James Joyce

Os vivos e os mortos

Em certo momento do filme, baseado no conto “Os mortos”, de James Joyce, “Os vivos e os mortos” (“The dead”, dirigido por John Houston, com 81 anos de idade na ocasião, e que morreu no ano de lançamento do filme, 1987), Gabriel Conroy faz um comentário à sua mulher, Gretta, sobre o cavalo Johnny, de seu avô, cujo trabalho consistia em dar voltas e voltas em torno de um moinho para direcionar seu funcionamento; um dia, quando resolveu comparecer à cidade para assistir a um evento, deixou o cavalo amarrado a uma estátua. Ao retornar, percebe que o cavalo está dando voltas e voltas, em torno da estátua. Esse momento prenuncia a epifania que Gabriel terá a respeito de sua própria vida. Já escrevi neste blog que se trata de um de meus filmes favoritos.

Teologicamente, epifania refere-se à manifestação divina. No dia 06 de Janeiro, a liturgia católica celebra a festa dos santos reis ou a Epifania do Senhor (“e eis que a estrela que viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino. E vendo a estrela, alegraram-se com grande e intenso júbilo” – Mateus 2, 9-10). A palavra epifania, do grego epipháneia, significa “aparição”, “manifestação”; no conto, é o breve instante em que o protagonista, Gabriel, experimenta uma revelação, na qual aspectos ignorados ou ocultos da realidade são, subitamente, revelados – por um evento, um pensamento ou ocorrência inesperados – e que tem a capacidade de arrancá-lo do sonambulismo do presente. Naquele preciso momento, a rotina se quebra e o presente se faz, circunstancialmente, eterno – para depois se tornar esquecido. As epifanias são essenciais nas obras de Joyce:

“As cinzas nuvens recobriam o céu. No entroncamento de três ruas, numa margem pantanosa, um grande cão está deitado. De tempos em tempos, ele levanta o focinho e solta um lúgubre uivo. As pessoas param para olhá-lo e depois continuam sua caminhada. Alguns param, cativados talvez por esta lamentação na qual lhes parece escutar a voz de sua própria dor, que outrora podia falar, mas agora é muda, escrava dos trabalhos e dos dias.”

Estamos diante de um raro caso no qual o filme é tão bom quanto a obra que o inspirou. A história se passa em Dublin em 1904, 06 de Janeiro, na noite de Reis. Gabriel Conroy (Donal McCann) e sua esposa Gretta (Angélica Huston) são, juntamente com outros, convidados para uma tradicional ceia de confraternização em casa das tias Kate e Júlia, e Mary Jane. É uma celebração da vida, dos que estão vivos, em que há danças e boa comida e conversas banais, a despeito da memória dos que se foram. Ao discursar para os convivas, Gabriel diz:

“Em congraçamentos como este sempre nos ocorrem tristes recordações: recordações do passado, da juventude, de como as coisas mudaram, de rostos ausentes aqui esta noite. Nossa caminhada pela vida é marcada por essas lembranças tristes: e se nos permitíssemos ficar remoendo tais lembranças não teríamos a coragem se seguir em frente com destemor na nossa luta em meio aos vivos. Todos temos deveres vivos a afetos vivos que requerem, e tem o direito de requerer, a nossa incansável dedicação.”

Um dos personagens – que não existe no conto -, Mr. Grace, recita, em determinado momento, uma versão curta de um poema irlandês do séc. VIII, “Donald Og” (Jovem Donald) – relacionado com os temas da história que se desenvolve –, que descreve o sofrimento amoroso, o sofrimento da ausência do amor; descreve o instante em que  cada elemento do mundo corresponde à corporificação da ausência – uma ausência que conduz à escuridão dos dias que restam (“and my fear is great that you have taken God from me”). Segue uma canhestra tradução minha e, depois, o poema original (o que está destacado não aparece no filme) na versão de Lady Augusta Gregory:

Era tarde a noite passada, o cão falava de você.
Das profundezas do pântano o pássaro falava de você.
Você é o pássaro solitário na floresta.
Que você fique sem companhia até achar-me.

Você me prometeu e mentiu para mim.

Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.
Eu assoviei e gritei cem vezes
E não achei nada lá, a não ser uma ovelha balindo.

Você prometeu-me algo difícil:
Um navio de ouro sob um mastro prateado,
Doze cidades e um mercado em todas elas
E uma bela branca praça à beira mar,

Você prometeu-me o que não era possível:
Que me daria luvas de pele de peixe
E sapatos de pele de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.

Quando caminho sozinha ao poço da solidão

Aninho-me junto ao meu sofrimento;

Vejo o mundo e nele não está meu amado

Com seu cabelo de tom acastanhado.

Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã nem Domingo.
Foi um mau momento para dizer-me isso.
Foi como trancar a porta depois da casa saqueada.

Você tirou o Leste de mim, tirou o Oeste de mim,
Tirou o que existe à minha frente, tirou o que há atrás,
Tirou a lua, tirou o sol de mim,
E o meu maior receio é que tenha tirado Deus de mim.

 

Donal Og

It is late last night the dog was speaking of you;
the snipe was speaking of you in her deep marsh.
It is you are the lonely bird through the woods;
and that you may be without a mate until you find me.

You promised me, and you said a lie to me,
that you would be before me where the sheep are flocked;
I gave a whistle and three hundred cries to you,
and I found nothing there but a bleating lamb.

You promised me a thing that was hard for you,
a ship of gold under a silver mast;
twelve towns with a market in all of them,
and a fine white court by the side of the sea.

You promised me a thing that is not possible,
that you would give me gloves of the skin of a fish;
that you would give me shoes of the skin of a bird;
and a suit of the dearest silk in Ireland.

When I go by myself to the Well of Loneliness,
I sit down and I go through my trouble;
when I see the world and do not see my boy,
he that has an amber shade in his hair.

It was on that Sunday I gave my love to you;
the Sunday that is last before Easter Sunday.
And myself on my knees reading the Passion;
and my two eyes giving love to you for ever.

My mother said to me not to be talking with you today,
or tomorrow, or on the Sunday;
it was a bad time she took for telling me that;
it was shutting the door after the house was robbed.

My heart is as black as the blackness of the sloe,
or as the black coal that is on the smith’s forge;
or as the sole of a shoe left in white halls;
it was you that put that darkness over my life.

You have taken the east from me; you have taken the west from me;
you have taken what is before me and what is behind me;
you have taken the moon, you have taken the sun from me;
and my fear is great that you have taken God from me!

Quando os convidados estão se retirando, Gabriel encontra sua mulher no patamar, melancólica, distante, escutando uma voz que canta a belíssima “The lass of Aughrim” (a garota de Aughrim):

“Gabriel não fora até a porta juntar-se aos outros. Ficara numa parte escura do hall olhando escada acima. Uma mulher estava de pé próxima ao primeiro patamar, igualmente na penumbra. Ele não conseguiu ver o rosto dela, mas os babados da saia em tons terra e salmão eram visíveis e na sombra pareciam preto e branco. Era sua esposa. Estava encostada na balaustrada ouvindo alguma coisa. Gabriel surpreendeu-se ao vê-la tão imóvel e prestou atenção para ouvir também. (…) Deteve-se ali na penumbra do hall, tentando identificar a canção que a voz entoava e com o olhar fixo na mulher. Havia em sua atitude graça e mistério como se ela fosse símbolo de algo. Perguntou a si mesmo o que poderia simbolizar uma mulher na penumbra, no topo de uma escada, ouvindo música ao longe.”

‘The Lass of Aughrim’

If you be the lass of Aughrim,
As I suppose you not to be
Come tell me the last token
That passed between you and me.

Oh Gregory don’t you remember
that night on yon lean hill?
When we both met together

Which I am sorry now to tell

The rain falls on my yellow locks
And the dew it wets my skin;
My babe lies cold within my arms:
Lord Gregory let me in.

Oh Gregory, don’t you remember
One night on yon lean hill?
When we swapped rings off each other’s hands,
Sorely against my will?
Yours was of the beaten gold,

Mine was but black tin

Yours cost one guinea love

Mine was but one sand
The rain falls on my yellow locks
And the dew it wets my skin;
My babe lies cold within my arms:
Oh Gregory, let me in.

Oh Gregory don’t you remember
that night in my father´s hall

When you had your  will on me

And that was worse than all
The rain falls on my yellow locks
And the dew it wets my skin;
My babe lies cold within my arms:
Lord Gregory let me in.

Gabriel direciona sua atenção ao modo abstraído como Greta escuta a canção, e não à letra – sobre uma mulher que fora seduzida por um tal lorde Gregory e depois abandonada; ela vai até sua casa, sob a chuva, com seu filho nos braços e o coração partido, implorando a ele que os deixe entrar. Gabriel está pensando na intimidade compartilhada com a mulher, no convívio de ambos. Uma intimidade tão equivocada quanto o que imagina  sentir a mulher, ouvindo a música – ela está distante dele, como estivera desde sempre. A música a transportou de volta ao passado e a um amor de juventude.

