True Detective

A glória do homem de bem

“Pois eu, que conheço o bem, te digo, Perses, grande tolo:

mui pronto o vício conquista multidões,

é muito fácil: seu caminho é plano e está logo ali.

Mas perante a virtude suor ordenaram os deuses

imortais. É longa e inclinada a subida até ele,

espinhosa no início, mas quando se chega ao topo

mais fácil se torna, ainda que seja difícil.

Eis o melhor: aquele que pensa tudo por si

e conjuga o que convém agora com o fim.

É bom também quem ouve do bem e obedece,

mas quem não pensa por si, nem ouvindo o conselho

não o guarda na mente, este é um homem inútil.”

Hesíodo, Os trabalhos e os dias (século VII a.C.?)

“A glória do homem de bem é o testemunho da boa consciência”

Tomás de Kempis, A imitação de Cristo (século XIV)

Recentemente, noticiou-se (link aqui) que Sailson Jose das Graças havia sido preso em flagrante, após assassinar uma mulher, em Nova Iguaçu (RJ), e que, durante seu depoimento, ele afirmara ter matado outras 42 pessoas nos últimos nove anos. Vejamos alguns trechos do depoimento:

“Eu não matava com preocupação de ir pra cadeia não. Fazia as coisas bem feito, é por gostar mesmo isso. Preocupava mais com a digital, se o local tem câmera, se o local não tem câmera. Eu não levava documento, não levava nada que desse pista para a polícia. (…) Ficava observando a vítima, estudando. Esperava um mês, às vezes uma semana, dependendo do local. Eu procurava saber onde ela mora, como é a família dela, se ela passava na rua, via, dava uma olhada na casa, ficava estudando ela. (…) Se eu sair daqui a uns 10, 15 ou 20 anos, eu vou voltar a fazer a mesma coisa. É a vontade mesmo, não tem jeito. Eu saio, escolho as minhas ‘mulher’, as mulheres do meu perfil, e se achar que tem que ser, vai ser”

A tendência quase que imediata do público é declarar: eis mais um psicopata. Para além de especulações acerca dos detalhes técnicos da classificação psiquiátrica, dois aspectos de seu discurso chamaram a minha atenção: o planejamento meticuloso, organizado e consciente, orgulhosamente descrito para os policiais – e eficaz, pois se as provas corroborarem sua história, Sailson permaneceu impune por nove longos anos – e a crença na inelutabilidade de seu comportamento. Temos aí uma combinação aparentemente contraditória e, no entanto, além de altamente inflamável, ordinariamente utilizada por perpetradores de violência em geral e usuários de drogas, à guisa de explicação para suas ações.

“Eu não matava com preocupação de ir pra cadeia não. Fazia as coisas bem feito, é por gostar mesmo isso. Preocupava mais com a digital, se o local tem câmera, se o local não tem câmera”. Em graus distintos, toda técnica inebria (Gustavo Corção); aplicar-se ao estudo de qualquer técnica até dominá-la assegura uma sensação de poder. Apreender os detalhes técnicos de sua “empreitada” não lhe servia apenas para manter suas atividades ocultas, mas principalmente para  validar sua crença de que tal conhecimento, secreto e valioso, seria capaz de atribuir-lhe domínio sobre o presente, inexistente na realidade concreta, em seu dia-a-dia, e obter com isso vanglórias imaginárias (consequentemente, domínio sobre o futuro); para lidar com as frustrações cotidianas de uma sociedade que elege o igualitarismo como concepção única de justiça e que avalia o sucesso e o fracasso à luz de posses materiais, ou da capacidade de que cada um dispõe para obtê-los, todo fracassado precisa estabelecer ele mesmo os seus próprios moldes do que é ser ou não vitorioso. Narciso pode se sentir melhor mudando de espelho. Temos, portanto, outro desdobramento desse trecho de seu discurso: a preocupação e o desejo de uma boa autoimagem. Em outras palavras: o controle absoluto de suas cenas de crime poderia compensar a falta de controle sobre todos os outros aspectos de sua vida (social, econômico, afetivo). E tal desdobramento nos aponta para o que está implícito em sua fala:

“Se eu sair daqui a uns 10, 15 ou 20 anos, eu vou voltar a fazer a mesma coisa. É a vontade mesmo, não tem jeito. Eu saio, escolho as minhas ‘mulher’, as mulheres do meu perfil, e se achar que tem que ser, vai ser”.

