“Aja como se tivesse fé, que a fé lhe será dada”

         O Veredito (1982), dirigido por Sidney Lumet, conta a história de Frank Galvin (Paul Newman), um advogado decadente em busca de redenção. Essa busca passa por readquirir sua fé na justiça — fé que o cinismo e o fracasso haviam destruído. A origem da palavra “redenção” revela a jornada do protagonista: “comprar de volta“, “recuperar”. Galvin tem a possibilidade de restaurar o propósito e a harmonia minados pela desilusão. O roteiro deste filme é do dramaturgo David Mamet.

Frank Galvin (Paul Newman) é apresentado como um advogado que já foi promissor, mas que se perdeu no alcoolismo depois de um episódio traumático: injustamente preso e demitido de sua firma de advocacia, passou a encarar o sistema legal como um jogo manipulável, onde a verdade e a justiça servem a interesses financeiros. Essa descrença reflete uma crise existencial mais profunda. Sem a justiça como bússola moral, Galvin vive em desarmonia, distante de qualquer vida virtuosa. Para Platão, a justiça é essencial à harmonia da alma — logo, a corrupção moral de Galvin resulta em desordem.

Eis que surge um processo sobre negligência médica. Inicialmente, Galvin vê o caso como atalho financeiro, e considera aceitar a oferta pecuniária dos réus — um hospital poderoso ligado à Igreja Católica, e seus advogados — para fechar um acordo sem a necessidade de ir a julgamento. Entretanto, há uma mudança quando ele visita a paciente vítima do erro médico e que se encontra em coma. Sua intenção era fotografá-la e usar as imagens para obter maior compensação financeira para os familiares da vítima. Porém, ao olhar para ela — Deborah Ann Kaye – um olhar mediado pela câmera (aqui, um piscar de olhos para o poder da imagem) – Galvin a enxerga como pessoa. Ao percebê-la como ser humano ele reconhece nela não apenas a dignidade mas também a gravidade da injustiça cometida contra ela, tanto pelos médicos quanto pela instituição. E reconhece a oportunidade de fazer a coisa certa. Esse despertar moral transforma a justiça de conceito abstrato em uma causa pessoal, um caminho para restaurar sua integridade.

Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles postula que as virtudes são adquiridas pelo hábito: 

“Tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e corajosos agindo corajosamente (…) na prática de atos em que temos de engajar-nos dentro de nossas relações com outras pessoas, tornamo-nos justos ou injustos“. 

É exatamente isso o que diz Frank Galvin só que com outras palavras, numa das cenas finais do filme: “Aja como se tivesse fé, que a fé lhe será dada”. Embora ressoe com a noção cristã de fé manifestada por obras, a frase reflete especialmente a visão aristotélica de que o comportamento molda o caráter. Ao rejeitar o acordo proposto pelo hospital e lutar pela dignidade da paciente, e a despeito das chances desfavoráveis, Galvin pratica a justiça — e, ao praticá-la, cultiva a fé que lhe faltava. Ao confrontar o sistema corrupto, Galvin restaura uma ordem ética na qual prevalecem tanto a verdade (e a negligência é exposta) e o bem (pois a vítima é defendida). Ética e estética são interdependentes: sua batalha está indissociado do belo, dada a beleza de uma vida moral onde a harmonia é recuperada e a dignidade, restaurada. Platão associava a justiça ao Belo, ao Bom e ao Verdadeiro; a vitória de Galvin reafirma esses ideais.

O Veredito é uma história sobre justiça e redenção. O filme nos ajuda a entender que a justiça não é garantida — ela precisa ser conquistada por luta e coragem. Não importa que o sistema jurídico permaneça imperfeito, a transformação de Galvin foi significativa: ele recuperou sua humanidade ao alinhar suas ações com a verdade e o bem. Como aprendemos com ele ao longo do filme, “agir como se tivesse fé” pode ser um caminho para reacender a crença na justiça e para a possibilidade de uma vida virtuosa.

“Respire! Você conhece a saída! Há sempre uma saída!” (Mike Terry)

No início de Cinturão Vermelho (Redbelt, 2008), escrito e dirigido por David Mamet, o roteirista de O Veredito, conhecemos Mike Terry (Chiwetel Ejiofor), um instrutor de artes marciais que comanda uma academia com base em princípios rígidos. Mike é uma espécie de asceta moderno: rejeita a comercialização de sua arte, transformar sua academia em negócio lucrativo a qualquer custo, prioriza a integridade acima do ganho material. Seu mantra — “há sempre uma saída, controle suas emoções” — reflete um código moral fundamentado em disciplina, autocontrole e na crença de que qualquer problema pode ser superado com clareza mental e habilidade. David Mamet coloca esse código sob intensa pressão, questionando se tais princípios bastam para navegar um mundo corrupto.

O filme é permeado por um senso de acaso que, aos poucos, revela uma inevitabilidade trágica. Pequenos incidentes — a chegada de Laura Black (Emily Mortimer), uma advogada emocionalmente instável; o acidente com a arma de um policial na academia; o encontro com o ator de Hollywood Chet Frank (Tim Allen); o roubo de uma técnica de luta — desencadeiam consequências que enredam Mike em um mundo de corrupção, traição e violência.

Esses eventos parecem aleatórios, mas essa é, na definição de Edward Lorenz, a “essência do caos”: ocorrências que não são aleatórias, embora pareçam. Segundo Lorenz, caos designa processos que parecem se mover pelo acaso, mas são determinados por leis precisas. E que leis são essas? As condições iniciais (qualquer intervalo de tempo que estiver sendo avaliado). Todo fenômeno caótico é sensivelmente determinado pelas condições iniciais; ou seja, o futuro é determinado pelo presente, porém na prática o desfecho é imprevisível, porque qualquer aproximação ou erro mínimo na estimativa ou avaliação das condições iniciais leva a desvios exponenciais nos resultados. O bater de asas da borboleta…

O rigor ascético de Mike Terry será submetido aos jogos de poder e manipulações, à pressão econômica, à corrupção de valores. Essa tensão é tema recorrente na obra de David Mamet, seus trabalhos frequentemente exploram como ações aparentemente triviais geram reações em cadeia imprevisíveis e que, atenção, PARECEM aleatórias. O protagonista é cercado por personagens que encarnam forças corrosivas à sua virtude: a vaidade de Chet Frank, o egoísmo de Jerry Weiss, a malícia dos promotores de lutas que manipulam o sistema. A pureza do código de honra de Mike, embora não ingênua, o torna vulnerável. Ele entende o mundo à sua volta, mas sua recusa em se comprometer o expõe ao risco. Mamet parece perguntar: é possível manter essa pureza sem ser destruído? Na verdade, esse código é um conjunto de postulados que possibilitará adaptação dentro de um sistema caótico e complexo. 

Na cena final, um confronto quase mítico onde Mike Terry enfrenta seus adversários, ele reafirma seu código a um custo pessoal. Sua “saída” não é uma vitória material; é a preservação de seus valores, mesmo que isso signifique a derrota no mundo prático. Cinturão Vermelho é, assim, uma meditação sobre a luta para manter a integridade em um mundo que fustiga a virtude.

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