No documentário “Running with our eyes closed” (HBO), há um momento em que o cantor e compositor Jason Isbell e sua esposa, a violinista Amanda Shires, estão discutindo a respeito de qual a preposição correta para a letra de uma música que ele está compondo, a fim de transmitir adequadamente a imagem que o autor pretendia. Contrariado, ele aceita a sugestão, e diz:

“Se eu estivesse fazendo música para as pessoas dançarem, não estaria aqui perdendo meu tempo com preposições. Mas as pessoas não estão dançando, portanto, é preciso colocar a preposição correta.”

Em seu disco Weathervanes (2023), percebemos como essa “carpintaria” do texto resulta em canções capazes de transmitir não apenas uma variedade de emoções (If you insist: “my momma spent every day alone, in a house with noise and names, she got so tired of putting out fires, she just laid down in the flames”), mas também certa vivacidade na descrição das lutas cotidianas das pessoas comuns.

A eficácia das canções também se deve à competente banda que o acompanha há anos, a 400 Unit: a canção Death Wish, que abre o disco, inicia com o refrão, que se repete mais 3 vezes ao longo da execução – e, em cada repetição, a adição de novos instrumentos aumenta a tensão, realçando a sensação de angústia proposta pelas letras (a respeito de se sentir incapaz de ajudar alguém enredado nas armadilhas do vício, e que pode estar a um passo longe de qualquer ajuda possível).

Há ecos, aqui e ali, de Ryan Adams, Van Morrison, Tom Petty e Bruce Springsteen. Em Weathervanes, Isbell também canta sobre paternidade (Save the world: “school’s starting next week, a lady says ‘you have a lovely child’, I’m too terrified to speak, can we keep her at home instead, can we teach her how to fight?”), sobre personagens sem emprego e viciados em medicamentos, luto, racismo.

Entretanto, se há um tema geral – e que está em todo o trabalho de Isbell desde seu disco solo, Southeastern – é a necessidade de se chegar a um termo com o passado: entendê-lo, acomodá-lo, integrá-lo a um presente (ainda que insatisfatório). Somos responsáveis por muitas de nossas decisões e devemos lidar com as consequencias, mas também devemos lutar para escolher a melhor postura diante de acontecimentos dos quais não temos nenhum controle.

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