Sailson se coloca como vítima de circunstâncias incompreensíveis, de alguma patologia incurável e incontrolável. Ele não é alguém que age por pura maldade, mas simplesmente alguém que é incapaz de controlar a perversidade que o acomete. Percebem a contradição? Ele é tão incapaz de controlar suas ações que ficava observando a vítima, estudando. Esperava um mês, às vezes uma semana, dependendo do local. Eu procurava saber onde ela mora, como é a família dela, se ela passava na rua, via, dava uma olhada na casa, ficava estudando ela”.

Theodore Dalrymple (pseudônimo literário do psiquiatra inglês Anthony Daniels; Daniels  trabalhou em diversos países até se aposentar em 2005 em um hospital e em uma penitenciária em Birmingham; autor de A vida na sarjeta – o círculo vicioso da miséria moral, Spoilt Rotten – the toxic cult of sentimentality, In praise of prejudice, entre outros) escreveu, em um de seus ensaios magistrais:

“Excluindo-se os casos de malformações neurológicas, a única causa inquestionável da violência, tanto a política quanto a criminosa, é a decisão pessoal de a cometer. Qualquer estudo sobre a violência que não leve em consideração os estados de espírito é incompleto. (…) Tentamos esvaziar o mundo do seu conteúdo moral atribuindo tudo a forças impessoais que, naturalmente, só nós, espertos como somos, podemos remediar – tão logo nos deem poder para tal. (…) A violência jamais poderá ser compreendida corretamente se não levarmos em consideração as ideias que as pessoas tem sobre o que é certo; o que é justo; o que é correto; o que cada um merece; quais são as consequências para quem a pratica; e, acima de tudo, sobre o que é realmente importante na vida”.

Neste final de ano, em tempos de materialismo desesperado – a ponto do combativo filósofo e neurocientista ateísta Sam Harris lançar um livro bizarro, intitulado “Despertando – Um guia para a espiritualidade sem religião” – talvez valha a pena resgatarmos a ideia socrática de alma – isso mesmo, prezado leitor, prezada leitora, essa coisa tão fora de moda: alma, a essência do homem, aquilo que ele “é” quando se recusa a se deixar guiar por opiniões correntes e olha para dentro de si e se concentra sobre sua própria capacidade escolher e decidir; a sede das capacidades racionais humanas, que abriga a verdade, o local da compreensão do que é universal; pois a partir do momento em que procuramos o bem universal e o encontramos, não no mundo, mas em nossa interioridade, somos capazes – e aqui, a contribuição do Cristianismo: com a graça de Deus e a imitação de Cristo – de chegar à virtude; e uma vez compreendida, a virtude deve ser incorporada em nossa ação, em nossas atitudes, em nosso comportamento. A ordenação da alma é a medida mais eficaz para aferir a desordem do mundo.

Ordenar a alma é buscar o bem; conhecê-lo. Pois o mal, insidiosa e habitualmente, se apresenta disfarçado com as virtudes do bem.

Deixo-os, agora, além de minha pequena e amena retrospectiva de 2014, com as palavras do filósofo francês Fabrice Hadjadj, retiradas de seu livro de 2009 (infelizmente não publicado em português) “La Fe de lós demônios – o el ateísmo superado”, e com os meus votos de feliz Natal e excelente 2015. Obrigado pela companhia.

“(…) O mal mais ilusório não se encontra no vício reconhecido. O vício enquanto vício não tem força para nos seduzir. Nossa vontade não pode querer o mal pelo mal. Para movê-la é preciso uma certa aparência de bem. (…) O mal não é nada bom em si, para atrair-nos tem sempre que emprestar do bem sua fachada, e o que faz La Rouchefoucauld, ao desvelar o mecanismo de nossa hipocrisia ou de nosso orgulho, é denunciar a debilidade ontológica do vício: para fascinar-nos, precisa adornar-se com plumas de pavão, pretender-se superior, enfim, disfarçar-se de virtude. E esse disfarce não consiste em simular virtude, mas, para que sigamos persuadidos de nossa retidão, consiste em separar uma virtude de seu cônjuge – em romper o elo onde uma afirma a excelência da outra. Chesterton havia enxergado isso perfeitamente. Repete-se frequentemente, em nosso meio, esta sua frase: “as ideias modernas são ideias cristãs que enlouqueceram”, frase que, retirada de seu contexto, deformada em seu conteúdo, chega a ser uma cantilena que, ela própria, enlouquece. Esqueceu-se, nesse intervalo de tempo, do princípio dessa loucura ideal: o desmembramento da estrutura trinitária do verdadeiro, o deslocamento do organismo das virtudes conexas.

