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⭐️⭐️⭐️ bom

⭐️⭐️⭐️⭐️ ótimo

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ excelente

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016), direção de Tom Ford.

⭐️⭐️⭐️⭐️

Em seu livro “The Formal Principle in the Novel” (1982), Austin Wright (autor do romance Tony e Susan, que deu origem ao roteiro deste filme de Tom Ford) escreveu:
Ultimamente, comecei a ponderar acerca da relação entre duas ficções: justaposição de ficção, subtramas, tramas duplas, protagonistas duplicados, o modo como ficções superpostas podem se tornar metáfora uma para a outra, cada qual evidenciando significados que estão soterrados uma na outra (…) Para o escritor, é fundamental despir, para o leitor, o ‘véu de familiaridade’; tornar as coisas ‘desfamiliarizadas’, de modo a direcionar a atenção do leitor para toda experiência adormecida na rotina.
É exatamente esse o efeito arrasador que a história dentro da história, a subtrama, a justaposição de ficção, ocasiona na protagonista: o regresso de Edward faz lembrar à Susan aquilo que está oculto, chacoalha aquilo que estava adormecido em sua rotina, exibe a superficialidade de sua vida, tudo aquilo que ela escondia de si mesma – sua fraqueza – e a desafia a reescrever sua história por meio de uma arqueologia imaginativa.
O filme só não ganha as 5 estrelas por conta de pequenos deslizes do roteirista Tom Ford, relativos à exposição da trama por alguns diálogos ruins.

Tempo (Old, 2021), direção de M. Night Shyamalan.

⭐️

Este filme tem uma composição visual inquietante (imagens subjetivas, enquadramentos que sugerem e não mostram) e, por vezes, elegante. No entanto, os personagens são tipos, vazios, autômatos; os diálogos são fracos, muitas vezes ridiculamente toscos; Shyamalan persiste nos seus “miscastings”. E a trama deflaciona, do início promissor para uma conclusão pueril e mal ajambrada.

Drive My Car (idem, 2021), direção de Ryusuke Hamaguchi.

⭐️⭐️⭐️⭐️

“Por mais que um casal compreenda um ao outro, por mais que se amem, não é possível esquadrinhar completamente o coração do outro…O que devemos fazer, em última análise, é chegar a um acordo com o nosso próprio coração, sendo sincero com ele. Se quisermos realmente ver a outra pessoa, não temos outra opção a não ser vermos completa e profundamente a nós mesmos.”
Haruki Murakami, Drive my car (conto do livro Homens sem mulheres).

Hellraiser (idem, 2022), direção de David Bruckner.

⭐️

Não há nada aqui digno de nota: temos cosplay de cenobitas e de personagens “humanos”, cosplay de roteiro e de direção. Clive Barker, autor do livro que originou o filme (alias, ele mesmo dirigiu o Hellraiser original,de 1989, um filme infinitamente melhor) aparece  nos créditos como um dos produtores; talvez tenha virado um cosplay de si mesmo.

A Marca da Brutalidade (Prime Cut, 1972), direção de Michael Ritchie.

⭐️⭐️⭐️⭐️

A melhor imagem para este filme (subestimado) é a da pintura de Goya, “Saturno devorando um filho“, no caso, uma América alienada de si mesmo – filmada em tom realista, documental – devorando seus filhos, subvertendo todos os seus ícones.

Os Donos da Noite (We Own the Night, 2007), direção de James Gray.

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

O melhor filme de James Gray. A família como definidora do destino, e sua reconstituição, fragmentada devido a caminhos que bifurcaram, ou por algum evento insólito, não corresponde necessariamente à redenção (pelo contrário, a transformação de Bobby Green em Robert Grusinsky é marcada por lamentos e perdas).

Possessor (idem, 2020), direção de Brandon Cronemberg.

