TEXTO COM SPOILERS

Ortega y Gasset, em seu ensaio El fondo insobornable (1946), define o fundo insubornável como

“O núcleo último e individualíssimo da personalidade que está soterrado sob julgamentos e condutas sentimentais, que, de fora, caíram sobre nós. Somente alguns homens dotados de uma energia peculiar conseguem vislumbrar em certos instantes as atitudes daquilo que Bergson chamaria de “o eu profundo”. De quando em quando, chega à superfície da consciência a sua voz profunda.”

Para Ortega, a autenticidade reside na correspondência entre o interno e o externo: o gesto deve refletir o espírito, e a realidade externa deve expressar a realidade interna. Quando essa adequação falha, surge a farsa — uma realidade que se finge de verdadeira, mas que é, na verdade, uma distorção.

Ortega distingue dois tipos de farsantes: aquele que defende opiniões sem convicção, falseando o externo, e aquele que, possuindo convicções, as oculta, falseando o interno. Ambos traem a si mesmos, pois a verdade do homem exige a manifestação coerente do fundo insubornável. Essa perspectiva ecoa o convite socrático ao exame de consciência, um exercício de introspecção que, segundo Platão em Apologia de Sócrates, prioriza o “o que é” sobre “o que se tem”:

“Não tenho cuidado com o que a maior parte das pessoas cuida: dinheiro, administração de bens, cargos militares, sucesso oratório, magistraturas, coalizões, facções políticas. Eu me engajei nada nessa via…mas naquela onde, a cada um de vós em particular, farei o maior bem, tentando vos persuadir a se preocupar menos com o que se tem do que com o que é…”

Sócrates, ao rejeitar preocupações mundanas como riqueza ou poder, buscava persuadir os outros a se voltarem para o autoconhecimento, um processo que Ortega reformula como o resgate do eu autêntico diante das pressões da vida coletiva.

Shutter Island (2010), filme dirigido por Martin Scorcese, descreve a jornada psicológica de Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e nos revela a tensão entre a autenticidade do eu e as farsas construídas para escapar da verdade. Daniels, suposto agente federal que chega à ilha para investigar o desaparecimento de uma paciente do hospital psiquiátrico, é revelado como Andrew Laeddis, um paciente que criou uma narrativa fictícia para escapar da culpa por seus atos trágicos pregressos. A recusa de Andrew em confrontar sua responsabilidade — o assassinato de sua esposa, após ela matar seus filhos — exemplifica a construção de uma farsa no sentido proposto por Ortega y Gasset. Ele enterra seu fundo insubornável sob uma identidade fabricada, negando a verdade de suas ações e de seu sofrimento. Essa negação, porém, não é apenas uma fuga psicológica; é uma escolha existencial que o aprisiona em um simulacro de realidade.

A lógica da farsa em Shutter Island pode ser desdobrada em três níveis:

1. A Farsa Externa: Teddy projeta uma identidade de detetive heroico, cujas ações (investigar o hospital, buscar justiça) são inconsistentes com sua realidade interna. Como o farsante que Ortega descreve, ele defende com veemência uma narrativa que não corresponde à sua verdade, criando uma fachada que o distancia de si mesmo.

2. A Farsa Interna: Andrew, ao reprimir sua culpa e dor, nega a manifestação de seu fundo insubornável. Ele não apenas falseia o externo, mas também o interno, ao recusar o exame de consciência que poderia revelar sua identidade verdadeira. Essa repressão o condena à alienação, onde sua voz profunda, nas palavras de Ortega, raramente chega à superfície.

3. O Ciclo Vicioso da Farsa: A farsa de Teddy se perpetua em um ciclo que Ortega identifica como característico da modernidade: a ilusão de autossuficiência. Ao justificar suas ações com a narrativa de vítima (o incêndio, a conspiração no hospital), Teddy evita a responsabilidade, criando barreiras entre suas ações e sua identidade. Esse mecanismo reforça o simulacro, pois cada tentativa de sustentar a farsa exige novas distorções da realidade.

    A recusa de Teddy em realizar um exame de consciência o impede de encontrar um ponto de referência estável para sua vida. Ele atribui seus erros a circunstâncias externas (a doença da esposa, as supostas conspirações). Sem assumir a responsabilidade, Teddy não pode se redimir, pois a redenção exige o reconhecimento do que se fez e do por quê foi feito. Como resultado, ele permanece aprisionado em um “pesadelo” existencial, onde a possibilidade de salvação é negada pela sua própria resistência.

    Shutter Island revela que escapar da prisão existencial que é viver uma farsa exige exame de consciência e o confronto com o fundo insubornável. Teddy Daniels se condena a um simulacro, ao evitar esse confronto: a perda de liberdade, da identidade e da possibilidade de redenção. A modernidade, com sua ênfase na autossuficiência e na evasão da responsabilidade, é propensa ao simulacro – as farsas coletivas e individuais tendem a se alimentar mutuamente. Assumir nossos atos e sermos responsáveis por aquilo que fazemos é o único caminho para assegurar nossa identidade. Caso contrário, corremos o risco de perder não apenas nossa alma, mas nossa própria humanidade.

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