“O mundo moderno não é mau; sob determinados aspectos, o mundo moderno é até excessivamente bom. Ele está repleto das mais selvagens e desperdiçadas virtudes. Quando um sistema religioso sofre qualquer abalo (como aconteceu com o Cristianismo por ocasião da Reforma), não são apenas os vícios que ficam em liberdade. Os vícios ficam, sem dúvida, à solta, vagueiam livremente e causam imensos danos. Mas as virtudes também andam à solta, vagueiam de modo mais selvagem e causam danos ainda maiores. O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Essas virtudes enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas.” (G.K.Chesterton, Ortodoxia).

Essas linhas bebem na profundidade dos últimos versículos do Salmo 61:

“Deus falou uma vez,

E duas vezes eu ouvi

Isto: a Deus pertence a força,

E a ti, Senhor, pertence o amor;

E isto: quanto a ti, pagas

o homem segundo suas obras.”

Sempre ouvimos a única palavra divina, na casa de Deus, por meio de um par de enunciados que devem se manter unidos. Neste caso, a misericórdia (a ti, Senhor, pertence o amor) unida à justiça (pagas o homem segundo suas obras). Mas como isso não funciona, o mundo, segundo Chesterton, introduziu o divórcio nesse difícil matrimônio e resulta que cada virtude se torna tanto mais segura de si mesma quanto mais adúltera. A dupla se transforma em dualidade. A complementaridade se quebra em contrariedade. Como temos visto, o gênio diabólico não consiste tanto em rechaçar o bem mas em monopolizá-lo para proveito próprio (rezar sem respeitar a ordem divina, como dizia Santo Tomás de Aquino). Dessa forma se extravia inclusive nosso desejo de fazer o bem, isolando as bondades que a verdade une: a justiça sem misericórdia, que se torna crueldade, frente à misericórdia sem justiça, que se torna permissividade; a humildade sem generosidade, que se torna modéstia indolente, frente à generosidade sem humildade, que se torna ativismo vaidoso…e finalmente, a verdade sem amor, que é a fé dos demônios, frente ao amor sem verdade, que é a filantropia do diabo. Corremos atrás dessas virtudes parciais que são vícios completos, e o mundo pode perecer por nossa diligência”.

A) FILMES

1) True Detective: minissérie que é, ao mesmo tempo, cinema e literatura; o sentido de eternidade, ou o desejo de se prolongar ao “inacabável do tempo”, só é possível pela consciência da finitude.

2) All is lost, de J.C. Chandor: adversidades que ressaltam a percepção de abandono do personagem e o que é preciso para escapar de sua condição: o sacrifício interior a ser realizado por um homem que, enfim, reconhece seus erros e admite que, para sobreviver, necessita restabelecer sua alteridade.

3) The Immigrant, de James Gray: quando Marion Cotillard e sua irmã chegam em Nova Iorque, vemos o dorso da famosa Estátua, numa prefiguração de que a verdadeira liberdade não poderá ser encontrada na cidade; a obra-prima de James Gray descreve a construção de uma relação de co-dependência entre dois indivíduos, cujo pragmatismo lhes trará mais perdas do que ganhos; que liberdade resta quando se perde a própria alma? E, no entanto, também lhes propiciará o caminho para a redenção.  “Passei por tantas provações. Será que lutar tanto para sobreviver se tornou um pecado para mim? Será um pecado querer sobreviver, quando fiz tantas coisas ruins? Deus enviou-me a uma pessoa tão incrivelmente perdida, alguém que transformou a minha vida em pecado, e agora, essa pessoa sofre por mim. Assim, estou aprendendo o poder do perdão.”

4) O lobo de Wall Street, de Martim Scorsese: o triunfo e a glorificação do sucesso individual a qualquer preço: dinheiro, excessos e alienação formam os moldes dessa descrição vigorosa da década do “eu”.

B) DISCOS

8) Ryan Adams, Ryan Adams: o nome do álbum já diz tudo: depois da tempestade (“eu estava me fingindo de morto, não fazia um som, segurava minha respiração enquanto afundava”), otimismo e prenúncios de felicidades (“não posso ver a escuridão em ascensão, ficarei esperando aqui até que a maré mude”) pelo retorno às origens, com belas melodias e músicas diretas.

7) Sharon Van Etten, Are we there: ao contrário de Lykke Li, o esquadrinhamento intimista que Sharon Van Etten faz de amores quebrados e relacionamentos imperfeitos demonstra maturidade, ao sinalizar uma esperança, uma saída do ambiente melancólico – por meio da ironia, do reconhecimento de que alegrias e tristezas fazem parte do mesmo cardápio.

6) Brody Dalle, Diploid Love: guitarras altas, linha de baixo sombria, bateria pulsante, trompetes e mariachis delimitam o cenário para a força da voz de Brody, que anuncia: não se metam com ela (“eu vou queimar esta cidade”), nem com seus sonhos (“dias melhores estão esperando por mim e eu irei vestida de sonhos”). Em 2014 o rock esteve mais bem cuidado sob mãos femininas.

