Santo Agostinho

Mentiras

Sam Harris é filósofo e neurocientista. Sam Harris é o Ben Stiller do ateísmo militante.  Sam Harris acredita que há um mal no mundo, a religião, que precisa ser extirpado, a todo custo. Ele quer nos convencer a abandonarmos as religiões tradicionais pela religião da modernidade, a Ciência.

Sam Harris é um fanfarrão. Em “A morte da fé”,  escreveu:

“Temos sido muito lentos para reconhecer até que ponto a fé religiosa perpetua a desumanidade do homem para com o homem”

Esse tipo de afirmação (como se todas as religiões se equivalessem) pode deslumbrar adolescentes incautos, mas Harris está em busca de novos adeptos, os adultos entediados, ansiosos por uma espiritualidade “light” e preguiçosa, e para isso está disposto a se transformar no Augusto Cury do ateísmo militante: lançou, recentemente, o livro “Waking up – a guide to spirituality without religion” (algo como: “Despertando – um guia para a espiritualidade sem religião”). Percebam como a capa faz uma referência ao…Céu. Ou seria a imagem de Harris elevada aos céus, como um guru da Nova Era, sem religião?

Abro um parêntese aqui. Não estou argumentando que a Ciência é má e que Harris deve ir para o inferno. O problema é a tentativa de Harris (e dos ateístas) de substituir a fé nas religiões tradicionais pela fé absoluta na Ciência – Harris escreveu um livro inteiro para propor isso, “The moral landscape – How science can determine human values”. É uma questão de colocar as coisas em seu devido lugar. Podemos chamar algumas subciências de “técnica”, ao modo de Ortega y Gasset em seu “Meditação sobre a técnica”:

“Quando o homem não pode satisfazer as necessidades inerentes à sua vida, porque a natureza em redor não lhe presta os meios inescusáveis, o homem não se resigna. (…) O animal não pode retirar-se do seu repertório de atos naturais, da natureza, porque não é senão ela e ao distanciar-se dela não teria onde meter-se. Mas o homem, pelos vistos, não é a sua circunstância, antes está só submerso nela e pode nalguns momentos sair dela e meter-se em si, recolher-se, ensimesmar-se e, sozinho consigo, ocupar-se em coisas que não são direta e imediatamente atender aos imperativos ou necessidades da sua circunstância. Nestes momentos extra ou sobrenaturais de ensimesmamento e retração em si, inventa e executa esse segundo repertório de atos: faz fogo, faz uma casa, cultiva o campo e monta o automóvel. Daí decorre que esses atos modificam ou reformam a circunstância ou natureza, conseguindo que nela haja o que não há. Esses são os atos técnicos. O conjunto deles é a técnica, que podemos, de modo imediato, definir como a reforma que o homem impõe à natureza em vista da satisfação das suas necessidades. Estas, vimo-lo, eram imposições da natureza ao homem. O homem responde impondo por sua vez uma mudança à natureza. A técnica é, pois, a reação enérgica contra a natureza ou circunstância que leva a criar entre esta e o homem uma nova natureza posta sobre aquela. A técnica não é o que o homem faz para satisfazer suas necessidades. Esta expressão é equívoca e seria válida também para o repertório biológico dos atos animais. A técnica é a reforma da natureza, dessa natureza que nos torna necessitados e carenciados, reforma me sentido tal que as necessidades ficam se possível anuladas por deixar de ser problema a sua satisfação.”

Por essa razão, a técnica encanta: como um demiurgo, o homem tem a ilusão de que é possível reformar a natureza ao seu bel prazer, para satisfazer suas necessidades (reais e inventadas). No belíssimo “A descoberta do outro”, Gustavo Corção expõe bem o encanto da técnica:

“A técnica é inebriante por duas razões fortes. Primeiro, dá à inteligência uma satisfação vertiginosa; segundo, porque todos se maravilham com suas prestidigitações. É difícil resistir à admiração dos outros, e o técnico é hoje o mais admirado dos homens. Dum lado, então, pelas espirais lógicas, o técnico farta-se de segurança, de certeza; doutro lado enche-se de louvores. Suas manipulações dão certo. E quando não, ele ainda sorri, sabendo que tem recursos, ou para explicar, ou para retificar.”

