Educação médica

As Humanidades na formação médica

Este é o texto integral da versão que foi publicada no jornal A Gazeta do Povo.

“A medicina está em convulsão hoje porque a sociedade também está convulsionando” (Edmund D. Pellegrino, 1969)

Debates sobre a precariedade da saúde pública inevitavelmente resvalam para a necessidade da humanização. Reivindicação justa, apesar de apresentada quase sempre sob retórica propagandística, como “meta diferenciada a ser alcançada em programas de controle de qualidade hospitalar”. Em conformidade com o imaginário tupiniquim de que problemas se resolvem com mais leis, a formação humanística do estudante de medicina já está determinada no capítulo III, artigo 29, da resolução que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Medicina: “(a estrutura do curso de graduação em medicina deve) incluir dimensões ética e humanística, desenvolvendo, no aluno, atitudes e valores orientados para a cidadania ativa multicultural e para os direitos humanos”. Eis o contexto para o surgimento de uma disciplina denominada Humanidades Médicas, cujo objetivo é incluir, na graduação, tópicos relacionados à literatura, filosofia e artes. A desumanização dos profissionais de saúde tem sido atribuída a diversos fatores, os mais frequentemente mencionados são: sobrecarga de trabalho, baixa remuneração, interface tecnológica entre paciente e médico, “judicialização” da saúde, reducionismo biomédico (que enxerga a doença mas não o doente). Neste ponto, precisamos invocar o famoso personagem do escritor britânico G.K. Chesterton, padre Brown, que, em determinado momento do conto The point of a pin, diz: “não é que eles não conseguem encontrar uma solução. É que eles não conseguem ver qual é o problema.” (The scandal of father Brown, Penguin Classics, 2014). Se quisermos ultrapassar demagogias e diretrizes burocráticas para confrontarmos o real problema, primeiramente é necessário retomarmos o conceito de “humanismo”.

 

O termo latino Humanitas refere-se ao ideal de educação e formação plena do homem para além de qualquer utilidade prática, com base nas “artes liberais”. De acordo com Edmund Pellegrino, médico especialista em bioética, falecido em 2013 – nome pouquíssimo conhecido no Brasil, infelizmente – humanismo em medicina é um ideal educacional para a formação plena do médico, composto por dois elementos: cognitivo – que lidaria com o médico sob a perspectiva de um ser cultural, alguém possuidor de ideias, valores e modos de expressão – e afetivo – relacionado com a atenção e os sentimentos do médico em relação à condição existencial do indivíduo que está doente; ambos os elementos deveriam ser erigidos sobre base técnica competente – sem destreza, o médico humanista é inautêntico (Edmund Pellegrino, Educating the humanist physician – an ancient ideal reconsidered, The Jornal of the American Medical Association, 1974). Entretanto, a crise que se abate sobre as Humanidades está diretamente implicada na gênese de três mal-estares presentes na cultura, descritos pelo filósofo canadense Charles Taylor (As fontes do self – a construção da identidade moderna, edições Loyola, 1997 e A ética da autenticidade, editora É Realizações, 2011), e que impossibilitam justamente a elaboração cabal da imagem do homem perante a si e aos outros: o individualismo, a primazia da razão instrumental e a perda da liberdade. Por outras palavras: as ciências humanas tem contribuído ativamente para a elaboração de uma imagem desumanizada do homem, em razão da contaminação político-ideológica que é diretamente proporcional ao menosprezo pela herança humanista:

         “Educar significa formar lideranças, agentes de mudanças, homens e mulheres dispostos a assumir riscos para construir uma vida melhor. (Jacques Marcovitch, Os desafios da área de Humanidades no Brasil e no mundo, revista Estudos Avançados, volume 16, nº 46, 2002).