5) Lykke Li, I never learn: relacionamentos fracassados que se repetem como valsas melancólicas deixam feridas expostas que, apesar de não sangrarem mais, demoram a cicatrizar. Lykke Li fala sobre erros que nunca se convertem em aprendizado, e canta para os corações sofredores que insistem em caminhar para frente com passos falsos (“onde a lua azul brilha e onde as lágrimas derretem o gelo num oceano de culpa sob estrelas caídas, melodias solitárias, cantos de dor, há uma tempestade e somente o amor permanece”).

4) Damien Rice, My favourite faded fantasy: Rice canta suas fantasias desbotadas; retratos, em piano e cordas, ora minimalistas, ora dramáticos, de ausências que sangram e felicidades irrisórias que duram menos do que uma lágrima. Quem disse que os homens não sofrem?

3) Leonard Cohen, Popular problems: aos 80 anos, Cohen, com sua voz de barítono e sua poesia recitada, sussurra sabedorias e ironias em baladas a respeito da velhice e da proximidade da morte (“estou amarrando meus sapatos / mas não quero me apressar / chegarei lá quando eu chegar / não precisa de tiro de largada / gosto de não ter pressa / protelo enquanto flutuo / uma semana em seus lábios / a vida inteira em seus olhos”), relacionamentos (“os limoeiros florescendo / as amendoeiras murchando / alguma vez fui alguém / que poderia te amar para sempre? / alguma vez eu te abandonei? / eu já fui capaz? / ainda estamos nos apoiando / naquela mesma velha mesa?”), sofrimento (“e nós que clamamos por misericórdia / do fundo do poço / foi nossa oração tão indigna / que o Filho a rejeitou?”) e esperança.

2) Gaslight Anthem, Get hurt: Nick Hornby escreveu em 2004 um texto que cai como uma luva para o Gaslight Anthem e este Get Hurt: “o rock era e continua a ser necessário porque, afinal, quem não precisa de uma sensação inexplicável de felicidade e de um sentimento de invencibilidade, mesmo às vezes? (…) não me importa se a música soa nova ou velha – só quero que ela tenha anseios e exuberância, que seja desinibida, que reconheça o poder redentor do barulho, que admita que a inteligência emocional às vezes se expressa melhor por uma grande troca de acordes do que por um cenho franzido”

1) Marketa Irglova, Muna: Muna, em islandês, significa “lembrar”; as belas e angélicas harmonias vocais desta cantora checa evocam a beleza da Islândia, país onde mora atualmente, e a descoberta da Graça divina (“nuvens descem sobre gramas selvagens, grandiosas e imponentes, exuberantes à mão, curvam-se no ar como um homem em oração”), apesar das perdas e das dúvidas que surgem pelo caminho (“tem havido sinais pelo caminho / mas são tão obscuros / algumas vezes eu pensava que sabia o que significavam / mas como eu poderia ter certeza? / Todo esse mal-estar faz meu estômago revirar / embora tenha sido eu que montei a armadilha e não Você / Você me deixou aqui sem um mapa / por todo esse tempo eu tive que aprender o caminho / mover-me quando queria ficar / estive certa tanto quanto estive errada / e tudo que eu escuto de você é: / Você é forte o suficiente / por tudo o que teve que enfrentar / o único mapa de que você precisa é Amor / para guiá-la neste labirinto ilusório”). Marketa Irglova nos lembra daquilo que nos falta: “como um desejo que permanece oculto / uma ferida que nunca cicatriza / na secreta linguagem do coração convoquei-o para mim / como a parte que falta do projeto de minha vida”.

True Detective e o sentido de eternidade

“Quem, seu eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia Sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia valer? Nem Anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido.”

Primeira elegia, “Elegias de Duíno” (1923), Rainer Maria Rilke

A história de True Detective (compre o DVD aqui) é narrada em dois planos temporais: um se passa em 1995, na Louisiana, e mostra a investigação de um crime com características de ritual satânico efetuada por Rust Cole (Matthew McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson). Tudo parece apontar para um assassino em série, o Rei de Amarelo, habitante de Carcosa. O outro plano temporal situa-se em 2012, com Hart e Cohle mais velhos, narrando a história da investigação que fizeram em depoimentos para dois detetives que investigam crimes ocorridos no presente, nos quais aparentemente um criminoso está usando os mesmos métodos do serial killer ritualístico. Em uma proeza rara na TV, todos os episódios foram dirigidos por Cary Fukunaga e escritos por Nic Pizzolatto.

