

Rumo a Bizâncio
W.B.Yeats
(tradução de Frederico Pedreira)
Este país não é para velhos. Os jovens caídos
Nos braços uns dos outros, nas árvores os pássaros
– Moribundas gerações – vão cantando,
Cascatas de salmões, mares de cavalas,
Peixes, aves, a vera carne, celebram o verão inteiro
Tudo quanto é gerado, nasce e morre.
Cativos dessa música sensual, todos abandonam
Os monumentos do perene intelecto.
II
Um velho é coisa sem valor,
Esfarrapado casaco esquecido num bordão,
A não ser que a alma bata palmas e cante,
E mais alto cante cada farrapo da sua veste mortal;
Não há sequer escola de canto, somente o estudo
De monumentos ao seu próprio esplendor;
Por isso atravessei os mares e alcancei
A sagrada cidade de Bizâncio.
III
Ó sábios que permaneceis no sagrado fogo de Deus
Como no dourado mosaico de um muro,
Vinde do sagrado fogo, revolteai num vórtice,
Sede os mestres cantores da minha alma.
Reduzi a cinzas este meu coração; doente de desejo,
Amarrado a um animal moribundo,
Ele não sabe ao que vem; juntai-me
Ao artifício da eternidade.
IV
Assim que da natureza me apartar, nunca mais
Tomarei a forma corpórea de uma coisa natural,
Será antes minha a forma que os ourives gregos dão
Ao ouro quando forjado e ao quando esmaltado
Para manter abertos os olhos do sonolento Imperador;
Ou poderei antes subir a um ramo dourado e cantar
A todos os soberanos e senhoras de Bizâncio
O que passou, o que passa, ou o que está por vir.
Sailing to Byzantium, escrito por W.B. Yeats em 1926, reflete a busca do poeta por transcendência em um mundo preso à decadência física e à transitoriedade. Bizâncio, antiga capital do Império Romano do Oriente e centro espiritual da cristandade, é evocada como símbolo da arte eterna, capaz de superar os limites do tempo e do corpo. No poema, o eu lírico rejeita o mundo sensual, onde “os jovens caídos / Nos braços uns dos outros” celebram “tudo quanto é gerado, nasce e morre”, em favor de um ideal de permanência alcançado pela criação artística: “o artifício da eternidade”. O verso inicial, “Este país não é para velhos”, inspira o título de No Country for Old Men (2005), de Cormac McCarthy, e estabelece a tensão central tanto do romance quanto de sua adaptação cinematográfica de 2007, dirigida por Joel e Ethan Coen. O poema serve como uma lente hermenêutica para interpretar a oposição entre o caos efêmero e a busca por sentido, seja pela moral, pela fé ou pela arte, explorada nas duas obras, embora cada uma aborde a possibilidade de redenção de maneira distinta.
Em seu livro, Cormac McCarthy opõe dois mundos irreconciliáveis, cada um expresso por um estilo narrativo distinto. O mundo externo, habitado por Anton Chigurh e Llewelyn Moss, é descrito em uma prosa seca e objetiva, como no trecho em que Chigurh executa um movimento letal com precisão quase mecânica:
“Quando ele se levantou da cadeira puxou as chaves que estavam presas ao cinto e abriu a gaveta da escrivaninha para pegar as chaves da cela. Estava ligeiramente curvado quando Chigurh se agachou e passou rapidamente as mãos algemadas por baixo dele até a parte de trás dos joelhos. No mesmo movimento sentou-se e rolou para a frente e passou a corrente por baixo dos pés e então se pôs de pé no mesmo instante e sem esforço algum.”
Essa linguagem reflete um universo niilista, onde a violência é um fim em si mesma, desprovida de propósito moral. Chigurh, com sua lógica implacável, personifica o caos desumanizado, enquanto Moss, movido pela cobiça, é tragado pelo mesmo ciclo de destruição. A prosa concisa e despojada reforça a natureza quase mecânica desse mundo, onde ações são descritas sem julgamento ou emoção, como se o mal fosse um dado ontológico do universo.
Em contraste, o mundo interior do xerife Ed Tom Bell é expresso em monólogos de tom poético e introspectivo:
“Dizem que os olhos são a janela da alma. Não sei para onde aquelas janelas davam e acho que preferiria nem saber. Mas há uma outra visão do mundo lá fora e outros olhos para enxergarem essa visão e é aí que estou querendo chegar. Me trouxe a um lugar na minha vida em que eu não teria sonhado. Em algum lugar lá fora há um profeta da destruição vivo e verdadeiro e eu não quero confrontá-lo.”
Como o eu lírico de Yeats, que anseia por “atravessar os mares e alcançar a sagrada cidade de Bizâncio”, Bell busca um santuário de sentido em um mundo que abandonou os “monumentos do perene intelecto”. Seus monólogos revelam uma interioridade em luta contra o absurdo, ancorada na família e na memória de valores tradicionais. Um exemplo é sua reflexão sobre o amor por sua esposa:
“Quanto a mim, eu sempre tive sorte. Minha vida toda. Do contrário, não estaria aqui. Encrencas em que estive metido. Mas no dia em que eu a vi sair do Kerr’s Mercantile e atravessar a rua e ela passou por mim e eu toquei a ponta do chapéu para ela e recebi em resposta quase um sorriso, esse foi o dia de mais sorte. As pessoas reclamam das coisas ruins que acontecem a elas e que elas não merecem, mas raramente mencionam as boas. O que fizeram para merecer essas coisas. Não me lembro de ter dado ao bom Senhor tantos motivos para sorrir para mim. Mas ele sorriu.”
Aqui, o poder redentor do amor e da família emerge como um contraponto ao caos exterior, sugerindo uma transcendência oblíqua, ainda que difusa. Bell encontra repouso em um “santuário doméstico”, nas palavras de Christopher Lasch, que o protege de um “mundo sem coração”. Essa busca por permanência ecoa o anseio de Yeats por Bizâncio, onde a arte e o sagrado oferecem refúgio contra a decrepitude.