Voltemos à Sam Harris.

Em 2010, Harris lançou o livro “Lying” (“Mentindo”). Como não simpatizar com suas ideias? Lendo-o, como alguém poderia não pensar “ei, esse cara está falando umas coisas bacanas”?. Eis o ponto: são, de fato, coisas “bacanas”. Só que não são, legitimamente, suas ideias – e esconder, ou sequer rastrear a origem do que se está a dizer pode ser tanto farsa quanto ignorância intelectual. E saibam que Harris é considerado o mais preparado dos ateístas militantes.

Filósofos diversos problematizaram a mentira (Platão, Aristóteles), mas foi Santo Agostinho quem melhor definiu-a; aliás, a definição de mentira, proposta por Agostinho, é a mais difundida em nossa cultura – sendo, inclusive, usada por Harris, sem o crédito devido. E o mais irônico é que a condenação da mentira é um princípio ético tradicional na cultura religiosa: a primeira referência está em Gênesis 4, 9-10: logo após ter matado Abel, Caim é questionado por Deus, “Onde está teu irmão Abel?”, e Caim responde com uma mentira, “não sei, acaso sou guarda de meu irmão?”.

Em “De mendacio” (Sobre a mentira), escrito em 395 d.C., Agostinho escreve que

“a mentira é uma significação falsa unida à vontade de enganar”

Em termos lógicos, a teoria ficaria deste modo ordenada:

Y mente se, e somente se

(i) Y afirma uma falsidade;

(ii) Y acredita que p, e deliberadamente afirma o oposto de p

(iii) Y tem a intenção de enganar (para que acreditem que o oposto de p é verdadeiro)

O Catecismo da Igreja Católica, a respeito da mentira, diz:

“A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar. A mentira é a ofensa mais direta à verdade. Mentir é falar ou agir contra a verdade para induzir em erro. A gravidade da mentira se mede segundo a natureza da verdade que ela deforma. A mentira é condenável em sua natureza.”

 Tanto o Catolicismo quanto Agostinho consideram que atos intrinsecamente maus serão sempre imorais, em razão de sua natureza: mentir não é questão relacionada somente à falsidade ou à veracidade de uma afirmação – pois não mente aquele que diz uma falsidade acreditando-a verdadeira (“quem expressa o que crê ou opina interiormente, ainda que seja um erro, não mente; crê que é assim como enuncia e, levado por essa crença, expressa o que sente”) –– mas sobre a intenção contida na alma.

Para Santo Agostinho, quem mente possui um “duplo coração”:

“Por conseguinte, dirá uma mentira aquele que, tendo algo na mente, expressa algo distinto com palavras ou outro signo qualquer. Por isso se diz que o mentiroso tem um duplo coração: aquele que sabe ou opina o que é verdade e se cala, e outro, aquele que diz pensando ou sabendo que é falso”

Em “Filoctetes”, temos o seguinte diálogo entre dois personagens de Sófocles (496 – 406 a.C.):

“Odisseu: Peço-te que agarres Filoctetes através da fraude

Neoptólemo: Não crês que é degradante dizeres mentiras?

Odisseu: Não, se a mentira nos conduz à salvação”

É, nas palavras do filósofo romeno Gabriel Liiceanu, o surgimento da “moral da segunda instância”, ou seja, a justificativa, como se virtuosa fosse, da utilização de quaisquer meios para atingir o bem comum. É a eficácia pragmática, que atingiria seu desenvolvimento intelectual pleno com Maquiavel. É uma perguntinha que paira desde a Antiguidade: por acaso existiria alguma mentira boa, uma mentira dita para salvar alguém? Agostinho propõe o seguinte dilema:

 “Um homem que está à sua frente esconde o dinheiro dele para que não seja furtado mediante violência. Se lhe perguntam se sabes onde está o dinheiro, deves mentir?”

Ele responde retoricamente, com outra pergunta:

“Não é lícito ocultar um pecado, mas é lícito cometê-lo?”

Para Agostinho, de nada adianta salvar o próximo se ao tentar salvá-lo você condena a si mesmo; o mandamento é “amarás ao próximo como a ti mesmo”, e não “amarás mais o próximo do que a ti mesmo”.

