, será necessário mais do que um salto: será necessário que ele dê um salto de fé.
Eis que chegamos à outra inspiração do filme de Christopher Nolan e do livro de Charles Dickens: Santo Agostinho e seu livro “A cidade de Deus”.

Para Santo Agostinho, o homem, com a perda do Éden, se põe a construir cidades, para sua própria glória; o homem elege como fim último de sua existência sua autoglorificação, nos limites da cidade, a cidade dos homens. A cidade dos homens é a cidade do amor por si mesmo, na soberba e no orgulho, do amor relacionado a tudo o que é mundano; o amor pela glória de homens que se encontram sozinhos em si mesmos e uns com os outros, atendo-se à vida terrena nas cidades do amor próprio, e encontrando nelas os fins últimos de sua existência, apartados de Deus. Segundo Agostinho, dois amores construíram duas cidades: o amor de si até o desprezo de Deus – a cidade dos homens; o amor a Deus até o desprezo de si – a cidade de Deus. É pelo amor por si, pelo poder recém-conquistado, que o povo “oprimido” encena sua ilusão de controle da cidade, que permite a Bane enganá-los, pois ele é o verdadeiro responsável pelo destino de Gotham. É pelo desprezo de si que Bruce Wayne poderá dar seu salto de fé sobre o abismo e que lhe permitirá escapar da prisão.

Salto de fé: da cidade dos homens para a cidade de Deus. A carta encíclica Lumen Fidei do papa Francisco nos ensina que a fé “é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado, abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas.”

No filme, vemos isso acontecer quando Bruce Wayne salta o abismo sem cordas que lhe prendam. Batman está pronto para o sacrifício que lhe será exigido para salvar a sua cidade.

3) O SACRIFÍCIO – A CIDADE DE DEUS

Um conto de duas cidades”: é um livro que fala da França e da Inglaterra, Paris e Londres. Mas é um livro que fala sobre duas outras cidades: a cidade dos homens e a cidade de Deus. No sermão 81 dos “Sermões sobre a queda de Roma”, Agostinho nos diz que

“Vós viestes a este mundo para partir; não vos deixeis perturbar pelos que amam o mundo, os que querem ficar no mundo mas, queiram ou não queiram, são forçados a deixá-lo; que eles não vos iludam, não vos seduzam. Estes sofrimentos não são escândalos. Sede justos, e eles serão antes provações.”

Ao longo do livro, Sidnei Carlton, o “mais indolente e menos promissor dos homens” (“Sou um burro de carga frustrado, senhor. Não me importo com ninguém neste mundo e ninguém neste mundo se importa comigo.” “O senhor me conhece; sabe que sou incapaz dos melhores e mais altos voos que cabem aos homens.”), passa por uma transformação: abandona sua vida pregressa e torna-se um homem que  se redime através do sacrifício por amor.

“Com as forças esgotadas e o deserto ao seu redor, esse homem parou quando atravessava um terraço silencioso e viu, por um instante, deitada na selvageria que tinha diante de si, uma miragem de ambição decente, abnegação e perseverança. Na cidade clara na qual se dava a aparição, galerias arejadas de onde os amores e as graças o observavam de cima, jardins em que os frutos da vida amadureciam, águas de esperança que brilhavam perante seus olhos. Um instante depois, acabou. Subindo até seus aposentos, que ficavam num andar alto, num amontoado de casas, ele se jogou ainda vestido na cama negligenciada e molhou seu travesseiro de lágrimas desperdiçadas.”

“Era sim a atitude arraigada de um homem cansado, que perambulara e lutara e se perdera, mas enfim encontrava seu caminho e via onde ele terminava. Muito tempo antes, quando era famoso entre seus primeiros concorrentes como um jovem muito promissor, seguira o pai até o túmulo. A mãe havia morrido anos antes. Aquelas palavras solenes que foram lidas no funeral do pai surgiam em sua mente enquanto ele caminhava pelas ruas escuras, em meio às sombras opressivas, com a lua e as nuvens correndo o céu acima de sua cabeça. “Eu sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor: quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá: e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá.” Em uma cidade sob o jugo do machado, sozinho na noite, com melancolia brotando dentro de si pelos 63 que naquele dia foram executados, e pelas vítimas de amanhã, que aguardavam seus destinos na prisão, e as dos outros amanhãs, o fluxo de associações fez com que ele se recordasse das palavras, assim como a âncora enferrujada de um velho navio poderia ser encontrada com facilidade no fundo do mar.”