⭐️⭐️⭐️

Descobriu-se que o parasita Toxoplasma gondii pode manipular o comportamento de seus hospedeiros secundários (ocasionando, por exemplo, uma mudança no nível de atividade, na capacidade de aprendizado e de discriminação de pistas ambientais sinalizadoras de mudanças) para aumentar sua propagação, sua disseminação, o que geralmente se acredita ser prejudicial ao hospedeiro. Os cientistas não extrapolaram (totalmente) essa hipótese de manipulação para infecção em seres humanos – pelo menos não do ponto de vista biológico; mas do ponto de vista filosófico, tais possibilidades aparecem na ficção-científica. E também neste Possessor, de Brandon Cronenberg. Tal pai tal filho. O embate entre parasita e hospedeiro traz ecos de A mosca (o filme de 1986, dirigido pelo pai de Brandon, David Cronemberg). Violência e horror corporal aqui têm um pedigree.

Piscina Infinita (Infinite Pool, 2023), direção de Brandon Cronemberg.

⭐️

Foi só elogiar…

Depois de uma boa estreia, o filho de Cronemberg (vencedor do prêmio “papai eu também quero chocar”) mostra que não soube dar sequência a uma ideia promissora e tenta esconder a sua superficialidade e desorientação com imagens pretensamente surreais, algumas cenas involuntariamente risiveis,  e piruetas de câmera. O vazio dos personagens espelha o vazio esteticista de seu diretor.

Os Amigos de Eddie Coyle (The Friends of Eddie Coyle, 1973), direção de Peter Yates.

⭐️⭐️⭐️⭐️

Grande filme policial obscuro dos anos 70: a câmera realista de Peter Yates, a paisagem como se saída das fotografias de Stephen Shore, excelentes atuações dos atores – Robert Mitchum em particular – dando vida a personagens melancólicos e sombrios que giram em círculos sem sair do lugar, em suas empreitadas criminosas burocráticas e sem glamour.

Cinema Paradiso (idem, 1989), direção de Giuseppe Tornatore.

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

Em Cinema Paradiso, assistimos ao fim de uma era e ao surgimento de um novo mundo assustador, no qual os padrões tradicionais de ordem moral não são capazes de sustentar coesão social. A desintegração dos laços comunitários é paralela à desintegração das funções sociais do cinema (evidenciada pela interligação entre cenas de filmes e cenas da vida real no cinema da vila). Logo no início, somos apresentados a um personagem que vivencia um presente insatisfatório, vazio de significado e de afetos (solidão, relacionamentos transitórios, ausência familiar, monotonia vocacional). Ao ser informado da morte do amigo de infância, Alfredo, ele se lança à memória autobiográfica.
A memória autobiográfica reavalia experiências passadas para tentar integrá-las no presente pela elaboração de narrativas pessoais que justifiquem ou expliquem as mudanças que aconteceram, permitindo que os indivíduos se vejam como os mesmos. A plenitude emocional do passado é evocada e reforçada pela música, em contraste com a aridez do presente silencioso.
Para que exista empatia com os personagens, o diretor Giuseppe Tornatore se vale dos seguintes recursos:
1) Narrativas em flashbacks: reforçam a ideia da impossibilidade de determinarmos os rumos de nossas vidas; somos afetados, tanto quanto os personagens, pela sensação de impotência; estamos submissos à inevitabilidade dos eventos, testemunhamos o destino que nos escapa do controle;
2) Mimetismo afetivo: os “close-ups” prolongados possibilitam a sincronização de movimentos corporais e de expressões faciais;
3) Ressonância afetiva: as lembranças da infância transcendem as especificações da Sicília, se tornam universais;
Por meio de gestos dramáticos intensificados, presenciamos o esforço para desvelar não só o ‘comum’ da ‘vida privada’ e da vida na vila de Giancaldo, mas todo um universo moral que está mascarado pela realidade ordinária. Cada gesto, mesmo que frívolo ou insignificante, está carregado de conflito entre luz e trevas, salvação e perdição, onde as escolhas das pessoas pouco tem a ver com a superficialidade da situação, mas com o intenso drama de uma consciência que deve suportar o fardo moral.
Ao final, a qualidade redentora da memória se torna real pela percepção do personagem de uma continuidade afetiva com seu passado – repositório de valor e significado.

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