Vamos comparar trechos de “Lying” (em vermelho), do guru Sam Harris, com trechos da Sagrada Escritura e do Catecismo da Igreja Católica (em azul).

“A mentira nasce quando se comunica algo e se acredita em outra coisa. Mentir é conduzir intencionalmente alguém, que espera por comunicação honesta, ao erro. As mentiras fazem com que os outros formem crenças que não são verdadeiras.” (Sam Harris, Lying, 2010)

“A mentira é uma significação falsa unida à vontade de enganar. Por conseguinte, dirá uma mentira aquele que, tendo algo na mente, expressa algo distinto com palavras ou outro signo qualquer. Por isso se diz que o mentiroso tem um duplo coração: aquele que sabe ou opina o que é verdade e se cala, e outro, aquele que diz pensando ou sabendo que é falso” (Sobre a mentira, 395 d.C., Santo Agostinho)

“A mentira é a estrada real para o caos” (Sam Harris, Lying, 2010)

“Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Evangelho de São João 8, 44)

“Mas agora eu sabia que infinitas formas de sofrimento e constrangimento poderiam ser evitados simplesmente dizendo-se a verdade. Pesquisas sugerem que todas as formas de mentiras estão associadas com uma piora da qualidade dos relacionamentos” (Sam Harris, Lying, 2010)

“A mentira é funesta para toda a sociedade; mina a confiança entre os homens e rompe o tecido das relações sociais. A mentira é a ofensa mais direta à verdade” (Catecismo da Igreja Católica)

“A honestidade é um presente que oferecemos aos outros. Ao mentir, negamos aos outros acesso à realidade. Nossos amigos podem agir com base em crenças falsas, ou falhar em resolver problemas que poderiam ser resolvidos com base em informações verdadeiras. Frequentemente, mentir é lesar a liberdade dos que são importantes para nós.” (Sam Harris, Lying, 2010)

“A mentira é uma profanação da palavra que tem por finalidade comunicar a outros a verdade conhecida. A mentira (por ser uma violação da virtude da veracidade) é uma verdadeira violência feita ao outro porque o fere em sua capacidade de conhecer, que é a condição de todo juízo e de toda decisão. Contém em germe a divisão dos espíritos e todos os males que ela suscita. A mentira é funesta para toda a sociedade; mina a confiança entre os homens e rompe o tecido das relações sociais.” (Catecismo da Igreja Católica)

Sam Harris é graduado em filosofia, portanto deve conhecer a obra de Santo Agostinho. Se ele conhecia, ocultou-a de seu livrinho, ou seja, mentiu; mas não o fez para fazer o mal (vamos conceder-lhe o benefício da dúvida), mas para fazer o bem – na sua cabeça cheia de miolos moles, livrar o mundo da religião é fazer o bem; ele precisa justificar suas crenças com base em “pesquisas científicas”.  Ora, quem mente para fazer o bem é um embusteiro, o que, para Agostinho, já é um grande progresso.

Sam Harris, tenho fé em você.

Bibliografia utilizada e recomendada:

“Lying”, Sam Harris, edição para Kindle, 2010

“Treatise on lying”, Saint Augustine, edição para Kindle, tradução para o inglês do latim

“Da mentira”, Gabriel Liiceanu, 2014, edição para Kindle

Catecismo da Igreja Católica, 2011, edição revisada de acordo com o texto em latim

Bíblia de Jerusalém

Dissertação de mestrado de Lisiane Sabala Blans, “A análise da mentira em Agostinho”, 2012

Batman e as duas cidades

“Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, pacíficas, úteis, prósperas e alegres. Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. O que faço é de longe a melhor coisa que fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.”

Eis as palavras lidas pelo comissário Gordon (Gary Oldman), diante de umas 3 ou quatro pessoas, no “funeral” de Bruce Wayne/Batman nas últimas cenas de “Batman – O Cavaleiro das trevas ressurge” (Batman – Dark knight rises).

São os últimos pensamentos de Sidnei Carlton,  personagem de “Um conto de duas cidades”, de Charles Dickens, a grande inspiração para o filme do Christopher Nolan – inspiração que não foi notada por nenhum dos nossos críticos cinematográficos.