 

         “A humanização surge, na história mais recente da Saúde no país, sob a forma de movimentos políticos e ideológicos para a transformação da cultura e da prática profissional em uma perspectiva interativa”. (Humanização e humanidades em medicina – a formação médica na cultura contemporânea, Izabel Cristina Rios e Lilia Blima Schraiber, editora UNESP, 2012, pág. 46)

 

A depreciação das religiões tradicionais, a valorização da vida voltada a si e o louvor a certa espiritualidade difusa, desprovida de significado (porque capaz de comportar qualquer definição que se queira dar) amputaram o homem de vínculos com uma realidade que o transcende. A estrutura da realidade, para o medieval, articulava-se pela unidade de Bem, Belo e Verdadeiro; atualmente, o “Verdadeiro” encontra-se em descrédito e Bem e Belo desintegraram-se em princípios autônomos. Conforme descreveu Martim Vasques da Cunha (A Poeira da Glória, editora Companhia das letras, 2015), a realidade, regida exclusivamente pelo princípio do Belo, se apresenta sob perspectiva estética – onde o que importa é a aparência. O real, visto como obra de arte, permite que cada indivíduo seja livre para modelar-se como bem entender:

         “O século XX foi um período de profundo rompimento com as tradições, e a busca dos tesouros deixados entre as névoas desse passado rompido concorreu para que as instituições legitimadoras – entre elas a médica – empreendesse a invenção de suas tradições (…)”. André Mota, no prefácio do livro Humanização e humanidades em medicina – a formação médica na cultura contemporânea (Izabel Cristina Rios e Lilia Blima Schraiber, ed. UNESP, 2012).

 

A emancipação da vontade perante qualquer horizonte moral transcendente, que funcionava como quadro de referências capaz de dar significado espiritual à vida, emparedou a liberdade para agir sob o jugo da necessidade de satisfazer veleidades transitórias a qualquer custo. Desprovido de configurações capazes de atribuir sentido para práticas morais, o homem se tornou a medida de todas as coisas. Critérios para distinções qualitativas sobre certo ou errado não são mais vistos como necessários. Sob égide individualista, as ciências humanas apregoam que fatos inexistem objetivamente, são construídos conforme interesses contingentes. E, se o conhecimento é convenção social, a verdade é convenção sociológica. Valores são reverenciados como equivalentes no altar da isonomia, emoldurado pelo politicamente correto:

         “Ser capaz de relativizar sobre os conhecimentos e as práticas em medicina, reconhecendo diferentes discursos, “verdades” e saberes”. Objetivos terminais da área de Humanidades no ensino médico de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (http://medicina.fm.usp.br/cedem/hum/disciplinas.php).

 

O ensimesmamento frutífero, vinculado ao cultivo saudável da vida interior, perverteu-se em autoindulgência empenhada no prazer imediato. A percepção estética da realidade se reflete no rebaixamento das artes: ou servem exclusivamente à apreciação sensorial do mundo ou são instrumentalizadas para o desenvolvimento de uma “consciência social”, que discrimina a sociedade em vítimas ou opressores. Os elementos formadores da cultura do Ocidente, que deveriam ser preservados, são repudiados como arbitrários, elitistas, racistas, sexistas.

Sem configurações morais, a ética das virtudes (preocupação com o “viver bem”, com o que é valioso por si mesmo e digno de admiração) se transforma numa ética da eficiência (preocupação em determinar os princípios para a ação, de modo a “maximizar” os resultados). Dada a inexistência de fatos na realidade “manifesta” (para usar os termos do filósofo norte-americano Wilfrid Sellars – Philosophy and the scientific image of man, Ridgeview publishing digital, 2012), conforme propagado pelas ciências humanas, configura-se a ideia de que as verdades objetivas devem ser obtidas pelas ciências naturais, e a perspectiva moderna passa a privilegiar a “imagem científica” da realidade como única capaz de fornecer sentido existencial. A pressão pela eficiência resulta no que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han denominou de “sociedade do esgotamento”: o desaparecimento do universo moral transcendente, em vez de conduzir à liberdade, conduz à liberdade coercitiva de uma sociedade disciplinar na qual somos, simultaneamente, prisioneiros e vigias, e cujas exigências por desempenho resultam em cansaço (Byung-Chul Han, Sociedade do cansaço, editora Vozes, 2010).

 

Harmonizados, os elementos cognitivo e afetivo, necessários ao ideal de humanismo em medicina, permitiriam ao médico “não apenas compreender a sua ciência, mas também identificar-se com a humanidade daqueles a quem ele serve” (Edmund Pellegrino, From medical ethics to a moral philosophy of the professionals, Notre Dame Press, 2011). Resta saber se as Humanidades serão capazes de abandonar seu arcabouço ideológico e retomar a vocação para o estudo, a preservação e o legado do repositório de conhecimento e moral sobre o qual o Ocidente foi constituído, e auxiliar na difícil e nobre missão de formar o profissional médico como ser humano pleno e tecnicamente habilidoso.