Por amor à Lucie Manette, pelo amor à felicidade que lhe poderá propiciar, possibilitando sua reunião definitiva com sua família, ele prepara um arranjo folhetinesco e troca de lugar, na prisão, com o marido dela, Charles Darnay, acusado injustamente pelo tribunal da revolução e sentenciado à morte.

Na cidade dos homens, sacrifica-se uma vida em prol da revolução, em prol da glória de um futuro terreno promissor:

“Naquela manhã, Saint-Antoine era uma vasta massa obscura de espantalhos correndo de um lado para outro, com frequentes raios de luz em cima das cabeças revoltas, onde lâminas de aço e baionetas reluziam ao sol. (…) Todos os seres vivos dali viam a vida como algo sem importância, e eram atingidos pela loucura de se prontificarem com veemência a sacrificá-la.”

Em seus últimos pensamentos, que são os mesmos mencionados pelo comissário James Gordon, a respeito de Bruce Wayne – enquanto Sidnei Carlton se prepara para seu último sacrifício por aqueles a quem ama – o mesmo sacrifício que será exigido de Batman / Bruce Wayne no filme –, percebemos sua confiança na cidade, nas pessoas e em seu destino. Seu salto de fé estava completo.

Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo e, em suas lutas para serem livres de verdade, em seus triunfos e suas derrotas, nos longos anos que ainda estão por vir, vejo o mal desta época e da época passada, da qual naturalmente se originou, aos poucos expiando a si próprio e se esgotando. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, tão pacíficas, úteis, prósperas e alegres, na Inglaterra que não voltarei a ver. (…) Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. Eu a vejo, mulher idosa, chorando por mim no aniversário deste dia. Vejo o marido e ela, depois de percorrerem todo o seu caminho, deitados lado a lado no último leito mundano que dividirão, e sei que um não foi mais honrado e sagrado na alma do outro do que fui na alma de ambos. (…) O que faço é de longe a melhor coisa que já fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.”

Veja o filme. Leia o livro.

A mitologia do Superman

De acordo com o filósofo e historiador de religiões Mircea Eliade, autor de “Mito e realidade” (editora Perspectiva, 1963), a dupla personalidade Clark Kent-Superman

satisfaz as nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se decaído e limitado, sonha revelar-se um dia um personagem excepcional”

explicando assim a popularidade desse herói, um mito moderno. Entre os principais críticos cinematográficos do país não há nenhum comentário, a respeito do filme “Homem de Aço” (Man of steel), em cartaz atualmente, que mencione a reconstrução dessa mitologia, feita pelo Christopher Nolan – autor e diretor da trilogia “Batman – Cavaleiro das trevas”, e responsável pela história deste Superman e um de seus produtores executivos. “Homem de aço” é um filme que quase chegou a ser um grande filme. Parece coisa de um aluno invulgar, acima da média, que teve uma boa ideia, mas que (ainda?) não dispõe dos recursos necessários para expressá-la.

Não me recordo da fonte exata para citá-la, lembro-me, apenas, de uma asserção a respeito da peculiaridade do “Superman” entre os super-heróis de histórias em quadrinhos: todos os outros são personagens com passado próprio e que, por diversas razões contingenciais, no curso de suas vidas estabeleceram-se como vigilantes combatentes do crime, enquanto que o Superman é o Superman – e Clark Kent é um personagem inventado por ele, sem história, sem passado; é o seu disfarce para viver entre os humanos. Pedro Sette Câmara, a respeito de “Batman – Cavaleiro das trevas”, escreveu que o drama da maioria dos super-heróis decorre do “duplo angélico”, um aspecto “girardiano” de suas personalidades (René Girard, filósofo francês, criador da teoria mimética e do mecanismo da vítima expiatória, autor de “Mentira romântica e verdade romanesca”, “A violência e o sagrado”, entre outros): todos tem uma personalidade relativamente banal e indistinta, maximamente afetada pelo ambiente, por tudo e todos ao redor, e uma personalidade “perfeita”, que afeta a todos sem ser por eles afetada.