Um conto de duas cidades” descreve os impactos da Revolução Francesa sobre indivíduos de todas as camadas sociais e o reino de terror, com suas execuções aleatórias e cruéis, que se seguiu. Embora desenhe panorama tão amplo, Dickens centra sua narrativa em relativamente poucos personagens: Charles Darnay, Lucie Manette, Dr. Manette, Jarvis Lorry, sr. e sra. DeFarge e Sidnei Carlton. Qual a relação entre o romance de 1859 e o filme de 2013?

1) A REVOLUÇÃO

A decadência moral e espiritual da França pré e pós-Revolução, o frenesi revolucionário sedento por sangue, o discurso de salvação dos “oprimidos” pelos aristocratas, o direito à vingança pelos “oprimidos”, a necessidade de derrubar o antigo para instaurar o novo, esses são aspectos que constituem parte da essência do livro de Dickens, cujo início estabelece o clima soturno, ao leitor, a respeito dos eventos que serão narrados:

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da razão, a idade da insensatez, a época da crença, a época da incredulidade, a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, todos iríamos direto para o Paraíso, todos iríamos direto no sentido oposto – em suma, a época era tão parecida com o presente que algumas das autoridades mais ruidosas insistiram que ela fosse recebida, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.”

“Estava por chegar a época em que outro vinho também seria derramado nas pedras da rua e tingiria de vermelho muitos dos que estavam ali.”

Após 8 anos dos eventos ocorridos no segundo filme (Batman – O cavaleiro das trevas), Batman é considerado um pária, um foragido da justiça. Bruce Wayne está recluso, não quer contato nenhum com o mundo: “não há nada lá para mim, Alfred”, diz Wayne. Suas empresas deixaram de lucrar, resultando em dificuldades financeiras para inúmeras outras instituições dependentes da Fundação Wayne. Eis que surge do subterrâneo o vilão, Bane, que personifica o revolucionário fervoroso.

O que é uma revolução? Olavo de Carvalho já deixou bem claro que se trata de modificar a realidade mediante a concentração de poder. O revolucionário acredita que a construção de um futuro redentor depende da aniquilação das tradições, da destruição do presente e da reelaboração do passado; o revolucionário é o transformador do mundo, portando é livre para agir no presente com vistas a esse futuro possível; como tem o monopólio das virtudes, coloca-se como “vítima”, ao lado dos “oprimidos”, estabelecendo as linhas gerais de um discurso maniqueísta (“nós contra eles”) que traduz uma visão de mundo rasa e bidimensional (dividido entre “oprimidos e opressores”); o corolário é que, como a História nos mostra, essa “vertigem libertadora” sempre degenera em anarquia e tirania. No filme isso bem claro em vários pontos:

a) Selina Keyle para Bruce Wayne: “Vem tempestade por aí, Sr. Wayne; é bom você e seus amigos se prepararem, porque quando ela chegar vocês irão se perguntar como pensaram que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto de nós.”
Há uma correspondência direta com esta passagem do livro de Dickens: “Mas outros ecos, distantes, ressoavam de modo ameaçador naquela esquina, ao longo de todo esse tempo. E foi agora, na época do sexto aniversário da pequena Lucie, que começaram a ter um som terrível, como se houvesse uma enorme tempestade na França e o temeroso mar subisse.”

b) Alfred descreve Bane sabiamente: “dê uma olhada nele: a rapidez, a ferocidade, o treinamento; vejo o poder da crença nele”

c) Bane começa sua “revolução” de modo semelhante aos jacobinos franceses: libertando os presos da “Bastilha” de Gotham e invadindo e saqueando ambientes luxuosos: “atrás de mim (a prisão de Gotham) está um símbolo de opressão; vamos tirar Gotham das mãos dos corruptos, dos ricos e dos opressores, que subjugaram vocês com mitos de oportunidade; os poderosos serão arrancados de seus mundos decadentes e lançados ao mundo frio que conhecemos e ao qual sobrevivemos”

