Espaço do Pensamento

Trabalhar pela renovação cultural e participar na vida da arte de nossa época é o que motivou o surgimento deste Espaço do Pensamento. A cultura de um indivíduo é dependente da cultura do conjunto da sociedade à qual ele pertence (T. S. Eliot), e a cultura moderna está contaminada pela mentalidade relativista: não há escolhas nem aspirações, não há distinção entre certo e errado, entre o bem e o mal. Cultura não é adereço, frivolidade nem meramente aquisição de conhecimentos, é transformação e ordenamento. Implica fazer escolhas. Portanto, em tempos de indiferença, é preciso restaurar significados e restabelecer hierarquia de valores entre vícios e virtudes. Nem tudo é equivalente, é necessário separar o joio do trigo, e não entregar joio e trigo aos bárbaros. Com isso em mente, nosso propósito é estimular ideias e debates por meio de cursos, palestras e oficinas de estudo. Os temas irão abranger diversas áreas: política, literatura, cinema, história, música. Com renomados professores e conferencistas, o Espaço do Pensamento será um lugar preparado para dar uma boa chacoalhada no pensamento convencional.

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O peregrino de Terrence Malick

Paul Elie (citado por Gregory Wolfe em “The Operation of Grace”) descreve a Peregrinação como uma jornada empreendida sob a luz de uma história ou pela ocorrência de um grande evento. O peregrino escuta o relato e parte em busca da evidência, não para confirmar, simplesmente, a experiência alheia, em primeira mão; ele quer ser modificado pela experiência. A história que desencadeia a peregrinação neste “Cavaleiro de Copas”, de Terrence Malick, é mencionada logo no começo do filme: além da narração dos trechos iniciais de “O Peregrino”, de John Bunyman, ouvimos o pai do Cavaleiro, vivido por Brian Dennehy, a relembrar o que costumava contar ao filho:

“Lembra-se da história que eu contava, quando você era menino? Sobre um jovem príncipe, um cavaleiro, enviado pelo seu pai, O Rei do Leste, a Oeste do Egito, para encontrar uma pérola nas profundezas do Oceano? Quando ele chegou, as pessoas serviram-no uma bebida que o desmemoriou. Ele se esqueceu de que era filho do Rei, se esqueceu da pérola e caiu em sono profundo. Mas o Rei não se esqueceu de seu filho”

Oceano e deserto são dois dos elementos simbólicos mais fortes deste e de outros filmes de Malick.

Se o cinema é pródigo em heróis romantizados capazes, por si mesmos, de epifanias súbitas, Terrence Malick, ao transformar o protagonista de seu “O Cavaleiro de Copas” em peregrino, deixa claro que a peregrinação não é empreendida solitariamente. Porque o que está em jogo é a morte do espírito, ocasionada pela incapacidade de se abrir ao transcendente, de perceber a glória que nos circunda. Para acessar o amor que nos permeia é necessário nos abrirmos generosamente à vida e ao outro. É necessário nos comprometermos em nossas relações.

Procuramos estabelecer identidades coerentes através do tempo, e a memória autobiográfica pode servir à elaboração, realçando percepções individuais de consistência pessoal ao longo dos anos. No entanto, o medo de e a dificuldade para formar vínculos sólidos e estáveis transforma a vida em história incoerente, fragmentada por uma sucessão inarticulada de eventos transitórios que nos afasta da realidade do Amor que nunca muda. Tais oscilações contínuas fraturam o senso de identidade; é o que o protagonista nos diz, logo no início do filme:

“Todos esses anos, vivendo a vida de alguém que não conhecia”

“Cavaleiro de Copas” é a história, contada por meio de imagens assombrosas, de uma peregrinação numa terra desolada (ambição, promessas falsas, amores fáceis), entorpecida e fascinada por si mesma, em busca desta pérola, a “divina presença” esquecida (em nós, ao nosso redor). Ao contrário do que apregoa o mantra moderno, não é a jornada que importa, mas o ponto de chegada. O ponto de chegada do peregrino, interpretado por Christian Bale, é o início de sua Vida.

A paisagem sacrificial de Nic Pizzolatto

“Penso em Rocky segurando a minha mão e me contando sobre estar naquele carro quando criança, e como ocorre a mesma coisa com a história desta ilha. As histórias se tornam o lugar.”