“Ela caminhava à frente dele tão leve e tão ereta que ele desejava alcança-la na surdina, agarrá-la pelos ombros e sussurrar-lhe ao ouvido algo tolo e apaixonado. Parecia-lhe tão frágil que tinha ímpetos de defendê-la de um perigo qualquer e então ficar a sós com ela. Momentos da vida íntima dos dois irromperam-lhe na memória como estrelas.(…)Como o brilho terno das estrelas, momentos da vida deles juntos, dos quais ninguém tinha e jamais teria conhecimento, precipitavam-se e iluminavam-lhe a memória.(…)Por que se mostrava ela tão distante?(…) Ansiava por desvendar o motivo do estranho estado de espírito em que ela se encontrava.(…)

Gretta, querida, em que você está pensando?(…) Conta para mim, Gretta. Acho que sei do que se trata. Será que sei?

Ela não respondeu de imediato. Então disse em meio a uma explosão de lágrimas: Ah, estou pensando naquela canção, The lass of Alghrim. (…) Estou pensando numa pessoa que muito tempo atrás costumava cantar aquela canção.(…) Foi um rapaz que conheci.(…)

Alguém por quem você esteve apaixonada? – ele perguntou ironicamente.

Foi um rapaz que conheci – ela respondeu –, chamado Michael Furey. Ele costumava cantar essa canção, The lass of Aughrim.(…) Ele está morto. Morreu aos dezessete anos de idade.(…) Fui feliz ao lado dele naquela época.(…)

E ele morreu do quê, Gretta, tão jovem?

Acho que morreu por mim – ela respondeu. (..) Foi no inverno, quando eu estava prestes a deixar a casa de minha avó para vir estudar aqui no colégio de freiras. Ele estava adoentado na pensão em Galway e não o deixavam sair, e escreveram para a família dele, em Oughterard. Ele estava definhando, foi o que disseram (…). E daí, quando chegou o momento de eu ir embora de Galway e vir para o colégio interno ele piorou muito e não me deixaram vê-lo (…) Na véspera da partida, eu estava na casa de minha avó fazendo as malas, quando ouvi uma pedrinha bater na vidraça. A janela estava tão úmida que eu não conseguia ver nada lá fora, então do jeito que eu estava, desci a escada correndo e saí pela porta dos fundos e lá estava o pobre coitado, no fundo do quintal (…) Eu implorei que voltasse imediatamente para casa e disse que a chuva ia acabar com ele. Mas ele disse que não queria viver. (…) E quando eu completei uma semana no colégio interno, ele morreu e foi enterrado em Oughterard, que é a terra da família dele. Ah, o dia em que recebi a notícia que…que ele estava morto!”

A epifania: Gabriel percebe que nunca tivera o amor exclusivo da mulher; que ignorava um dos episódios mais importantes de seu passado sentimental; que ela nunca sentiu por ele a paixão que sentira por Michael Furey; que desconhecia o tipo de vida na qual é possível morrer por amor. Que vivera na neutralidade, como um sonâmbulo, entre os vivos e os mortos. Reconhece o fracasso que fora sua própria vida; reconhece a passagem do tempo e a efemeridade das coisas; reconhece-se, ao contrário de Narciso, diante de um espelho deformado que metamorfoseou sua vida em ilusão e, ao ocultar os fantasmas que nela transitavam, transformara-o em um.

“Então, ela vivenciara aquele romance: um homem morrera por sua causa. Pouco lhe doía agora o papel sem importância que ele, o marido, desempenhara na vida dela. Olhava para ela adormecida, como se os dois jamais tivessem vivido juntos como marido e mulher.(…) Lembrou-se do turbilhão de emoções que sentira uma hora atrás. De onde surgira tudo aquilo? (…) Da festa na casa das tias, do discurso idiota, do vinho e da dança, das despedidas alegres no hall(…). Pobre tia Julia! Ela também em breve seria um espectro(…)Ele bem que notara o olhar abatido da senhora quando cantou Arrayed for the bridal. Talvez em breve ele estaria sentado naquele mesmo salão, de luto, com o chapéu apoiado sobre os joelhos. As cortinas estariam fechadas e tia Kate estaria sentada ao seu lado, chorando e assoando o nariz e contando como Julia morrera. Ele procuraria palavras de consolo, e encontraria somente frases banais e inúteis. (…) O ar dentro do quarto gelou seus ombros. Ele esticou-se cuidadosamente embaixo dos lençóis e ficou deitado ao lado da esposa. Um por um estavam todos se transformando em espectros. Seria preferível passar para o outro mundo de maneira corajosa, na glória de uma paixão, que murchar e secar lentamente na velhice. Ele pensou no fato de que aquela que estava deitada ao seu lado ocultara no coração durante tantos anos aquela imagem dos olhos do amado, dizendo a ela que não queria viver. Lágrimas abundantes encheram-lhe os olhos. Ele próprio jamais tivera esse tipo de sentimento em relação a uma mulher mas sabia que aquilo era amor. Mais lágrimas vieram-lhe aos olhos e na penumbra ele imaginou ver a figura de um rapaz parado embaixo de uma árvore pingando. Havia outras figuras em volta. A alma dele se acercara da região habitada pela vasta legião dos mortos. Ele pressentia a existência errática e perambulante dos mortos, embora fosse incapaz de apreendê-la. Sua própria identidade desaparecia num mundo cinzento e incorpóreo: o mundo sólido, antes construído e habitado por esses mortos, dissolvia-se e se esvaía.”

