My favourite faded fantasy

Fantasia desbotada

My Favourite Faded Fantasy, de Damien Rice, demorou oito anos para ser escrito; sabe-se lá por quais razões. Talvez houvesse o peso do antecessor, o excelente “9”. No Brasil, Rice ficou associado às versões de seu Jorge e Ana Carolina, de Simone (como diria o coronel Kurtz, “o horror, o horror!”). Esqueça-os. O novo disco é um conjunto de músicas folk nas quais, sem resvalar em obviedades, Rice se mostra um cartógrafo preciso dos relacionamentos marcados por desencontros teimosos, respirações suspensas, falhas de caráter, sentimentos rabiscados ou cindidos, fecundados pelo medo. As oito canções são fantasias desbotadas que retratam, por meio de piano e cordas, ora minimalistas, ora dramáticos, ausências que sangram, felicidades irrisórias que duram menos do que uma lágrima – sem recorrer a clichês, a sentimentalismos toscos.

“Told myself I´d regret it but what do I know / about all these useless dreams of living alone like a dogless bone”

“I just came across a manger / out among the danger / somewhere in a strange´s eye”

“Cause we never wanted to be lusty or lewd / nor tethered to prudish strings / and we never wanted to be jealously tuned / nor withered into ugly things”

Suas canções insistem em dizer que as lembranças são como fotografias partidas e repartidas entre duas pessoas: sozinhos, os pedaços restam inconclusos – órfãos de significados; viram borrões, soterrados por inúmeros outros pedaços desiguais.

Rice canta sobre as expectativas pesadas e impossíveis que construímos no entrecho de todos os dias; na urdidura de promessas que jamais serão cumpridas. Nas falsas medidas do tempo. Ouça com cuidado.