d) Não pode haver críticos à revolução: ou você é aliado ou faz parte dos “opressores” (ou da “mídia golpista”, das “elites”), cujo castigo é o desterro ou a morte. Bane instaura tribunais para julgar os tais “inimigos da revolução”, em que os acusados não tem direito nem à defesa nem a advogados; não são julgamentos propriamente, mas audiências para leitura das sentenças (“exílio ou morte”). Contrapartida em Dickens: “Que na prisão havia encontrado em sessão um tribunal autodesignado perante o qual os presos era apresentados um por um, e logo que ordenava que fossem massacrados (…).” “prisões abarrotadas de pessoas que não cometeram delito nenhum e não conseguiam obter o direito de serem levadas a julgamento; tais coisas tornaram-se a norma estabelecida e a essência dos eventos, e pareciam ser costume antigo antes de sequer completarem algumas semanas de existência. Acima de tudo, uma figura horrenda tornou-se tão familiar quanto se tivesse estado diante do olhar de todos desde a fundação do mundo – a figura de uma mulher afiada chamada Guillotine”.

e) Bane anuncia para o mundo possuir um reator nuclear, após destruir um campo de futebol americano; enquanto seu exército subterrâneo se preparava para invadir o gramado, uma imensa plateia assistia à apresentação do Hino Nacional, sem imaginar o mal que se avizinhava; o mal se prepara abaixo da superfície e o preço de ignorá-lo é a morte. A correspondência em Dickens: “A nova era se iniciou; o rei foi processado, condenado e decapitado; a república da Liberdade, Igualdade, Fraternidade, ou Morte, declarou-se pela vitória ou pela morte contra o mundo em armas; a bandeira negra ondulava dia e noite no alto das grandes torres de Notre-Dame; trezentos mil homens, convocados a se erguerem contra os tiranos da Terra, ergueram-se de todos os solos da França.”

f) O discurso de Bane é libertário, “contra os opressores”; ele pede que os moradores da cidade a tomem para si, criando uma falsa sensação de segurança, de controle, e transforma Gotham em uma cidade isolada – em que as pessoas não podem entrar ou sair – aterrorizada e desprovida de qualquer liberdade; o leitor pensou em uma ilha chamada…Cuba?

A Revolução Francesa de Robespierre e a revolução de Bane engendraram, sob promessas de verdadeira liberdade para o “povo”, de construção de um reino “do povo para o povo”, reinos de tirania, medo e opressão. Dickens descreveu isso muito bem: “Todos os portões da cidade e postos de cobrança de taxas dos vilarejos tinham seus grupos de cidadãos-patriotas, com seus mosquetes nacionalistas no mais explosivo estado de prontidão, que paravam todos os que chegavam e partiam, faziam-lhes interrogatórios cruzados, averiguavam-lhes os documentos, procuravam seus nomes em suas próprias listas, mandavam-nos voltar ou mandavam que seguissem adiante, ou os paravam e detinham, conforme seus juízos ou imaginações imprevisíveis supunham ser o melhor para a nascente República Una e Indivisível, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ou Morte.”

Todo discurso revolucionário busca eliminar a noção de indivíduo em prol de abstrações coletivistas (“oprimido”, “opressor”, “povo”, “capitalista”, etc.), objetivando com isso substituir a autonomia absoluta da consciência individual (a verdadeira liberdade) pela sujeição a uma igualdade imposta, ilusória e inexistente. O homem utópico deixa a realidade prática em troca de conceitos abstratos; em sua busca desesperada pelo seu lugar no mundo, persegue tudo o que é capaz de unir artificiosamente a pluralidade da realidade concreta, como uma ideologia. Dickens: “Ele mente – gritou o ferreiro. Ele é um traidor desde o decreto. Sua vida foi confiscada pelo povo. Sua maldita vida não lhe pertence!”

À morte física dos inimigos da Revolução, e dos opressores, seguiu-se a morte espiritual de uma nação inteira; após derrotar Batman em uma luta épica e brutal, Bane diz: “Quero saber o que será quebrado primeiro, seu corpo ou seu espírito”. A contrapartida em Dickens: “(A guilhotina) era o símbolo da regeneração da raça humana. Suplantava a cruz. Suas miniaturas eram usadas nos peitos onde a cruz fora descartada, e era a ela que faziam reverências e nela que acreditavam enquanto a cruz era renegada.”

