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À Queima-Roupa (Point Blank, 1967), direção de John Boorman.
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
Lee Marvin personifica um espectro ambulante, isolado e deslocado, morto-vivo (literalmente?) em uma busca sem sentido por certa quantia de dinheiro, em meio a vilões corporativos sem identidade. John Boorman replica a desorientação de um certo mal-estar existencial da época por meio de sua narrativa oblíqua, numa espécie de delírio: ângulos de câmera inusitados, montagem elíptica que borra a lógica cronológica (saltos temporais, flashbacks dentro de flashbacks), composições desequilibradas em widescreen, diálogos entrecortados e robóticos. Um dos filmes “noir” mais sombrios já realizados – encenado sob uma paisagem simultaneamente ensolarada e opressora.

Napoleão (Napoleon, 2023), direção de Ridley Scott.
⭐️⭐️⭐️
Os comentaristas de cinema de YouTube limitaram-se a apontar os “erros” históricos do filme e não perceberam que Ridley Scott está nos mostrando – com um humor muitas vezes sutil, incluindo a trilha sonora – que Napoleão foi um autoritário patético e desprezível, e o resultado dessa combinação foram milhões de vidas ceifadas.

John Wick 4 (John Wick chapter 4, 2023), direção de Chad Stahelski.
⭐️⭐️⭐️
Chad Stahelski sabe filmar e coreografar cenas de ação; a hipérbole acrobática invariavelmente transforma seus personagens em autômatos, em personagens de videogame que, vez ou outra, ganham verniz de humanidade – naqueles (cada vez mais raros) momentos em que suas relações interpessoais ganham fôlego, numa pequena entressafra de calmaria em meio a tanto frenesi. Se, no filme anterior, os excessos entorpeciam, aqui a dança absurda de tiros e porradas ganha refinamento técnico e substitui o tédio pela indagação: “o que ainda falta ser feito?”

007 Operação Skyfall (007 Skyfall, 2012), direção de Sam Mendes.
⭐️⭐️⭐️⭐️
Um dos melhores filmes – talvez o melhor – da franquia 007, no qual um ciclo se encerra simultaneamente à renovação de toda a iconografia. Este filme é sobre renascimento, sobre o tempo, sobre as responsabilidades perante as decisões que tomamos – com referências a “Rio Bravo”, ao passado do agente e ao da própria série. Mais do que uma fênix envelhecida, aqui Bond é Ulisses, conforme descrito por Tennyson:
“Mesmo perdendo muito, há muito à frente,
Ainda que como antes não movamos
A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;
O mesmo heroico peito temperado,
Fraco por tempo e fado, mas forte a
Lutar, buscar, achar, e não ceder.”

O Contador de Cartas (The Card Counter, 2021), direção de Paul Schrader.
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
Em busca da expiação que nunca chega, William Tell (personagem de Oscar Isaac, em sua melhor atuação) habita um purgatório auto-imposto. Afasta-se do mundo encarcerando-se num ascetismo que o lembra do mal de que foi e de que é capaz. Circula por salões homogeneizados de cassinos despersonalizados, em quartos de motéis transformados em cela de prisão. Esse limbo existencial, à espera da redenção, é perfurado por 3 personagens, que o arrastarão de volta ao mundo e suas tentações – e que culminará em mais violência irredimível. É um filme que transpira raiva em sua contenção. É um filme que alterna a economia bressoniana (na jornada espiritual de seu protagonista solitário) com a hiperestilização de imagens de lentes grande angulares (para ilustrar os horrores de que esse mesmo personagem tomou parte, relembrados como pesadelos). Ao final (mais um aceno explícito ao filme Pickpocket, de Robert Bresson), não recebe nem a Graça nem a redenção, pelo menos William Tell encontra o fim da solidão. O que já é muita coisa, no universo de Paul Schrader.

Close (idem, 2022), direção de Lukas Dhont.
⭐️⭐️⭐️
Este filme é assombroso na intercalação entre o recorte naturalista, quase “tchekhoviano”, com que descreve o momento crucial na vida dos seus personagens, e uma abordagem mais simbólica – com os correlatos objetivos (as flores esmagadas, o braço fraturado e depois restaurado) e os enquadramentos. Todos os atores estão perfeitos. Tecnicamente, não há o que dizer. Entretanto…
Entretanto, temos o tema da perda da inocência a partir do conhecimento do bem e do mal. Conhecemos algo no instante em que somos capazes de nomeá-lo. O preço a pagar é alto; surge então o problema do filme: o poder restaurador do perdão (que possibilitaria ordenar esse conhecimento recém-adquirido) permanece soterrado pela avalanche emocional a que somos submetidos. Estamos como o personagem Léo, olhando uma casa vazia. Quase nos perguntamos: afinal de contas, para quê tudo isso?