A cena final é uma das mais belas da Literatura – e do cinema.

“Leves batidas na vidraça fizeram-no virar-se para a janela. Recomeçava a nevar. Sonolento, ele observou os flocos prateados e escuros precipitando-se obliquamente contra a luz do lampião. Chegara o momento de iniciar a viagem para o oeste. Sim, os jornais tinham acertado: a neve cobria toda a Irlanda. Precipitava-se por toda a sombria planície central, nas montanhas sem árvores, precipitava-se suavemente sobre o Bog do Allen e, mais para o oeste, suavemente se precipitava sobre as ondas escuras e traiçoeiras do Shannon. Precipitava-se também no cemitério solitário da colina onde jazia Michael Furey. Acumulava-se sobre as cruzes inclinadas e sobre as lápides, sobre as pontas do gradil do pequeno portão, sobre os espinhos toscos. Sua alma desfalecia lentamente enquanto ele ouvia a neve precipitando-se placidamente no universo e placidamente se precipitando, descendo como a hora final sobre todos os vivos e os mortos.”

 

Afinidades realmente pornográficas

Na edição 183, de Novembro 2012, da revista Bravo!, há uma matéria intitulada “Afinidades pornográficas”, em que é anunciada a publicação, pela editora Iluminuras, das cartas pessoais de James Joyce (1882-1941) – o autor do monumental “Ulisses” – à sua esposa Nora Barnacle (“Cartas a Nora”, de James Joyce, 158 páginas, R$ 38,00). Segue um trecho conforme publicado pela revista:

“Outra pergunta, Nora. Eu sei que eu fui o primeiro homem que te comeu, mas será que nenhum homem jamais te masturbou? Aquele rapaz que você amava não fez isso contigo? (…) Querida, querida, esta noite estou com um desejo tão louco do teu corpo que se você estivesse aqui do meu lado e mesmo se dissesse com os teus próprios lábios que metade dos grosseirões ruivos do condado de Galway treparam contigo antes de mim eu ainda assim iria para cima de ti faminto.” (Carta de 3 de Dezembro de 1909)

É preciso dizer algo mais? Acho que sim.  Aliás, a própria reportagem da revista já disse tudo. Lê-se na página 32:

“As cartas são quase todas em sentido único [de Joyce para Nora], já que a maior parte das dignas de nota é de autoria do próprio Joyce. As poucas da pena de Nora tratam de assuntos práticos e quase banais da vida cotidiana, sem demonstrar afeto de maneira mais literária ou erotizada. As dele tampouco primam por lapidações poéticas e, no conjunto, não chegam a compor uma grande narrativa epistolar, como se poderia supor.” 

Nada mais sintomático dessa nossa Era (chamada ironicamente pelo escritor americano Jonathan Franzen de “orgia de conectividade”) a  publicação dessas cartas, que expressa de modo significativo o modo como entendemos anacronismos como privacidade e distinção entre público x privado. Em “Como ficar sozinho”, Frazen diz que

“Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros.”

Repudiamos a ideia de privacidade: não só porque não queremos mais manter nossa vida privada apartada do cenário público, mas porque ansiamos pelo bombardeio constante, sobre nossa vida privada, da exposição pública alheia. Que modificações sobre a compreensão estética da obra de Joyce serão obtidas com a publicação de suas cartas pessoais? Serão lançadas novas perspectivas sobre o valor literário Ulisses, de Finnicius Revém, de Dublinenses, entre outros, perspectivas que se estendam além das picuinhas? Ou ainda, de modo mais abrangente: que mudanças em nossa cosmovisão surgirão, de que outras apreensões da realidade seremos capazes após a leitura de cartas escritas sem nenhuma ambição estética ou literária? Um dos maiores romances da literatura moderna chama-se Ulisses e foi publicado em 1922. Sua história se passa em um único dia na vida de Leopold Bloom, 16 de Junho de 1904. A cada ano, no dia 16 de junho, fãs de Joyce – Brasil incluído – reúnem-se para comemorar a data, o chamado “Bloomsday”, em que há exibição de músicas irlandesas e leituras de trechos da obra de Joyce. Talvez para essas pessoas possa interessar que seu romance tenha sido situado nessa data porque em 16 de Junho de 1904, com 22 anos, Joyce teve seu primeiro encontro amoroso com Nora.