O que toda Revolução promete é a possibilidade de conquistar o Paraíso perdido, nesta vida e nesta Terra; nas palavras de Bane, quando aprisiona Batman / Bruce Wayne em uma prisão nos confins da Terra: “Há uma razão para esta prisão ser o pior inferno na Terra: a esperança. Todo homem que apodreceu aqui, século após século, olhou para a luz e se imaginou subindo rumo à liberdade. Tão fácil, tão simples, como náufragos bebendo água do mar devido à sede incontrolável, muitos morreram tentando. Eu aprendi que não há desespero real sem esperança. Então, quando eu aterrorizar Gotham, vou dar às pessoas esperança para envenenar suas almas.”

2) A QUEDA – A CIDADE DOS HOMENS

Bane aprisiona Batman / Bruce Wayne no poço daquela que foi sua prisão outrora: “Vai conhecer onde fui criado, enquanto me preparava para fazer justiça. Nasci nas trevas, fui moldado por elas; só vi a luz quando já era um homem e só o que me fez foi cegar-me.”
Só há uma saída do poço: escalar suas paredes e saltar pelo abismo para outra parede e daí para fora. Depois de recuperado fisicamente, Bruce Wayne, içado por uma corda, tenta inúmeras vezes realizar a escalada e o salto, mas é constantemente malsucedido. Um dos prisioneiros, antigo médico da prisão, diz a ele que

“o salto para a liberdade não é uma questão de força; a sobrevivência é a do espírito”

O que o prisioneiro está a dizer a Bruce Wayne é que, para escapar, será necessário mais do que um salto: será necessário que ele dê um salto de fé.
Eis que chegamos à outra inspiração do filme de Christopher Nolan e do livro de Charles Dickens: Santo Agostinho e seu livro “A cidade de Deus”.

Para Santo Agostinho, o homem, com a perda do Éden, se põe a construir cidades, para sua própria glória; o homem elege como fim último de sua existência sua autoglorificação, nos limites da cidade, a cidade dos homens. A cidade dos homens é a cidade do amor por si mesmo, na soberba e no orgulho, do amor relacionado a tudo o que é mundano; o amor pela glória de homens que se encontram sozinhos em si mesmos e uns com os outros, atendo-se à vida terrena nas cidades do amor próprio, e encontrando nelas os fins últimos de sua existência, apartados de Deus. Segundo Agostinho, dois amores construíram duas cidades: o amor de si até o desprezo de Deus – a cidade dos homens; o amor a Deus até o desprezo de si – a cidade de Deus. É pelo amor por si, pelo poder recém-conquistado, que o povo “oprimido” encena sua ilusão de controle da cidade, que permite a Bane enganá-los, pois ele é o verdadeiro responsável pelo destino de Gotham. É pelo desprezo de si que Bruce Wayne poderá dar seu salto de fé sobre o abismo e que lhe permitirá escapar da prisão.

Salto de fé: da cidade dos homens para a cidade de Deus. A carta encíclica Lumen Fidei do papa Francisco nos ensina que a fé “é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado, abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas.”

No filme, vemos isso acontecer quando Bruce Wayne salta o abismo sem cordas que lhe prendam. Batman está pronto para o sacrifício que lhe será exigido para salvar a sua cidade.

3) O SACRIFÍCIO – A CIDADE DE DEUS

Um conto de duas cidades”: é um livro que fala da França e da Inglaterra, Paris e Londres. Mas é um livro que fala sobre duas outras cidades: a cidade dos homens e a cidade de Deus. No sermão 81 dos “Sermões sobre a queda de Roma”, Agostinho nos diz que

“Vós viestes a este mundo para partir; não vos deixeis perturbar pelos que amam o mundo, os que querem ficar no mundo mas, queiram ou não queiram, são forçados a deixá-lo; que eles não vos iludam, não vos seduzam. Estes sofrimentos não são escândalos. Sede justos, e eles serão antes provações.”