É um tanto impreciso classificar como pertencente ao gênero noir o primeiro romance de Nic Pizzolatto, Galveston (Ed. Intrínseca, 235 páginas). Temos aqui duas narrativas que se alternam: a primeira acontece em 1987, quando Roy Cady, assassino profissional a serviço da máfia, é enviado para realizar um serviço e se descobre vítima de uma emboscada, articulada pelo seu empregador, Stan Ptiko. Ele consegue escapar e, durante a fuga, se depara com Rocky, uma prostituta de 18 anos de idade; posteriormente, encontrará a irmã de Rocky, Tiffany, de 3 anos de idade. Com a máfia no encalço, essa improvável família fugirá em direção à Galveston, para tentar recomeçar suas vidas, num motel de beira de praia. A outra narrativa acontece em 2008, quando encontramos Roy solitário e desfigurado. A transição entre as duas narrativas estabelece uma significativa mudança de perspectiva em relação ao passado. Das ruínas de um santuário idealizado para onde fugir do inferno presente, torna-se o fiador de uma jornada de redenção. O historiador Brian Black, ao descrever as transformações industriais e ambientais na Pensilvânia, ocasionadas pela extração de petróleo em meados de 1860, cunhou o termo “paisagem sacrificial”: paisagem que deve morrer para que outra possa sobrevir. Se em True Detective a Luisiana descrita por Pizzolatto é a imagem viva do processo do Armagedom(http://www.theatlantic.com/technology/archive/2014/03/the-sacrificial-landscape-of-em-true-detective-em/284302/), gestado a partir da incorporação pela paisagem de todos os indícios de civilização remanescentes em locais que foram abandonados, em Galveston o apocalipse pessoal de Roy Cady já aconteceu, cedendo espaço à preparação de sua própria paisagem sacrificial. Em Galveston, partes do mundo devem morrer a fim de que o restante possa viver e prosperar, para o bem ou para o mal:

“Livre das cidades, o Texas se transforma em um deserto verde disposto a esmagá-lo com a sua vastidão, um pilão repleto de céu.”

“A ventania carrega a chuva em fortes rajadas, e as nuvens deixam a tarde tão escura quanto um vestido de viúva. O ar pesado está repleto de ozônio e água do mar. A atmosfera estala e crepita ao longe, e relâmpagos brilham sobre o oceano como se o céu tivesse engolido uma dinamite. Em sua borda arfante quase posso perceber outra escuridão, um tipo de negritude mais densa erguendo-se do horizonte em um formato que não sou capaz de imaginar.”

A escrita hábil de Pizzolatto nos conduz, juntamente com Roy, à sua epifania final:  ele se ofereceu em sacrifício para que as garotas pudessem viver uma nova vida. É pelo futuro das garotas que ele força o acerto de contas com Stan Ptiko e que deflagrará uma violência impiedosa que culminará nas “60 páginas finais mais dilacerantes da recente literatura norte-americana”, nas palavras do crítico Martim Vasques da Cunha.

“Você não sobrevive a certas experiências, e depois delas, não existe mais de forma plena, apesar de não ter morrido.”

“Minha sombra à frente é torta o bastante para ser confundida com algum crustáceo delgado que se arrastou do mar. Movendo-se para fora da história.”

O principal motivo pelo qual Galveston não se enquadra como representante do gênero é a ausência do estranho paradoxo que caracteriza a narrativa noir. O moto-perpétuo da modernidade é o desejo da vontade decaída de encontrar um bem absoluto que traga a felicidade. Diante do despojamento de significado atribuído a certa linguagem artística que remete à ideia do sagrado, um dos papéis fundamentais da grande arte é necessidade de restaurar significados, de restabelecer um código de vícios e virtudes esquecido neste mundo cada vez mais secularizado. Uma das formas de fazê-lo coube (ou caberia) à arte noir, com sua habilidade para evidenciar a sensação de que há algo de errado na condição humana (atmosfera de pesadelo criada pela temática sombria e personagens ambivalentes desorientam o espectador, que não encontra pontos de referência familiares a que se apegar) e induzir certa alienação às suposições otimistas racionalistas. A situação trágica do protagonista noir é a sua percepção de que o Universo não responde diretamente aos desejos humanos; o grande tema da arte noir é ausência que assombra o mundo, a morte de Deus. Ao expor as frustrações do homem moderno em suas tentativas de reformar a natureza e o mundo a fim de torná-los aceitáveis às suas necessidades e aos seus desejos, suavizando, destarte, as inconveniências da condição humana, revertendo os efeitos da Queda e criando um paraíso que eliminaria essa sensação de ausência, o grande mérito da arte noir é tornar evidente que o dualismo da modernidade não é o cartesiano – que opõe corpo e mente –, mas o dualismo que opõe a grandeza e a miséria do homem. Mas, eis o paradoxo: há uma espécie de determinismo do mal a configurar as narrativas sombrias: os personagens se encontram aprisionados por ações vis realizadas no passado e que os assombra no presente, cuja repetição os aguarda no futuro – um futuro, portanto, moldado pela violência do passado. O determinismo noir implica que o mal é mais do que o exercício da livre ação do protagonista. Ora, se somente seremos capazes de apreciar a redenção ao experimentarmos o quão perdidos estamos e o quão excelente é a restauração, o determinismo noir aprisiona seu protagonista na prisão inescapável da alienação; o mal irremível descortina a redenção impossível ou desnecessária: a tortuosa jornada do protagonista se torna inútil e, inevitavelmente, terminará em morte (física e/ou espiritual). Nas palavras de Thomas Hibbs, o noir é o “descortinar do torpor dogmático de que tudo é como deveria ser”.