A Professora de Piano (The Piano Teacher, 2001), direção de Michael Haneke.
⭐️
Michael Haneke derrapa quando deixa claro que seu interesse não é perscrutar o que há de obscuro ou (até certo ponto) insondável no ser humano, mas o grotesco – que, em suas mãos, se transforma em anedótico. Seu cinema aparentemente rígido se revela, neste filme, caricatural.

Um Conto de Inverno (A Tale of Winter, 1992), direção de Éric Rohmer.
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
“Embora a Canção de Amor venha sob disfarces – canções de exultação e louvor, canções de raiva e desespero, canções eróticas, canções de abandono e perda – todas elas se dirigem a Deus, pois são as premissas assombradas do desejo que a verdadeira Canção de Amor habita. É o uivo no vazio, por Amor e por conforto e vive nos lábios da criança chorando por sua mãe. É a canção do amante que precisa de sua amada, o delírio do lunático suplicando a seu Deus. É o grito de quem está acorrentado à terra, ao ordinário e ao mundano, desejando voar; um vôo para a inspiração, imaginação e divindade. A Canção de Amor é o som de nossos esforços para nos tornarmos semelhantes a Deus, para nos elevarmos acima do terreno e do medíocre.”(Nick Cave, A lecture on love song, 1999).
Um conto de inverno, sob tal perspectiva, é um filme de Amor. É também sobre aqueles raros momentos de introspecção (e oração) em que coincidem o conhecimento autêntico do presente, a revelação do futuro (por meio da Esperança) e o reconhecimento do passado.

Os Banshees de Inisherin (Banshees of Inisherin, 2022), direção de Martin McDonagh.
⭐️⭐️⭐️⭐️
A crítica tem abordado esse filme ou como uma metáfora da guerra da Irlanda e/ou uma descrição sobre o fim da amizade. As resenhas costumam mencionar o filme anterior de Mcdonagh, In Brugues, mas ignora completamente um filme de 2014 dirigido pelo irmão dele, John McDonagh, chamado Calvário – e com quem Banshees dialoga de perto…
Banshees é um filme sobre como a amputação do espírito leva as pessoas a viverem exiladas, no reino dos mortos.

First Cow (idem, 2019), direção de Kelly Reichardt.
⭐️⭐️⭐️⭐️
“O desenvolvimento social americano reinicia-se continuamente ao longo da Fronteira. Esse renascimento perene, essa fluidez da vida americana, essa expansão para o Oeste, com suas novas oportunidades, sua proximidade continua com a simplicidade da sociedade primitiva, ofereceram as forças que dominaram a personalidade americana. O verdadeiro ponto de vista na história desta nação não é o da costa Atlântica, mas a do Grande Oeste.” (Fredrick Jackson Turner, The Significance of the Frontier in American History, 1920).
Kelly Reichardt é a cineasta da Fronteira; a Fronteira não como “manifestação do destino” ao colonizador, mas como uma linha contínua que vai sendo forçosamente empurrada aos territórios selvagens do Oeste, e estabelece gradualmente as bases não só do mapa territorial mas de toda cartografia moral e espiritual americana. Há uma história a ser contada porque houve um sacrifício – em nome de uma utopia (no caso da História), ou em nome de uma amizade (no caso dos personagens).

Old Joy (idem, 2006), direção de Kelly Reichardt.
⭐️⭐️⭐️⭐️
“Eu os observei por um tempo até que uma tristeza antiga, dolorosa, surgiu em meu peito. Era uma sensação familiar. Algo nas árvores mudas e inconscientes ressoou dentro de mim, algo tão profundo e fundamental que não conseguia mais se lembrar de sua própria fonte. Observei os choupos tremeluzindo contra o forte azul do céu. O que é tristeza? eu pensei. O que é tristeza senão alegria velha, desgastada?” (conto Livability, presente no livro Old Joy, escrito por Jon Raymond).
As imagens de Kelly Reichardt mostram os pedaços menos idílicos da América: lugares de solidão, de exílio, de promessas desfeitas e sonhos por liberdade abandonados; na tentativa de recuperar o passado, os personagens buscam fontes termais na floresta. O que encontram são paisagens inóspitas e vazias, abandonadas – tais paisagens constituem não apenas a “habitabilidade” (livability), o lugar onde transcorrem suas vidas, mas um espelho de suas incertezas, de seus arrependimentos, de suas más decisões, de seus equívocos; da sensação agridoce de que os melhores momentos ficaram para trás.










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