A adaptação cinematográfica de No Country for Old Men, dirigida pelos irmãos Coen, é fiel ao romance em sua trama e diálogos, mas diverge ao suprimir os monólogos interiores de Bell. No filme, essa dimensão introspectiva é reduzida a um breve voice-over inicial, no qual o xerife lamenta o mundo violento dos “jovens”:
“Eu sempre achei que quando ficasse mais velho, Deus meio que entraria na minha vida de algum jeito. Ele não entrou. Não sei dizer de outra forma, porque é assim que me sinto. Eu me sinto deslocado.”
Essa escolha transforma a obra em um exemplar do cinema noir, definido por Raymond Borde e Étienne Chaumeton como um gênero que “suscita estado de tensão no espectador quando todos os seus pontos de referência psicológicos são removidos”. A estética dos Coen – com enquadramentos que isolam os personagens em vastos cenários desérticos, uma paleta de cores dessaturadas e um ritmo deliberadamente lento – amplifica o desencantamento noir. Cenas como o confronto noturno entre Moss e Chigurh, cuja cinematografia exibe o contraste entre luzes artificiais e sombras, criam uma atmosfera onírica, onde a proximidade da morte é constante. Chigurh, com sua presença quase mitológica, encarna o mal como uma força cósmica, um “profeta da destruição” que transcende a agência humana.


A principal diferença entre o romance de McCarthy e o filme dos Coen reside em suas cosmovisões. O filme, com sua estética noir, abraça um niilismo que ecoa a visão de Thomas Hobbes, para quem a vida sem uma autoridade soberana é “solitária, pobre, desagradável, brutal e curta”. No universo dos Coen, a ausência de qualquer ordem moral ou divina reforça essa perspectiva hobbesiana, com Chigurh como a encarnação do caos primordial. Bell, deslocado como um herói de um western revisionista – onde os valores tradicionais do heroísmo são questionados –, parece incapaz de impor ordem ou encontrar sentido. Ele é um homem “aprisionado” em um mundo que não compreende, sem chance de escapar.

Embora tecnicamente brilhante, com atuações memoráveis e uma mise-en-scène que captura o vazio existencial do noir, o filme é menos ambicioso que o romance. McCarthy, ao preservar os monólogos de Bell, sugere a possibilidade de redenção, ainda que frágil, ancorada na família e na memória de valores tradicionais. Um exemplo é o momento em que Bell reflete sobre sua esposa:
“Todas as vezes que eu começo a falar sobre como as coisas estão ela encontra algo na bíblia então perguntei a ela se o Livro das Revelações tinha algo a dizer sobre o rumo que as coisas estavam tomando e ela disse que ia me avisar se soubesse. […] Então ela passou por trás da minha cadeira e colocou os braços em volta do meu pescoço e me mordeu na orelha. Ela é uma mulher bem jovem em vários sentidos. Se eu não a tivesse não sei o que teria.”
Como o eu lírico de Yeats, que anseia por Bizâncio, Bell busca um “artifício da eternidade” em um mundo que abandonou os monumentos do perene intelecto. O romance, ao equilibrar niilismo e esperança, oferece uma visão mais nuançada da condição humana, transcendendo o desencantamento noir. Assim, enquanto o filme dos Coen é uma poderosa representação do caos sem redenção, o romance de McCarthy, com sua abertura para o sagrado, atinge maior estatura artística, aproximando-se do ideal de permanência celebrado por Yeats.










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