O lugar pode ser este, se outro
melhor não houver. O que há
de comum: tudo aí se estabelece.”

— Heleno Godoy, Lugar comum e outros poemas (2005)

O poeta goiano Heleno Godoy, em sua obra quase esquecida, redefine o “lugar comum” não como algo trivial, mas como um espaço compartilhado, onde dores, alegrias e cicatrizes se entrelaçam na experiência humana. É nesse terreno universal que se situa Trouble Will Find Me (2013), sexto álbum da banda indie rock de Ohio, The National. Comparação improvável, mas reveladora: assim como Godoy, a banda transforma o ordinário em poesia, cantando as sobras do passado e as esperanças frágeis do presente.

Lançado após o aclamado High Violet (2010), Trouble Will Find Me consolida a maturidade da banda, composta por Matt Berninger (vocal), os irmãos Aaron e Bryce Dessner (guitarras) e Scott e Bryan Devendorf (baixo e bateria). O álbum, indicado ao Grammy de Melhor Álbum Alternativo, é uma obra de assimilação lenta, que exige paciência do ouvinte. A voz de barítono de Berninger, grave e confessional, guia o ouvinte por um labirinto de memórias e frustrações, como em “Sea of Love”, onde ele canta: “If I stay here, trouble will find me” — um reconhecimento de que a dor é inevitável, mas também um convite à resiliência.

O álbum trata de adultos presos a uma “tirania infantilizada” que cobra felicidade constante, enquanto lidam com insatisfações que os protegem — e os aprisionam — das assombrações do passado. Em “Pink Rabbits”, Berninger reflete sobre um amor perdido com versos como “You didn’t see me, I was falling apart”, acompanhados por um piano melancólico e camadas sutis de guitarra. As melodias, longe de serem grandiloqüentes, organizam o caos emocional com precisão artesanal. A produção, assinada por Craig Silvey e pela própria banda, equilibra bateria contida, baixo pulsante e arranjos orquestrais discretos, criando um som ao mesmo tempo íntimo e expansivo.

Como no poema de Godoy, as cicatrizes são centrais. Em “Graceless”, a banda explora a autocrítica e a vulnerabilidade: “I’m not graceless, I’m just a little out of tune”. Aqui, o sofrimento é um lugar comum, mas não banal; é o que conecta todos nós. A instrumentação versátil — com destaque para os arranjos dos irmãos Dessner — acomoda perdas acumuladas e corações partidos, mas nunca cede à autoindulgência. Há, ainda, uma estranha esperança que permeia o álbum: a de sobreviver à ausência, de dar tempo ao tempo. Em “Hard to Find”, o encerramento, Berninger canta “They say love is a virtue, don’t they?”, com uma resignação que soa quase redentora.

o tempo é esse lugar que se apaga a cada passo
e não há metáforas para além destas distâncias
intransponíveis e vertiginosas
que nos cabe esquecer”

— Annita Costa Malufe, Nesta cidade e abaixo de teus olhos (2007)

A citação de Anita Malufe Costa ecoa o tom do álbum: o tempo, com suas distâncias e esquecimentos, é o pano de fundo para as histórias de Trouble Will Find Me. É um disco que sugere que há beleza em aceitar as marcas do caminho; um convite a habitar o lugar comum — não o trivial, mas o compartilhado, onde a dor e a esperança coexistem.

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