Ao longo do livro, Sidnei Carlton, o “mais indolente e menos promissor dos homens” (“Sou um burro de carga frustrado, senhor. Não me importo com ninguém neste mundo e ninguém neste mundo se importa comigo.” “O senhor me conhece; sabe que sou incapaz dos melhores e mais altos voos que cabem aos homens.”), passa por uma transformação: abandona sua vida pregressa e torna-se um homem que  se redime através do sacrifício por amor.

“Com as forças esgotadas e o deserto ao seu redor, esse homem parou quando atravessava um terraço silencioso e viu, por um instante, deitada na selvageria que tinha diante de si, uma miragem de ambição decente, abnegação e perseverança. Na cidade clara na qual se dava a aparição, galerias arejadas de onde os amores e as graças o observavam de cima, jardins em que os frutos da vida amadureciam, águas de esperança que brilhavam perante seus olhos. Um instante depois, acabou. Subindo até seus aposentos, que ficavam num andar alto, num amontoado de casas, ele se jogou ainda vestido na cama negligenciada e molhou seu travesseiro de lágrimas desperdiçadas.”

“Era sim a atitude arraigada de um homem cansado, que perambulara e lutara e se perdera, mas enfim encontrava seu caminho e via onde ele terminava. Muito tempo antes, quando era famoso entre seus primeiros concorrentes como um jovem muito promissor, seguira o pai até o túmulo. A mãe havia morrido anos antes. Aquelas palavras solenes que foram lidas no funeral do pai surgiam em sua mente enquanto ele caminhava pelas ruas escuras, em meio às sombras opressivas, com a lua e as nuvens correndo o céu acima de sua cabeça. “Eu sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor: quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá: e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá.” Em uma cidade sob o jugo do machado, sozinho na noite, com melancolia brotando dentro de si pelos 63 que naquele dia foram executados, e pelas vítimas de amanhã, que aguardavam seus destinos na prisão, e as dos outros amanhãs, o fluxo de associações fez com que ele se recordasse das palavras, assim como a âncora enferrujada de um velho navio poderia ser encontrada com facilidade no fundo do mar.”

Por amor à Lucie Manette, pelo amor à felicidade que lhe poderá propiciar, possibilitando sua reunião definitiva com sua família, ele prepara um arranjo folhetinesco e troca de lugar, na prisão, com o marido dela, Charles Darnay, acusado injustamente pelo tribunal da revolução e sentenciado à morte.

Na cidade dos homens, sacrifica-se uma vida em prol da revolução, em prol da glória de um futuro terreno promissor:

“Naquela manhã, Saint-Antoine era uma vasta massa obscura de espantalhos correndo de um lado para outro, com frequentes raios de luz em cima das cabeças revoltas, onde lâminas de aço e baionetas reluziam ao sol. (…) Todos os seres vivos dali viam a vida como algo sem importância, e eram atingidos pela loucura de se prontificarem com veemência a sacrificá-la.”

Em seus últimos pensamentos, que são os mesmos mencionados pelo comissário James Gordon, a respeito de Bruce Wayne – enquanto Sidnei Carlton se prepara para seu último sacrifício por aqueles a quem ama – o mesmo sacrifício que será exigido de Batman / Bruce Wayne no filme –, percebemos sua confiança na cidade, nas pessoas e em seu destino. Seu salto de fé estava completo.

Vejo uma bela cidade e um povo brilhante emergir do abismo e, em suas lutas para serem livres de verdade, em seus triunfos e suas derrotas, nos longos anos que ainda estão por vir, vejo o mal desta época e da época passada, da qual naturalmente se originou, aos poucos expiando a si próprio e se esgotando. Vejo as vidas pelas quais abro mão da minha, tão pacíficas, úteis, prósperas e alegres, na Inglaterra que não voltarei a ver. (…) Vejo que tenho em seus corações um santuário, e também nos corações de seus descendentes, das gerações vindouras. Eu a vejo, mulher idosa, chorando por mim no aniversário deste dia. Vejo o marido e ela, depois de percorrerem todo o seu caminho, deitados lado a lado no último leito mundano que dividirão, e sei que um não foi mais honrado e sagrado na alma do outro do que fui na alma de ambos. (…) O que faço é de longe a melhor coisa que já fiz na vida; terei um descanso muito melhor do que jamais conheci.”

Veja o filme. Leia o livro.