A história do filme: antevendo a destruição do planeta Krypton, Jor El (Russel Crowe) envia seu filho recém-nascido (Kar-El) para a Terra, em um foguete espacial, espécie de cesto de Moisés futurista. Adotado por Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), Kar-El é transformado em Clark Kent, e passa sua infância e adolescência tentando lidar com tudo aquilo que o faz diferente dos outros – tentando entender quem é. Seus pais – alienígenas e terráqueos – são portadores de uma ética cristalina e inabalável e identificam nele o grande homem que virá a ser. Ambos sentem que, por ser tão “diferente”, sofrerá hostilidades e será incompreendido, devendo, portanto, permanecer nas sombras, até que as circunstâncias adequadas se apresentem e ele esteja pronto para responder à altura. Seu pai Jor-El diz, em certo momento, que, “com o tempo, poderá guiá-los (a nós) em direção ao Sol. Exilado de seu planeta natal, instalado involuntariamente em um mundo que lhe é hostil, imerso em tormenta de dúvidas, portador de uma identidade esfacelada, Clark (Henry Cavill) abandona seu lar e tenta fugir em direção ao esquecimento. Quer anular sua existência ao tentar (em vão) não deixar rastros por onde passa. Sem saber, está em busca de autoconhecimento. Esse exílio voluntário ocorre após a morte do pai adotivo – uma cena pungente, na qual o pai tenta mostrar ao filho, atônito, a grandeza e o sofrimento exigidos pelo sacrifício de tudo o que se preza, do que se considera importante, em prol de algo maior. Seria fácil, a partir de agora, descrever o filme nos termos da “saga do herói” proposta por Joseph Campbell: a trajetória “espiritual” e circular de um personagem que parte em uma jornada para tentar descobrir seu lugar no mundo – por sentir-se deslocado na rotina da sociedade, o que o leva a enfrentar situações inusuais e reveladoras –, e volta modificado, maduro, ciente de si. Prefiro retornar ao romeno Mircea Eliade. Para o filósofo, mitos descrevem irrupções do sagrado no mundo, na realidade cotidiana, e não somente se tornam modelos exemplares de comportamento como os revelam, e por isso são capazes de modificar a condição humana. Elegendo uma virtude como modelo ímpar, sacralizando-a, um mito impõe e salvaguarda princípios morais. Quando o general kryptoniano Zod e seus séquitos aportam na Terra, atrás de Kar-El, procurando por algo que ele guarda – o código genético que permitiria o renascimento de seu extinto planeta de origem – e dispostos a destruir tudo o que estiver à sua frente para obtê-lo, Clark Kent/Kar-El/Superman está pronto: sabe quem é e o que deve fazer; revela-se para o mundo, aos 33 anos de idade, disposto a sacrificar-se para salvá-lo; como bode expiatório, entrega-se às autoridades para que estas o entreguem a Zod. E, ao posicionar-se em favor dos habitantes desta Terra (imperfeita), torna-se capaz de escolhas morais e de suportar as consequências de suas atitudes. Por meio de imagens simbólicas – às vezes reiteradamente repetitivas e que, aliadas a diálogos ocasionalmente pouco inspirados, enfraquecem o filme –, Nolan (reconheço que parte do crédito também se deve ao diretor, Zack Snyder, o mesmo daquele épico kitsch “300”) não deixa dúvidas sobre os referenciais bíblicos utilizados: o paralelismo entre a trajetória de Superman e a de Cristo. Ao retornar à origem da história de Superman, Nolan reconstrói o mito e o transforma em um símbolo de esperança (esse é o significado da letra “S”, em linguagem kryptoniana) num planeta sombrio, de tons de cinza. Em um modelo exemplar, a ser seguido.

Christopher Nolan dirigiu dois filmes excepcionais – “Amnésia” (que trata da elaboração da realidade quando não há memória para prefigurá-la) e “Insônia” (no qual a mancha de um ato imoral atormenta e aprisiona seu protagonista, em meio a uma claridade perpétua) – e dois trambiques pirotécnicos – “A origem” e “O grande truque”. Com a trilogia “Batman – Cavaleiro das trevas”, atribuiu uma grandiosidade filosófica incomum ao gênero de filmes de heróis de quadrinhos que se distancia muito da estupidez reinante em “Os Vingadores”, “Homem de Ferro”, “O espetacular homem-aranha”, “Capitão América”, “Incrível Hulk” e por aí afora. É afeito a personagens em conflitos e dilemas morais. No entanto, nos quarenta e cinco minutos finais de “Homem de aço”, a falta de sutileza, latente até então, aflora torrencialmente, e a história se transforma em um épico de destruição típico de videogame, a fim de contentar plateias ansiosas por frenesi, barulho e efeitos especiais. É aqui que o filme se afasta de suas pretensões de grandeza e se aproxima da grandiosa mediocridade.