1. Carcosa

Ambrose Bierce (1842-1913), escritor mordaz e aforístico (dono de pérolas como  “A paciência é uma forma menor de desespero, disfarçada em virtude”), escreveu o conto “Um habitante de Carcosa”, incluído na coletânea Cruzando o umbral (publicada no Brasil em “Visões da noite – contos satíricos de horror” e em “O símbolo amarelo”):

“O dia me parecia avançado, embora o sol não estivesse visível; e apesar de ciente de que o ar estava úmido e gelado, minha consciência desse fato era mais mental do que física: eu não tinha uma sensação de desconforto. Um dossel de nuvens baixas cor de chumbo pairava como uma maldição visível sobre toda a paisagem sinistra. Havia em tudo isso uma ameaça e um presságio – uma alusão a algo maligno, uma sugestão de ruína. Não havia pássaros, feras ou insetos. O vento assobiava nos galhos desfolhados das árvores mortas e o capim cinzento curvava-se para sussurrar à terra seu terrível segredo; contudo, nenhum outro som ou movimento rompia o silêncio sepulcral daquele lugar pavoroso. (…) Um coro de lobo uivantes saudou a aurora. Vi sentarem-se nas patas traseiras, sozinhos e em grupos, nos topos dos montes e túmulos irregulares que tomavam metade da paisagem desértica e estendiam-se até o horizonte. E então eu soube que aquelas eram ruínas da antiga e famosa cidade de Carcosa.”

A inspiração para a Carcosa de Ambrose Bierce pode ter vindo por meio do poema “Carcassone”, de Gustave Nadaud (1820 – 1893), no qual um homem lamenta por não ter conhecido sua cidade natal, Carcassonne:

I’m growing old, I’m sixty years; I’ve labored all my life in vain. In all that time of hopes and fears, I’ve failed my dearest wish to gain. I see full well that here below Bliss unalloyed there is for none My prayer would else fulfilment know — Never have I seen Carcassonne!

A investigação de 1995 de Cole e Hart é uma descida para o coração do abismo. Pouco a pouco, pressentem que irão topar com algo inominável, sinistro. Em 2005, o jornal The New York Times apresentou uma reportagem sobre a  prisão de 10 indivíduos, incluindo o pastor Louis Lamonica Jr (Igreja Hosana), em Tangipahoa, um vilarejo de pouco mais de 800 pessoas situado ao norte da Louisiana, acusados de abusar sexualmente de 25 crianças e de mutilar  animais para a prática de rituais satânicos. A arte imita a vida: a Carcosa do roteirista Nic Pizzolato é a Louisiana e seu bando de pássaros a coreografar o mau agouro por vir, suas fábricas isoladas, destacadas dos pântanos a arremeter contra os céus suas fumaças e contra os rios seus detritos. A Louisiana de Nic Pizzolato é a sombra de um lugar, os restos despejados do Éden, dominados pelo pesadelo: a inocência corrompida pelo pecado, pelo abominável. A espoliação da beleza pelo mal.

O drama real de True Detective é a jornada De Cole e Hart de volta à luz, a partir da escuridão.

2. O Rei de Amarelo

“Pela costa as ondas escuras a quebrar / baixam ao lago os sóis em par, / estendem-se as sombras / em Carcosa. Estranha é a noite com estrelas negras a despontar, / e estranhas luas que vagam pelo ar, / mas, ainda mais estranha é a / perdida Carcosa.” (A Canção de Cassilda, o Rei de Amarelo, ato 1, cena 2).

Robert Chambers (1865 – 1933) escreveu, em 1895, quatro contos (O reparador de reputações, A máscara, Na travessa do dragão, O símbolo amarelo) que giram em torno de uma peça de teatro chamada O Rei de Amarelo. Não sabemos nada dessa peça, exceto por pequenos trechos que surgem como epígrafes desses quatro contos; alguns trechos mencionam a Carcosa, de Ambrose Bierce. No Brasil, os quatro contos foram publicados em “O símbolo amarelo e outros contos”, pela editora Arte e Letra; e “O Rei de Amarelo”, editora Intrínseca (a publicação da editora Arte e Letra traz de brinde o conto “Um habitante de Carcosa”, de Ambrose Bierce). Nos contos, a partir da leitura do segundo ato da peça fictícia, os personagens são acometidos pela loucura e pelo desespero:

“Durante minha convalescença, comprei e li pela primeira vez O Rei de Amarelo. Lembro-me de que, após terminar o primeiro ato, ocorreu-me que era melhor eu parar. Levantei-me de súbito e joguei o livro na lareira; o volume atingiu a grade e caiu aberto à luz do fogo. Se eu não tivesse visto de relance as palavras iniciais do segundo ato, jamais o teria terminado, mas ao abaixar-me para recolher o livro, meus olhos se fixaram na página aberta, e com um grito de terror, ou talvez fosse de um júbilo tão intenso que senti em todos os nervos, tirei o tomo das brasas e arrastei-me trêmulo para o quarto, onde li e reli, e chorei e ri e estremeci com um horror que por vezes ainda me acomete. É isso o que me preocupa, pois não consigo esquecer Carcosa, onde as estrelas negras pairam no céu (…) Peço a Deus que amaldiçoe o autor, tal como o autor amaldiçoou o mundo com essa criação bela e estupenda, terrível em sua simplicidade, irresistível em sua veracidade – um mundo que agora treme diante do Rei de Amarelo.”

“O reparador de reputações”, Robert Chambers

“Bastou um olhar para perceber que ela havia sido punida por sua insensatez. O Rei de Amarelo estava caído a seus pés, mas o livro estava aberto na segunda parte. Olhei para Tessie e vi que era tarde demais. Ela abrira O Rei de Amarelo.(…) Oh, a perversidade, a danação desesperadora de uma alma que podia fascinar e paralisar criaturas humanas com tais palavras.”

“O símbolo amarelo”, Robert Chambers

“Eu estava esgotado após três noites de sofrimento físico e agruras mentais: a última havia sido a pior, e eu levara um corpo exausto e uma mente entorpecida, ainda que intensamente sensitiva, à minha igreja favorita para serem curados. Pois eu estivera lendo O Rei de Amarelo.”

“Na travessa do dragão”, Robert Chambers

É nesse conto, “Na travessa do dragão”, que o Rei de Amarelo aparece (na imaginação?) para o personagem:

“E agora eu ouvia a sua voz, avolumando-se, ribombando através da luz cegante e, quando eu tombei, o resplendor cada vez mais ardente cobriu-me em ondas chamejantes. Então desci às profundezas, e ouvi o Rei de Amarelo sussurrar-me na alma: – Quão terrível é cair nas mãos do Deus vivo!”

A respeito do simbolismo da cor amarela, Carlos Orsi, na introdução ao livro Rei de Amarelo (editora Intrínseca) escreveu:

“Na última década do século XIX, o amarelo era o matiz do pecado, da podridão, da decadência, da loucura. (…) A chamada escola decadente francesa inspirava-se na poesia de Charles Baudelaire. O decadentismo atingiu seu ponto alto na obra de Joris-Karl Huysmans, principalmente em seu romance “Contra a natureza”, publicado em 1884. Muitos críticos acreditam que o “livro amarelo” que tanto fascinou Dorian Gray, no romance de Oscar Wilde, era exatamente esse volume de Huysmans. (…) Afinal, o que eram e o que queriam os “mefíticos” decadentes franceses? Humilhados pela derrota da França na guerra de 1870 com a Prússia, desiludidos com o fim sangrento da Comuna de Paris de 1871, esmagados pelo peso da geração de gigantes literários que os antecedera – Balzac, Vitor Hugo, Gustave Flaubert –, os decadentistas viam-se como mentes velhas em corpos jovens, os últimos filhos de uma civilização que já fizera tudo e, agora, rumava para a tumba ou, já morta, decompunha-se. Seu projeto era radicalizar o frisson nouveau de Baudelaire: descobrir, estimular e registrar emoções inéditas, capazes de sufocar o tédio de uma existência crepuscular (…) É nesse contexto que Robert Chambers  publica os contos em torno da peça O Rei de Amarelo.”

Nic Pizzolato, o criador da série, é um homem das letras, e transportou isso para a TV: pela primeira vez temos uma série de altíssimo nível e de excelente qualidade e que poderia ser descrita como um livro filmado. A interligação literária de diversos livros (os contos de Robert Chambers que falam de uma peça fictícia, O Rei de Amarelo, que por sua vez menciona Carcosa, termo criado por outro escritor, Ambrose Bierce, que pode ou não ter suas origens num poema de outro escritor, Gustave Nadaud) espelha a multiplicidade de narrativas que estrutura True Detective: a narrativa de Cole e Hart para os detetives em 2012 a respeito da investigação que fizeram em 1995; a narrativa que cada um conta sobre o que ocorreu em 2002 (ano em que romperam um com o outro, abruptamente), a narrativa sobre como veem o mundo; e cada qual a sua narrativa autobiográfica – a que estão a narrar para si mesmos.