Milan Kundera nos seus “Os testamentos traídos” (editora Nova Fronteira, 1994), escreveu que

“(…) A maior parte da produção romanesca de hoje é feita de romances fora da história do romance: confissões romanceadas, reportagens romanceadas, acertos de contas romanceados, autobiografias romanceadas, indiscrições romanceadas, denúncias romanceadas, lições políticas romanceadas, angústias do marido romanceadas, angústias do pai romanceadas, angústias da mãe romanceadas, deflorações romanceadas, partos romanceados, romances ad infinitum, até o final dos tempos, que não dizem nada de novo, não tem nenhuma ambição estética, não trazem nenhuma mudança nem à nossa compreensão do homem nem à forma romanesca, parecem-se uns com os outros, são perfeitamente consumíveis de manhã e perfeitamente descartáveis à noite. Na minha opinião, as grandes obras só podem nascer inseridas na história de sua arte e participando desta história. (…) Nada me parece mais horroroso para a arte do que a queda para fora de sua história, pois é a queda num caos em que os valores estéticos não são mais perceptíveis.”

Literatura, música, pintura, cinema: expressões que estão sempre contextualizadas historicamente e artisticamente; inseridas em seu tempo e em constante diálogo com o passado. Possuem uma técnica e um objetivo. Por essas razões, é necessário – para refinarmos nossas reações pessoais a uma obra artística, para estabelecermos comparações e perceber nuances – conhecimento tanto da técnica quanto da história de uma arte. Em “A cortina” (editora Companhia das Letras, 2005), do mesmo Kundera, lemos que

“Se o valor estético não existe, a história da arte não é senão um depósito de obras cuja sequencia cronológica não guarda nenhum sentido: é apenas no contexto da evolução histórica de uma arte que o valor estético é perceptível.”

O valor de um romance encontra-se na sua capacidade de dizer coisas que só um romance poderia dizer (o mesmo vale para todas as outras formas de arte): na sua capacidade de revelar aspectos ocultos da realidade, ou de novas possibilidades da realidade (ver post sobre o filme “A outra terra“, em que cito trecho de discurso de Javier Marias a esse respeito). As cartas íntimas teriam o efeito de levar os leitores de Joyce a procurar, em vez de aspectos desconhecidos da existência, os aspectos desconhecidos da existência do escritor.

Se, nas cartas de Joyce, não encontramos comentários pessoais sobre seus livros, sobre outros livros, sobre seus autores prediletos, se não há discussões estéticas ou artísticas, somente descrições ou comentários tecidos na urgência do desejo, da saudade e das iminências cotidianas ordinárias, qual a importância de sua publicação? E, arriscaria indagar: se Joyce não publicou suas cartas em vidas –  por não vislumbrar nenhum valor estético (provavelmente nem foram escritas com esse fim) ou por nem de perto imaginar que um dia elas atiçariam a curiosidade mórbida ou fetichista de desconhecidos – seria lícito publicá-las à sua revelia? Essa questão é colocada de modo dissimulado pela Bravo!, como se quisesse especular com ambiguidades:

“Senn [Fritz Senn, especialista em Joyce consultado pela revista] acredita que o autor nutria uma estranha ambivalência em relação a esse material: “Eu soube, por meio de Maria Jolas – mecenas de Joyce em Paris – que ele sempre quis resguardar alguns documentos. Jolas suspeitava que se tratasse dessas cartas.”

“Cartas a Nora” não levam à compreensão da vida, sequer mesmo do autor das cartas. Trata-se, afinal de contas, de uma perversão daquilo que o próprio Joyce fez, pela arte do romance, com seu fluxo de consciência em Ulisses: penetrar naquilo que passa na cabeça de um personagem em determinado momento e que no momento seguinte irá se perder para sempre; o romance como descoberta do comportamento inexplicável do homem. A arte do romance como um mosaico, um painel da vida. Voyeurismo e vulgaridade andam de mãos dadas no interesse pelas cartas pessoais de Joyce, evidenciando apenas como são semelhantes, leitores e escritor, nas banalidades cotidianas.