A trama de Past Lives, filme sul-coreano dirigido por Celine Song, é aparentemente simples, mas carrega uma profundidade emocional e filosófica que transcende sua estrutura linear: Nora e Hae Sung, amigos de infância em Seul, são separados quando a família dela emigra para o Canadá. Doze anos depois, já adultos, eles se reconectam brevemente pelas redes sociais, mas Nora, imersa em sua nova vida, opta por interromper o contato. Mais 12 anos se passam, e agora, casada e estabelecida em Nova York, ela recebe a proposta de Hae Sung para um reencontro durante sua visita à cidade. Essa narrativa episódica, marcada por intervalos temporais e geografias distantes, estabelece o palco para uma meditação sobre memória, escolhas e o peso do que poderia ter sido.

Nossas recordações são filtradas pelo prisma de quem somos no presente. Nossas personalidade, expectativas e crenças moldam seletivamente o que lembramos, enviesando a forma como interpretamos o passado. Buscamos construir uma identidade coerente ao longo do tempo, e nossas memórias servem a esse propósito, destacando experiências que reforçam a percepção de continuidade pessoal e suprimindo o que parece dissonante. Em Past Lives, essa dinâmica é evidente na forma como Nora reconstrói sua história: sua infância com Hae Sung é lembrada não apenas como um laço afetivo, mas como um símbolo de um caminho não trilhado, filtrado por sua vida atual como imigrante e escritora casada em Nova York. Quando contamos nossa história, seja a nós mesmos ou aos outros, tendemos a privilegiar o que realizamos, as escolhas que fizemos, e a relegar ao esquecimento o que desperdiçamos, o que descartamos, o que não escolhemos.

Mas o que acontece quando não encontramos sentido em certos eventos do passado? Revisitamos nossas memórias, interrogando-as em busca de respostas, e descobrimos que nossa trajetória é igualmente definida por perdas, omissões e desejos não realizados — pelas possibilidades que nunca se concretizaram. Em Past Lives, o reencontro de Nora e Hae Sung força ambos a confrontar essas possibilidades descartadas. A cena em que caminham por Nova York, conversando sobre suas vidas, é impregnada de um silêncio que carrega o peso do “e se”: e se Nora não tivesse emigrado? E se tivessem mantido o contato anos antes? É nesse descompasso entre o que somos e o que poderíamos ter sido que a nostalgia se manifesta, não como um lamento, mas como uma reflexão agridoce sobre a textura inevitável de nossas escolhas.

Em A ignorância, Milan Kundera descreve a nostalgia como o sofrimento causado pelo desejo irrealizável de retornar — ao país, à infância, ao passado. Ele aprofunda essa ideia ao explorar a etimologia da palavra espanhola añoranza, derivada do verbo añorar (ter nostalgia), que remonta ao catalão enyorar e, por fim, ao latim ignorare (ignorar). Assim, a nostalgia emerge como o “sofrimento da ignorância”: sofremos não apenas pela impossibilidade de voltar, mas pela incerteza sobre o que poderia ter sido. Em Past Lives, essa ignorância é perceptível na interação entre Nora e Hae Sung. Quando Hae Sung pergunta a Nora se ela já se perguntou como seria sua vida se tivesse ficado na Coreia, a resposta dela, evasiva, reflete a dor de confrontar essa incerteza. A nostalgia que permeia o filme não é apenas pelo passado compartilhado, mas pela impossibilidade de saber o que teria acontecido se suas escolhas tivessem sido outras — se Nora não tivesse partido, se Hae Sung tivesse insistido no contato anos antes.

Past Lives é a narrativa da transformação da nostalgia em memória, um processo em que Nora e Hae Sung reconciliam quem foram com quem são. A nostalgia, inicialmente um peso carregado pela incerteza do “e se”, é gradualmente absorvida como parte de suas histórias, permitindo-lhes aceitar o presente sem o tormento da ignorância. Essa conversão é ilustrada na cena final, quando Nora, após acompanhar Hae Sung ao táxi, retorna para casa em lágrimas, mas com um semblante de aceitação. O choro não é apenas de perda, mas de reconhecimento: o passado, com todas as suas possibilidades não realizadas, é parte integrante de sua identidade atual. O filme sugere que suas vidas oscilam entre acaso e destino — uma tensão refletida na menção ao conceito coreano de in-yeon, a ideia de que encontros são frutos de conexões predestinadas ao longo de vidas passadas. Seja por providência ou livre-arbítrio, o corolário é o mesmo: a inevitabilidade do presente. O reencontro de Nora e Hae Sung, marcado por silêncios e olhares, cristaliza esse instante como o ponto de convergência de todas as escolhas, acasos e possibilidades que os conduziram até ali.

Reconhecer as possibilidades não realizadas — os caminhos que poderíamos ter trilhado, mas não trilhamos — não precisa culminar em nostalgia ou arrependimento. Em Past Lives, esse reconhecimento é um ato de integração: Nora e Hae Sung transformam a dor da ignorância em uma memória que enriquece suas identidades. Aceitar o passado, com seus erros, acertos e omissões, é o que permite seguir adiante, carregando uma bagagem que abrange tanto o que aconteceu quanto o que não aconteceu. O filme, com sua delicadeza visual e narrativa, nos convida a fazer o mesmo: contemplar as escolhas e perdas, não com angústia, mas com a serenidade de quem entende que o presente é o resultado inevitável de todas as possibilidades, realizadas ou não. Assim, Past Lives transcende a história de Nora e Hae Sung, tornando-se um espelho para nossas próprias reflexões sobre o que fomos, somos e poderíamos ter sido

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