E tal como o Rei de Amarelo atormentará para sempre os personagens dos contos de Robert Chambers que leem o segundo ato da peça, a investigação e os eventos de 1995 na Louisiana amaldiçoarão, até o ponto da obsessão, Cole e Hart. Dois personagens opostos: um caminha pela vida evitando a verdade, outro a persegue implacavelmente. Mas não seriam apenas faces complementares de uma mesma realidade? Em determinado momento, Rust Cole – homem marcado por uma tragédia familiar e atormentado pelo convívio diário com o mal –  diz para os detetives, em 2012: “Time is a flat circle”, o tempo é um círculo plano.

3. Tempo linear e o eterno retorno

“A crença no modelo cíclico de tempo era um aspecto comum a várias culturas antigas, e caracterizava em particular as ideias cosmológicas gregas, sobretudo na época helênica.Antes da ascensão do cristianismo, com exceção de alguns escritores isolados, como Sêneca, só os hebreus e os iranianos zoroástricos parecem ter considerado a história progressiva, e não cíclica”.

“O que é o tempo? Uma visão clássica sobre a natureza do tempo”, G.J. Whitrow

O tempo cíclico é um eterno retorno, cujo movimento circular inexorável se caracteriza pela repetição de todos os instantes, anulando, portanto, presente, passado e futuro. Se nenhum evento tem começo nem fim, não tem significado nem importância. Se o tempo é cíclico, nenhum evento tem propósito e nos encontramos eternamente libertos do peso representado pela fugacidade de tudo o que nos acontece; Nietzsche, em “A gaia ciência”, descreveu bem esse aspecto:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”

O conceito de tempo cíclico determina a cosmovisão de Cole: vivemos uma ilusão, em um simulacro da realidade em que nada faz sentido. Cole poderia ser descrito como um filósofo pessimista:

“Toda a sua vida, todo o seu amor, todo o seu ódio, toda a sua memória, toda a sua dor. Era tudo a mesma coisa. Era tudo o mesmo sonho. Um sonho que você teve dentro de uma sala trancada. O sonho de ser uma pessoa”.

O conceito de tempo linear, progressivo, nasceu com o cristianismo:

“A influência do cristianismo sobre nosso conceito moderno de tempo não se restringe aos detalhes do calendário. Ela foi bem mais fundamental que isso. Considerou-se a doutrina central da Crucificação como um evento único no tempo, não sujeito à repetição, implicando assim que o tempo deve ser linear, e não cíclico.”

“O que é o tempo?”, G.J. Whitrow

O tempo linear constitui-se por cadeia de eventos únicos e insubstituíveis, inscritos numa progressão histórica, do passado para o futuro. Cada instante, cada momento, cada evento terá o sentido que lhe atribuirmos, orientados por um propósito, particular e específico de cada um (Viktor Frankl), ao contrário do tempo cíclico, esvaziado de sentido. Quando narramos nossas vidas para os outros ou para nós mesmos estamos priorizando, selecionando os eventos que importam ou que importaram um dia, em detrimento de outros, de muitos outros, e atribuindo-lhes um sentido em nossa história que é, até certo ponto, intransferível. O que aconteceu aconteceu uma só vez e eternizou-se em nossa história. Somos circunscritos pelo peso da memória.

4. Vislumbres da eternidade

 “Toda natureza humana resiste vigorosamente à graça, porque a graça nos transforma e a mudança é dolorosa.”

            “O hábito de ser”, Flannery O’Connor

Diante do Mal, após o confronto  com o Rei de Amarelo, eis que as perspectivas de Cole se abrem:

“Teve um momento, eu sei, quando eu tava lá embaixo, no escuro, ao que quer que eu tinha sido reduzido, não tinha nem consciência, só uma vaga noção no escuro e eu…pude sentir minha definição se esvaindo. E debaixo dessa escuridão, pude sentir outra forma. Mais profunda. Terna. Eu sabia que minha filha esperava por mim, lá. Senti meu pai também. Era como se eu fosse parte de tudo o que já amei. A escuridão, eu aceitei. E desapareci. E pude sentir o amor dela, nada além daquele amor.

Vou te falar, Marty, tenho ficado no quarto olhando pela janela toda noite aqui e pensando…só existe uma história…a mais antiga.

E qual é?

Luz versus trevas.”

Sua cosmovisão mudou porque sua visão de tempo mudou; o que era um círculo plano ganhou sentido: como se sua consciência tivesse apreendido outros aspectos, esquecidos, que também constituem a estrutura da realidade, situados para além do tempo presente. O movimento de abertura para a transcendência requer a consciência de nossas imperfeições, de nossas limitações. É um recuo do olhar (Olavo de Carvalho), para outra escala de tempo, e, ao fazê-lo, Cole tem vislumbres, ainda que precários, da eternidade, daquilo que é “imperecível”.