A narrativa de Galveston não é uma narrativa noir, mas aquilo que pode ser chamado de neo-noir, ou narrativa de redenção: o protagonista experimenta árduo crescimento espiritual, cujo resultado final é tênue e associado à sensação dolorosa de custo e perda; ao acentuar o intervalo entre aparência e realidade e evidenciar as consequências destrutivas de certas ações, livremente escolhidas, oferece, do mesmo modo que a narrativa noir tradicional, visões sombrias acerca da condição humana em meio a uma jornada para recuperar um código perdido de vícios e virtudes. No entanto, não encerra seus personagens no mal absoluto, ao lhes oferecer também o vislumbre da possibilidade de redenção, mesmo que o preço seja o sacrifício.

“Eu estava errado quando disse para Rocky que você pode escolher o que sente. Não é verdade. Nem mesmo é verdade que você possa escolher quando vai sentir. O que acontece de fato é que o passado coagula como uma catarata ou uma casca, uma casca de lembranças sobre seus olhos. E, um dia, a luz atravessa.”

 

Seeds of the Word

De pé, então, no meio do Areópago, Paulo falou:

“Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Ora bem, o que adorais sem conhecer, isto venho eu anunciar-vos”.

Atos dos Apóstolos 17,22-23

“Before sowing the Word, one looks for semina verbi (seeds of the word) already present among the people one seeks to evangelize. The wager is that, once these are uncovered, the Word of Christ will not seem so strange or alien. In the best case, a nonbeliever might come to see that he had, in fact, been worshipping Christ all along, though under the guise of an Unknown God”. (Antes de semear a Palavra, devemos procurar pelas sementes da Palavra. A aposta é que, uma vez descobertas, as Palavras de Cristo não soarão tão estranhas ou esquisitas. Na melhor das hipóteses, um descrente poderá perceber que, na verdade, tem adorado a Cristo há muito tempo, sob a aparência de um Deus Desconhecido)

Seeds of the Word – finding God in the culture, Robert Barron

“A menos que trabalhemos para a renovação da cultura, participando na vida da arte em nosso próprio tempo, vamos assistir à invasão dos bárbaros entrando por portas que nós mesmos demolimos”.

A beleza salvará o mundo, Gregory Wolfe

Mal imaginam que, como gêmeos siameses, conservadores e progressistas mantém uma relação umbilical no menosprezo à cultura pop. Isso ocorreu porque tais disposições, ao ignorar tanto a dimensão da arte que busca o ordenamento da existência quanto seu poder para educar a imaginação, que “nos convoca a deixar nossa personalidade para trás e, temporariamente, vivenciar uma experiência alheia, olhar o mundo com novos olhos” (Gregory Wolfe), instrumentalizaram-na para fins políticos: para a turma à Direita, só a alta cultura importa, porque é ela quem torna seus consumidores seres morais melhores (para não dizer superiores); à Esquerda, só a alta cultura importa porque capacita seus consumidores a pensar por conta própria e concretiza efetivamente a liberdade do oprimido sobre o opressor, esse produtor mecânico de cultura – em outras palavras, somente a alta cultura desafia o status quo. Esse ponto em comum, esse olhar enviesado para a cultura de nossa época, resulta de uma postura elitista e arrogante que acomete todo o espectro político: consumidores de cultura pop são massas que aceitam, indiscriminadamente, tudo aquilo que lhes é fornecido pelas indústrias fono e cinematográficas; consumidores de cultura pop são incapazes de distinguir entre a “boa” e a má” cultura; em resumo, são incapazes de fazer escolhas. Curioso que tanto a esquerda quanto a direita, sob tal ponto de vista, também se encontram na encruzilhada resultante dessa perspectiva: consumidores de cultura pop precisam, não de críticos capazes de desvelar a beleza e as verdades que podem ser encontradas em muitos produtos artísticos, mas de tutores que lhes digam qual a verdadeira arte capaz de redimir. A boa arte, seja qual for, é aquela capaz de articular a abertura à transcendência, e não aquela que se torna ela mesma a Transcendência. Precisamos olhar a cultura pop com olhos caridosos porque se trata da cultura de nossa época; precisamos separar o joio do trigo e não entregar o joio e o trigo para os bárbaros. Como todos os grandes artistas, os de nossa época podem nos ajudar a “descobrir um caminho redentor em direção `a ordem”, especialmente nesta “Babel fragmentada” em antagonismos  que vivemos.

Nesta excelente palestra, realizada em Sorocaba – SP no dia 12 de março, no Mosteiro São Bento, Dionisius Amendola (https://preconceitosdiletantes.wordpress.com/) mostra que a cultura pop não é nem o lodo de relativismo democrático em que tudo importa, nem a lama de futilidades em que nada importa. Aqueles que menosprezam a cultura de nossa época o fazem porque desconhecem completamente o assunto do qual estão a falar.

Bunker do Dio: https://www.youtube.com/channel/UCtIjkxaomS0hqKEzO4PAfTA