“Uma vez que certas estruturas da realidade se diferenciam e despertam na consciência articulada, adquirem vida própria na história. Uma das conquistas mais relevantes nesses processos de diferenciação é a apreensão de um movimento da realidade em direção a um estado que se situa além de sua estrutura presente. Isso vale tanto para os filósofos quanto para os profetas de Israel ou os cristãos do primeiro século. No que se refere ao indivíduo, é claro que esse movimento só pode se consumar com a morte. Os filósofos clássicos, e esta foi sua grande descoberta, perceberam que o homem, longe de ser um “mortal”, é um ser que participa de um movimento em direção à imortalidade. O athanatizein – o ato de imortalizar – como essência da vida do filósofo é uma experiência central tanto em Platão como em Aristóteles. Do mesmo modo, o grande insight de Paulo foi a experiência do movimento da realidade para além da estrutura presente da morte, para o estado imperecível que lhe sucederá por meio da graça de Deus – a aphtharsia, ou imperecível. Esse movimento em direção a um estado que está além da estrutura presente do ser introduz uma outra tensão na ordem existencial, uma vez que é preciso orientar a conduta da vida de um modo que nos leve à imperecibilidade. Nem todos, contudo, estão dispostos a sintonizar sua vida com esse movimento. Muitos sonham com um atalho para a perfeição aqui mesmo, nesta vida.”

 “Reflexões autobiográficas”, Eric Voegelin

Quando Luiz Felipe Pondé, a respeito da série, escreveu em sua coluna na Folha de SP que: “A virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil”, estava ecoando não só Dostoievski e os “Irmãos Karamazov” (“Há uma luta entre Deus e o Diabo e o placo é o coração humano”), mas também Miguel de Unamuno e Santo Tomás de Aquino.

“Enquanto peregrinei pelos campos da razão em busca de Deus, não O pude encontrar, porque a ideia de Deus não me enganava, nem pude tomar por Deus uma ideia. (…) Mas ao ir afundando no ceticismo racional, de um lado, e no desespero sentimental, de outro, abrasou-me a fome de Deus e a sufocação do espírito me fez sentir, com sua falta, sua realidade.”

 “Do sentimento trágico da vida” (1913), Miguel de Unamuno

“Ora, se nenhum mal houvesse nas coisas, em muito seria diminuído o bem do homem no tocante ao conhecimento e ao desejo, ou amor do bem. Com efeito, o bem é melhor conhecido ao ser comparado com o mal e, quando fazemos o mal, mais ardentemente desejamos o bem. (…) Pelo exposto, são destruídos os erros daqueles que, por verem o mal no mundo, afirmavam que Deus não existe. Assim é que Boécio cita um filósofo que perguntava: “Se há Deus, donde vem o mal”? No entanto, ele deveria ser refutado com esta argumentação: se há o mal, Deus existe, pois, excluída a ordenação do bem, não haveria o mal, porque o mal é a privação do bem. Assim sendo, não havendo a ordenação do bem, Deus não existiria.”

Capítulo LXXI, “Suma contra os gentios”, Santo Tomás de Aquino

Em entrevista para a revista Entertainment Weekly, o próprio criador da série, Nic Pizzolato, comentou:

“True Detective reforça o tempo todo que tudo é uma história. Quem você diz ser para si mesmo, o que diz a si mesmo que o mundo é, uma investigação, uma religião, um ponto de vista niilista. São apenas histórias que você conta a si mesmo. Escolha com cuidado as histórias que conta a si mesmo. Termino a série com os detetives deixando o palco, e não sabemos que tipo de vida eles terão, mas podemos ter certeza de que os dois estão mais dispostos a aceitar a presença da graça. Porque foi nesse ponto que os dois falharam: nenhum deles conseguia conciliar o conceito de graça com suas racionalidade. Não queria que eles chegassem num ponto de redenção, de conversão, de entendimento e muito menos de resolução. Eles não estão curados, mas, pela primeira vez, você pode conceber que existe um futuro em que eles possam estar curados.”

Assim como, pela presença do mal, anseia-se pelo bem (Santo Tomas de Aquino), o sentido de eternidade, o desejo de se prolongar ao “inacabável do tempo” (Miguel de Unamuno), só é possível pela consciência da finitude.

P.S.: Para combinar, clipe de “Hurt”, na voz de Johnny Cash. A canção foi composta por Trent Reznor, do Nine Inch Nails e lançada em 1994 no album “The downward spiral” (“A espiral descendente”). Cash a regravou em 2002 e  dizem que, após ouvi-la, Reznor gostou tanto que declarou: “A canção agora pertence a Johnny Cash”.